Caminhos incertos ao escrever sobre o “ser brasileiro”
A busca pelo ser brasileiro é uma jornada longa, com muitos com muitas vivências e possibilidades, mas só podemos nos aproximar de uma resposta através da linguagem
Um dilema frequente na vida de um escritor é o de entender a sua própria voz: aquilo que o torna único dentro do mundo dos livros. Em meus quase quinze anos dedicados à escrita, aprendi que o mercado editorial brasileiro tende a favorecer a previsibilidade comercial e a manutenção do “status quo” e privilegia decisões que mantêm autores dentro de um território já conquistado (e, por isso, familiar): quem escreve fantasia é estimulado a permanecer na fantasia e quem se consagra no policial logo descobrirá que é melhor que ali permaneça.
Essa lógica comercial acaba transformando a identidade criativa em produto de fácil acesso, já que carreiras com recortes específicos são mais fáceis de colocar nas prateleiras, e, por isso mesmo, circulam mais no mercado.
Contrariando isso, minha trajetória artística desenha um mapa irregular, feito de retalhos narrativos. Já escrevi um faroeste brasileiro, uma fantasia inspirada nos povos originários da América do Sul, e, mais recentemente, um livro intimista inspirado no realismo mágico. E sempre me vejo aflito quando perguntam: “O que você escreve?”.
Com o tempo, dei uma resposta prática: escrevo na busca do ser brasileiro. Não para encontrá-lo, pois suspeito que seja impossível colocá-lo num cercado, mas para escavar em cada narrativa fragmentos de sua pluralidade. Essa formulação, contudo, não me acalma, pois abre um campo ainda maior de interrogações: afinal, o que significa ser brasileiro?
Foi esse impasse que me levou a escrever Cartografia para caminhos incertos, meu mais recente romance, publicado pela editora Intrínseca. A obra acompanha Mané, um poeta que mora em Redenção, cidade errante, sem ponto fixo, e em eterno passeio pelo interior da Bahia. Ao cair de sua terra natal, nosso herói percorre caminhos que o conduzem por cidades encantadas que o ajudarão na permanente busca por si mesmo.

Inspirado em Cidades Invisíveis, de Ìtalo Calvino, o romance se ancora numa questão que persiste a me fascinar: como o homem se relaciona com o meio, e como isso é mediado pela linguagem, um instrumento de comunicação e também um espaço social que organiza, limita e reinventa as formas de pertencimento. Nesse sentido, a errância de Mané é também a errância de um país cuja identidade parece sempre deslocada, sempre atrás do horizonte.
Territorialidade e pertencimento
Fui um baiano alfabetizado primeiro em inglês e criado com a presença constante de minha avó estadunidense, que só falava inglês comigo. Afirmo seguramente que minha vivência pessoal está distante da imagem cristalizada do “baiano” que habita o coletivo. Até o nome, que sempre chega antes de mim, constantemente me situa como estrangeiro em minha própria terra, mas sou baiano com muito orgulho. Talvez, justamente por ter sido atravessada por tantas referências externas e peculiares, que a compreensão da baianidade tenha sido tão crucial na minha formação como artista e ela se não construiu imediatamente, mas por sucessivas negações, isto é, por estranhos, por amigos e, por muitas vezes, por mim mesmo.
Sempre que reflito sobre a identidade cultural como um processo em construção (e não como imposição naturalizada), lembro-me de um ocorrido na FLIP, quando uma amiga escritora mineira me contou sobre um romance que ela estava escrevendo, ambientado no sertão baiano, e sobre sua aflição aparente: o receio de escrever sobre um território que não era o seu, uma inquietação legítima, pois qualquer tentativa de narrar espaços historicamente marcados por desigualdades corre o risco da romantização ou da distorção. Naquele instante, percebi que ela buscava de mim, como baiano, uma espécie de validação e disse a ela que meu “direito” de narrar o sertão não era maior que o dela: ser baiano não me isenta da responsabilidade de pesquisar, estudar e reconhecer realidades que também me são, em muitos aspectos, estrangeiras.
