“MICHELLE BOLSONARO, SANTA, MEIGA E POLÍTICA?”

Como a “santidade política” virou poder para Michelle Bolsonaro em 2026

Como Michelle Bolsonaro mobiliza publicamente a ideia de “santidade política” na arena brasileira durante 2026, ano marcado pelas disputas eleitorais?

Santo, Santo

É o Senhor, Deus Poderoso

Digno de louvor, Tu és, Tu és

(Agnus Dei)

“E eu me alegro na cruz,
Dela vem graça e luz,
Para minha santificação”

(Hino 291 do Hinário Cristão)

Os atributos são reconhecidos no universo evangélico como sinais de maturidade espiritual – entre eles, o perdão, a paz, a mansidão, a verdade, a bênção e a confiança na providência divina – podem ser convertidos em recursos de autoridade política. Mais do que uma identificação religiosa pública, a “santidade” passa a operar como forma de distinção, legitimação e produção de poder simbólico. Para observar esse processo, é necessário acompanhar três “cenas digitais” protagonizadas por Michelle Bolsonaro, nas quais sua linguagem religiosa se articula progressivamente com o conflito político, a recomposição de alianças e a definição de quem estaria legitimamente preparado para governar.

Para compreender essa operação, é necessário considerar o significado da “santidade” no universo evangélico. A categoria não corresponde simplesmente a uma moralidade individual ou a uma “vida sem pecado”. Ela envolve uma “caminhada espiritual” orientada pelos ensinamentos cristãos, marcada pela transformação da conduta, pela produção de distinções diante do “mundo” e, sobretudo, pelo reconhecimento comunitário de uma vida considerada exemplar. A “santidade” pode, assim, conferir legitimidade ao fiel e contribuir para seu reconhecimento como alguém espiritualmente maduro e apto ao exercício de determinadas funções e autoridades religiosas. No universo pentecostal, essa autoridade também pode estar relacionada à manifestação de “dons espirituais”, como a glossolalia, prática que Michelle Bolsonaro já demonstrou publicamente.

Um dos referenciais bíblicos fundamentais para essa compreensão aparece em Gálatas 5,22-23, quando Paulo apresenta os chamados “frutos do Espírito”, como amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Na tradição evangélica, esses elementos constituem sinais da ação do Espírito Santo na vida do fiel e podem funcionar como marcas públicas de maturidade espiritual. É justamente essa gramática que ganha importância nas manifestações de Michelle. Ao apresentar-se por meio do perdão, da mansidão, da verdade, da bênção e da confiança em Deus, ela não apenas mobiliza referências religiosas, mas constrói uma determinada imagem pública de si mesma. Como essa imagem pode ser convertida em autoridade na arena política?

A hipótese desenvolvida é que a “santidade” possui uma dimensão social que permite sua passagem do universo religioso para o político. Ela produz distinções, estabelece critérios de pertencimento, reconhece comportamentos considerados exemplares e contribui para legitimar determinadas lideranças. Quando esses atributos são mobilizados em disputas eleitorais, podem funcionar como uma espécie de capital simbólico capaz de produzir confiança e autoridade. No caso de Michelle Bolsonaro, essa operação aparece de maneira particularmente evidente em três momentos. Primeiro, quando o perdão e os “frutos do Espírito” são utilizados para responder a um conflito político. Depois, quando o perdão se transforma em reconciliação e recomposição de uma aliança. Por fim, quando a santificação deixa de ser apenas uma característica pessoal e passa a definir quem estaria preparado para ocupar espaços de poder como “canal” e “instrumento de Deus” na Terra.

Antes de analisar essas três cenas, contudo, é necessário recuperar brevemente a trajetória histórica da categoria de “santidade” no cristianismo. Essa digressão permite compreender como uma noção inicialmente relacionada à separação e à consagração ao divino foi progressivamente associada à transformação da vida cristã, à experiência de santificação, à disciplina religiosa, ao reconhecimento comunitário e, posteriormente, à manifestação carismática do Espírito Santo no pentecostalismo. É nesse longo processo de ressignificação que se torna possível compreender a “santidade” não apenas como categoria teológica, mas como uma forma social de produção de autoridade. É justamente essa dimensão que permite analisar como Michelle transforma a linguagem da santificação em uma gramática política capaz de falar sobre perdão, reconciliação, liderança, vocação e poder.

