Cerrado: não vão despolitizar nossa pauta! - Le Monde Diplomatique

MEIO AMBIENTE

Cerrado: não vão despolitizar nossa pauta!

por Bianca Pyl
junho 4, 2018
Imagem por Thomas Bauer, Comissão Pastoral da Terra na Bahia
compartilhar
visualização

O crescente interesse em relação ao bioma tem sido acompanhado pela despolitização das pautas defendidas, principalmente, por quem vive e convive com o Cerrado há séculos: os povos e comunidades tradicionais

O Cerrado tem conseguido ganhar espaço na mídia de massa, o que é muito bom para a sociedade em geral conhecer a importância desse bioma que é a savana mais rica em biodiversidade no mundo. Termos como o berço das águas, caixa d’água do Brasil, e floresta invertida estão se popularizando. Olhos antes voltados só para a Amazônia, agora entendem que há mais biomas fundamentais para o equilíbrio ambiental – na realidade todos têm sua importância.

O grande problema é que muito da informação que tem circulado despolitiza a pauta de conservação do Cerrado e de seus povos, isto é, quer tirar a responsabilidade de quem de fato tem agido para desmatar o bioma, secar e poluir rios e expulsar comunidades de seus territórios.

O Fórum Mundial da Água, realizado em março em Brasília, mostrou bem isso nos discursos empresariais que defendiam a privatização da água como a melhor forma de “preservá-la”. Durante o evento, o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, afirmou que 90% da produção agrícola no país utilizam água das chuvas. Faltou só o ministro dizer qual a fonte desse dado. A Organização das Nações Unidas (ONU) revela que aproximadamente 70% de toda a água disponível no mundo é utilizada para irrigação. No Brasil, esse índice chega a 72%.

Se olharmos para um episódio de conflito pela água que aconteceu em Correntina, em novembro de 2017, região Oeste da Bahia, podemos ver o tamanho da discrepância entre consumo das pessoas e consumo de grandes fazendas. O município, com 30 mil habitantes – segundo o IBGE, consome 3 milhões de litros de água por dia, enquanto uma só fazenda consome 106 milhões. A diferença é absurda e é um dos motivos do esgotamento de rios na região.

A população de Correntina se mobilizou e está exigindo do poder público que revogue a autorização para a fazenda captar essa quantidade de água do rio Arrojado. Contudo, poucos veículos de Comunicação fizeram uma cobertura mais aprofundada do caso, muitos focaram só no protesto dos moradores, classificando todos como “vândalos” ao ocupar a Fazenda Igarashi para protestar. O Ministério Público da Bahia e o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Corrente recomendaram ao Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), órgão do Estado da Bahia, que não concedesse outorgas para grandes empreendimentos na bacia do Rio Corrente – da qual o Arrojado faz parte -, o que não foi acatado.

Protesto contra danos ambientais criados pelo agronegócio em Correntina, Bahia, responsável pela seca de um rio

 

Disputa de narrativa

Algumas matérias veiculadas na imprensa falaram de forma poética sobre a “ação humana” que desmatou mais da metade da vegetação nativa do Cerrado. Mas, as reportagens não mostram que onde era Cerrado hoje é plantação de soja, pasto para criação de gado, plantação de eucalipto. As pautas não aprofundaram como essa mudança de vegetação afeta drasticamente o bioma e ciclo da água, só para citar um exemplo. O Cerrado foi devastado porque pessoas lucraram com isso, não foi a “ação humana desinformada”, foram empresas multinacionais e nacionais do agronegócio com anuência de diversos governos, desde a ditadura militar.

As áreas protegidas (unidades de conservação e terras indígenas), somam apenas 8,2% do bioma. A área plantada com soja na região conhecida como MATOPIBA (abreviatura dos estados Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) cresceu 253% entre 2000 e 2014, sendo que cerca de 68% dessa expansão ocorreu em áreas de vegetação nativa.

No período 2000 a 2014, a área cultivada com soja, milho e algodão no Cerrado passou de 9,33 para 17,43 milhões de hectares (Mha), correspondendo a um aumento de 86,7%, com predomínio da soja, que representa 90% do total da área das três culturas avaliadas na safra 2013/14[1].

Recentemente o Ibama aplicou multas de R$ 105,7 milhões a grandes empresas multinacionais do agronegócio – entre elas Bunge e Cargill – durante a Operação Shoyo Matopiba. Durante a operação, foram apreendidas mais de 5 mil toneladas de soja (84 mil sacas) de soja produzida com descumprimento da lei.

Casa incendiada na região do MaToPiBa

Omissão da constituição

A atual Constituição Federal reconhece a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira enquanto patrimônio nacional, somente Cerrado, Caatinga e os pampas estão de fora, por omissão do governo.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado está com uma petição que pede a aprovação da PEC 504 – que transforma o Cerrado e a Caatinga em patrimônio nacional. A petição já conta com mais de 180 mil assinaturas, inclusive com apoio de pessoas dos Estados Unidos e Europa – locais que também têm ligação com o desmatamento do Cerrado e acirramento de conflitos agrários (principalmente região conhecida como Matopiba).

A petição traz Pedro Piauí como personagem, mas são muitas Fátimas, Marias, Catarinas, Antônios que lutam pela manutenção de seus modos de vida e, consequente, a conservação do Cerrado. Eles e elas empreendem iniciativas de recuperação de mata ciliar e nascentes, de agrofloresta que alimenta e gera renda para suas comunidades. A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado te convida a conhecer a história desses povos e a entender melhor como a vida deles está relacionada com a sua, te provoca a buscar outras fontes de informação, a saber mais sobre as organizações criadas e geridas por essas guerreiras e guerreiros.

Bianca Pyl é coordenadora de Comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Desmatamento de vegetação nativa do Cerrado para dar lugar à soja em Confresa (MT):

 



Artigos Relacionados