Como as fake news têm impactado as eleições de 2022

ELEIÇÕES 2022

Como as fake news têm impactado as eleições de 2022

por Samantha Prado
28 de outubro de 2022
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Nas últimas 48 horas que antecederam o primeiro turno, foi possível notar uma intensa movimentação em torno do disparo de notícias falsas, que ganharam força e se disseminaram mais facilmente. Essa situação pode se repetir nos últimos dias do segundo turno. 

A utilização de fake news em campanhas não é nenhuma novidade das eleições presidenciais de 2022, mas é interessante acompanhar o refinamento e mudanças de suas técnicas e formatos. Após um primeiro turno marcado por trocas de acusações, uso intenso das redes sociais e um resultado mais positivo do que o esperado para o bolsonarismo, nos perguntamos como a disseminação de notícias falsas tem impactado o processo eleitoral.  

Nas últimas 48 horas que antecederam o primeiro turno, foi possível notar uma intensa movimentação em torno do disparo de notícias falsas. Para Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, a disseminação da fake news parece estar seguindo um padrão de quatro etapas. 

Antes de mais nada, elas são criadas com base em discursos que circulam dentro da sociedade, onde essas “informações” são repetidas à exaustão e atingem um alcance máximo de disseminação. Aguarda-se, então, a chegada de um momento oportuno para ampliar e consolidar as fake news, quando as brechas na regulamentação e a lentidão do processo jurídico ajudam o seu espalhamento. 

No primeiro turno, essa brecha foi encontrada nas 48 horas antecedentes à eleição. “Identificamos que na reta final as coisas se intensificaram muito. Obviamente antes tinha fake news, mas elas eram mais restritas, com menos visibilidade. Quando a gente tem aquele vácuo de comunicação nas últimas horas, quando não tem mais programa de TV, não pode mais fazer comício, etc., houve um aumento do nível de visibilidade que esses discursos tinham e também da força dos argumentos mentirosos que estavam sendo usados”, conta Nina.  

Reprodução Twitter 

Um exemplo que a pesquisadora dá para ilustrar esse sequenciamento de ações é o caso do falso áudio em que Marcola declararia voto em Lula. Ao fim da tarde da véspera do primeiro turno, às 18h45, o site Antagonista publicou uma matéria sobre esse suposto áudio e foi seguido pelo YouTube do Pingo nos Is, da Jovem Pan, que publicou o vídeo às 20h30. Cerca de vinte minutos depois de postado, o vídeo já era o primeiro na recomendação do Youtube para usuário anônimo. Só no dia seguinte, em plena votação, o TSE pediu a remoção. Ao todo, a produção ficou no ar por 16 horas e teve mais de 1,4 milhões de views. Neste período, o termo “Marcola” teve grande pico no Google, demonstrando que houve um aumento de interesse no assunto. 

Nina acredita que essa situação de alvoroço nas últimas horas eleitorais pode se repetir no segundo turno. “O que temos visto é que eles esperam momentos oportunos para conseguir fazer que essas fake news ‘peguem’. Você não tem controle total do que vai viralizar e o que não vai, então são feitos vários testes até que uma hora consegue-se um momento que faz aquilo se disseminar. Então o período que você tem uma série de limitações de comunicação, tanto digital quanto offline, acaba propiciando isso”, diz. 

Na última semana o TSE aprovou uma nova resolução com intuito de dar mais efetividade ao combate à desinformação no processo eleitoral. Dentre as novas medidas estão a proibição da publicidade política online – que passa a ser de 48 horas anteriores às eleições e 24 horas posteriores – e diminui o tempo das plataformas para tirarem fake news do ar. A pesquisadora não considera a decisão ideal, mas um passo importante. “Acho que o ideal é que essa regulação esteja no debate público, e não feita por só um órgão, mas é melhor do que temos hoje. Entre ser uma decisão tomada unilateralmente pelas plataformas ou pelo TSE, acho melhor que seja pelo TSE. A médio e longo prazo isso pode ser construído de forma mais democratica”, diz ela. 

Lula e Bolsonaro trocam acusações em debate da Band TV. (Foto: Reprodução)

 

As principais linhas das fake news bolsonaristas

Entre as principais linhas de fake news divulgadas por grupos bolsonaristas, Nina destacaria três: descrédito no processo eleitoral, questões religiosas e a tentativa de ligar a figura de Lula ao crime. 

