O novo ciclo da política brasileira em 2026
O governador Cláudio Castro (PL) vive o momento de maior visibilidade de todo o seu mandato. Após a megaoperação no Complexo da Penha e do Alemão, que resultou oficialmente em 121 mortos, ele não apenas galvanizou o apoio de setores conservadores, como também obteve um respaldo expressivo da opinião pública, inclusive entre parte da população das comunidades afetadas
Pesquisas divulgadas pelo Datafolha e pela Quaest mostram esse movimento de forma contundente. Para 57% dos moradores da capital e da Região Metropolitana, a operação foi “bem-sucedida”. Na pesquisa da Quaest, o índice sobe para 64% em todo o estado. O apoio é maior entre homens (68%), eleitores de direita (mais de 90%) e moradores da Baixada Fluminense (73%), e cai entre mulheres e jovens. Mesmo assim, o saldo é de legitimação popular.
A novidade está na adesão de setores das próprias comunidades. Um relato de uma moradora da Ilha do Governador, no Morro do Dendê, traduz o paradoxo: entre clientes e funcionárias de um salão de beleza, todas apoiavam a operação, inclusive mães que perderam filhos para o tráfico. Uma delas relatou com frieza o cotidiano do medo e o controle territorial dos criminosos. Outra, com naturalidade, disse sentir alívio por o Dendê não ser dominado pelo Comando Vermelho. O apoio à operação, nesse contexto, nasce do desespero, da fadiga e da descrença em qualquer outra forma de segurança que não venha pela bala.
A reconstrução simbólica de Cláudio Castro – Até pouco tempo, Castro enfrentava um cenário de isolamento político. Envolto em denúncias, desgaste administrativo e uma base parlamentar fragmentada, o governador via com dificuldade sua possibilidade de concorrer ao Senado, e muito menos de ser um nome relevante dentro do PL. O quadro mudou radicalmente após a operação.
O governo passou a investir fortemente em publicidade digital, com valores entre R$ 457 mil e R$ 545 mil gastos apenas nos dias seguintes à ação, segundo a Meta Ad Library. O conteúdo, paradoxalmente, criticava a letalidade da operação e defendia ações de inteligência, mas serviu para ampliar o alcance da narrativa oficial sobre segurança pública. Nas redes, Castro reapareceu com uma estética messiânica: chorando em cultos, cantando em templos evangélicos ao lado de Silas Malafaia, e sendo celebrado como “homem de fé e coragem”.

A liturgia da força e da fé – Nos últimos dias, vídeos de dois meses atrás voltaram a circular, mostrando o governador cantando em uma missa e, em outra gravação, no aniversário de Silas Malafaia, em um templo da Igreja Vitória em Cristo. As postagens foram estrategicamente resgatadas para colar a imagem de Castro à moral religiosa, tanto católica quanto evangélica, num momento em que enfrentava críticas severas pela letalidade da megaoperação no Alemão e na Penha.
Ao reapresentar esses vídeos, o governador busca reconstruir sua legitimidade por meio da fé, apresentando-se como homem de oração, emoção e coragem divina. O gesto, amplificado por Malafaia, não é inocente: é um ato político simbólico, que reabilita o governador no imaginário religioso e reforça sua posição entre as bases conservadoras que articulam fé, moral e autoridade.
Trata-se do que Max Weber chamou de dominação carismática: a legitimação do poder político pela percepção de virtude espiritual e vocação. No contexto contemporâneo, a fé deixa de ser apenas crença e passa a funcionar como “capital moral”, nos termos de Pierre Bourdieu, uma forma de crédito simbólico capaz de converter devoção em prestígio e autoridade.
O paradoxo é evidente: a religião surge como alavanca moral de um governo que contabiliza 121 mortos em uma única ação policial. A liturgia da fé se funde à liturgia da força. E a violência, paradoxalmente, é enquadrada como expressão de justiça, um contrassenso teológico que transforma o evangelho em legitimação da pena de morte informal nas favelas.
