Colson Whitehead e os caminhos de uma liberdade em curso - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

Colson Whitehead e os caminhos de uma liberdade em curso

por Taís Ilhéu
setembro 14, 2018
Imagem por Giovanna Querido
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Em sua segunda visita ao Brasil, o premiado autor de The Underground Railroad falou ao Le Monde Diplomatique Brasil sobre as cicatrizes da escravidão e o apagamento da história

Há vinte e quatro anos, um jovem, recém-formado e “quebrado” Colson Whitehead veio parar em solo brasileiro em plena agitação da copa do mundo dos Estados Unidos, já com a semente de The Underground Railroad em mente — livro que lhe renderia, tantos anos depois, seis prêmios, entre eles o Pulitzer 2017. Precisava conhecer esse país fundado na escravidão e também o último da América a abrir mão dela, mesmo que fosse, afinal, para escrever sobre o seu próprio. Talvez porque as raízes (assim como as cicatrizes), desses períodos cá e lá guardam tantas semelhanças — no centro, um racismo estrutural e arraigado, que Whitehead revelou não só ao narrar as crueldades da escravidão e seus mecanismos de manutenção, como também ao construir pontes e referências com a atualidade.

Foi em uma particularidade da escravidão nos Estados Unidos, no entanto, que o autor primeiro encontrou a referência que conduz e dá nome ao livro. Conta que, quando criança, ouviu o termo underground railroad na escola e pensou se tratar, de fato, de uma linha de trem subterrânea que transportava, do sul escravagista para o norte abolicionista, escravos que fugiam do destino nas plantações de grandes fazendeiros. Lançando mão do realismo fantástico de García Márquez — escritor que quando leu pela primeira vez sentiu que “enlouqueceria, diante da maneira que ele fazia uso da fantasia para retratar situações do mundo real e pessoas” — e de outras referências literárias acumuladas ao longo da adolescência e juventude, como Thomas Pynchon, o escritor transformou nas páginas de seu livro o código da ferrovia subterrânea (que, no final das contas, denominava uma rede de pessoas que auxiliavam nessa fuga sul-norte) em verdadeiros alçapões, estações, trilhos e vagões.

Giovanna Querido

Apagamento

Assim como a metáfora soou nebulosa para Whitehead quando a escutou pela primeira vez, a história da ferrovia é desconhecida entre muitos americanos — o autor conta que, certa vez, foi questionado por uma leitora sobre a existência das ruínas por onde passavam esses trens. Esse desconhecimento é uma pequena mostra do quão sub-representada é a história da escravidão nos Estados Unidos e no mundo “Isso não é muito bem falado nos Estados Unidos e, na maioria dos lugares em que eu estive, disseram que também escapam do assunto. Na Holanda, por exemplo, eles pulam o tráfico negreiro, eles não apontam que a prefeitura foi construída com dinheiro da escravidão duzentos anos atrás”, afirmou o autor em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil.

No livro, Colson evidencia esse processo de apagamento ainda na época da escravidão, quando sua protagonista, uma escrava em fuga chamada Cora, é contratada para encenar na exposição de um museu o cotidiano nos navios negreiros e plantações. Enquanto representava esfregar o chão de um convés cercada de “amistosos” homens brancos, pensava no quão impossível seria vislumbrar uma cena como aquela em um verdadeiro navio de tráfico:

O menino africano empreendedor cujas belas botas de couro ela usava teria estado acorrentado sob o convés, esfregando o corpo em seus próprios excrementos. […] Mas ninguém queria falar sobre a verdadeira situação do mundo. E ninguém queria ouvir.

Para o escritor, o ambiente que deveria primeiro dar destaque a essas histórias é o educacional, que muitas vezes escapa do assunto dedicando a ele um intervalo de discussão muito menor do que o de outros temas “Tem melhorado um pouco, mas definitivamente, nos Estados Unidos, nós pulamos a verdadeira brutalidade da escravidão e vamos para Abraham Lincoln.”

A dificuldade de romper com essas narrativas oficiais e fazer com que emerjam as subterrâneas, nos termos de Polak, ainda é grande, e a manutenção delas acaba por alimentar um ciclo vicioso de desigualdade e esquecimento “O livro se passa em 1850, mas muitas das estruturas de poder e os sistemas de opressão estão ainda operando de formas diferentes. Então se você der um passo para trás, você está falando de senhores e escravos, ou colonizadores e colonizados, realeza e camponeses… essa dinâmica de poder tem formado não só a história americana como a história do mundo. Eu estava muito ciente enquanto escrevia de que estava falando sobre sistemas que estão por aí há muito tempo e vão continuar operando ainda por muito tempo.”

Underground Railroad não deixa de representar, no entanto, um avanço nesse sentido, pautando na literatura, na academia e na imprensa memórias constantemente aterradas — que vislumbram agora, talvez, a aproximação do momento da verdade e da redistribuição das cartas políticas e ideológicas.

 

Racismo velado ou o mito pós-racial…

“Acho que as pessoas que dizem não ver racismo costumam ser aquelas que têm o maior problema reverso”. Enquanto comumente nos referimos por aqui a um racismo velado, Colson fala no mito pós-racial, segundo ele muito presente nos Estados Unidos principalmente a partir de Obama — como se o país tivesse superado o preconceito ao eleger um presidente negro. Destaca, no entanto, que a crença na superação ou na inexistência do racismo não é exclusividade brasileira ou americana: “Imagine nossos amigos da Alemanha, considerados não racistas, isso significa que eles discriminam apenas muçulmanos (risos). O mundo é muito racista”, completa. Para ele, quanto mais o país se considera pós-racial, menos ele o é, e a resposta quase sempre depende também da cor de quem fala.

 

…na era do presidente da pós-verdade

Colson acaba de entregar para a editora seu novo livro, que deve ser lançado em julho do ano que vem nos Estados Unidos. Ele, que costuma seguir a lógica de “um livro engraçado, um depressivo, depois um engraçado de novo”, não conseguiu manter o padrão e acabou escrevendo um sucessor também “depressivo” (sobre o sistema prisional na década de 60) depois de Underground Railroad. Parte disso, ele credita ao momento pelo qual passam os Estados Unidos. “Veja bem, acabamos de eleger um presidente que acredita na supremacia branca. Ele foi eleito apelando para o preconceito das pessoas sobre o outro, sejam eles muçulmanos ou negros. Ele é muito sexista, fica feliz em falar sobre agarrar mulheres. Então o racismo é uma força política muito forte na América, em muitos outros países que  visitei e, não tenho certeza sobre como isso funciona aqui, mas presumo que no Brasil também.”

 

*Taís Ilhéu é jornalista



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