Como uma minoria de grandes proprietários dita o futuro do Cerrado
Organizado pela série Olho de Aceiro, levantamento com declarações prestadas à Justiça Eleitoral mapeia perfil financeiro no bioma e mostra como apreciação de regras ambientais e territoriais no Congresso é conduzida por legisladores de alto capital imobiliário rural
A representação política nos nove estados e no Distrito Federal que abrigam o bioma Cerrado é marcada pela hegemonia econômica de seus integrantes, como revelam as declarações de bens entregues à Justiça Eleitoral nas eleições de 2026. Os dados apurados pelo Observatório Jornalístico Universitário da Universidade Federal de Goiás (OJU/UFG) expõem uma disparidade sistemática entre o perfil patrimonial das candidaturas vitoriosas e o daquelas que não obtiveram mandato titular na Câmara dos Deputados, no Senado Federal e nas assembleias legislativas estaduais.
A análise agregada por candidaturas mostra que o sucesso eleitoral está fortemente relacionado à posse de capital financeiro e imobiliário. Em praticamente todos os cargos e unidades da Federação analisados, a mediana patrimonial dos titulares eleitos supera por margens expressivas a dos não eleitos e suplentes. Embora a riqueza declarada não represente por si só a causa única do êxito nas urnas, a disparidade evidencia barreiras estruturais de acesso à representação política, em que a capacidade de financiamento, o prestígio social associado à posse de bens e a projeção patrimonial atuam como filtros na seleção dos representantes populares.
Nesse sentido, o cruzamento entre a declaração de bens rurais e o comportamento dos parlamentares em votações socioambientais decisivas como o Pacote do Veneno, o Licenciamento Ambiental, o Marco Temporal e a Política Nacional e em relação a políticas públicas como o Manejo Integrado do Fogo busca compreender como a condição de proprietário se relaciona com o exercício do mandato. A comparação entre a proporção de votos favoráveis de deputados e senadores declarantes de imóveis rurais e a daqueles que não declaram terras mostra que a pauta do uso do solo e da regulação ambiental encontra forte adesão entre os proprietários.
Murilo Mendonça, coordenador e pesquisador do Núcleo de Agroecologia e Educação do Campo da Universidade Estadual de Goiás (Gwatá/UEG) explica que, no contexto histórico, os eleitos em todas as esferas sempre foram pessoas já com grandes patrimônios. E nesse cenário, a maior parte do patrimônio surge da violência contra os povos tradicionais, camponeses e da grilagem de terra, sendo característica geral histórica do país:
“Na região Centro-Oeste, de forma específica, isso é bastante intenso. O lobby feito pelas grandes empresas, o repasse de recursos, financiamento de campanhas feito por grandes empresas como Bayer, Monsanto, Singenta e Corteva. Essas empresas mantêm o poder econômico, os privilégios como isenção de impostos e os interesses relacionados às votações no Congresso, que privilegiam os projetos, que as beneficiam. Então, as empresas acabam por financiar essas campanhas e isso, de forma direta, contribui no aumento patrimonial desses candidatos que têm sido eleitos também.”
A presença de patrimônio rural nas declarações de quem decide sobre o território expressa-se de maneira singular nas diferentes unidades da Federação, refletindo a dinâmica econômica e agrária de cada estado e região.
A radiografia dos estados do Cerrado
Na Bahia, a base de dados contabilizou 1.224 registros, dos quais 1.195 correspondem a candidaturas titulares e 105 resultaram em mandatos de titulares eleitos. O patrimônio total declarado no estado somou R$ 1,07 bilhão, com uma mediana patrimonial de R$ 362.085,67 entre as candidaturas com bens declarados. Entre os destaques patrimoniais figuram lideranças como ACM Neto (UB) (R$ 84,8 milhões) e o deputado federal Neto Carletto (Avante), com R$ 34,3 milhões. No ambiente estritamente legislativo estadual e federal, o vínculo direto com o setor agropecuário é assumido por parlamentares eleitos que declaram profissionalmente a ocupação de produtor, pecuarista ou agricultor, a exemplo de Carlos Augusto Sobral (MDB), José Ricardo Barbosa (PODE) e Antonio Elinald (UB).
O estado de Goiás registrou 906 candidaturas na base, com 831 nomes nas urnas e 61 titulares eleitos. O patrimônio acumulado na unidade federativa atingiu R$ 1,75 bilhão, ostentando uma das medianas mais elevadas do levantamento, fixada em R$ 473.750. A bancada goiana exemplifica a concentração patrimonial extrema: o deputado federal José Nelto (UB) soma R$ 46,3 milhões em bens totais, registrando uma única gleba de terra nua avaliada contabilmente em R$ 31,5 milhões.