Uma breve digressão histórica sobre a categoria de “santidade”

A categoria de “santidade” possui uma longa trajetória no cristianismo e passou por diferentes ressignificações ao longo de sua história. Antes mesmo do cristianismo, no Antigo Testamento, os termos hebraicos qādôš (“santo”) e qōdeš (“santidade”) não designavam originalmente uma condição de “perfeição moral”, mas uma relação de pertença e separação em relação à esfera do divino. Conforme observa Osvaldo Luiz Ribeiro (2002)[1], ao analisar o culto à serpente de bronze (Nehushtan), a santidade constitui inicialmente uma categoria de caráter cultual, relacionada à distinção entre o domínio de Yahweh e o universo ordinário da existência humana. Pessoas, objetos, espaços e tempos tornavam-se “santos” porque eram retirados do uso comum e consagrados à divindade. Nesse sentido, a santidade expressava a alteridade do divino e estabelecia fronteiras entre o puro e o impuro, o profano e o sagrado. Ao longo da tradição bíblica, entretanto, essa categoria passou também a incorporar dimensões éticas e comportamentais, aproximando a ideia de santidade da maneira como os indivíduos deveriam conduzir suas vidas.

No cristianismo, essa dimensão ganhou novos sentidos à medida que a santidade passou a ser associada ao processo de transformação da vida do cristão. Embora preservasse a ideia de separação e consagração ao divino, a “santidade cristã” passou progressivamente a significar uma trajetória de conformação da existência aos valores e ensinamentos de Jesus. Essa compreensão encontrou uma formulação particularmente importante na tradição metodista desenvolvida por John Wesley, no século XVIII. Influenciado pela tradição anglicana e pelo pietismo, Wesley deslocou a santidade de uma condição predominantemente cultual para uma experiência de transformação espiritual e interior. Para o líder metodista, a “santificação” constituía uma obra contínua da graça divina, iniciada na justificação e orientada para a renovação integral da pessoa mediante a ação do Espírito Santo[2] [3]. A santidade passou, assim, a ser compreendida como um processo no qual a experiência religiosa deveria produzir efeitos concretos sobre a conduta e sobre a relação do indivíduo com o mundo.

O centro da compreensão wesleyana encontra-se na doutrina da “perfeição cristã” (Christian Perfection) ou da “inteira santificação” (entire sanctification). Wesley não compreendia essa perfeição como ausência absoluta de limitações humanas, mas como uma forma de maturidade espiritual alcançada pela ação da graça divina. A santidade representava, portanto, uma transformação progressiva da pessoa, na qual o pecado deixaria de exercer domínio sobre sua existência. Essa experiência estava relacionada à disciplina religiosa, às práticas de piedade, à solidariedade comunitária e ao compromisso com os pobres, elementos fundamentais do metodismo do século XVIII. Dessa maneira, a santidade deixava de significar apenas separação em relação ao mundo e passava a designar também uma maneira específica de viver nele, orientada por uma conduta considerada coerente com os ensinamentos cristãos e com os chamados “frutos do Espírito” apresentados em Gálatas 5.

Essa elaboração contribuiu decisivamente para o desenvolvimento do movimento da santidade (Holiness Movement), nos Estados Unidos, durante o século XIX. Nesse novo contexto, a doutrina da “inteira santificação” foi reinterpretada como uma experiência espiritual posterior à conversão, frequentemente denominada de “segunda bênção”. Os movimentos de santidade norte-americanos enfatizavam a possibilidade de uma vida transformada pela ação do Espírito Santo, marcada pela vitória sobre o pecado e por uma experiência contínua da presença divina. Essa tradição encontrou terreno particularmente favorável nos avivamentos (revivals) estadunidenses, nos quais a conversão individual, a experiência emocional da fé e a manifestação pública da ação divina ocupavam posição central. A santidade passou, assim, a articular de maneira cada vez mais evidente três dimensões que serão importantes para a discussão deste artigo, a transformação moral, a experiência espiritual e o reconhecimento comunitário de uma vida considerada santificada.

É nesse ambiente religioso que surgiu o pentecostalismo no início do século XX. Herdeiro de elementos importantes do movimento da santidade, o pentecostalismo promoveu, contudo, um novo deslocamento ao enfatizar o chamado “batismo no Espírito Santo” e a manifestação pública dos dons espirituais. A experiência da santificação passou a estar associada não apenas à separação do pecado e à construção de uma vida cristã disciplinada, mas também à manifestação da ação divina por meio de carismas como a glossolalia, as profecias e as curas. Como observa Synan (2009)[4], o pentecostalismo manteve elementos fundamentais da busca por uma “vida santificada” presente nos movimentos holiness, ao mesmo tempo que ampliou essa experiência por meio da dimensão carismática. Nesse processo, a santidade adquiriu uma dimensão ainda mais pública, pois determinados indivíduos passaram a ser reconhecidos por suas comunidades como portadores de dons espirituais e como pessoas especialmente marcadas pela ação do divino.

No contexto brasileiro, essa tradição foi posteriormente reinterpretada pelas igrejas pentecostais, entre elas, a Assembleia de Deus. Nesse universo, a santificação passou a ser associada à experiência do Novo Nascimento, ao batismo no Espírito Santo e à construção de uma vida distinta dos chamados “valores mundanos”. A santidade tornou-se, assim, um importante marcador de pertencimento e distinção, manifestando-se por meio de códigos de conduta, práticas disciplinares e comportamentos considerados compatíveis com a vida cristã, como a mansidão, a rejeição do uso de palavras consideradas inadequadas e, em determinados grupos, a abstinência de bebidas alcoólicas, drogas e cigarros. Elementos herdados do movimento holiness foram, desse modo, combinados com a experiência pentecostal brasileira, marcada pela expectativa escatológica, pela centralidade dos dons espirituais e pela valorização da ação direta do Espírito Santo. Embora assumindo formas distintas entre protestantes históricos e grupos pentecostais, a santidade continuou funcionando como referência para a construção de identidades, para o reconhecimento comunitário e para a legitimação de determinadas formas de autoridade.

Essa trajetória permite perceber que a categoria de “santidade” não permaneceu estática ao longo da história cristã. Ela partiu de uma concepção fortemente relacionada à separação e à consagração ao divino, incorporou progressivamente dimensões éticas e comportamentais, ganhou uma formulação específica como experiência de transformação espiritual em Wesley, foi reelaborada pelos movimentos de santidade norte-americanos e adquiriu uma dimensão carismática no pentecostalismo. Ao longo desse percurso, a santidade deixou de designar apenas uma relação entre o indivíduo e o divino e passou também a produzir formas de distinção, reconhecimento e autoridade dentro das comunidades religiosas. É justamente essa dimensão social que interessa ao presente artigo. Quando atributos associados à vida santificada passam a ser apresentados publicamente como sinais de maturidade espiritual, eles podem ultrapassar os limites da esfera religiosa e ser mobilizados em outros campos sociais. No caso de Michelle Bolsonaro, é essa passagem que será examinada nas três cenas digitais a seguir, nas quais a autoridade construída a partir da imagem de uma mulher “santificada” é progressivamente articulada ao perdão, à reconciliação, à missão e, finalmente, à própria ocupação do poder político.

Crédito: Alan Santos/PR

Cena 1: Michelle veste a santidade e transforma o perdão em poder pela primeira vez

A primeira cena sobre a “santidade política” exercida por Michelle Bolsonaro aparece em um vídeo publicado em 24 de junho de 2026, no qual responde publicamente aos ataques que vinha sofrendo da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. Mais do que uma manifestação familiar, o vídeo funciona como um testemunho público construído a partir de categorias do universo evangélico. Michelle organiza sua resposta pela linguagem do “perdão”, da “ausência de mágoa” e da entrega das ofensas à ação divina. “Não preciso disso. Eu já liberei o perdão faz muito tempo”, afirma, acrescentando que não carrega “rancor no coração” e que entrega a Deus “tudo de mal que me fazem”. Seu discurso produz a imagem de uma liderança serena, capaz de controlar os próprios afetos e responder à agressão por meio de uma conduta apresentada com o capital político cristão, sem ódios, rancores, mas, sobretudo, moralmente superior. O conflito político intra-bolsonarismo passa, assim, a ser narrado como um testemunho de fé.

