Com humor e ironia, Daniela Yuri brinca com temas sérios como morte, luto e a maneira como escolhemos viver
Em É Vida Que Segue!, a autora transforma o “Além” em um lugar de filas, terapias, empregos e reencontros para refletir, com humor e sensibilidade, sobre luto, culpa, escolhas e recomeços
Estruturado como uma série de contos interligados, o livro acompanha almas que chegam a um universo marcado por hospitais espirituais, filas, agência de empregos, terapia e até recursos de inteligência artificial. Entre histórias de luto, solidão, arrependimento, violência, relações familiares e busca por propósito, Daniela usa o humor e a ironia para abordar questões existenciais e provocar uma reflexão sobre a maneira como escolhemos viver. Em diálogo com Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, a obra parte da morte para falar, sobretudo, sobre a vida.
Paulistana, Daniela Yuri Uchino é graduada, mestra e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Desde a infância, inventava histórias, brincadeiras e diálogos, até transformar essa inclinação criativa em uma escrita voltada para situações do cotidiano, sempre com humor e provocação. Além dos livros anteriores, a autora participou de antologias como Nós – textos de autoria feminina, Prêmio Off Flip – Conto e Contos para ler quando o amanhã chegar. Mãe de duas adolescentes, vive em São Paulo e concilia a literatura com o ritmo intenso da metrópole.

Na entrevista a seguir, Daniela fala sobre a criação de É Vida Que Segue!, a construção de seu Além e as relações entre humor e temas como luto e culpa.
O que a levou a escrever sobre o “Além” com tanto humor e ironia, em vez de um tom mais solene ou trágico?
Nos meus dois livros Somos Todos Malas e O Natal dos Malas, o tom de humor e ironia fazem parte dos contos e da noveleta de Natal. Neste terceiro livro, esse tom se manteve, pode ser uma preferência ou até mesmo uma marca da minha forma de criar e escrever as narrativas. A visão desse “Além” foi imaginada e inventada com questões narradas muito parecidas com a vida na Terra.
O livro brinca com a ideia de que “já estávamos mortos e não sabíamos”. O que essa frase revela sobre a forma como vivemos hoje?
Essa frase revela que muitas vezes a vida cotidiana está sendo vivida no piloto automático e que seguimos com uma inércia que nos conduz ao que não queremos que aconteça. Há fatos recorrentes que não deveriam ser vistos como mais um caso que aconteceu, infelizmente. A vida é preciosa e deve ser tratada com esse valor, importância e respeito.
Você criou personagens muito diversos – uma psicóloga, um cabeleireiro, um advogado, uma mãe de família –, todos enfrentando a morte. O que eles têm em comum?
Todos rememoram a vida na Terra e fazem suas reflexões pós-vida. Há culpas, arrependimentos, raiva, frustrações, solidão, amor, saudade, busca da identidade e por propósitos e justificativas por escolhas feitas entre outros sentimentos. A mãe de família e o cabeleireiro revisitam através de I.As momentos pinçados da vida na Terra e fazem suas descobertas e aceitações. Tudo isso para ajudá-los no grande desafio que é seguir em frente.
Machado de Assis é uma referência explícita, com o subtítulo “Memórias póstumas de gente como a gente”. Como você dialoga com ele e o que toma de empréstimo dessa tradição?
Acredito que, ao colocar em pauta o humor, a ironia e a crítica aos costumes da sociedade de hoje, reitero o cerne da obra de Machado de Assis: a sociedade do século XIX apresentada com o humor e a fina ironia machadianos.
Salvo as devidas proporções entre a grandiosidade do escritor e a pessoa que vos escreve, esse é o diálogo aberto com a tradição clássica que reitero no subtítulo do livro. Não construí o grande romance nem o personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas tenho como subtítulo as “memórias póstumas” de personagens comuns, eles são “gente como a gente”.
Pode soar como uma homenagem, pode soar irônico, pode soar pretensioso – e tudo isso ainda mais por vir de uma autora comum (gente como a gente), sem reconhecimento de um grande público leitor. Até Machado de Assis veria um humor irônico nisso, nessa abertura à popularização.
É também uma abertura democrática e diversa, como sinal dos tempos, para vários personagens comuns que são protagonistas de suas diferentes histórias e possuem suas singularidades. Eles pertencem a diferentes classes sociais e estão em diferentes momentos da vida, do jovem ao idoso. Todos têm algo muito pessoal e especial para compartilhar com os leitores.
Sou graduada em Letras pela USP, onde também fiz mestrado e doutorado. Estudar Letras, os clássicos e defender teses é um esforço colossal, prazeroso e “reconhecido”. Agora, escrever literatura brasileira – meu grande sonho desde pequena – e assumir todas as implicações da carreira de uma autora nacional é outra história… e eu estou apenas no começo.
A inteligência artificial aparece como ferramenta no pós-vida. Por que incluir essa tecnologia tão contemporânea em uma história sobre a morte?
Essa tecnologia que está na Terra também aparece no “Além” para auxiliar aqueles que precisam fazer uso dela. Assim como estamos aprendendo a utilizar as IAs aqui na Terra, o “Além” também dispõe desse recurso de alta tecnologia no pós-vida para aqueles que chegam até lá. A morte aconteceu na Terra, mas, com os recursos tecnológicos disponíveis no “Além”, é possível recomeçar. O desafio dos personagens é seguir em frente, e as IAs podem auxiliá-los nesse recomeço.
Entre todas as histórias, há uma personagem que você sente que mais representa a mensagem central do livro?
Acredito que a Anara representa uma mensagem central do livro pela própria dinâmica da vida e do pós-vida na Terra. A vida de todos segue no “Além” como segue na Terra. No caso de Anara, houve raiva, frustração, tristeza e também a volta por cima com muito trabalho, empenho, lutas diárias, percalços e também realizações em um novo lugar, em uma nova condição, portanto, é vida que segue.
Escrever sobre a morte, o arrependimento e o recomeço foi um processo catártico para você? Mudou sua forma de encarar a própria vida?
Ao mergulhar nas narrativas de personagens com suas particularidades e tão diferentes nas suas histórias de vida, foi um processo catártico realizado através das palavras, material de que é feita a literatura. Eu pude criar frases, orações, que formam parágrafos e se juntam na tessitura dos enredos. Em cada história algo vinha à luz e se revelava. Eu posso falar em construção de processo terapêutico feito pelos personagens nas narrativas escritas em primeira pessoa. Trabalhar esse tema da Morte, explorar as entranhas dos personagens, suas angústias, medos e frustrações no pós-vida; por diversas razões e por aquilo que não mais os pertences; trouxe para mim uma forma mais singela e serena de ver a vida que encontra a paz nos refúgios da mente.
Se pudesse deixar um conselho para alguém que está “empacado”, como muitos de seus personagens, o que diria?
Eu diria que existem momentos de estagnação que podem acontecer e devem ser respeitados. Mas é preciso tentar, aos poucos, arranjar forças para romper com a situação. É importante construir algo, ter um plano em mente para seguir com a vida. Pode começar com um desejo, uma ideia ou uma necessidade. Assim, a parada reflexiva vai virar movimento e trará uma mudança de estado para a própria vida, ou seja, a pessoa provavelmente irá “desempacar”. A recompensa vale todo o esforço da tentativa.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