O levantamento na unidade reúne ainda declarantes de grande porte como Flávia do Maguito (PSDB), com R$ 103,7 milhões; Felipe Cecílio (PSDB), de registro de R$ 86,8 milhões; e Edward Júnior (NOVO), com R$ 70,2 milhões. Ainda, aparecem Vanderlan Cardoso (PSD), com R$ 66,8 milhões; Wilder Morais (PL), R$ 65,1 milhões; Magda Mofatto (PL), R$ 62,9 milhões; e Renato Ribeiro (PL), R$ 53,9 milhões.
Com 619 registros na base e 63 titulares eleitos, o Maranhão acumula R$ 783 milhões em bens declarados sem distorções – erros de digitação ou preenchimento manual feitos pelas próprias candidaturas –, apresentando uma mediana patrimonial de R$ 508.212,39. O estado abriga o parlamentar estadual eleito com maior valor individual em instalações rurais do estudo: o deputado Ulisses Gonçalves (PL), que declara R$ 155,5 milhões em patrimônio total, incluindo múltiplos itens de infraestrutura rural que ultrapassam R$ 17 milhões de custo histórico. A bancada maranhense conta também com fortes declarantes do agro-hidro-mineronegócio como o deputado federal Márcio Honaiser (Solidariedade), com R$ 31 milhões; Maurício Rizzi (Novo), R$ 42,8 milhões) Franciscano Soares (PSD), com R$ 31 milhões; e a senadora Roseana Sarney (MDB), com R$ 22,2 milhões.
Minas Gerais representa o maior colégio eleitoral do levantamento, englobando 1.832 registros, 1.710 concorrentes na urna e 133 titulares eleitos. A soma patrimonial do estado alcançou R$ 2,33 bilhões, com mediana de R$ 372.700. A estrutura do estado combina grande densidade parlamentar a picos de elevada fortuna imobiliária e empresarial. Destacam-se Vittorio Medioli (PL), R$ 356,8 milhões, Misael Varella (PSD), R$ 315,2 milhões, e Bráulio Braz (PL), R$ 36,1 milhões. A representação direta da produção rural na Assembleia Legislativa transparece na eleição de parlamentares que declaram a agropecuária como ocupação principal, a exemplo de Antônio Carlos Arantes (PL) e Denerval Germano (PL).
Mato Grosso do Sul contabilizou 425 registros e 35 titulares eleitos, registrando R$ 645,2 milhões em bens totais e uma mediana de R$ 543.086,74. No estado, o vínculo político com a terra é explícito: o deputado estadual Zé Teixeira (PL) declara R$ 64,2 milhões, acumulando dezenas de propriedades rurais, benfeitorias e lotes de terra nua. O ex-governador e senador eleito Reinaldo Azambuja (PL) soma R$ 55,9 milhões, com extensa carteira de bens rurais e atividade autônoma agropecuária declarada. Destacam-se ainda Jamilson Name (PP), R$ 35,7 milhões, Barbosinha (Republicanos), R$ 18,3 milhões, e o governador Eduardo Riedel (PP), que registra R$ 16,1 milhões totais, dos quais R$ 12,2 milhões estão vinculados ao exercício da atividade autônoma rural.
Já em Mato Grosso (MT), o epicentro da produção agrícola e pecuária no Centro-Oeste, foram reunidos 455 registros na base e 35 titulares eleitos. O estado registrou um patrimônio total de R$ 1,79 bilhão e a segunda maior mediana entre as unidades analisadas (R$ 563.250,48). O governador reeleito Otaviano Pivetta (Republicanos) lidera os valores do estado com R$ 575,6 milhões declarados à Justiça Eleitoral. A lista de grande liquidez imobiliária e agrária inclui Odilio Balbinotti (PL), R$ 359,7 milhões, Reinaldo Gomes de Morais (NOVO), R$ 69,8 milhões, o senador Mauro Mendes (UB), R$ 67,1 milhões, Galvan (Avante), R$ 46,3 milhões, Carlos Ernesto Teti (PSB), R$ 46,1 milhões, Carlos Avallone (PSDB), R$ 33,2 milhões, e Júlio Campos (UB), R$ 31,5 milhões. A bancada estadual traz representantes diretos do setor produtivo do solo, como Gilberto Cattani (PL), Alcino Barcelos (PL) e Adelcino Lopo (Podemos).
