Celebração de pequenos avanços de um lado e colonialismo turbinado de outro?
Fala xenófoba de chanceler alemão e postura de obstrução de negociações da Uniao Europeia são incêndios que se mantêm após fim da conferência
O fogo iniciado na Zona Azul da COP-30 causou pânico e correria, mas foi contido mais rápido do que imaginamos. Eu estava lá no momento do desespero inicial e, mesmo num tempo curto entre o início do fogo e a evacuação de todo mundo, deu tempo de ouvir muitos absurdos sobre o Brasil. Um problema assim num país como a Alemanha, onde moro em parte, é visto como pontual, e a forma de lidar é comumente avaliada de forma técnica. Sob o olhar racista do sistema internacional que estava à toda, porém, qualquer falha na COP-30, em Belém, área urbana da Amazônia, era rapidamente encarada como existencial.
Não tenho objetivo de apagar nuances e complexidades, inclusive os desafios estruturais e problemas existentes em Belém e na própria conferência. O ponto aqui é exatamente aprofundar as conclusões reducionistas sobre os resultados e marcos que essa COP deixa. Minha proposta nesse texto é contribuir com um esforço de ultrapassar a superfície e, para tal, olhar de perto um ator importante que ficou camuflado nas conclusões até aqui: a Uniao Europeia e o colonialismo que o bloco carrega. Mas vou além, porque há elementos novos que precisam entrar no debate: os discursos coloniais agora estão renovados sob o crescimento da extrema-direita por lá, a desinformação acelerada sobre as mudanças climáticas e as tentativas de apagamento sobre a responsabilidade europeia sobre as profundas crises socioambientais correntes não estão fora disso. Muito pelo contrário.
Alguns incêndios iniciados na COP-30, em Belém, não foram fisicos, mas se espalharam e perduraram no tempo, causando danos profundos. Eles são boas pistas que podemos seguir. Um deles foi a polêmica declaração do chanceler alemão, Friedrich Merz, sobre o Brasil. Ele afirmou que estava feliz de retornar à Alemanha e que, após Belém (ele disse “aquele lugar”)[1] se deu conta de que a Alemanha é um dos países mais bonitos do mundo. Com o tempo, o ataque não foi esquecido. Merz se tornou a maior piada em Belém e um por todo lado aqui, tanto nas redes sociais como nos eventos de brega, nos restaurantes, nas conversas de bar, uma das frases mais ouvidas é “isso não tem na Alemanha”. O país é 24 vezes menor do que o Brasil, então imaginem que essa lista vai durar bastante tempo.
Outro foco de incêndio, esse ainda mantido sob extintores, é o papel não só da Alemanha como importante liderança no bloco, mas da União Europeia como um todo. O grupo busca manter sua imagem construída como referência em política ambiental, enquanto é questionado sob os olhos da diplomacia internacional como elemento central de obstrução dos principais pontos urgentes referentes a possíveis transições justas na política climática. Fala-se muito em países que dependem diretamente da extração de petróleo como a Arábia Saudita, e de fato é um ator que interrompe muitos avancos. Mas nem só de producao vive a economia internacional. E o que dizer do consumo? A Uniao Europeia é forte dependente de combustíveis fósseis, profundamente. Em 2022, a dependência do bloco de combustíveis fósseis aumentou, chegando a 70,9%.[2] A largo prazo, houve redução, o que é importante também ressaltar. Mas, os números seguem altíssimos, e o continente concentra a maior responsabilidade histórica de acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera. O consumo de energia cresceu na Europa em 2024. Esse é um dado bastante recente da Agência Europeia de Meio Ambiente (sigla em inglês EEA)[3]
Nesse momento, o bloco também lida com ataques internos à própria política climática e, no campo do discurso, se esforca para encobrir o avanço acelerado de posições conservadoras e antiambientalistas, além da crise econômica. Nos últimos dias da COP-30, antes de selado o Pacote de Belém, a União Europeia tentou escapar dos holofotes que destacam a grande responsabilidade do bloco. Tornou-se mais fácil evocar um olhar colonial, exotizante e inferiorizante, que busca desesperadamente tirar os graves problemas da União Europeia do centro das atenções.