A questão da disseminação de mentiras sobre urnas eletrônicas e o processo eleitoral como um todo é uma preocupação que ocorre há meses, uma vez que o presidente fala sobre fraude nas urnas desde meados do ano passado. “O ataque à integridade eleitoral gerou uma reação muito grande em relação a esse tipo de desinformação, tanto que as políticas das plataformas são muito mais rígidas em relação a esse tipo fake news”, declara a pesquisadora. Nina também diz que houve um certo recuo nesse tipo de ataque no fim do primeiro turno, para focar na produção de mentiras contra o PT e a figura de Lula, e possivelmente porque a extrema direita entendeu que tinham força nas urnas em relação à quantidade de votos. Porém, o risco de uma nova onda de ataques ao processo eleitoral é alto: “o processo de fake news não é algo que surge, tem um pico e some. O terreno está sendo semeado para essas mentiras. São uma série de desconfianças que vão sendo implantadas e eu acho que isso ainda pode ser muito importante nessa reta final do segundo turno, justamente por estar sendo uma eleição muito competitiva”. 

 

Fake news e campanha negativa não são a mesma coisa

A primeira semana de campanha logo após o fim do primeiro turno foi bastante intensa, envolvendo inclusive associações de Bolsonaro ao satanismo e à maçonaria. As fake news nunca foram um monopólio da extrema direita, sendo usadas por diversos campos políticos, mas é importante se atentar a estrutura que está por trás do uso político da desinformação. “O fato de uma pessoa ou um grupo de pessoas de esquerda disseminar uma informação falsa, não significa que isso esteja sendo usado de forma organizada e financiada para fins políticos como tem sido sistematicamente utilizado pela extrema direita”, declara Nina. 

A pesquisadora também diz que é muito comum a confusão entre fake news e campanha negativa: “não é qualquer ataque ao adversário que é fake news, campanha negativa existe e pode ser feita com informações verídicas. Por mais que seja violento ou que ainda se possa questionar a validade de usar isso numa campanha política”. 

 

Fake news em 2018 e em 2022: o que mudou?

É evidente que o nível de discussão sobre fake news cresceu entre a eleição presidencial de 2018 e os dias atuais. É possível dizer que estamos em um cenário com outro nível de preparação da sociedade para lidar com a desinformação? Nina acredita que sim. “A população já incorporou essa discussão no seu cotidiano. Então hoje não é mais tão simples você enviar uma informação falsa num grupo sem ter alguém para questionar”, diz. 

Por outro lado, ela alerta para o perigo da multiplicação de fake news baseadas na sedimentação de certas crenças dentro da sociedade. A pesquisadora traz o exemplo da notícia da mamadeira de piroca, de 2018, para ilustrar o quadro: “a mamadeira de piroca foi a fake news mais famosa das últimas eleições, a que mais circulou. O imaginario que está por trás daquilo – do fato que as pessoas acreditaram que o PT poderia promover processos de sexualizacao infantil na escola – é o mesmo processo que está por trás, por exemplo, das fake news de banheiros unissex nas escolas infantis, que estao circulando agora”. 

Apesar da sociedade em si ter avançado na discussão das fake news, as plataformas digitais parecem não ter tido grande avanço. “O maior problema de fundo é que as plataformas podem decidir o que vale e o que não vale no debate público”, diz a pesquisadora. Mesmo agora em período eleitoral, cada rede estabeleceu suas regras contra a desinformação, que ainda são muito nebulosas para seu público. “Me parece muito pouco democrático que essas regras sejam estabelecidas dentro dessas estruturas que são completamente privadas – no sentido de privar o público de ver como essas regras funcionam e são aplicadas. Acho que é impossível encarar o problema da desinformação pensando apenas na autorregulação”, relata Nina. 

Para além dessa falta de clareza com a classificação do que é ou não fake news, há também o desrespeito às regras que já deveriam estar sendo colocadas em prática. A lentidão para aplicar determinadas medidas judiciais, como é o caso da retirada de conteúdos falsos, é um exemplo disso. Nina retoma a situação do vídeo sobre Marcola às vésperas do primeiro turno para ilustrar a situação: “se depender das plataformas, a gente não vai muito longe”. 

Samantha Prado faz parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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