Candidatos em nome de Deus - Le Monde Diplomatique

ELEITORADO EVANGÉLICO

Candidatos em nome de Deus

por Ariovaldo Ramos e Nilza Valéria Zacarias
1 de setembro de 2010
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Os evangélicos eram 15,4% dos 170 milhões de brasileiros no último censo e a projeção é que cheguem a 50% em 2020. Ainda que não haja evidências de um voto especificamente evangélico, é visível o destaque que esses atores religiosos têm assumido na cena eleitoralAriovaldo Ramos e Nilza Valéria Zacarias

 

 

Bastou começar a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão para que alguns candidatos a legisladores e governadores, pelo Brasil afora, se apresentem em nome de Deus1 para aqueles que não desligam a TV.

O censo do IBGE realizado em 2000 revelou que, dos 170 milhões de brasileiros, 15,4% se declararam evangélicos. No censo anterior, de 1991, a população evangélica era de 9%. A pesquisa de 2010 dirá se a taxa de crescimento se manteve. Estudos feitos por diversos grupos2, alguns vinculados à igreja, outros não, projetam que o número de evangélicos está atualmente em 55 milhões, e chegará  a 50% da população brasileira em 2020. O que é incontestável – seja em que proporção for – é o fato de que os evangélicos cresceram e se multiplicaram. A sua presença na sociedade e na cultura brasileira não tem mais como ser ignorada, principalmente nas eleições.

Um pouco de história

É na República Velha que um diminuto grupo de protestantes inicia a geração de agentes políticos em cidades brasileiras. Em 1902, o presbiteriano Francisco Augusto Pereira foi prefeito de Lençóis Paulista. O batista Luiz Alexandre de Oliveira foi deputado federal por Mato Grosso; o pastor presbiteriano Antonio Teixeira Gueiros foi vice-governador do Pará. Nos anos 1930, os políticos evangélicos começaram a surgir com maior desenvoltura, quando transformações econômicas e sociais possibilitaram o aparecimento do homem urbano preocupado com uma ação política menos tutelada pelas elites e mais propensa à prática democrática.

Em 1934, surge a Confederação Evangélica Brasileira (CEB), órgão representativo dos protestantes, com o objetivo de construir uma identidade evangélica nacional. Documentos elaborados pela CEB influenciaram, inclusive, a Constituição de 1946. Dessa Constituinte participou o pastor metodista Guaracy Silveira, o único protestante eleito para a Câmara Federal. “Defenderei o programa de meu partido (PTB) e, de acordo com ele, combaterei tudo quanto seja preconceito de religião (…) ninguém espere, entretanto, de mim, uma fobia anticatólica nas pugnas parlamentares (…) as forças constituintes do cristianismo devem unir-se, respeitando umas às outras”, escreveu o deputado em 1945.

A Confederação atuou entre 1934 e 19643. Na década de 1950, a CEB criou a Comissão de Igreja e Sociedade, depois chamada de Setor de Responsabilidade Social da Igreja. Também promoveu conferências, sendo a mais famosa delas, a do Nordeste – Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro, em 1962.

A CEB e os evangélicos que a compunham demonstravam o quanto acompanhavam os processos de transformação da sociedade brasileira. Da Conferência do Nordeste, participaram Gilberto Freyre, Paul Singer e Celso Furtado, junto com pastores, como o metodista Almir dos Santos e os presbiterianos Joaquim Beato e João Dias de Araújo. Eram os evangélicos conclamando a nação para uma reconstrução.

Não é à toa que a postura progressista da CEB começou a passar por dificuldades com o início do regime militar, em 1964. Dificuldades com o governo e com os setores mais conservadores do protestantismo. O movimento iniciado pela CEB foi um dos primeiros a ser derrotado pelos militares, e alguns de seus líderes e pastores inauguraram os porões da ditadura. Ao mesmo tempo, internamente, as várias denominações históricas e pentecostais eram assaltadas pelos ultraconservadores, de modo que, os oriundos da antiga CEB foram entregues aos militares por seus próprios irmãos. É o ocaso da Confederação que estava na vanguarda, promovendo maior engajamento social e político dos evangélicos no cenário do país. É uma mudança para os evangélicos que queriam uma igreja e uma fé alinhadas com a realidade.

Junto com o poder

O que se viu a partir do golpe militar foram pastores e líderes denominacionais alinhados com o poder vigente.