Eu escrevia esse texto, quando resolvi tomar um café para pensar melhor nessas conexoes. Já no caminho, minha cabeca estava tanto nessa escrita, que eu pensava no café e ele me levava a lembrar que a Europa é também a maior consumidora de café no mundo e que este café vem da América Latina massivamente. Agronegócio no caso de plantações de escala massiva, transporte de longa distância, tantos pontos de despossessão de terra, e emissão dos chamados gases de efeito estufa. Tantos laços de extrativismos coloniais em andamento. Entrei na padaria Camões, no bairro de Nazaré, em Belém. Achei que a COP havia terminado, mas eis que me deparo com o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, tomando café ali também.
Foi impossível não me aproximar, tentei ser gentil na interrupção da pausa. Iniciamos uma entrevista curta. “Olhando para o resultado da COP, com um café de dia seguinte na mao – o que você você vê?”, perguntei. Ele me disse: “Conseguimos fazer as três coisas que queríamos: fortalecimento do multilateralismo, trazer os resultados das COPs mais próximos do público em geral e fortalecer a implementação do Acordo de Paris. Na dimensão política, o mundo inteiro se reuniu em Belém para uma politica climática que é diferente da de Trump. Além disso, o tema dos combustiveis fósseis virou tópico central, mas era impossível resolvê-lo aqui. A solução não é colocar tudo no acordo de Paris. Se acreditamos no que a ciência climática nos indica, não podemos mais viver apenas no ritmo no consenso.”
Nesse sentido, o presidente da COP se referia ao sistema das Nações Unidas que depende de consenso para aprovações de acordos. Para ele, as mudanças na geopolítica trazem novos desafios. Entendo como também apontamento sobre a pensar na Uniao Europeia, já que vivo entre fronteiras – não físicas, mas bastante concretas – entre a América Latina e a Europa. Mas o que acontece quando alguns países usam ações paralelas ao acordo geral como estratégia de desmobilização dos acordos em si? Perguntei sobre a postura da Uniao Europeia. O presidente evitou responder.
No entanto, os olhares de quem conhece bem a trajetória de negociações dentro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima apontam além dos entraves que ganharam espaço na mídia. Há muitas análises que apontam uma postura bastante evidente de obstrução por parte dos países da União Europeia. E aqui obstrução tem mesmo seu significado mais básico: um ato de bloqueio, de impedimento de passagem. Uma atitude que gerou obstáculos para avanço, especialmente no que diz respeito ao financiamento climático.
No campo do discurso, a obstrução pode também bloquear visão, pode gerar ângulos reducionistas. E me parece que isso têm acontecido em diferentes dimensões.
A caminho da última plenária da COP-30, eu conversava com a professora e pesquisadora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Marcela Vecchione, parceira com quem tenho dialogado nos últimos anos no campo da pesquisa continuamente. Ela acompanha as Conferências das Partes (COPs) das Nações Unidas, e a Convenção Quadro desde a COP-15, em Copenhague. Antes da confirmação do acordo final, e tendo estado quase todos os dias na sala de negociação nas últimas duas semanas, ela foi uma das pessoas que fizeram crítica contundente à Uniao Europeia e me ajudou a entender melhor o imbróglio:
“A União Europeia causou obstrução. Os países do bloco passaram um ano negociando o Pacote de Belém. Quando chegaram aqui, no momento da discussão de pontos específicos do pacote, começaram o que a gente chama de obstrução de negociação climática, não respeitando toda a linha com que eles mesmos já tinham acordado. Mesmo sendo uma mulher do Sul Global, acho ingênuo apenas ver a carta puxada pela Colômbia como algo isolado. A União Europeia também fez parte desse movimento, tentando não ser percebida. A carta não foi assinada pelo bloco, mas por Franca, Alemanha, Bélgica, países que são os principais portadores de recursos da União Europeia. O bloco está agindo fora dos eixos centrais de negociação.”
