Casa de Doces
O aumento da velocidade e da descontinuidade, somado à intensificação do desprazer, revela a promessa da Modernidade como uma ilusão sádica
Tradicionalmente, as sociedades possuíam rituais de passagem da fase infantil à adulta. Modernidade acabou com isso, e não colocou nada no lugar. Sem mediações, passou a caber a cada um fazer essas passagens por iniciativa própria, tendo como base suas próprias decisões, interesses e desejos individuais.
Pegue-se, por exemplo, a vida católica tradicional. A trajetória humana é marcada pelos sacramentos. A cada idade, adquire-se um dos sacramentos, representando o esforço pela santificação do católico no percurso de sua vida. Ao receber os sacramentos, o sujeito está apto a pertencer à comunidade. Sem escolha pessoal, os sacramentos são definidos por uma organização religiosa altamente hierarquizada e padronizada.
Com a modernidade, esse tipo de sociedade implodiu. Seja pelo ceticismo e pelo ateísmo, seja pelo protestantismo, esse caminho bem definido, que pauta toda a vida do sujeito, é relativizado ou mesmo descartado. Cabe ao sujeito decidir, inclusive de seguir uma vida tradicional se lhe convier.
O que abstratamente parece uma libertação promove vários problemas. Como alguém pode fazer boas escolhas se não possui qualquer experiência? Como fazer boas escolhas se os parâmetros estão enfraquecidos ou mesmo não existem? O crescimento torna-se mais difícil.
Nas sociedades tradicionais, o filho aprende com o pai e a filha, com a mãe. Na Modernidade, esse processo torna-se cada vez mais difícil. Pela aceleração do tempo, o que o pai e a mãe aprenderam frequentemente não serve ao filho e à filha. Além disso, Modernidade promove uma vida marcada pela instantaneidade, pelo transitório, fugidio e contingente, como bem destacou Baudelaire em seu ensaio O pintor da vida moderna, em que discute a obra de Constantin Guys, publicado no jornal Le Figaro no final de 1863.1
Nessa dinâmica que não se estabelece na duração do tempo, a tradição consolidada passa por um processo de dissolução, ao passo que a nova tradição moderna não consegue oferecer balizas muito firmes, fixas e duradouras. Em comum, somente o instantâneo, o transitório, o fugidio, o contingente. Há a obrigação de transformar-se sem muitos elementos, recursos e metas claros o suficiente para realização de ações mais previsíveis e cadenciadas.
O que promete ser uma libertação converte-se, muitas vezes, em agonia e sofrimento, pois o desenvolvimento da Modernidade somente aprofunda e intensifica seus efeitos. Em Mal-estar na cultura, Freud salienta o aumento de desprazer que os indivíduos são obrigados a arcar, conforme avança o desenvolvimento da cultura. Para participar da cultura, os indivíduos precisam renunciar há muitas pulsões, que, em tempos pretéritos, poderiam ser saciadas imediatamente ou mais rapidamente.2
Dentre essas pulsões, Freud destaca aquelas relacionadas à agressividade, que não podem ser manifestadas na vida social, acabando por voltarem-se contra o próprio sujeito psiquicamente. O que começa como repressão externa transforma-se em censura psíquica interna, a partir da configuração do Superego, que exercerá o papel de contenção das pulsões, sobretudo aquelas consideradas mais destrutivas.
O aumento da velocidade e da descontinuidade, somado à intensificação do desprazer, revela a promessa da Modernidade como uma ilusão sádica. Sem oferecer a segurança de um caminho estável e estabelecido – assinalado por rituais claros e delimitados, organizados e sustentados por instituições dotadas de grande autoridade social –, a Modernidade atravessa processos de destruição e reconstrução cada vez mais frequentes, produzindo, como consequência, caos, desordem, violência e falta de sentido.
Para tentar estabilizar a anomia recorrente, uma ação costumeira é a violência estatal, que, na maioria das vezes, “pacifica” o presente, hipotecando o problema ao futuro. Em termos psíquicos, há a produção regular de danos e efeitos transgeracionais, que impactam e impactarão drasticamente a sociedade, ampliando as dificuldades da transição da vida infantil à adulta.
Essa situação pode ser bem representada por João e Maria. Na versão dos irmãos Grimm, esse conto possui uma característica bem moderna. Vivendo uma vida muito pobre, um pai, convencido por sua segunda esposa, resolve abandonar os filhos no bosque para serem devorados pelas feras. Em um sentido tradicional, essa situação seria narrada como um desafio, um rito de passagem em que as crianças precisam desenvolver suas próprias forças sem a ajuda dos pais e da comunidade. Contudo, esse pai é fraco e incapaz de resolver os problemas econômicos e domésticos, e a mãe não está mais presente por já haver falecido.