Compreender-me baiano significou descobrir que a identidade ultrapassa corpo e território e não depende de signos convencionais. Vejo-a como um chamado interno de pertencimento: laços e vínculos criados pelo sujeito que deseja ser. E no momento que há um desejo de pertencimento, há um desejo de construção.
Linguagem como território, arte como caminho
João Ubaldo Ribeiro abre Viva o povo brasileiro com a frase: “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”. Trata-se, ainda hoje, da minha introdução favorita na literatura, sobretudo pelo peso que carrega dentro de uma obra que reconta a história do país a partir de personagens em permanente conflito e resistência. Ao declarar que não existem fatos, apenas histórias, João Ubaldo provoca o leitor a refletir sobre algo essencial: a realidade é incapturável e só ganha sentido quando mediada pela linguagem.
Stuart Hall, em The Work of Representation, diz: “Pertencer a uma cultura é estar inserido aproximadamente ao mesmo universo conceitual e linguístico, é saber como conceitos e ideias se traduzem em diferentes línguas e como a linguagem pode ser interpretada para se referir ou fazer referência ao mundo”. A busca pelo ser brasileiro é uma jornada longa, com muitos com muitas vivências e possibilidades, mas só podemos nos aproximar de uma resposta através da linguagem.
Certa vez, em uma conversa com outros profissionais do cinema, o diretor brasileiro Fernando Meirelles disse: “Eu entendo inglês, mas eu não ‘sinto’ inglês. Quando eu falo ‘mango tree’ é só uma árvore. Já ‘mangueira’ lembra minha mãe, a infância. É diferente.” A observação é reveladora, pois o que está em jogo é a dimensão afetiva que a palavra carrega quando enraizada em uma experiência de vida. “Mangueira” pode ser uma árvore do quintal, mas para quem é brasileiro, ela também pode ser um samba em rosa e verde, arranhada pela voz de Cartola e é neste afeto que a língua deixa de ser apenas veículo de comunicação para se tornar território de pertencimento.
Escrevo e vivo na Bahia, estado fora do eixo econômico e editorial do Sudeste. Por vezes, nossas obras recebem o rótulo de “regionais”, uma constante reafirmação de que nossa voz não está no centro das produções nacionais. Não entro aqui no mérito desse debate, mas sublinho um aspecto muito importante de seus desdobramentos: o sotaque, isto é, a forma como cada sujeito se relaciona com a língua.
No centro hegemônico da produção cultural, onde a voz circula com onipresença, o sotaque se dilui, ganha poder, mas perde densidade. Já em outras regiões, pelo contrário, a palavra chega com tempero e textura e a palavra carrega um pouco da alma de seu povo.
Reconhecer-me baiano (e, portanto, brasileiro) é um exercício diário. Está no tropeço nos paralelepípedos do Pelourinho, na explosão do carnaval, mas também se estende quando, em São Paulo, percebo a vitalidade de sua cena cultural e, ao mesmo tempo, a ausência de certas densidades que só encontro na minha terra.
Não sei o que é viver nos pampas, a experiência quilombola ou a rotina ribeirinha, mas sei também que a brasilidade se materializa nos encontros, e que os encontros quase sempre se tecem pela mediação da palavra. Se o ser brasileiro é o meu norte, a língua é a minha bússola.
Ian Fraser é um escritor e dramaturgo brasileiro de 41 anos e que começou a seguir oficialmente na profissão uma década atrás. Mesmo em pouco tempo, já teve o reconhecimento de público e crítica, como o recebimento do selo “João Ubaldo Ribeiro” de jovem autor inédito para o livro “O Sangue Agreste”, categoria que foi posteriormente adicionada ao edital exclusivamente e desde então, nunca mais usada