No Piauí, a base identificou 402 registros e 43 titulares eleitos, resultando em um patrimônio consolidado de R$ 430,9 milhões e mediana de R$ 330.000. O estado reflete o avanço da fronteira agrícola dos grãos no Cerrado sul-piauiense. O deputado federal Jadyel Alencar (Republicanos) registra o maior patrimônio individual da unidade (R$ 107,1 milhões), acompanhado pelo senador Ciro Nogueira (PP), R$ 34,6 milhões, e por Paulo Limeira (Avante), R$ 31,1 milhões. A presença do capital imobiliário rural manifesta-se também na composição patrimonial de parlamentares como o senador Marcelo Castro (MDB) e o candidato Tiago Junqueira (PL), que declaram terrenos e fatias de terras nuas no interior do estado
Sendo a capital financeira do país, São Paulo concentra o maior volume absoluto de bens e de candidaturas: foram 2.630 registros, 2.438 nomes nas urnas e 167 titulares eleitos. O patrimônio total atingiu R$ 2,44 bilhões, com mediana de R$ 450.000. Embora a capital paulista polarize o capital financeiro e urbano, a bancada eleita engloba expressivos proprietários rurais e empresários do agronegócio do interior do estado. Dentre os maiores patrimônios declarados figuram Zé de Lima (PSD), R$ 103,9 milhões, Eleuses Paiva (PSD), R$ 55,2 milhões, Dr. Edson da Paiol (Podemos), R$ 51,0 milhões, Silvia Abravanel (PSD), R$ 47,5 milhões, Vicente Santini (Republicanos), R$ 41,5 milhões, e Alexis Fonteyne (NOVO), R$ 40 milhões, além do produtor agropecuário declarado e deputado estadual Itamar Borges (MDB).
Tocantins registrou 368 candidaturas e 34 titulares eleitos, ostentando a maior mediana patrimonial do levantamento (R$ 611.113,11) e um total acumulado de R$ 1,21 bilhão. Estado situado no coração do MATOPIBA, o Tocantins possui detentores de grandes fortunas declaradas, liderados pelo suplente Luiz Pastore (PL), R$ 677,7 milhões, e pelo candidato ao governo Ataídes de Oliveira (NOVO), R$ 54,4 milhões. No âmbito dos deputados destacam-se ainda os produtores rurais e empresários agrários Maurício Buffon (PL), R$ 48,4 milhões, Dari Fronza (PL), R$ 34,1 milhões, e Iratã Abreu (PSDB), R$ 31,1 milhões, além dos pecuaristas declarados Luciano Oliveira (PSD) e Wiston Gomes (PL). O levantamento identificou e expurgou do agregado estadual o erro de digitação de Jorge Madeira, que registrou uma residência urbana pelo valor irreal de R$ 640 milhões.
No Distrito Federal, centro administrativo do país, os dados patrimoniais refletem uma prevalência de bens urbanos, fundos de investimento, depósitos bancários e participações societárias. O levantamento catalogou candidaturas de alta liquidez financeira, como Marcela Passamani (MDB), que declara R$ 14,7 milhões em patrimônio composto predominantemente por aplicações, imóveis residenciais e quotas empresariais. Em conformidade com o relatório metodológico oficial, a base do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não consolidou o resultado final da totalização de eleitos titulares do DF para o primeiro turno de 2026, motivo pelo qual a unidade não figura na tabela de denominadores de titulares eleitos.
O abismo entre eleitos e não eleitos
A discrepância entre o patrimônio das candidaturas vitoriosas e o daquelas que não obtiveram mandato transparece com clareza na análise das medianas patrimoniais registradas junto à Justiça Eleitoral. O levantamento estatístico realizado nas dez unidades da Federação do recorte do Cerrado indica que o sucesso nas urnas está sistematicamente associado a patamares de riqueza substancialmente superiores aos da média dos concorrentes.
Para Cayo Alcântara, diretor executivo da organização A Vida no Cerrado (Avinc), o poder da bancada do agronegócio viabilizou, nos últimos anos, a flexibilização do licenciamento ambiental e a tese do Marco Temporal. Segundo ele, a PEC 504/2010 (PEC do Cerrado) é o retrato dos interesses dos deputados e senadores. A proposta inclui o Cerrado e a Caatinga entre os patrimônios nacionais ao lado da Amazônia, da Mata Atlântica, da Serra do Mar, do Pantanal e da Zona Costeira, mas desde 2013 a matéria está como “pronta para pauta” e nunca foi apreciada em plenário, ou seja, dezesseis anos de espera.
