ALGORITMIZAÇÃO DO AZAR

Como as bets utilizam algoritmos para gerar mais lucro

Aos poucos, a algoritmização vai tirando do indivíduo a capacidade de escolha em nome de uma otimização

Talvez a psicologia consiga compreender quando o lazer vira hábito e quando o hábito vira vício. Bem como, quais são as motivações, as faltas ou o vazio que faz um indivíduo a mergulhar em uma rotina que o destrói fisicamente e psicologicamente. Surpreendente é perceber que para muitos a ideia de sorte vem como uma habilidade humana, fugindo de uma concepção de crença, ou seja, é como se o azar fosse não uma maldição e sim, a ausência total de um talento, tal qual correr maratonas, acertar o alvo com uma flecha ou realizar cálculos de forma rápida sem uma ferramenta de apoio. É possível, ainda, refletir se a habilidade ou talento sem treinamento frequente tornar-se-á um fruto azedo ante a sua possível natureza doce. É nessa lógica que, ao entender a sorte como habilidade, que mora o obscuro e nefasto caminho do vício: para aumentar o sucesso, é preciso colocar a sorte em uma prática rotineira.

Seja a sorte entendida como habilidade ou crença, há uma certeza que é irrefutável, terá alguém contabilizando lucros. Jogos de apostas, cassinos e loterias vão estar disponíveis como centros de práticas de sorte ou espaços de fé à prova de azar. E se antes, tudo isso era encontrado na clandestinidade, nas rodas informais de amigos, casas lotéricas ou anunciados na TV como carnês ou títulos de capitalização, agora basta baixar um aplicativo e começar a jogatina.

A sorte agora está plataformizada, são diversos jogos tidos como “cassinos online” ou a possibilidade de realizar apostas de qualquer valor em diferentes eventos, desde jogos esportivos até aleatoriedades, como vencedores do Oscar ou até quem será o próximo Presidente da República. É assim que os algoritmos entram no jogo e tomam o controle, para azar dos jogadores e muita sorte das bancas.

No capitalismo digital, os algoritmos assumem um papel central na ampliação do controle, da vigilância e da gestão de pessoas e do trabalho. Seu principal objetivo é gerar lucro por meio de diferentes operações, seja pelo domínio psíquico e pelo controle da circulação de informações, seja pela organização do trabalho em plataformas digitais. Nesse modelo, trabalhadores são remunerados pela execução de tarefas intermediadas por aplicativos, como Uber e iFood, por exemplo.

Perceba que, aos poucos, a algoritmização vai tirando do indivíduo a capacidade de escolha em nome de uma otimização. Se um algoritmo entender quais são suas preferências, ele será capaz de te indicar filmes, séries, músicas e até um par romântico, sem que você perca tempo escolhendo a partir de um imenso catálogo.

Sem grande esforço, os algoritmos conseguem inferir onde você mora a partir dos dados da Uber e identificar suas preferências gastronômicas com base nas informações do iFood. Seu perfil político pode ser mapeado por plataformas como YouTube e Instagram, enquanto sua formação acadêmica e seu local de trabalho podem ser obtidos por meio do LinkedIn. Embora os algoritmos sejam desenvolvidos de forma específica para cada plataforma, eles se articulam por meio do cruzamento de dados, o que possibilita a construção de um amplo conjunto de metadados. Como resultado, forma-se um perfil detalhado de cada usuário, com elevado potencial de exploração comercial, contribuindo para a geração de lucros para essas plataformas.

Nesse encadeamento de informações, um apostador é encontrado e passa a receber diversas ofertas por dia para colocar a sua sorte em prática. Em um primeiro momento, irão multiplicar propaganda de “bets” em redes sociais como Instagram e TikTok, com diferentes argumentos e ganhos ilimitados. Ainda, há um exército de influenciadores que irão endossar o discurso motivador de que alguém pode ganhar muito dinheiro fazendo apostas certas.

Nos aplicativos, sempre vão ter diversas possibilidades de apostas, pois a casa nunca encerra o expediente, a qualquer horário e dia, haverá a possibilidade de apostar. E se a sorte é fé ou talento, o usuário não precisa entender sobre o que será apostado, pode ser qualquer esporte ou tema, se sorte tem ou sortudo é, o sucesso será garantido.

E se não há aposta que apeteça, há algum jogo que atraia. Os “cassinos” estão disponíveis para que os diferentes tipos de jogos façam o indivíduo se sentir em Las Vegas. Caça-níqueis, roletas e muitos jogos de cartas operados por algoritmos que irão beneficiar as plataformas a partir do azar do jogador.

Um argumento comum entre muitos influenciadores é o desempenho das “odds” que buscam mostrar alguma probabilidade de ganho e o possível retorno financeiro. Para que diversos eventos tenham suas “odds”, algoritmos são utilizados para realizar o cálculo e assegurar os maiores ganhos para a plataforma. Assim, é possível manipular os ganhos de um conjunto de apostadores a partir do uso de algoritmos que calculam o retorno mais adequado para garantir o lucro da plataforma de apostas.

