Como as palavras de Bolsonaro valem mais que a verificação empírica?

“O PRESIDENTE ESTÁ SEMPRE CERTO”

Como as palavras de Bolsonaro valem mais que a verificação empírica?

por Raphael Fagundes
14 de outubro de 2020
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É pelo fato de a mídia sempre ter a mentira como um de seus procedimentos, que hoje demagogos como Trump e Bolsonaro ganham legitimidade ao dizer que a mídia mente. E todos sofremos as consequências dessa disputa entre hipócritas

“Suponha que, na escola pública do seu filho, o professor de história é fã de Jair Bolsonaro. Ele ensina que o governo militar não foi uma ditadura, e sim uma democracia que fez muito bem ao matar comunistas. Na prova de fim de ano, seu filho dá uma opinião diferente – e leva zero. Você reclama à diretoria, que dá razão ao professor e diz a você:

– Escola sem pensamento crítico não é escola!”[1]

Leandro Narloch faz parecer que o conceito de ditadura é uma opinião e que o aluno em questão sofreu um preconceito ideológico. “Ditadura” seria uma opinião assim como outros temas (que não deveriam ser tratados como opinião): se a Terra é plana ou não, se o coronavírus é uma pandemia ou não etc.

Presidente da República, Jair Bolsonaro cumprimenta populares da Rampa do Palácio do Planalto. (Crédito: Isac Nóbrega/PR)

Esses ideólogos execráveis colocam o termo “politicamente” na frente do “incorreto” para parecer que o que dizem esta certo por meio de um outro ponto de vista, que não é convencionalmente aceito. Mas, na verdade, tudo que vem com esse termo está, de fato, incorreto (o mesmo não vale para o “politicamente correto” já que esse termo nada tem que ver com ciência, tem uma pretensão puramente política, enquanto o “politicamente incorreto” visa contestar – embusteiramente – a verificação empírica).

Na sua coluna na revista Veja, denominada “caçador de mitos”, nos idos de 2016, Narloch era visto como aquele que propiciava “uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia”. Trata-se apenas de uma visão incorreta dessas três esferas. Nenhuma novidade, pois a mídia sempre publica fake news quando é de seu interesse (econômico e político), embora hoje sustente, hipocritamente, que são os detentores da verdade. É pelo fato de a mídia sempre ter a mentira como um de seus procedimentos, que hoje demagogos como Trump e Bolsonaro ganham legitimidade ao dizer que a mídia mente. E todos sofremos as consequências dessa disputa entre hipócritas.

Trata-se de um conhecimento pautado na crença. Lembra o mecanismo fascista que trabalha de modo a colocar as palavras do líder acima de qualquer evidência histórica ou empírica. “Mussolini está sempre certo”, diziam os fascistas italianos. Lugones, um intelectual fascista argentino, disse ao general ditador José F. Uriburu: “Não dê ouvidos aos intelectuais universitários, meu general. Basta sua consciência de patriota e soldado”. A legião fascista romena dizia em seus “dez mandamentos”: “o legionário só acredita nas ordens e na palavra de seu líder”.[2]

Assim como faz com a História, Bolsonaro recomenda medicamentos passando por cima da medicina e diz que não há queimadas na Amazônia, mesmo sendo registradas em imagens de satélites. A palavra do líder está acima da verdade empírica.

Não se pode escolher se o período de 1964 a 1985 foi uma ditadura ou não. Assim como não se pode escolher se as leis de Newton existem ou não, ou se a teoria da relatividade é verdadeira ou falsa. São convenções científicas, ou nos termos de Thomas Kuhn, paradigmáticas. Pode-se até contestar a ideia de que a ditadura é um regime monolítico, sem conflitos entre blocos de poder no interior da burocracia, ou que ela não se resume à opressão do Estado sobre o cidadão, já que grande parte da sociedade contribui para a consolidação de tal sistema etc.,[3] mas não se pode escolher entre ser uma ditadura ou não.

O ofício do historiador é científico, não se trata de uma questão de escolha. Lógico que toda produção de conhecimento está submetida às circunstâncias históricas e sociais. Mas isso ocorre tanto nas ciências sociais quanto nas ciências da natureza. O antropólogo Bruno Latour mostra que essa incapacidade humana de separar por completo a produção científica do lugar, das crenças etc., do espaço e tempo em que ela foi realizada derruba a tese de que um dia fomos modernos, pois os ocidentais acreditam (e se gabam disto) que o que os diferencia das sociedades primitivas é justamente essa suposta separação, que na realidade não existe.