Essa construção ganha força pela dimensão visual do vídeo. Michelle aparece vestindo uma camisa com palavras associadas aos chamados “frutos do Espírito”, apresentados nos textos bíblicos de Paulo, em Gálatas 5,22-23, como amor, paz, alegria, mansidão e fidelidade. A escolha da roupa acompanha um discurso marcado pelo conflito e pela referência àquilo que teria recebido como uma “punhalada”. O contraste é significativo. Enquanto o discurso apresenta uma situação de confronto, o corpo de Michelle aparece revestido por palavras que simbolizam virtudes cristãs. A roupa deixa de ser apenas um detalhe da cena e para o público cristão passa a funcionar como parte importante da mensagem. Ela não apenas fala sobre virtudes religiosas, mas aparece visualmente identificada com elas. É nessa combinação entre palavra, corpo e imagem que sua performance de “santidade política” ganha força, produzindo uma representação pública de Michelle como mulher cristã, serena e espiritualmente madura (“santificada”).

A referência aos “frutos do Espírito” também sustenta uma posição de autoridade. Ao afirmar que “é ao meu Deus que essas pessoas prestarão contas” e distinguir perdão de reconciliação, Michelle preserva sua capacidade de julgamento mesmo quando afirma perdoar. “Perdão é libertação. Não é obrigação”, conclui. O perdão, portanto, não significa renunciar à autoridade, mas funciona como uma forma de poder. Ela aparece como aquela que reconhece a ofensa, controla seus afetos e decide como responder a ela, colocando sua conduta sob a orientação divina. A “santificação” torna-se, desse modo, uma forma de distinção que permite deslocar o conflito político para uma oposição entre diferentes maneiras de agir, nas quais Michelle procura ocupar o lugar daquela que permanece guiada pela fé.

Essa mesma gramática aparece quando Michelle coloca seu futuro político nas mãos do divino. Ao afirmar que sua prioridade é “cuidar da minha família, do meu marido que está precisando de mim” e que seu “futuro político está nas mãos de Deus”, ela não abandona a política, mas apresenta sua trajetória como submetida à providência do Outro. Ao mesmo tempo, afirma que, no momento adequado, será ela própria quem falará, pois “não preciso de porta-voz”. A humildade religiosa convive, assim, com uma afirmação de sua autonomia política. Essa combinação é importante para compreender sua “santidade política”, pois Michelle não aparece como uma personagem passiva ou afastada das disputas. Sua espera é apresentada como parte de uma “missão”, e sua autonomia é legitimada pela própria relação com o divino.

A construção se completa quando Michelle afirma que “abençoei a escolha do Jair e a pré-candidatura do Flávio” e apresenta sua atuação como uma missão que reúne família, fé e país. Ao dizer que segue “cuidando do meu marido, cuidando da minha filha e servindo ao meu país da forma que posso” e concluir que “essa é a minha missão. E dessa, só Deus me tira”, ela transforma o cuidado privado em vocação pública. Perdão, domínio próprio, verdade, bênção, missão, esperança e confiança na providência divina passam a compor o complexo que é a imagem de uma liderança feminina. Assim, a cena revela um dos elementos centrais da “santidade política” de Michelle Bolsonaro. Ela não apenas se apresenta como mulher evangélica, mas converte publicamente atributos reconhecidos como sinais de maturidade espiritual em recursos de autoridade política. Seu discurso funciona simultaneamente como testemunho cristão e como construção de uma liderança que procura apresentar sua participação na política como parte de uma missão confiada pelo divino.

