Caracas - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

Caracas

por Ignacio Ramonet
1 de janeiro de 2006
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Pela primeira vez, o Fórum Social Mundial encontrará a Revolução Bolivariana e o conjunto das reformas que conduz o presidente Hugo ChávezIgnacio Ramonet

“Em dois tempos. Este ano, o Fórum Social Mundial (FSM) – reunião de todas as galáxias altermundialistas – acontece em dois tempos. Cada um tão determinante quanto o outro. Primeiro, de 19 a 23 de janeiro, em Bamako, capital do Mali. Em seguida, de 24 a 29 de janeiro, em Caracas, capital da Venezuela. Na véspera da abertura do fórum de Bamako, no dia 18 de janeiro, haverá um encontro político de primordial importância, herdeiro da Tricontinental: a “Jornada internacional da reconstrução do internacionalismo dos povos e da frente anti-imperialista”, com a participação de uma centena de intelectuais e de representantes de movimentos sociais do terceiro mundo e de outros locais, na ocasião do 50o aniversário da famosa conferência de Bandung [1].

A idéia de organizar a cada ano um Fórum Social nasceu na virada do século [2], na trilha da vitória de 1998, contra o projeto celerado do Acordo Multilateral sobre o Investimento (AMI), da criação do Attac França, do sucesso das manifestações de Seattle (1999) contra a cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC), quando a ofensiva da globalização liberal parecia poder ser detida.

No plano tático, tratava-se de criar um tipo de contrapeso simétrico, mas com sinal político invertido, ao Fórum Econômico Mundial, que, todos os anos, no fim de janeiro, reúne em Davos, na Suíça, os “novos mestres do mundo”. E para onde acorrem irrequietos, para limpar a consciência, as autoridades políticas dos Estados do Norte e Sul.Havia tanta indecência,tanta abdicação do político que era preciso reagir.

A originalidade de Porto Alegre

Daí a aposta de convocar, nas mesmas datas, um Fórum não econômico, mas social e não no Norte, mas no Sul – em Porto Alegre, precisamente. Nesta cidade do Brasil onde os eleitos locais haviam inventado o “orçamento participativo” aconteceu, em 2001, o primeiro Fórum Social Mundial, tendo por palavra de ordem uma frase emprestada de nosso jornal: “Um outro mundo é possível”. Frase que por si própria gerou o termo “altermundialismo”, para designar esta corrente plural que reúne a diversidade de todas as oposições à globalização liberal.

O FSM é um projeto político forte, inovador e visionário. Ele tem a ambição de reunir, num mesmo local, associações, organizações não-governamentais e sindicatos, os representantes autênticos de todos os habitantes da Terra. De todas aquelas e de todos aqueles que, em particular, estão submetidos aos desastres da globalização e que se opõem a ela com rigor e determinação.

Neste aspecto, o Fórum possui uma intenção política extremamente radical por sua modernidade. Porque se, por exemplo, a Organização das Nações Unidas (ONU) concentra os Estados ou os governos – ou seja, as estruturas de poder – o Fórum Social Mundial aspira a convocar, pela primeira vez na história, um embrião de assembléia de toda a humanidade. Com um objetivo estratégico afirmado: colocar em xeque a globalização liberal que está desconjuntando as sociedades, arruinando as economias mais frágeis e destruindo o meio ambiente.

Risco de folclorização

Os participantes do fórum de Caracas poderão verificar por meio dos fatos, observando a nova realidade venezuelana, que a globalização não é uma fatalidade. É possível fazê-la recuar

Mas, no decurso do tempo, este objetivo se eclipsou e, em alguns espíritos, apagou-se totalmente. De maneira flagrante isto apareceu em Porto Alegre em janeiro de 2005, onde se pôde constatar uma espécie de esgotamento da forma inicial: para um grande número de participantes, o Fórum na podia mais continuar a ser apenas um espaço de encontros e de debates que não levavam à ação; ele deveria criar também condições para uma passagem ao ato político pela elaboração de uma base mínima, sendo ao mesmo tempo sentido e projeto, de alternativas às políticas neoliberais, incorporando os objetivos comuns dos cidadãos do Norte e do Sul. Sem isso, ele arriscava-se a se despolitizar e se folclorizar. E a se transformar numa espécie de Feira Internacional das Associações, um Salão Mundial da “sociedade civil” onde, a exemplo de Davos, mas animada das melhores intenções, a “boa governança” se tornaria uma preocupação central.

Esta constatação suscitou uma volta das tomadas de posição combativas [3] e de uma discussão maior sobre o sentido, a função e o futuro dos Fóruns Sociais, sejam eles mundiais, contineitais, nacionais ou locais. Este debate decisivo para o futuro do altermundialismo prosseguirá tanto em Bamako quanto em Caracas. Ele será particularmente intenso na capital da Venezuela, porque, pela primeira vez, o Fórum encontrará ali a Revolução Bolivariana e o conjunto das reformas que conduz o presidente Hugo Chávez.

Numa atmosfera latino-americana marcada por um recente sucesso conquistado, em Mar del Plata (Argentina), contra o projeto estadunidense de Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e pela vitória eleitoral, no dia 18 de dezembro de 2005, de Evo Morales, na Bolívia, os participantes do fórum de Caracas poderão verificar por meio dos fatos, observando a nova realidade venezuelana, que a globalização não é uma fatalidade. Que é possível fazê-la recuar. Com a condição de ser fiel a valores de justiça e solidariedade, de não ceder, de n?

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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