DESIGUALDADE DE GÊNERO NA CIÊNCIA

Colonialismo de gênero e exclusão epistêmica frente ao subfinanciamento da ciência feminina na América Latina

A sub-representação decisória se desdobra na invisibilização de patentes e inovações tecnológicas de autoria feminina, as quais enfrentam maior ceticismo por parte do mercado de capitais e de incubadoras regionais

Pensar a produção científica desde a América Latina exige análises transversais, face ao processo histórico de exclusão e apagamento das mulheres. A exclusão histórica da figura feminina no ecossistema científico da América Latina transita de uma barreira de acesso formal para mecanismos sutis de filtragem institucional.

Entre 2015 e 2025, dados cienciométricos regionais indicam que, embora a paridade de gênero tenha sido atingida na base da pirâmide acadêmica, com mulheres representando mais de 50% das matrículas de pós-graduação, a ascensão às posições de alta liderança acadêmica permanece lenta. Este fenômeno, conceituado como “efeito tesoura”, é agravado por recortes de raça e classe que submetem as pesquisadoras latino-americanas a uma dupla e até tripla jornada estrutural, historicamente negligenciada.

O mapeamento macroeconômico do decênio 2015–2025 evidencia assimetrias persistentes nos orçamentos nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) da região. O Brasil lidera o volume absoluto de investimentos em P&D na América Latina e, ao longo da última década, destinou aproximadamente 1,2% do PIB à área. Entretanto, estudos sobre gênero na ciência indicam que o financiamento permanece concentrado em áreas STEM – tradicionalmente de maior predominância masculina – enquanto iniciativas especificamente voltadas à equidade de gênero representam parcela reduzida dos instrumentos de fomento, embora essa participação deva ser demonstrada com dados orçamentários específicos.

O cenário se agrava nas áreas periféricas econômicas do bloco: o México mantém o seu investimento em CTI estagnado no patamar crítico de 0,2% do PIB, minimizando o financiamento de novos laboratórios liderados por mulheres, ao passo que a Argentina, após as reformas implementadas a partir de 2023, enfrentou severos cortes reais no financiamento da ciência e tecnologia, com impactos significativos sobre o CONICET, o que induziu uma evasão em massa de pesquisadoras.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Essa escassez estrutural impõe barreiras persistentes à participação feminina na ciência latino-americana. Na Colômbia e no Chile, embora tenham sido implementadas políticas institucionais voltadas à igualdade de gênero, estudos apontam que as mulheres continuam sub-representadas em posições de liderança científica, recebem proporcionalmente menos financiamentos competitivos e enfrentam progressão mais lenta para os níveis seniores da carreira acadêmica, evidenciando que o acesso desigual aos recursos de pesquisa permanece como um importante mecanismo de reprodução das desigualdades científicas.

A análise sobre financiamento científico entre 2018 e 2025 evidencia a persistência de desigualdades de gênero no acesso a recursos de pesquisa, particularmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), embora a magnitude dessas diferenças varie entre países e agências de fomento. Estudos mostram que mulheres pesquisadoras frequentemente captam menos recursos competitivos e enfrentam obstáculos adicionais na progressão da carreira científica. Além disso, os sistemas de avaliação da produtividade ainda incorporam de forma limitada os impactos do trabalho de cuidado e dos períodos de licença-maternidade, reproduzindo critérios de desempenho baseados em trajetórias contínuas de produção científica. Somam-se a esse quadro episódios de discriminação, assédio e violência de gênero no ambiente universitário, fatores associados à menor permanência e progressão de mulheres na carreira acadêmica, especialmente em áreas STEM.

O último decênio também evidencia que a representação em comitês de governança científica não ultrapassou a marca de 30% na região, perpetuando vieses epistêmicos nas escolhas das linhas de financiamento prioritárias. Dessa forma, a sub-representação decisória se desdobra na invisibilização de patentes e inovações tecnológicas de autoria feminina, as quais enfrentam maior ceticismo por parte do mercado de capitais e de incubadoras regionais. Em contrapartida, redes de solidariedade epistêmica e coletivos de cientistas organizados a partir de 2020 tensionaram as agências reguladoras e de fomento e obtiveram conquistas na inclusão de critérios de equidade em editais públicos.

Contudo, tais avanços institucionais ainda se mostram fragmentados e dependentes aos retrocessos macroeconômicos. A reestruturação orçamentária imposta as universidades públicas do continente nos últimos cinco anos atingiu de forma desproporcional as bolsas de pesquisa voltadas às Ciências Humanas e Sociais, espaço de forte presença feminina. Evidencia-se, assim, que a meritocracia acadêmica opera como uma ficção estatística que naturaliza privilégios. A superação desse cenário exige a transição de políticas de inserção cosméticas para reformas estruturais.

A democratização da ciência na América Latina vincula-se, indissociavelmente, à ressignificação dos critérios vigentes de produtividade e à implementação do protagonismo feminino/gênero nos comitês deliberativos. Dados consolidados até junho de 2026 reforçam que a ciência não será emancipatória e inclusiva enquanto o sujeito produtor do saber for delimitado por marcadores de exclusão e segregação. Promover a equidade na produção científica latino-americana é uma demanda de reparação histórica e um imperativo metodológico para a densificação do próprio conhecimento. Assim, ao romper as amarras do colonialismo de gênero na região torna-se um imperativo para formular respostas soberanas e complexas aos dilemas ancestrais, ambientais, artístico-culturais e tecnológicos contemporâneos.

 

Thaís Janaina Wenczenovicz é docente adjunta/pesquisador sênior na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul/UERGS. Professora Titular no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito/UNOESC. Professora no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas/Universidade Federal da Fronteira Sul.

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