Essa religiosidade performática – de lágrimas públicas e cânticos filmados – é também um mecanismo de comunicação política, que prepara o terreno para a bukelização do discurso de poder. Assim como Nayib Bukele, Castro constrói a imagem do governante que governa “com Deus e com punho de ferro”: a fé é a moldura emocional que suaviza o autoritarismo e converte a violência em salvação moral. A cruz e o fuzil passam a ocupar o mesmo enquadramento simbólico.
A era da bukelização – É nesse cenário que se compreende o alerta do professor João Cezar de Castro Rocha, para quem o Brasil caminha rumo a uma bukelização da política, um fenômeno que descreve a crescente influência do modelo de governo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, marcado pela combinação entre mão de ferro, culto à eficiência e comunicação direta via redes sociais.
Castro Rocha observa que a bukelização representa uma mutação do populismo contemporâneo: a fé cede lugar à segurança como eixo moral do poder, e o líder deixa de ser o “salvador das almas” para tornar-se o “salvador da ordem”. Se o bolsonarismo mobilizava a guerra cultural, o novo ciclo de direita que desponta no país mobiliza a guerra urbana, uma cruzada simbólica contra o crime, legitimada pelo medo e pela promessa de controle.
No caso de Cláudio Castro, o enquadramento é exemplar. Após a megaoperação na Penha e no Alemão, o governador passou a incorporar a figura do gestor implacável que “faz o que precisa ser feito”, independentemente das consequências humanitárias. A eficiência passa a ser medida pelo número de mortos, não pela redução da violência, e o discurso público se estrutura em torno de três eixos: força, fé e fidelidade.
Como Bukele, Castro entende o poder como performatividade digital. Ele fala diretamente ao povo por meio das redes, contorna a imprensa, enquadra críticas como “ataques ideológicos” e transforma vídeos emocionais em rituais de legitimação moral. As postagens de orações, os cânticos e as lágrimas não são apenas gestos de devoção, são atos comunicacionais de autoridade, que deslocam a política para o campo da fé e da emoção.
A bukelização, portanto, não é apenas uma estética de governo, mas um modo de produzir consenso num país em crise institucional. Ela transforma a violência em espetáculo, a comunicação em liturgia e a fé em linguagem de poder. O resultado é um tipo de liderança que dispensa mediações e instituições, operando num registro direto e afetivo: o líder fala, o povo sente, e a democracia se curva à emoção.
O perigo, como adverte Castro Rocha, é que a bukelização se torne a nova gramática política de 2026, substituindo o bolsonarismo da moral pelos populismos da ordem e da punição. Se antes se dizia “Deus acima de todos”, agora o lema pode ser “Deus e a bala contra todos”.
Fé, força e medo: os pilares de um novo autoritarismo – O Brasil parece entrar em um novo ciclo de legitimação do poder: o da moralidade armada. A fé, antes refúgio espiritual, torna-se instrumento de marketing político; a segurança, antes dever de Estado, se converte em espetáculo de poder; e o medo, antes patologia social, é transformado em ferramenta de mobilização coletiva.
Na esteira da megaoperação que deixou 121 mortos, Cláudio Castro personifica esse novo arquétipo: o líder que chora no altar e comanda a bala. O mesmo gesto que o redime moralmente diante das câmeras o absolve politicamente diante das urnas. E é nessa fusão de fé e força que se estrutura a promessa de eficiência que tantos desejam, ainda que ela custe vidas, direitos e instituições.
O cientista político João Cezar de Castro Rocha chama isso de bukelização da política: a substituição do populismo religioso e moral por um populismo securitário, onde o poder se justifica pela ordem e o governante se consagra pela capacidade de punir. Nesse modelo, a democracia se reduz a uma performance digital de autoridade e o cidadão, transformado em espectador, aplaude a repressão como espetáculo de redenção.
Se o bolsonarismo fez da guerra cultural a sua cruzada, a bukelização promete fazer da guerra urbana o novo altar da política brasileira. O risco não está apenas na violência das ruas, mas na adesão silenciosa à ideia de que matar é governar e punir é proteger.
O Brasil de 2026 pode, enfim, assistir à ascensão de um novo tipo de messias, não o pregador da salvação, mas o administrador da punição.
Márcio Ferreira é jornalista, doutorando e mestre em Sociologia Política pelo Iuperj.