Na metade dos anos 1960, são eleitos os primeiros deputados pentecostais, os pastores paulistas Geraldino dos Santos (deputado estadual) e Levy Tavares (deputado federal), ambos da Igreja O Brasil para Cristo, fundada em 1956 por Manoel de Mello.  Esta é a primeira igreja totalmente nacional, desvinculada dos missionários americanos e europeus.

Todos são, notadamente, anticatólicos e anticomunistas. Quanto mais anticomunista, mais chances de sucesso junto aos militares e de assumir posições no quadro de dirigentes do país. Com essa mesma motivação, pastores e líderes das principais igrejas foram alunos da Escola Superior de Guerra nos anos 1970, graduando-se em Política, Estratégia e Segurança, consolidando suas posições ideológicas.

Novos movimentos

Jovens crentes, contrariando as determinações de seus pastores, começaram a expressar sua fé em praças públicas. Não havia conteúdo ideológico, mas havia contestação. E pela contestação veio a ideologia, fomentada no ambiente de censura. Daí nascem organizações paraeclesiásticas, fazendo a ponte entre a cultura e a igreja4. São esses grupos que assumem os fragmentos das teologias libertadoras que os evangélicos discutiam antes do golpe militar, e que foram transferidas para o arraial católico. Dessa discussão surge a base para a Teologia da Missão Integral5, uma variante protestante da Teologia da Libertação6.

Outro movimento, ou onda, foi o surgimento de comunidades evangélicas livres, que rompiam com as estruturas denominacionais usando novas linguagens para a expressão da fé. Essas comunidades foram a porta de entrada da chamada Teologia da Prosperidade, que reverencia o capitalismo, alegando que a riqueza é prova da benção divina. A consolidação dessas comunidades se dá nos anos 1980 com o surgimento das igrejas neopentecostais7, que assumiram a Teologia da Prosperidade8 como doutrina.

Redemocratização

Se antes era mais fácil definir os evangélicos, a partir dos anos 1980 desenha-se o mosaico que vemos hoje ao falar de protestantismo no Brasil. Os neopentecostais chegaram com profundas mudanças de comportamento e marcando presença diferenciada na sociedade. Esses novos crentes abandonaram vários traços sectários e hábitos ascéticos redefinindo o estereótipo pelo qual os crentes eram identificados. Propuseram novos ritos, crenças e práticas, estabelecendo formas inusitadas de se relacionar com a sociedade. Esse grupo tem vasta programação de rádio e TV com mensagens de cura física e emocional, prosperidade material, libertação de demônios e soluções para relacionamentos interpessoais.

Enquanto os novos evangélicos realizavam campanhas de cura divina, outros grupos protestantes, mais preocupados com a realidade, se articulavam e lançavam campanhas como Evangélicos Pró-Diretas Já (1984) e Evangélicos pela Constituinte (1986). Era a retomada da reflexão e da ação nos espaços estudantis e nas agências de serviços não denominacionais por grupos que viam na Teologia da Missão Integral uma lufada de ar fresco em um contexto estéril marcado pela única preocupação de ‘salvar almas’. Desse espaço saíram os criadores de movimentos apontando para a responsabilidade social e política dos cristãos.

A abertura democrática, no entanto, trouxe uma nova geração de políticos evangélicos para o cenário nacional. Igrejas como a Assembleia de Deus lançaram seus próprios candidatos, usando slogans corporativistas como “Irmão vota em Irmão”. Na Constituinte (1987-1988), a famosa bancada evangélica era composta por 32 deputados federais, sendo 18 pentecostais e 13 da Assembleia de Deus. É um crescimento de 900% em relação à presença pentecostal na legislatura anterior, que tinha apenas dois representantes. Entre os evangélicos  constituintes havia também parlamentares evangélicos de esquerda. Dois deles eram Lysâneas Maciel e Benedita da Silva, cujos eleitores transcendiam o eleitorado oriundo das igrejas e se encontravam nas bases de suas militâncias.

Vote no Pai, no Filho e no Espírito Santo

Nas eleições presidenciais de 1989, o então candidato pelo PT, Luis Inácio Lula da Silva, assustou as lideranças pentecostais e neopentecostais que anunciavam a vitória petista como o fim da liberdade religiosa e início de perseguição aos crentes. Mais que ajudar na eleição de Fernando Collor, os pentecostais e neopentecostais, de acordo com Leonildo Silveira, ajudaram a derrotar Lula e o projeto político que ele representava.