A partir da construção de um perfil em sites e aplicativos, com base em metadados do usuário, essas ferramentas podem entregar um conjunto de jogos e apostas personalizadas. Por exemplo, se um usuário “A” tem preferência por apostas no time para qual torce, as informações, disposição do layout do aplicativo e propaganda que verá nas redes sociais serão diferentes do usuário “B” que prefere caça-níquel. O que está semelhante entre ambos é a busca da ferramenta para que esses usuários possam passar mais tempo online e pagando para testar a sorte. Enquanto o usuário “A” será motivado a apostar em outros times e ligas de futebol, o usuário “B” será atraído para outros tipos de jogos no cassino, como se ambos estivessem em um jogo que quanto mais participam, mais ganham.

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Jonathan Crary, em seu livro 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono, argumenta que o descanso e o sono são redutos humanos contra o ímpeto capitalista para uma produção contínua. Há um desafio que é tornar o ser humano uma máquina capaz de abster do descanso e ser capaz de produzir e consumir em uma jornada 24/7, para tal, é necessário que um ecossistema de serviços esteja disponível para que qualquer um possa estar inserido e motivado a explorá-lo até ao limite.  É como reflete o autor “O tempo 24/7 é um tempo de indiferença, ao qual a fragilidade da vida humana é cada vez mais inadequada, e onde o sono não é necessário nem inevitável. Em relação ao trabalho, torna plausível, até normal, a ideia do trabalho sem pausa, sem limites (…). A ausência de restrições ao consumo não é simplesmente temporal. Foi-se a época em que a acumulação era, acima de tudo, de coisas. Agora nossos corpos e identidades assimilam uma superabundância de serviços, imagens, procedimentos e produtos químicos em nível tóxico e muitas vezes fatal.”

Os algoritmos operam para viciar o indivíduo e a gerenciá-lo de tal forma que ele passe a compreender que uma plataforma não é apenas extensão do seu corpo, mas parte vital para sua existência. A algoritmização avança em um consumo que visa retorno naquilo que se investe. Filmes e séries com exclusividade no streaming, acúmulo de corpos e prazer nos aplicativos de relacionamento, salário entregando parte dos ganhos em apps de trabalho e claro, possíveis lucros em apostas e jogos nos cassinos digitais.

Enquanto há discussões sobre criar regras mais rígidas para as bets, os algoritmos passam incólumes, tanto como acontece nas redes sociais e em tantas outras plataformas. Ou seja, não se trata de regular plataformas, apenas, mas compreender o quanto os algoritmos são responsáveis pelo funcionamento delas e que são eles os responsáveis pela potencialização de lucros de diferentes serviços, inclusive, pelo aprofundamento do vício de diversos usuários.

Quando as bets e cassinos passam a ser algoritmizados, os indivíduos são controlados, monitorados e motivados a apostar de forma compulsiva, testando a sua sorte. Isso rendeu, em 2025, R$ 37 bilhões para as empresas de apostas online, de acordo com o Ministério da Fazenda. De acordo com a Quaest, estima-se que 29% dos brasileiros apostam em bets, sendo a região Sul do Brasil com maior percentual de apostadores (37%).

Em pesquisa recente publicada no IBRE-FGV, pelo autor Flávio Ataliba Barreto, há a afirmação de que “o problema central das bets não está no produto em si, mas na arquitetura que o envolve. Trata-se de um sistema integrado de elementos deliberadamente projetados para reduzir sistematicamente as barreiras psicológicas à decisão e manter o usuário em ciclos repetidos de engajamento”. Para além disso, o autor ainda afirma que as plataformas de apostas são projetas para construir uma camada adicional de elementos voltados a explorar vieses cognitivos específicos.

São esses viesses cognitivos que são altamente explorados pelos algoritmos que minam as finanças do usuário e aprofunda o indivíduo em uma crise psíquica e financeira a partir da dependência do aplicativo. Flávio Ataliba Barreto, em seu texto, aponta que a regulação das bets deve contemplar o design da plataforma, pois em seu argumento, é nessa categoria que se encontra um risco ao indivíduo que pode trazer impactos econômicos e de saúde. Para além do design, a regulação deve direcionar atenção aos algoritmos que são catalizadores da atenção, da contínua vigilância dos usuários e da personalização com o claro objetivo de vício nos jogos.

A algoritmização criou estruturas em que o indivíduo passou a ser considerado usuário, tornando-o em consumidor em sua essência enquanto trafega pelos aplicativos, plataformas e sites. O algoritmo deve ser compreendido como a estrutura-base que irá conectar uma oferta ao demandante, aprofundando as relações de trocas monetárias a tal ponto que um indivíduo esteja tão intrínseco ao sistema digital, que não se veja sem o seu uso.

Ainda não é possível afirmar que um algoritmo seja capaz viciar uma pessoa em jogos e apostas online, mas é plausível apontar que eles são responsáveis pela manutenção dessa pessoa em ambientes que desidratam seus ganhos e alimentam seus vícios.

Portanto, a relação de bets com a algoritmização é a construção de um ecossistema que busca recrudescer os lucros dessas empresas a partir do adoecimento e empobrecimento dos indivíduos que ali estão. Os algoritmos de redes sociais, streaming e bets são capazes de interagir entre si para que consigam potencializar os ganhos de todas as empresas envolvidas.

Assim, é necessário que os algoritmos estejam presentes na regulação das plataformas de apostas e jogos online, sendo vistos como núcleo estratégico capaz de monitorar, motivar e gerenciar indivíduos, bem como, personalizar ambientes digitais para extrair mais dinheiro daqueles que acreditam ter sorte ou a habilidade de fugir do azar.

 

Herbert Salles é doutor em Economia pela UFF.

Leia mais sobre o tema: