Cicatrizando a memória do terrorismo de Estado na Argentina - Le Monde Diplomatique

A RECUPERAÇÃO DE UM NOVO NETO DESAPARECIDO

Cicatrizando a memória do terrorismo de Estado na Argentina

por Victoria Darling
18 de agosto de 2014
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“Às vezes, eu pensava: ‘não quero morrer sem abraçá-lo, sem conhecê-lo’, mas nunca imaginei este dia em particular”. Por sua vez, Ignacio não imaginava ser, justamente, neto da avó mais reconhecida pela sua luta e resistênciaVictoria Darling

Em 6 de agosto, foi restituída a identidade de Ignacio Hurban, músico e professor de escola na Província de Buenos Aires. Após uma análise de DNA, Ignacio descobriu que suas dúvidas tinham bom fundamento. As análises comparativas demonstraram que ele é filho de Laura Carlotto e Walmir Óscar Montoya, dois jovens militantes de esquerda, sequestrados e desaparecidos durante a última ditadura militar argentina.

A sua mãe o chamou de Guido durante as poucas horas que teve contato com ele, após o parto; logo, ela seria assassinada. Durante 36 anos, foi procurado insistentemente pela sua avô, Estela de Carlotto, a reconhecida presidenta da Asociación Abuelas de Plaza de Mayo.

“Há dois dias que já sei quem sou ou quem não era”, afirmou Ignacio/Guido na coletiva de imprensa oferecida junto com a sua avô na cidade de Buenos Aires.

Ignacio – que ainda prefer ser chamado desse modo – foi criado no interior, na cidade de Olavarría, por um casal de agricultores, sem irmãos nem primos.

“Vivi uma vida feliz”, afirma, pois até há poucos meses, suas dúvidas não tinham o fundamento necessário para ir atrás de respostas em relação à sua identidade. Foi apenas no mês de julho que ele começou a suspeitar seriamente que não era filho legítimo dos seus pais, como consequência de alguns comentários feitos por familiares e amigos no seu (até então) aniversário. A partir desse momento, as suspeitas foram aumentando e ele começou imaginar com claridade, pela primeira vez, que ele poderia ser filho de pais desaparecidos durante a última ditadura militar (1976-1983).

Perante as dúvidas, Ignacio foi encaminhado à Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (Conadi). Lá, foi realizada a extração do sangue e as diversas amostras foram comparadas no Banco Nacional de Datos Genéticos, para, transcorridos quinze dias, serem obtidos os dados necessários, levados ao Tribunal e encaminhados, finalmente, ao solicitante.

No entanto, a comoção surgida por causa da trajetória de luta pela recuperação da memória e, particularmente, pela procura incansável de Estela, foi tão importante que os dados do processo foram filtrados e a juíza Servini de Cubrián informou a avó do surpreendente achado.

“A primeira coisa que eu fiz foi ligar para as Abuelas e contar para a Raquel, a avó que normalmente está na sede”. Eu disse: “primeiro, solto a bomba: ‘acharam o Guido’; depois, liguei para a minha filha Claudia, de quem eu tenho o telefone mais direto e estamos sempre juntas, trabalhando esses temas. Começamos as duas a gritar de alegria”, disse Estela, exultante, ao receber a notícia.

“Às vezes, eu pensava: ‘não quero morrer sem abraçá-lo, sem conhecê-lo’, mas nunca imaginei este dia em particular”.

Por sua vez, Ignacio não imaginava ser, justamente, neto da avó mais reconhecida pela sua luta e resistência. De fato, toda a mídia se interessou por ele, sem distinções de coloração política, comemorando a sua recuperação.

“Em relação à pergunta de como eu cheguei a questionar, acho que é como acontece com todos ou quiçá esteja acontecendo com algumas pessoas: há ruídos que você tem na cabeça, como borboletinhas de dúvidas e perguntas que ficam aí, fora do campo de visão. E há coisas que você não sabe, mas você sabe, começa a pensar e perceber. E, como aconteceu no meu caso, chega algum indício sério e, a partir daí, começa a busca”, falou Ignacio.

No seu caso, o processo de busca foi breve, mas não o da sua avó. Estela de Carlotto é titular de Abuelas de Plaza de Mayo e participante ativa da Associação, criada em outubro de 1977.

No início, em plena ditadura civil-militar, “depois de iniciar sua busca sozinha, pois o medo inserido na sociedade condicionava a atitude perante as famílias diretamente atingidas na etapa mais dura da repressão ilegal […], uma mulher se afastou da concentração que faziam as Madres de Plaza de Mayo e perguntou: ‘quem está procurando seu neto ou tem sua filha ou nora grávida?’. Uma por uma foram saindo. Naquele momento, doze mães compreenderam que deviam se organizar para procurar os filhos dos seus filhos sequestrados pela ditadura”.

Inicialmente, foram batizadas como Abuelas Argentinas con Nietitos Desaparecidos e, mais tarde, adotaram o nome pelo qual o jornalismo internacional as chamava: Abuelas de Plaza de Mayo, relata o político e sociólogo Daniel Filmus. Daí em diante, a Associação Abuelas começaria o trabalho de criação de documentos, denúncias, apresentação de chamados na mídia, organizações nacionais e internacionais, organizando redes e campanhas pela identidade que conseguiriam a restituição da verdadeira identidade de 114 netos até hoje.

Além de exigir justiça em marchas e encontros, acompanhando as Madres de Plaza de Mayo, elas criaram, junto com um grupo de especialistas, um Banco de Dados Genéticos com os dados de todas as famílias com menores desaparecidos. Foi justamente essa iniciativa que as fez ter a certeza de que se elas não achassem os netos, um dia, quando a informação sobre o ocorrido for inteiramente conhecida pelo povo, os netos, então, procurariam suas próprias avós, como aconteceu no caso de Ignacio/Guido. Embora o passado não possa ser restituído de maneira íntegra, subsistem sempre rastros, materiais, objetos, marcas do que um dia foi.

No presente, existem ainda quatrocentos casos de filhos de desaparecidos, netos procurados, nascidos no cativeiro sob o último governo militar, que não conhecem sua verdadeira identidade. O caso de Guido constitui uma peça a mais que, junto com outras, conforma um mosaico de reconstrução.

Não consiste somente em reconstruir famílias, trajetórias e relações baseadas no amor, mas muito mais do que isso: a reedificação da memória de um povo inteiro que, após anos de terror, tem a coragem de se olhar de novo através do cristal da verdade.

“Eu estou respondendo uma pergunta. Sou músico e sempre me perguntaram de onde é que veio a minha paixão pela música e eu, na verdade, não sabia realmente, porque no meio ambiente onde fui criado, por um casal que me criou com o maior dos amores, o ambiente me predestinava a outra coisa”.

O verdadeiro pai de Ignacio era músico. História espiralada de desejos, gostos e preferências que, às vezes, não precisam de maiores explicações.

 

Victoria Darling é doutora em Ciências Políticas e Sociais pela Universidad Nacional Autónoma de México e professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).



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