Em termos modernos, fica nítida a característica de que os pais não têm a capacidade de transmitir os ensinamentos de como se deve viver aos filhos. Essa dimensão fica acentuada quando os paliativos de João falham, primeiro pelo caminho de pedras de sua casa ao bosque, depois pelo caminho de miolos de pão no mesmo trajeto, que foi comido pelas aves. Intencionalmente deixados sozinhos no bosque para serem devorados, João e Maria tiveram que arranjar soluções para si mesmos, como se representassem uma geração sem comunicação adequada com a anterior.
Trazendo a metáfora à questão da ditadura, pode-se compreender o pai e a mãe como atingidos diretos pela violência de Estado. No conto dos irmãos Grimm, a mãe ausente pode representar uma mãe morta ou desaparecida pela ditadura. Pelo silenciamento, em uma tentativa de proteger a prole, o pai cala-se sem contar como foi a ditadura aos filhos.
Essa situação é uma das experiências mais comuns vividas pelas segundas e terceiras gerações de atingidos pela violência de Estado da ditadura. Simplesmente, o passado traumático costuma não ser falado em família. Muitas vezes, nada do passado é falado. Como João e Maria, os filhos, filhas, netos, netas etc. são deixados em um bosque sem receber qualquer instrução de como orientar-se nesse ambiente.
Sombrio, silencioso, esse bosque é um breu desconhecido, que gera medo e pavor. Para lidar com essa situação sem recursos e sem instrução, uma falsa solução muito comum é abrigar-se na Casa de Doces, residência da Bruxa no bosque. Afastando-nos de identificá-la com uma personagem feminina, Bruxa é uma maneira de dar forma a esse trauma produzido pela violência de Estado, transmitido às novas gerações silenciosamente.

Sem conseguirem enfrentar o grave problema, os pais e as mães acabam encaminhando os filhos, as filhas, os netos, as netas em direção ao trauma não tratado, à Bruxa. Devido à força do trauma, Casa de Doces torna-se um refúgio para não ter que enfrentar uma dor extrema. Os doces podem ser considerados tudo aquilo que dá prazer, muito prazer, ao ponto de viciar.
No contexto histórico em que esse conto de fadas era contado, a fome era uma mal muito presente nessas regiões que transmitiam essa estória. Imaginar uma casa de doces era um sonho para toda e qualquer criança daquela época e geografia, da mesma forma como a miragem no deserto é abundante em água. Para uma criança faminta, nada mais satisfatório do que uma casa de doces.
Retornando a Freud, uma casa de doces é um sonho perfeito para o aumento de insatisfação que cada uma precisa arcar para fazer parte da cultura, desprazer que sempre aumenta conforme a cultura é desenvolvida. Para sanar esses dissabores crescentes da vida social, nada melhor do que prazeres que satisfazem instantaneamente, como doces. Porém, não apenas doces, como bebidas, sexo, entretenimento, além de qualquer outra atividade que ofereça uma quantidade de prazer imediata e fácil de ser adquirida, produzindo, como consequência, vício.

No conto dos Grimm, a solução é possível quando João e Maria fazem regime, depois que Casa de Doces se transformou em um cativeiro. O que antes era excesso de prazer se configurou em prisão. A ameaça de serem devorados pela Bruxa exigiu que ambos se abstivessem da maravilhosa comida oferecida pela sua captora, que servia unicamente para engordá-los para serem devorados em seguida.
Como Bruxa, os efeitos transgeracionais da violência de Estado favorecem esse tipo de saída, que mais prepara o desastre futuro do que oferece uma solução de fato. Para tratar da questão, é preciso fazer abstinência dos prazeres imediatos e compulsivos, que servem para escamotear a destruição causada pela violência de Estado e que ainda gera efeitos no presente.
Como João e Maria, é preciso renunciar Casa de Doces, assumindo a dor de estar em sociedade. Em relação aos afetados transgeracionalmente pela violência de Estado, esse ritual de passagem pode mostrar-se mais difícil, havendo a necessidade de um esforço maior e continuado.
Muitas ferramentas podem ser utilizadas, como terapia e participar de coletivos que trabalham com o tema. Outra possibilidade é a escrita da história do trauma familiar. Por meio da análise de contos de fada, é possível tornar essa tarefa menos árdua e mais factível.
Felipe Lott é Doutor e Mestre em História pela UFF e Bacharel em Ciências Sociais pela UFF, membro do coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação
Notas:
- BAUDELAIRE, Charles. O Pintor da Vida moderna. 1.ed. Trad. e notas Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
- FREUD, Sigmund. Mal-estar na cultura. 1.ed. Trad. Maria Rita Salzano Moraes. Apresentação Gilson Iannini e Pedro Heliodoro. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.

