A GEOGRAFIA DO ABANDONO

Como a crise climática recai sobre as mulheres negras na América Latina

Este artigo não é sobre vítimas, mas sobre resistência. Justiça climática sem justiça racial é cortina de fumaça 

Quando celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25/07), um paradoxo cruel se revela: justamente aquelas que sustentam famílias, comunidades e economias inteiras são as primeiras a serem engolidas pelas crises que assolam nosso continente. Enquanto o mundo discute aquecimento global em salas com ar-condicionado, são as mulheres negras que enfrentam enchentes sem saneamento, secas sem água potável e furacões sem abrigo. Este artigo não é sobre vítimas, mas sobre resistência e sobre como a emergência climática está desenhada a partir do racismo estrutural. 

Os números não mentem: 67% das pessoas que vivem em áreas de risco ambiental no Brasil são negras (IPEA, 2022). Não é coincidência que favelas e periferias, majoritariamente negras, sejam construídas em encostas instáveis ou próximas a rios poluídos. O racismo ambiental se manifesta na ausência de planejamento urbano que proteja essas comunidades, na falta de investimento em infraestrutura básica e na naturalização de que “lugares de pobreza” devem ser invisíveis. 

Quando chove forte no Rio de Janeiro, as imagens de casas desabando na Baixada Fluminense viralizam por um dia. O que não aparece são as mulheres negras que, antes mesmo do desastre, já organizavam mutirões para reforçar barrancos com sacos de areia, uma engenharia de sobrevivência que o poder público nunca reconhecerá como legítima. 

Na América Central, o ACNUR (2023) revela que 80% das pessoas deslocadas pelo furacão Julia em Honduras e Nicarágua eram mulheres negras e indígenas. Por quê? Porque são elas que, na divisão sexual do trabalho, ficam responsáveis por buscar água, cultivar alimentos e cuidar dos doentes quando os serviços públicos falham. Enquanto isso, no Brasil semiárido, 56% das famílias chefiadas por mulheres negras foram obrigadas a pular refeições por causa da seca em 2023 (Rede PENSSAN). 

Essa não é uma crise natural, é uma crise política. O mesmo Estado que permite que grandes agricultores desviem água para irrigação é o que deixa as cisternas das comunidades quilombolas secarem. E quando essas mulheres migram para as cidades, esbarram em outro muro: o sistema tributário brasileiro, que cobra de quem tem menos. Dados da Oxfam mostram que famílias chefiadas por mulheres negras destinam 10,8% da renda a impostos indiretos (como luz e gás), contra 9,7% das famílias brancas. Pagam mais para sobreviver com menos. 

A sub-representação política agrava esse cenário. Enquanto países como Costa Rica e Panamá estabeleceram cotas de 51% para candidaturas femininas, o Brasil ocupa a vergonhosa 133ª posição em representatividade de mulheres no parlamento. E as negras, que são 28,5% da população? Menos de 2% das cadeiras no Congresso. 

Essa ausência tem custos concretos: 

  • Falta de políticas específicas para proteção de trabalhadoras rurais negras durante eventos climáticos extremos; 
  • Orçamentos que não chegam às comunidades tradicionais que preservam biomas; 
  • Vozes apagadas nas conferências internacionais sobre clima, onde se decidem os rumos do planeta. 

Não por acaso, as principais lideranças na defesa ambiental no Brasil vêm dos territórios: são as quebradeiras de coco babaçu, as pescadoras artesanais, as mulheres quilombolas. Elas não precisam de discursos sobre “desenvolvimento sustentável” – praticam isso há gerações. O que precisam é de poder de decisão. 

Crédito: Paulo Pinto/Agência PT

Há uma sabedoria ancestral nessa luta. Quando o Estado falha, são as mulheres negras que criam: 

  • Bancos comunitários para circular economia local durante crises; 
  • Hortas urbanas em terrenos abandonados; 
  • Redes de alerta para enchentes usando aplicativos de mensagem. 

A Marcha das Mulheres Negras por Reparação Histórica, da qual a Oxfam Brasil é aliada, carrega esse DNA: não pedem ajuda, exigem reparação. Porque justiça climática sem justiça racial é cortina de fumaça. 

Em 2024, quando a Amazônia queima e o Sudeste afunda em chuvas torrenciais, precisamos perguntar: qual futuro estamos construindo? Um onde: 

  1. Territórios tradicionais tenham titulação definitiva e proteção real; 
  1. Sistemas de alerta climático cheguem primeiro às favelas; 
  1. Mulheres negras ocupem pelo menos 30% dos espaços de decisão ambiental. 

O racismo não é um detalhe na crise climática, é seu motor. E as mulheres negras, há séculos, não apenas denunciam esse fato como constroem alternativas. Cabe ao resto da sociedade aprender com elas – antes que a próxima tempestade nos leve todos. 

 

Viviana Santiago é diretora-executiva da Oxfam Brasil. 

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