Esse grupo reconhece a sua força política e passa a atuar de forma estratégica com o objetivo de fazer um presidente evangélico para a salvação da nação. Ao mesmo tempo, começam a pipocar escândalos envolvendo a bancada evangélica, como a negociação pelos cinco anos do governo Sarney e aprovação, ou não, de projetos em troca de concessões.

É nessa conjuntura que surge a Associação Evangélica Brasileira (AEVB), em 1991, sob a bandeira da Teologia da Missão Integral e liderada pelo pastor presbiteriano Caio Fábio. A AEVB começa uma campanha de denúncias da Teologia da Prosperidade que culmina com um manifesto contra as igrejas neopentecostais, principalmente a Universal do Reino de Deus (Iurd), em 1996. Pouco antes, em 1994, a AEVB lançou o Decálogo do Voto Ético. Essas reações inauguraram um clamor por ética e compromisso por parte de políticos evangélicos, criando uma cunha no que parecia ser uma hegemonia neopentecostal. O movimento pentecostal reagiu e em seus programas de TV atacou a liderança da AEVB. O Decálogo do Voto foi rebatido na Folha Universal, principal publicação da Iurd, sendo chamado de Decálogo da Rebelião.

A batalha continua

Apesar do fim da AEVB, ficou a herança do movimento evangelical9, anunciando a redenção integral do homem e sua realidade – social, política, cultural e espiritual – respeitando a pluralidade e entendendo que a leitura bíblica necessita de contextualização para cada geração.

Essa herança foi assumida por igrejas, pessoas e organizações paraeclesiásticas ocupadas em sinalizar historicamente a realidade do Reino de Deus. Jovens evangélicos buscam militância, inclusive político-partidária, contra a frouxidão ética da Teologia da Prosperidade e os políticos que a representam. Embora pareça ser uma luta de Davi contra Golias, há uma reação crescente.

Além da definição de quantos e quem são os evangélicos brasileiros, pelo IBGE em 2010, também saberemos como será a formação do Congresso. A eleição de 2006 foi o pior revés para a bancada evangélica desde a década de 1980. Somente 30 eleitos, uma redução de 50% em relação a 2002, quando  se elegeram 61 deputados federais ligados a igrejas evangélicas. A freada nesse avanço se deve à competição entre as igrejas pelo voto com identidade religiosa e aos escândalos.

Marina Silva

Uma pesquisa, divulgada em 2002, sobre a influência dos líderes religiosos, aponta que um em cada quatro eleitores escolheria seu candidato pela indicação de um pastor, padre, pai-de-santo ou equivalente. Mas não há provas da existência do voto evangélico, apesar do papel que atores religiosos têm assumido na cena eleitoral do país.

Desta vez, disputa as eleições presidenciais uma evangélica – e pentecostal –, a candidata Marina Silva. Ela foi alfabetizada aos 16 anos, descobriu o marxismo quando entrou para a universidade, já foi vereadora e deputada no estado do Acre. Dirigiu o Ministério do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, quando reassumiu sua atual função de senadora. A fé protestante foi descoberta há 13 anos, quando já estava no Senado.

Na retomada, por parte de um grupo de evangélicos de uma igreja relevante, o nome de Marina aparece como ícone dessa reação em favor da ética e do compromisso com uma postura libertadora. Sua candidatura, invadindo a base, tem relativizado a força das lideranças denominacionais e de outros que ainda trabalham com a perspectiva do voto de cabresto.

Para os seus críticos, a posição religiosa de Marina é fator determinante para rotulá-la como conservadora. Já para os religiosos que, como ela, acreditam que a fé impulsiona ações e que seguir a Jesus é promover a transformação humana, Marina representa o sonho de contribuição com a nação, de dever, de justiça, de políticas públicas e acesso ao direito. O mesmo sonho compartilhado por quem está além das fronteiras do protestantismo, e sonha junto, declarando intenção de voto na candidata (10%, segundo o Ibope, em 13 de agosto de 2010).

Ariovaldo Ramos pastor batista e filósofo.

Nilza Valéria Zacarias jornalista, trabalha na Visão Mundial Brasil.



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