Durante a plenária final da COP-30, realizada um dia depois do término oficial da conferência, dia 22 de novembro, a União Europeia buscou não se destacar, fazendo poucas intervenções e utilizando uma linguagem escamoteada como técnica e universal – bom, até aqui nada de novo no front –, buscando esconder um posicionamento político ou retrocessos no bloco. A Europa, que há décadas se apresentava como líder em ação climática, sofreu fortes críticas na COP30 por não cumprir promessas de financiamento climático para países em desenvolvimento.
Mesmo antes do início da COP, diante de desacordos internos decorrentes de governos conservadores, o bloco adiou a entrega do plano climático atualizado (NDC) e, já durante a conferência, em Belém, informou que a transição para a saída dos combustíveis fósseis seria um ponto de forte desacordo – as chamadas “red flags.” A mídia europeia também criticou essa abordagem, apontando que tais questões exigem antecipação e planejamento adequados. A maior parte da cobertura, no entanto, não foi além.
Especialistas do Sul Global, ou Maioria do Mundo como prefiro tomar como referência discursiva, veem a posição da UE como uma estratégia para obstruir o plano e postergar ações que beneficiem o financiamento de adaptação para os países mais afetados pelo sistema extrativista, que historicamente favoreceu o Norte Global.
Alemanha: no mapa do caminho do retrocesso?
Enquanto isso, a Alemanha, país que tinha sido considerado liderança em negociações anteriores e um dos principais parceiros históricos em financiamento climático a países como o Brasil, deixou marcas muito contraditórias nessa COP.
Financeiramente, depois de tergiversar sobre o valor, anunciou 1 bilhão de euros para o Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) e segue como uma das principais aportadoras de recursos para a pauta da adaptação. Em um cenário de amplo crescimento da extrema-direita no país, porém, o chanceler Friedrich Merz preferiu reforçar pensamentos coloniais em vez de assumir liderança climática. Ele optou por insultar o Brasil, aparentemente em busca de algum tipo de exaltação de um mundo “desenvolvido”, “civilizado”, a partir de visões bastante antiquadas e coloniais desses termos. Há muito mais por trás dessa fala do chanceler, porque ela não foi apenas um deslize. É aí que precisamos cavar para além do tom de piada.
A narrativa conservadora da extrema-direita está tentando pegar carona nas crises socioambientais. Em pleno caminho da recessão, medo de avanço dos intentos da Rússia sobre a Europa – invasões por drones já foram registradas várias vezes nos últimos meses e há um pânico silenciado, mas generalizado – uma elevada porcentagem da população alemã acredita nesse momento que o grande problema do país são os imigrantes. Lógico, crise profunda, mais fácil apontar que o problema são os outros.
Aqui é Franz Fanon na veia, especialmente a partir do olhar que ele trouxe a partir do racismo não só externo, mas como construção da subjetividade. É uma construção do outro como um processo violento, alienante. No entanto, não estamos mais no mesmo passo, e acredito aqui que Merz errou o cálculo e segue errando.
Recebi o vídeo com a fala de Merz desmerecendo o Brasil quando estava a caminho de um painel no Pavilhão das Nações Unidas da COP-30, onde eu participaria de uma mesa sobre produção de conhecimento na Alemanha, a convite do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico).
Um dos tópicos principais do painel era a imigração da qual a Alemanha depende, especialmente de profissionais qualificados que atuam com temas ambientais em diversas áreas. Depois de ver a fala de Merz, cheguei ao painel com ainda mais vontade de afirmar, com ênfase, que estamos cansadas – todas nós, imigrantes – de sermos hierarquizadas. Eu estava ali como pesquisadora brasileira convidada na Alemanha. Há dez anos vivo entre lá e cá e realizo pesquisas em universidades alemãs. Tenho conhecimento de causa.