O conhecimento científico é a maneira mais recente que os seres humanos adotaram para desvendar os mistérios do mundo. Mas para ser científico é preciso um método, partir de conhecimentos precedentes, e, o mais importante, ter a prova empírica.

Na área da História há uma discussão levantada por Hyden White que, por sua vez, defende a tese de que a história nada mais seria que um ramo da literatura. O historiador seria como um poeta que escreve em prosa. Assim, tudo que o historiador diz é relativo, depende do tropos escolhido, ou seja, da maneira pela qual narra os fatos.[4] Roger Chartier discorda de tal posição afirmando que “estabelecer a verdade referencial dos discursos históricos não é tarefa fácil, mas considerar a tentativa como vã e inútil é anular toda possibilidade de atribuir uma qualquer especificidade à história, já que não lhe são próprias nem suas prefigurações tropológicas, nem suas modalidades narrativas, nem mesmo o fato de que seu discurso é sobre o passado”.[5]

Assim, tanto nas ciências da natureza quanto nas ciências humanas tudo é linguagem, tudo depende do lugar de produção e dos elementos narrativos à disposição do pesquisador. O átomo não seria o átomo em si, pois o cientista precisa codificá-lo na linguagem de seu tempo para compreendê-lo, já que não fala a “língua” dos átomos, mas somente a humana. Portanto, ele humaniza o átomo para compreendê-lo. O objeto deixa de ser ele próprio por completo para se tornar compreensível.

Desse modo, um mundo inteiro foi construído a partir de um conhecimento parcial das coisas. Imagine se pudéssemos acessar a coisa em si? Um tema para a ficção científica…

As ideias aceitas na comunidade científica partem de um modelo vigente. Se uma descoberta não se encaixar nesse paradigma ela é logo descartada. É assim que funciona a ciência. Ian Hacking critica essa maneira de fazer ciência, acredita que o experimento deveria valer por si. É um conflito que se configurou entre a tese da confirmação de Carnap e a tese do método de Popper.[6]

Mas o fato é que o conhecimento científico parte do que é reconhecido academicamente. Einstein partiu de Newton para combater o absolutismo deste último e criar a teoria da relatividade. Enfim, o conhecimento não parte do nada.

Entretanto, esse relativismo adotado pela linguistc turn é perigoso. Não dá para escolher adotar ou não as leis da física para lançar um foguete no espaço. Não dá para relativizar o alto índice de negros assassinados no Brasil como sendo decorrente do racismo estrutural, herança da escravidão.

Não se trata de discursos políticos, mas de uma análise através de métodos sociológicos, antropológicos e linguísticos já que podemos identificar preconceitos sociais (os negros são mais excluídos estatisticamente), antropológicos (religiosidade e costumes negros massacrados) e linguísticos (verbalização racista etc.).

Visões como as de Narloch estão no campo político não no campo científico. Embora a ciência possa servir a interesses políticos, as palavras de Narloch são puramente políticas, estão muito longe de se enquadrarem em qualquer âmbito do conhecimento científico. Elas buscam a mobilização política, jamais a verdade científica.[7] Procura-se algo externo ao conhecimento, e não a busca, por mais inalcançável que seja, pela verdade. Procura-se alienação, jamais esclarecimento.

Somente desse jeito o que Bolsonaro diz pode ter o mesmo peso das convenções de uma comunidade científica que trata sobre o conceito de ditadura há dezenas de anos. Somente desse jeito o que o presidente diz tem o mesmo peso das conclusões que chegam os estudos da medicina sobre o coronavírus ou o que mostram as imagens de satélites que registram o aumento das queimadas.

Assim como no fascismo, no Brasil de hoje, a ideologia do líder, para muitos, vale, até mesmo, mais que a verificação empírica.

 

Raphael Fagundes é doutor em História Política da UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

[1] https://www.google.com/amp/s/veja.abril.com.br/blog/cacador-de-mitos/a-lei-do-escola-sem-partido-e-sim-necessaria/amp/

[2] FINCHELSTEIN, F. Uma breve história das mentiras fascistas. São Paulo: Vestígio, 2020, p. 66.

[3] Sobre estes pontos ver: SILVA, Francisco C. Terceira da. Por uma História Comparada das ditaduras. In: _____, et. all (orgs.) O Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro, Multifoco, 2010.

[4] WHITE, H. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 2014.

[5] CHARTIER, R. À beira da falésia. Porto Alegre, Ed. Universidade, 2002, p. 116.

[6] HACKING, I. Representar e intervir. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2012, p. 63.

[7] Sobre este aspecto do campo político ver: BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, 2007.



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