Como ficam as relações entre os EUA e o Paquistão - Le Monde Diplomatique

A MORTE DE BIN LADEN

Como ficam as relações entre os EUA e o Paquistão

por Jean-Luc Racine
1 de junho de 2011
compartilhar
visualização

Os Estados Unidos não podem romper com o Paquistão nem ter a certeza de poder contar com ele. Trata-se de um dilema cujas relações desenrolam-se em dois tabuleiros decisivos. O primeiro é, obviamente, o Afeganistão, com o futuro da ocupação militar do país. O segundo, muito maior, é o da Ásia emergenteJean-Luc Racine

A incursão norte-americana ao Paquistão realizada na noite de 1º para 2 de maio de 2011 levantou o véu que recobre a guerra das sombras conduzida pelos serviços de inteligência paquistanês e dos Estados Unidos. Mas não revelou todos os segredos.

Em 2004, durante a administração de George W. Bush, o Paquistão uniu-se à privilegiada categoria dos “grandes aliados dos Estados Unidos fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)”, um clube que conta com menos de quinze nações (incluindo Austrália, Israel e Japão). Sete anos depois, o real estado das relações norte-americano-paquistanesas entra em questão, com Osama bin Laden sendo abatido na cidade militar de Abbottabad, próximo à mais importante academia das Forças Armadas do país. O mesmo lugar em que, uma semana antes, o general Ashfaq Parvez Kayani, chefe do Estado-Maior do Exército, afirmava diante da última classe de cadetes ter “quebrado as pernas dos terroristas”.1

Leon Panetta, diretor da Central Intelligence Agency (CIA), foi direto: ele garante que Washington não avisou as autoridades paquistanesas sobre a invasão porque elas poderiam “comprometer a missão alertando o alvo”,2 tomando assim a decisão de conduzir uma operação militar em um país soberano sem o consentimento deste. Há meses o diálogo entre os dois países estava tenso. Os militares norte-americanos diziam-se cada vez mais descontentes com a “incapacidade” de seus colegas paquistaneses de intervir na agência tribal3 do Waziristão do Norte, a partir da qual a rede Haqqani, herdeira dos mujahidin afegãos, atua contra as tropas da Otan instaladas no Leste do Afeganistão. As declarações de Panetta e principalmente a tensão elevada entre os militares paquistaneses e a CIA desde 2 de maio enfraquecem a hipótese de um acordo velado entre as duas partes, em que o Exército do Paquistão teria, sob pressão ou não, cedido a “carta” Bin Laden – a qual teria se tornado obsoleta no contexto dos contatos estabelecidos nas sombras para abrir o diálogo entre Washington e os talibãs afegãos.

O discurso oficial paquistanês sugere que a presença do líder da Al Qaeda em Abbottabad, embora antiga, resulta de uma falência do conjunto dos serviços de inteligência dos países envolvidos na caça a Bin Laden, e não apenas da diretoria da Inter Services Intelligence (ISI) do Paquistão, sob controle direto do Exército. O próprio general Ahmad Shuja Pasha, chefe do ISI, lamentou no Parlamento o fracasso do conjunto do sistema de segurança do país, culpando de passagem o governo provincial e a polícia local.4 Mas ninguém pode acreditar que uma organização tão poderosa como o ISI tenha sido capaz de ignorar a identidade dos ocupantes de um edifício tão incongruente em uma cidade militar.

Isso não significa necessariamente que a CIA não tenha cruzado suas informações com as do ISI, especialmente para verificar se Abu Ahmed al-Kuwait – paquistanês nascido no Kuwait que foi identificado por uma fonte em Guantánamo – era realmente intermediário de Bin Laden, antes que seu rastro levasse a Abbottabad. Aliás, no dia 3 de maio o presidente Asif Ali Zardari revelou sua satisfação no The Washington Post: ele lembrou – muito justamente – que o terrorismo já fez dezenas de milhares de vítimas no Paquistão e comemorou que a “cooperação inicial do Paquistão para identificar o mensageiro da Al-Qaeda tenha finalmente dado resultado”.5 Mas depois o discurso mudou.

Alguns jornalistas, corajosos, assumiram o risco de exigir uma prestação de contas por parte das Forças Armadas,6 ou de exprimir em voz alta um pensamento que muitos guardam para si: “Se não sabíamos, somos um Estado falido. Se sabíamos, somos um Estado bandido”.7 Contudo, para além de algumas personalidades que conclamaram a repensar toda a estratégia paquistanesa, o discurso público, formulado pelo governo e pela maior parte dos dirigentes políticos e das mídias, logo focou o tema da soberania nacional para denunciar uma ingerência norte-americana. A questão de uma eventual duplicidade do Exército e de seus serviços especiais foi rapidamente descartada em favor de uma reflexão menos desconfortável sobre as falhas das estruturas de segurança que permitiram a operação de um comando heliportado estrangeiro no coração do país (e sua saída sem qualquer perda, depois de cumprida a missão).

Fato raríssimo, as forças armadas decidiram comparecer ao Parlamento. Mas as críticas diretas de alguns parlamentares – como Nisar Ali Khan, deputado da Liga Muçulmana Paquistanesa-Nawaz (PML-N) e líder da oposição na Assembleia Nacional8 – desapareceram da resolução adotada por unanimidade no dia 13 de maio. Ela condenou “a ação unilateral dos Estados Unidos” e os ataques de drones (avião não tripulado) norte-americanos nas áreas tribais. Ainda por unanimidade, o Parlamento reiterou sua “plena confiança nas forças de defesa do Paquistão”.9

De sua parte, as forças armadas estão mais preocupadas em denunciar a “campanha caluniosa lançada contra o Paquistão” do que com a presença do líder da Al Qaeda em uma cidade militar. O chefe do ISI ofereceu sua demissão, mas nem o presidente, o primeiro-ministro e nem o Parlamento julgaram seu afastamento necessário. Entretanto, ele poderia ser substituído em breve, pois já goza de uma prorrogação excepcional. Quanto à comissão de investigação independente, cuja instauração se anunciou, ela ainda não foi criada, nem seu mandato definido. Pode haver dúvidas sobre qual será a extensão de seu poder. Alguns espíritos maus não deixaram de lembrar que as investigações anteriores sobre o assassinato do primeiro-ministro Liaquat Ali Khan, em 1951, e de Benazir Bhutto, em 2007, não deram em nada.

Que ninguém se engane: essas posturas visam acima de tudo confortar “a honra nacional” diante de questões embaraçosas e críticas vindas do exterior. Nawaz Sharif, líder do principal partido da oposição, o PML-N (que governa o Punjab e ganhou 66 dos 259 assentos nas últimas eleições gerais de 2008), pediu a revisão da natureza das relações entre Islamabad e Washington, e que os orçamentos das forças armadas e dos serviços secretos passem a ser discutidos pelo Parlamento. Ele lembrou ainda que cabe ao governo, e não às agências de inteligência, definir a política externa do país. Removido do poder pelo golpe militar de 1999, Sharif marca posição. Quanto aos militares, cuja situação se revela particularmente delicada, eles pretendem usar em seu benefício o antiamericanismo que prevalece no Paquistão, inclusive em parte das Forças Armadas.

Já as autoridades norte-americanas, com exceção de Panetta, têm o cuidado de medir as palavras. O presidente Barack Obama falou apenas em “redes” que poderiam ter ajudado Bin Laden, sem especificar suspeitas ou acusações. Ele pretende enfrentar republicanos e democratas – incluindo Dianne Feinstein, presidente da Comissão de Inteligência do Senado – que querem cortar os consideráveis fundos concedidos ao Paquistão (US$ 20 bilhões em dez anos e muitos bilhões previstos para o próximo orçamento). O caso é que as difíceis relações norte-americano-paquistanesas desenrolam-se em dois tabuleiros decisivos para sua diplomacia: os Estados Unidos não podem romper com o Paquistão nem ter a certeza de poder contar com ele.

A paz com os talibãs

O primeiro tabuleiro é obviamente o do Afeganistão e do Paquistão. Desde a Conferência de Londres, em janeiro de 2010, a ideia de reconciliação nacional lançada pelo presidente afegão Hamid Karzai foi endossada pelos Estados Unidos e seus aliados. O aumento dos efetivos militares norte-americanos decidido por Obama pretende intensificar a pressão sobre os talibãs. Paralelamente, a secretária de Estado Hillary Clinton esclareceu, em fevereiro de 2011, que os três pontos-chave de uma possível negociação com os rebeldes eram menos princípios que objetivos: “Eles devem renunciar à violência, abandonar a aliança com a Al Qaeda e respeitar a Constituição afegã. Esses são os resultados esperados de qualquer negociação”.10 Após a eliminação de Bin Laden, o ponto central foi logo reiterado: “Nossa mensagem ao Talibã continua a mesma, mas hoje com um significado especial: vocês não podem esperar por nossa partida. Não podem nos derrotar. Mas podem decidir abandonar a Al Qaeda e participar de um processo político pacífico”.11

 Esse é o cerne da estratégia de contrainsurreição instaurada pelo general David Petraeus, primeiro no Iraque e depois no Afeganistão, onde dirige as forças da Otan (antes de tomar a frente da CIA): desconectar os insurgentes, que defendem um programa nacional, da internacional terrorista. Em princípio, o desaparecimento do líder emblemático da Al Qaeda deveria facilitar as coisas. Resta saber se a tensão norte-americano-paquistanesa após a operação de 2 de maio vai ou não contrariar o segundo componente da estratégia norte-americana: contar com os serviços paquistaneses para influenciar os talibãs afegãos.

Em 2010, um estudo destacou a ambiguidade dos laços entre estes e seus protetores paquistaneses.12 Laços estreitos – representantes do ISI teriam assistido a reuniões dos conselhos dos talibãs afegãos em solo paquistanês –, mas incômodos para alguns comandantes talibãs, cansados da hegemonia de Islamabad, que não hesita em manipular seus interlocutores: 20 dias depois da Conferência de Londres, em janeiro de 2010, o ISI prendeu em Karachi o mulá Abdul Ghani Baradar, número dois dos talibãs, envolvido em contatos indiretos com Cabul.13 A mensagem era clara: nada de se deixar atropelar, enquanto se prepara, para 2014 (ou mais tarde), o pós-Otan no Afeganistão.

Para os estrategistas paquistaneses, o objetivo maior é garantir a influência de seu país no Afeganistão de amanhã. Esse cenário pressupõe que os pachtunes (40% da população afegã) voltem a ser predominantes no país e que as relações estabelecidas com os talibãs, por meio da rede Haqqani e de Gulbuddin Hekmatyar (o velho combatente da jihad antissoviética), sejam fortes o bastante para evitar que se reacendam as reivindicações sobre as terras pachtunes do Paquistão.

Ser influente no Afeganistão do futuro significa também limitar o peso dos indianos. Cultivando suas relações com Karzai e apoiando de longa data os tadjiques da Aliança do Norte, a Índia marca pontos desde 2002. Ela criou programas de desenvolvimento econômico e social ligados a obras altamente simbólicas (construção do Parlamento afegão), à infraestrutura estratégica (estrada para o Irã que oferece acesso ao mar sem passar pelo Paquistão) e à formação das elites (bolsas para estudantes afegãos em universidades indianas). Em visita a Cabul dez dias após a morte de Bin Laden, o primeiro-ministro Manmohan Singh anunciou o aumento da ajuda vinda do país (mais de US$ 1,5 bilhão em dez anos). Nova Déli acomoda-se agora no princípio da reconciliação nacional, pois ele conduz “sem interferência e coerção […] a um Afeganistão independente e estável, em paz com seus vizinhos”.14 O Paquistão não é citado, mas todos entendem a mensagem, o que não impede os indianos de continuar o diálogo há pouco reaberto com Islamabad.

O tabuleiro da Ásia emergente

Assim, o tabuleiro afegão-paquistanês inscreve-se (para Washington e outros interessados) em um segundo tabuleiro, muito maior: o da Ásia emergente. Duas grandes lógicas aí se cruzam. A da luta contra o terrorismo segurou os Estados Unidos no atoleiro afegão-paquistanês. Washington tenta sair dali em condições honrosas, mas esse objetivo impõe não fechar as portas a Islamabad. O conceito de AfPak15 já não faz parte do discurso oficial norte-americano, mas continua pertinente: ele engloba um Paquistão que parece cada vez mais constituir tanto parte da solução como parte do problema. A situação interna do país é muito preocupante. Nada garante que o Executivo e a classe política conseguirão impor aos militares um novo paradigma estratégico, menos perturbador e mais propício aos benefícios esperados de normalização regional, aproveitando-se dos trunfos geográficos de um país que conta com o Himalaia e com o mar, localizado entre os polos energéticos do Oriente Médio e da Ásia Central e os grandes emergentes China e Índia.

A segunda lógica, decisiva para os Estados Unidos, decorre da escalada da Ásia, impulsionada pelo dinamismo econômico e pela abertura às redes globais de comércio, finanças e energia: a antítese das tensões geopolíticas e das crises internas que agitam o AfPak. É lá que se decide o futuro. A Casa Branca deve compor com interesses contraditórios. Nesse tabuleiro, ela não pode ignorar o peão indiano para contrabalançar com a China. Mas no AfPak continua a tensão do Paquistão no que concerne à Caxemira, e o país anseia por excluir a Índia de qualquer arranjo com o Afeganistão. Até que ponto Washington poderá acomodar tudo isso? É verdade que o início das negociações com os atores afegãos passa sem Nova Déli: Alto Conselho para a Paz interafegão, encontros trilaterais entre Afeganistão, Paquistão e Estados Unidos, e amanhã, sem dúvida, um gabinete de representação talibã no Golfo. Mas chegará o tempo em que os progressos – se houverem – terão de ser garantidos por uma conferência internacional, em que iríamos encontrar, além dos grandes atores internacionais, todos os vizinhos imediatos ou próximos do Afeganistão, incluindo o Irã, a Índia e a China.

Uma China muito discreta desde 2 de maio. Pequim saudou o fim de Bin Laden, colocando-se inequivocamente ao lado do Paquistão, elogiando a contribuição do país para a luta contra o terrorismo, “baseada em suas condições nacionais”.16 Para alguns analistas paquistaneses, a amizade com a poderosa China permite imaginar uma revisão da política externa: o Paquistão deveria se afastar da pressão norte-americana e jogar mais a carta chinesa, até a russa. Em visita oficial a Moscou, no dia 11 de maio, o presidente Zardari lançou a ideia de um acesso russo aos “mares quentes”, velho sonho dos czares. Uma semana depois, o primeiro-ministro Yusuf Shah Gilani estava na China. Primeiro fornecedor de armas do Paquistão, Pequim, que tem interesses econômicos crescentes no Afeganistão e no Paquistão, assim como na Ásia Central e no Oriente Médio, prometeu-lhe uma entrega rápida de cinquenta aviões de combate sofisticados, os JF-17.

No dia 16 de maio, véspera de sua partida para Pequim, Gilani recebeu em Islamabad o senador norte-americano John Kerry. A declaração conjunta destacou a importância dos “interesses nacionais” de parceiros, exibindo o desejo paquistanês de “renovar a plena cooperação com os Estados Unidos”. De fato, por trás das tensões aparentes, o diálogo bilateral chega ao seu auge, enquanto o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, declara não ter “qualquer prova” de uma conivência paquistanesa de alto nível com Bin Laden.17 Três dias depois, era Marc Grossman, representante de Obama para o AfPak, que estava em Islamabad para preparar a visita de Hillary Clinton, enquanto o número dois da CIA, Michael Morell, redefinia com o chefe do ISI as modalidades de operações conjuntas no futuro.

Assim, o grande jogo continua. Pode-se duvidar da capacidade das forças políticas paquistanesas para modificar os parâmetros definidos pelo Estado-Maior, que bem poderia, mais uma vez, ter enfrentado a tempestade sem perder o poder.

Guerra no seio do islã

Julho de 2007. As forças armadas paquistanesas invadem a Mesquita Vermelha de Islamabad, refúgio de fundamentalistas islâmicos. Alguns meses depois, constitui-se nas áreas tribais um “Movimento dos Talibãs Paquistaneses”. A política ambígua do então presidente, o general Pervez Musharraf, alvo de atentados desde 2003, voltou contra o governo parte das milícias islamitas utilizadas pelos serviços especiais das forças armadas. Algumas se acomodaram na denominação oficial de jihad, podendo os grupos proibidos se reconstituir sob outros nomes. Outras se rebelaram contra um aparelho de Estado que negociava com a Índia desde 2004 e que se inscreveu na “guerra contra o terror” empreendida pelos Estados Unidos no Afeganistão desde 2001. O regime entregou aos norte-americanos muitos altos dirigentes da Al-Qaeda – mas não seus líderes.

O Paquistão paga cada vez mais caro por sua estratégia de instrumentalização dos grupos islamitas armados, criados ou patrocinados por ele durante trinta anos, a serviço de uma política regional muito ativa: mujahidin afegãos antissoviéticos, insurgentes da Caxemira ligados ao Hizbul Mujahideen; jihadistas paquistaneses do Lashkar-e-Taiba infiltrados na Caxemira para realizar ataques terroristas nas cidades indianas; talibãs treinados nos madraçais para recuperar o controle do Afeganistão.

Durante muito tempo, a guerra no islã paquistanês esteve relacionada a “conflitos sectários”: ao longo dos anos 2000, os extremistas sunitas do Lashkar-e-Jhangvi e do Sipah-e-Sahaba Paquistão intensificaram seus ataques contra locais de culto dos xiitas, que alguns acreditam terem se beneficiado do dinheiro dos aiatolás, após a revolução iraniana de 1979. Logo um novo ciclo se inicia. A radicalização sunita foi por muito tempo tolerada por razões estratégicas, com a nebulosa e seus combatentes servindo à política do poder na direção da Índia e do Afeganistão. Ela ficou parcialmente fora de controle: a insurgência nas áreas tribais e no Swat foi enfrentada pelos militares em 2009, e as campanhas de atentados suicidas nas grandes cidades fazem milhares de mortos todo ano.

Outra etapa foi superada quando a guerra entre sunitas e xiitas desdobrou-se em uma guerra interna à própria maioria sunita. De um lado da fratura estão os ultrarradicais, que levam ao extremo a ideologia deobandi próxima do wahhabismo saudita, promovida pelo general-presidente Muhammad Zia-ul-Haq nos anos 1980;1 do outro está o islã popular e suas “mestiçagens” – um islã considerado “contaminado” ao longo dos séculos pelo hinduísmo, um islamismo sufista que canta os santos e reza em seus mausoléus.

Com a cultura da violência liberada pelo terrorismo da Al Qaeda e a radicalidade dos talibãs paquistaneses, esses mausoléus tornam-se alvos: o Data Darbar de Lahore, o mais importante lugar santo do Paquistão (45 mortos em julho de 2010); o mausoléu de Baba Farid, no Punjab (seis mortos em outubro); o de Abdullah Shah Ghazi, em Karachi (dez mortos em outubro); o de Ghazi Baba, em Peshawar (três mortos em dezembro); outro em Dera Ghazi Khan, próximo às áreas tribais (41 mortos em abril de 2011); e muitos outros.