Cena 2: A reconciliação da santificada com Flávio em prol da nação

A segunda cena de santidade política ocorre em 24 de julho, quando Michelle Bolsonaro grava um vídeo em apoio a Flávio Bolsonaro após receber publicamente seu pedido de desculpas. Depois de afirmar que havia se recolhido e se afastado das articulações políticas, Michelle retorna à cena apresentando-se a partir de uma posição de autoridade santificada. Ela afirma ter recebido as palavras de Flávio “com muita paz” e destaca a importância da “verdade”, retomando elementos presentes na primeira cena, como paz, verdade, valor, arrependimento e perdão. O momento central ocorre quando declara: “Por isso, aceito o seu pedido. Eu te desculpo”. O pedido de desculpas coloca Flávio na posição daquele que reconhece o erro, enquanto Michelle ocupa o lugar daquela que possui “poder religiosa” para conceder o perdão. A reconciliação, portanto, não elimina a assimetria produzida pelo conflito anterior, mas a reorganiza a partir de sua posição de “autoridade cristã” mais santificada.

O perdão, contudo, não permanece restrito à dimensão religiosa ou familiar. Logo após afirmar “eu te desculpo”, Michelle propõe: “Vamos sentar, vamos conversar, ajustar os detalhes” e, sobretudo, “juntos, vamos reunir um grande exército de pessoas de bem para resgatarmos o nosso Brasil”. O gesto de perdoar transforma-se, assim, em mecanismo de recomposição política. Fazendo com que Michelle retome sua experiência à frente do PL Mulher e o vínculo construído com mulheres e apoiadores, convertendo esse capital religioso e político em força para a disputa eleitoral. A reconciliação com Flávio deixa de ser apenas uma superação do conflito e passa a produzir uma nova possibilidade de unidade no setor bolsonarista. O perdão, enquanto expressão da santificação, torna-se também recurso de poder para o elemento da “santificação política”.

A cena se encerra reforçando a ligação entre reconciliação, providência divina e projeto nacional. Michelle agradece a Celina Leão e Damares Alves pelo processo de aproximação e afirma que “Deus está no controle de tudo” e que “ele nos dará a vitória final”, concluindo com “Que Deus nos abençoe!”. A vitória política é, desse modo, inscrita em uma narrativa de providência divina, na qual a reorganização das forças políticas aparece vinculada a um propósito maior. A “madura” e “santificada” Michelle não apenas perdoa e reconcilia, mas abençoa, convoca e participa da reconstrução de uma aliança política apresentada como necessária para a nação. É nesse movimento que a “santidade política” ganha força pois entre o setor evangélico o “perdão” produz autoridade, a reconciliação produz unidade e a fé oferece a linguagem de legitimação para a disputa pelo poder.

Cena 3: Michelle transforma a santificação em vocação para o poder

A terceira cena de “santidade política” aparece em 11 de agosto de 2026, quando Michelle Bolsonaro publica um vídeo no Instagram, no qual, relaciona novamente a vida cristã ao exercício do poder político. Ao perguntar quem deverá ocupar “o lugar de poder e de decisão”, ela responde recorrendo a atributos associados à santificação: “aqueles que estão de mãos limpas, que têm corações puros, que não juram enganosamente e nem entregam sua alma à vaidade”. Na sua imaginação política, a prática pública é submetida a um critério de seleção moral e religioso. Não basta ocupar o poder, é necessário apresentar sinais de uma vida considerada “correta” diante do divino. A expressão “homens e mulheres de bem” reforça a “santificação política” em distinção e transforma atributos cristãos em critérios para definir quem estaria legitimamente preparado para governar.

O elemento central da cena aparece quando Michelle afirma “nós somos canais, nós somos instrumentos de Deus aqui na Terra”. A política assim é apresentada como espaço de realização de uma “vontade divina” por meio de sujeitos considerados preparados “espiritualmente” para exercê-la. Quando afirma que “Deus entregou o mundo, Deus entregou a Terra para os homens de bem governar”, Michelle estabelece uma ligação direta entre a ação do divino e a ocupação dos espaços de poder. A “santificação”, portanto, deixa de funcionar apenas como atributo individual e passa a operar como fonte do exercício político. Ser “de bem”, possuir “coração puro” e ter “mãos limpas” tornam-se marcas capazes de autorizar determinados sujeitos a participar da condução da sociedade.

Por fim, quando Michelle afirma que “é para este momento da nossa nação que nós somos chamados”, a participação política é transformada em “vocação religiosa”. O “chamado” apresenta a ação política como uma missão que ultrapassa a escolha individual e encontra sua justificativa no divino. A cena torna explícito aquilo que nas anteriores aparecia por meio do perdão, da bênção, da paz e da reconciliação: a santificação pode ser convertida em autoridade para a vida pública. Michelle apresenta sua “caminhada cristã” não apenas como uma dimensão religiosa, mas como fundamento para pensar quem deve governar e para qual finalidade. Nesse sentido, demostra que a “santidade política” aparece como a transformação da experiência religiosa em linguagem de poder, na qual ser santificado significa estar preparado para servir, governar e atuar como canal da vontade do divino na Terra.

Conclusão

A análise das três cenas mostra como Michelle Bolsonaro constrói uma imagem pública na qual fé e política deixam de aparecer como dimensões separadas, mas estão encaroçados. Na primeira cena, ela mobiliza os “frutos do Espírito”, o perdão, a paz, a verdade e a bênção para apresentar uma conduta cristã em amplo processo de desenvolvimento em “santificação” (exemplar). Na segunda, o perdão, é a moeda de sua “santificação política” e ganha força e se transforma em capacidade de reconciliar, reorganizar alianças e reunir apoiadores em torno de um projeto eleitoral. Na terceira, essa operação chega ao seu ponto mais explícito, quando Michelle afirma que homens e mulheres de bem são “canais” e “instrumentos de Deus aqui na Terra” e que estão sendo “chamados” para este momento da nação. Portanto, nesta caminhada pública de Michelle se mostra que a santidade política ocorre quando atributos reconhecidos no universo religioso são sinais de “maturidade espiritual” nos quais funcionam como recursos de autoridade, legitimidade e da afirmação do poder simbólico.

É nesse sentido que a pergunta do título, “Michelle Bolsonaro, ‘santa’, ‘meiga’? Política!”, ganha importância política. Isso porque, no artigo, não se buscou afirmar que Michelle seja “santa”, mas de compreender como ela performaticamente constrói uma imagem de “santificação” e que isso a “transforma” num denso capital político mesmo dentro do setor bolsonarista. Perdoar, abençoar, demonstrar paz, defender a verdade, apresentar-se como “mulher de missão” e afirmar-se “como instrumento de Deus” produzem uma autoridade que ultrapassa o espaço religioso e alcança a ponta da disputa eleitoral. Nas três cenas, a santificação deixa de ser apenas uma experiência da vida cristã e passa a oferecer uma gramática para definir quem merece confiança, quem pode governar e quem estaria preparado para conduzir a nação. É justamente aí que a religião se torna política de maneira particularmente forte: quando a imagem da mulher cristã “santificada” se converte em imagem de uma liderança politicamente autorizada a falar, reconciliar, convocar e quem sabe no futuro governar – uma nova tecedura de um governo cristão autoritário ainda mais denso.

 

Fabio Py[5] é professor no PPGSP (IUPERJ/UCAM), doutor em História pela UERJ, em Teologia pela PUC-RIO e lidera o Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID).

 

[1]RIBEIRO, Osvaldo Luiz. Nehushtan: pesquisa exegética, fenomenológica e histórico-social sobre a origem, a supressão e o suporte social do culto à serpente de bronze em Israel, com base em Nm 21,4-9; Is 6,1-7 e 2Rs 18,4. Rio de Janeiro: Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, 2002. Dissertação (Mestrado em Teologia).

[2] WESLEY, John. The works of John Wesley: sermons III, 71-114. Nashville: Abingdon Press, 1986.

[3] COLLINS, Kenneth J. The theology of John Wesley: holy love and the shape of grace. Nashville: Abingdon Press, 2007.

[4]SYNAN, Vinson. O século do Espírito Santo: 100 anos do avivamento pentecostal e carismático. São Paulo: Vida, 2009.

[5] PY, Fábio. Pandemia cristofascista. São Paulo: Recriar, 2020.

 

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