Desde o crescimento da extrema-direita e agora diretamente no governo de Merz, nós, imigrantes vivendo lá, estamos sendo usadas como moedas de troca no discurso. Para angariar mais votos dos eleitores conservadores, o atual chanceler promove mais xenofobia, racismo, LGBTQfobia.
Ao mesmo tempo, o chanceler – e o país como um todo – têm graves problemas para resolver e rápido. Há necessidade de trabalhadores capacitados. Mas, dentro desse cenário xenófobo, acirram-se discursos que nos dividem como imigrantes, e cresce em milhares de pessoas a vontade de sair do país. O discurso que o chanceler está assumindo nos hierarquizar: o bom imigrante é aquele que se “integra” (Integration é palavra central na política imigratória alemã, muito mais do que intercâmbio, é sobre adaptar-se, enquadrar-se), fala o idioma da forma com menos sinais possíveis de outras origens, encaixa-se na cultura alemã com orgulho apenas e de preferência passa a defendê-la de forma superior, não reclama mais direitos, e gosta de pequenas estrelinhas de reconhecimento que os dizem “melhor” em relação aos demais.
Ocorre que, entre nós, também os tempos já passaram, e muitas de nós já sabemos que somos todas partes de um mesmo processo. Somos todas imigrantes, um direito retirado de um lado é um ataque a todas. A Alemanha está se tornando um terreno árido, pesado. Disse na mesa, como pesquisadora, bastante diretamente, que não queremos nem seremos úteis em uma política de imigração que nos controla, dita, hierarquiza e inferioriza.
Já se passaram vários dias, a COP acabou, e o assunto não esfriou. O chanceler conseguiu atacar latino-Americanxs que estavam na conferência e também se sentiram atacados. Coroou com imigrantes brasileirxs vivendo na Alemanha. Nós certamente nos sentimos profundamente desrespeitadas.
Não foi apenas o boteco, o carimbó e a comida paraenses que o chanceler alemão não viu
A declaração fez com que muita gente na COP começasse a perguntar quantas décadas a Alemanha retrocedeu nos últimos tempos. Ele se tornou uma figura rapidamente ridicularizada. E com isso a Alemanha não sabe lidar. O mundo mudou, a América Latina mudou, a Amazônia mudou, e também segue recuperando conhecimentos ancestrais, bem como produções de conhecimento dentro e fora da academia baseada na própria região. A Amazônia é polo central de produção de conhecimento de altíssima qualidade.
Embora o testemunho dele pareça absurdo, como mencionei acima, entendo que faz parte de uma estratégia discursiva que pretende responder aos eleitores da extrema-direita. Os alemães nem sempre acertam nas métricas que envolvem muitas complexidades. Mas cálculo houve, e provavelmente envolvia números de engajamento nas redes sociais, cujos parâmetros de circulação não precisam ser associados à ética, ou respeito – muito pelo contrário. O que talvez não estivesse na conta foi o rombo diplomático. Na Alemanha, existe uma bastante respeitada Cultura da Memória (Erinnerungskultur), expressão nascida em relação ao Holocausto, com a ideia de que lembrar é garantir que nunca se repita. Ou seja, é sobre a relação de uma sociedade com seu passado. O que talvez Merz não soubesse é memória é assunto sério no Brasil também, a partir de olhares próprios latino-americanos. E faz tempo que a Amazônia olha para si própria e compreende o passado colonial – e presente – ao qual é imposta.
Lelia Gonzalez também já apontou que o lugar da consciência não basta. Com um ponto de vista partindo das lentes a partir das mulheres negras brasileiras, ela afirma que a consciência pode ser o lugar do desconhecimento, do encobrimento, da alienação. Para ela, é na memória que o saber emerge[4]. A consciência apaga, enquanto a memória restitui. Aqui me parece que cabe a frase mais repetida nos últimos dias por aqui para ironizar o chanceler alemão: “Isso a Alemanha não tem.” Ou podia se abrir para aprender junto.