Finalmente, a última etapa: a lei que pune a blasfêmia, herdada do antigo Código Penal da Índia britânica de 1860 e continuamente agravada até a pena de morte, com as emendas de 1986 e 1991. Embora não tenha sido efetivamente aplicada, ela permitiu uma série de abusos. O caso bastante divulgado de uma cristã presa em 2010, Asia Bibi,2 suscitou o apelo dos reformadores paquistaneses – entre eles o governador do Punjab, Salman Taseer, e o único ministro cristão do governo, Shabaz Bhatti, ambos assassinados em janeiro e março de 2011, respectivamente. O assassino de Taseer, seu guarda-costas, logo foi celebrado por muitos fiéis da classe média que parecem encontrar em uma devoção extremista e intolerante as referências que a ordem social e política não oferece mais. Já não são apenas os deobandis que estão envolvidos, mas também os barelvis, defensores do sufismo. Para os liberais paquistaneses, o espaço público retrocedeu, e o governo se rendeu aos radicais.

O Paquistão, muitas vezes apresentado como a terra prometida dos muçulmanos do subcontinente indiano, deveria ser, aos olhos de seu fundador, Mohammad Ali Jinnah, um Estado democrático e tolerante. Logo o islã se tornou a referência fundadora, com a Resolução de 1949, aprovada pela Assembleia Constituinte, que proclama: “A soberania sobre todo o Universo repousa no único Alá todo-poderoso, que delegou sua autoridade ao Estado do Paquistão”. Mas a questão sempre ambígua da relação do islã com a nação e a cegueira geopolítica promotora da jihad transfronteiriça semearam irresponsavelmente as sementes da fitna – os vícios destrutivos do caos que abalam a comunidade dos crentes.3 A guerra já não é mais apenas nacional, ela agora ataca a própria nação. O islã, que deveria unir o país, começa a dividi-lo. Novamente, é preciso mudar o paradigma. (J.L.R.)

1  Muhammad Zia-ul-Haq (1924-1988) foi general em chefe do Exército antes de tomar o poder com um golpe de Estado, em outubro de 1978. Nascido na Índia nos anos 1880, a ideologia deobandi paquistanesa prega um islã fiel às origens, purificado das influências culturais indianas. Mais radical que na Índia, essa corrente convergiu com a ideologia do wahhabismo, que surgiu no século XVIII, na Arábia, e difundiu-se para o Paquistão pelos jihadistas vindos do mundo árabe com a guerra antissoviética no Afeganistão.

2  Ela foi presa depois de uma briga com uma vizinha.

3      Gilles Kepel, Fitna: La guerre au cœur de l’islam[Fitna: A guerra no coração do islã], Gallimard, 2007.



Artigos Relacionados

DEMOCRACIA AMEAÇADA

Três dimensões para pensar a eleição mais importante da Nova República

Online | Brasil
por João Rafael Gualberto de Souza Morais
Qual é o plano?

A guerra às drogas precisa parar. Os presidenciáveis estão preparados para essa conversa?

por Juliana Borges
O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Cozinhas Populares apontam caminhos para a soberania alimentar

por Campanha Periferia Viva
AUDIOVISUAL

Kleber Mendonça Filho: “O que é a cultura no governo Bolsonaro? Não é”

Online | Brasil
por Carolina Azevedo
DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA

Qual o futuro do bolsonarismo?

Online | Brasil
por Vários autores
O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

A história que o agro não conta: violência, fome e devastação

por Mariane Martins
DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA

Estratégias discursivas do candidato Bolsonaro

Online | Brasil
por Vários autores
ELEIÇÕES PARA O SENADO

O sprint de Damares Alves

Online | Brasil
por Marina Basso Lacerda