Simultaneamente, os estudos latino-americanos de justiça socioambiental associados a condições étnico-raciais e ao patriarcado colonial que estruturaram a ocupação de terras e as hierarquias sociais em geral impostas pela Europa são referências cada vez mais sólidas. Não foi apenas o boteco, o carimbó e a comida paraenses que o chanceler alemão não viu, embora cada uma dessas coisas também carregue enorme carga de memória.
Merz também não viu o profundo conhecimento produzido por aqui, e que também têm tido enorme efeito no debate sobre o clima internacionalmente. Segundo a Agência Brasil, A Cúpula dos Povos reuniu 30 mil pessoas na Universidade Federal do Pará (UFPA), em debates de altíssima qualidade e aprofundamento, reunindo movimentos sociais e organizações da sociedade civil, pesquisadores universitários, artistas, documentaristas e jornalistas, comunicadores populares, juristas, representantes do poder público.

No contexto atual, já não há como colocar colonialismo debaixo do tapete. Aqui há um debate público massivo sobre extrativismos de larga-escala, agronegócio, despossessão de territórios e de imaginários pelo modelo neoliberal colonial. Isso ele não calculou.
Jornalistas alemães na COP-30 falam de desconforto e vergonha
Merz não falou apenas sobre si mesmo. Sua declaração incluiu que havia perguntado aos jornalistas alemães quem gostaria de ficar no Brasil. Segundo ele, ninguém respondeu, o que, em seu tom comparativo e pejorativo.
Decidi, então, ir à sala de imprensa na Zona Azul da COP-30 para conversar com colegas do jornalismo alemão. Falei com Xenia Böttcher, âncora do Tagesschau, equivalente ao Jornal Nacional, exibido pela TV pública alemã ARD. Ela mencionou que havia escrito para um grupo de jornalistas que estavam presentes na coletiva onde Merz fez a pergunta sobre a permanência no Brasil:
“Falaram que sim, ele fez essa pergunta, e ninguém respondeu porque ninguém entendeu essa pergunta, e as pessoas acharam que era uma coisa meio retórica e meio bizarra. Eu acho que essa declaração prejudica desnecessariamente o nosso relacionamento com o Brasil, na área política. E desde então tenho que explicar isso para meus colegas brasileiros… e todo mundo que me conhece como jornalista alemã. Não concordo, não sei por que ele fez isso, acho desnecessário. Mas isso fala muito mais sobre ele, do que sobre o Brasil.”
Xênia contou que esta mensagem chegou para o grupo de produtores da ARD – TV pública alemã, um dia antes de viralizar e que ela achou que era fake news: ‘Vi três vezes e pensei “qual é a fonte?’, porque não conseguia acreditar. Não faz sentido. É muito bizarro. Pesquisei e rapidamente vi que era verdade. Fiquei muito constrangida. Foi um sentimento de dor, e vergonha. Um chanceler vem aqui, não passa nem 24 horas, não viu nada, não conhece nada, Não tinha nenhuma necessidade de falar algo assim. Por que para enaltecer a Alemanha tem que diminuir outro país que é parceiro?”
Para outra colega, fotojornalista paraense e membro da Associação Fotoativa, Irene Almeida, a fala repete uma postura antiga: “É uma repetição desse sentimento de superioridade. Foi horrível e muito ignorante. Não olhamos essa declaração com respeito.”
A chancelaria alemã tentou apagar as chamas da declaração de Merz. Não deu certo. A mídia alemã passou a correr atrás, depois do impacto causado no Brasil. Na edição do dia 21 de novembro no jornal Tagesspiegel: “Numa curta aparição, Friedrich Merz conseguiu colocar uma nação inteira contra ele. Uma tempestade que passaria rápido, talvez ele tenha esperado por isso. Mas o chanceler não parece ter entendido com quem estava mexendo.”
Os recentes ataques do chanceler alemão a imigrantes e população LGBTQ
Merz sabe bem a quem queria se endereçar, e o discurso dele não está destoante de outras falas recentes do chanceler – atacando a comunidade LGBTQ e imigrantes. Ele não foi apenas “sem noção”, ele sabia o que estava fazendo. No final de outubro, ele disse que ainda havia um “problema na paisagem urbana e que, por isso, o ministro de Interior estava atarefado lidando com deportações em massa”. Ele se referia muito evidentemente – e isso ficou marcado no debate público por lá – à imigração.
Anteriormente, ele já havia sido alvo da população LGBTQ, cujos direitos são reconhecidos na Alemanha, país que até agora recebia muita gente da comunidade de diversas partes do mundo. Ele foi contra o hasteio da bandeira LGBT no Parlamento durante o mês do Orgulho, dizendo que: o parlamento não é um circo. Em anos anteriores, Merz teve diversas declarações homofóbicas, entre elas sustentando ser contrário à adoção por casais homossexuais. Pois eu disse que Merz atacou o Brasil, a imigrantes e à comunidade LGBTQ. Como faço parte das três comunidades – como um sanduíche no meio de duas ou mais culturas, como diz Glória Anzaldúa no seu histórico “Borderlands / La Frontera: The New Mestica”[5] – sinto na pele que a Alemanha está passando de limites éticos graves, e acho que ainda há bastante para entendermos desse processo a partir da América Latina.
Navegando no rótulo de país ambientalmente correto, que historicamente lhe coube bem nas COPs, a Alemanha se encontra em uma sinuca que, aos poucos, abre buracos profundos – dos quais Merz não parece ser bom em saltar. Pelo contrário, ele parece estar construindo buracos ainda mais fundos, e essa postura também afeta a União Europeia como bloco – e vice-versa. Meu ponto aqui é que ignorar as raízes dos problemas e contradicoes por trás da COP e promover uma narrativa simplificada só pode aprofundar as crises socioambientais na arena global, deixando caminho aberto para diferentes dimensões de extrativismos coloniais transnacionais. O trabalho para entender as construções discursivas nos processos da COP-30 está só comecando.
Esse texto coloca essas posturas em xeque e convida especialistas, incluindo o presidente da COP-30, André Correa do Lago, para olhar os resultados finais dos acordos.
Camila Nobrega é pesquisadora nas Universidades Técnica de Dresden e Universidade Livre de Berlim, na Alemanha. Pesquisadora Visitante do Centro Ambiental de Pesquisa Rachel Carson Center, na cidade de Munique. Jornalista transmídia com foco em lentes feministas e queer sobre conflitos socioambientais. Fundadora do Beyond the Green (https://beyondthegreen.media/). Entre outros projetos em andamento, é diretora e coordenadora do webdocumentário em andamento Risk Factors, sobre interrupcoes que mulheres enfrentam na pesquisa ambiental nas universidades brasileiras (Teaser disponível em https://vimeo.com/1134333674?fl=pl&fe=vl) e co-coordenadora do projeto Territórios de Conhecimentos (https://spore-initiative.org/en/processes/facilitation/territories-of-knowledges).
[1]A fala original do chanceler alemao: “Meine Damen und Herren, wir leben in einem der schönsten Länder der Welt. Ich habe einige Journalisten, die mit mir in Brasilien waren, letzte Woche gefragt: Wer von euch würde denn gerne hierbleiben? Da hat keiner die Hand gehoben. Die waren alle froh, dass wir vor allem Dingen von diesem Ort, an dem wir da waren, in der Nacht von Freitag auf Samstag wieder nach Deutschland zurückgekehrt sind.” Disponível em: https://www.tagesschau.de/inland/innenpolitik/merz-aussagen-belem-kritik-100.html. Último acesso em 23.11.2025. Tradução:
[2] https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20240130-2
[3] Dados publicados no link a seguir e acessados em: 24.11.2025 https://www.eea.europa.eu/en/analysis/indicators/primary-and-final-energy-consumption
[4] Gonzalez, Lelia. (1984). In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs. Brasil. p. 223-244.
[5] Anzaldúa, G. (1987). Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. Aunt Lute Books. / Versao em português: Anzaldúa, G. (2021) Limiares / La Frontera: A nova mestiza. São Paulo: A Bolha Editora.