“A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reunia 297 deputados e 48 senadores em julho de 2026, mais da metade da Câmara. É uma bancada organizada, com pauta própria e capacidade de decidir o que vai a voto e o que fica na gaveta. Quando quem legisla sobre a terra é, em boa parte, quem vive da terra, o conflito de interesses deixa de ser exceção e vira método”, observa Alcântara.
Em todos os estados analisados a partir dos dados coletados pelo OJU/UFG, a mediana patrimonial dos titulares eleitos é de 4,5 a 5,1 vezes maior do que a dos não eleitos e suplentes. As maiores assimetrias relativas e os maiores picos de riqueza concentram-se no Centro-Oeste e na nova fronteira agrícola: em Mato Grosso e no Tocantins, a mediana dos eleitos ultrapassa R$ 2,1 milhões, valor mais de cinco vezes superior ao patamar dos não eleitos. Em Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo, a riqueza mediana da bancada eleita também se mantém próxima ou acima de R$ 1,8 milhão.
Esses números explicitam como o capital financeiro e imobiliário atua como um filtro socioeconômico de acesso ao Poder Legislativo, delimitando um perfil de representantes com capacidade financeira muito distante da realidade do eleitorado comum.
A tabela a seguir consolida o número de candidaturas, os valores medianos acumulados por CPF e a diferença relativa entre eleitos e não eleitos em cada estado:
Mediana patrimonial dos eleitos é de 4,5 a 5,1 vezes maior que a dos não eleitos no Cerrado
Mediana do patrimônio declarado, por estado
Mediana dos eleitos titulares Mediana geral Mediana dos não eleitos e suplentes
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▸ Tocantins (TO) — ~5,1x maior
Titulares eleitos: 34
Candidaturas na urna com bens: 268
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 611.113,11
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 2.150.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 420.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~5,1x maior
▸ Mato Grosso (MT) — ~5,1x maior
Titulares eleitos: 35
Candidaturas na urna com bens: 321
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 563.250,48
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 2.450.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 480.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~5,1x maior
▸ Mato Grosso do Sul (MS) — ~4,8x maior
Titulares eleitos: 35
Candidaturas na urna com bens: 282
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 543.086,74
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 1.980.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 410.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~4,8x maior
▸ Maranhão (MA) — ~4,6x maior
Titulares eleitos: 63
Candidaturas na urna com bens: 440
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 508.212,39
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 1.620.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 350.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~4,6x maior
▸ Goiás (GO) — ~4,8x maior
Titulares eleitos: 61
Candidaturas na urna com bens: 640
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 473.750,00
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 1.850.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 380.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~4,8x maior
▸ São Paulo (SP) — ~4,5x maior
Titulares eleitos: 167
Candidaturas na urna com bens: 1.685
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 450.000,00
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 1.750.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 390.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~4,5x maior
▸ Minas Gerais (MG) — ~4,7x maior
Titulares eleitos: 133
Candidaturas na urna com bens: 1.241
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 372.700,00
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 1.480.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 310.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~4,7x maior
▸ Bahia (BA) — ~4,8x maior
Titulares eleitos: 105
Candidaturas na urna com bens: 780
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 362.085,67
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 1.390.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 290.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~4,8x maior
▸ Piauí (PI) — ~4,8x maior
Titulares eleitos: 43
Candidaturas na urna com bens: 249
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 330.000,00
Mediana dos eleitos titulares (R$): R$ 1.250.000,00
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 260.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): ~4,8x maior
▸ Distrito Federal (DF) — Pendente de totalização
Titulares eleitos: Em apuração
Candidaturas na urna com bens: 225
Mediana patrimonial geral (R$): R$ 415.000,00
Mediana dos eleitos titulares (R$): Não consolidado
Mediana dos não eleitos / suplentes (R$): R$ 380.000,00
Diferença relativa (eleitos vs. não eleitos): Pendente de totalização
Nota: medianas do patrimônio acumulado por CPF declarado à Justiça Eleitoral, no primeiro turno das eleições de 2026. A diferença relativa compara a mediana dos titulares eleitos com a dos não eleitos e suplentes. No Distrito Federal, a totalização dos eleitos titulares ainda não foi consolidada.
Fonte: TSE, declarações de bens de 2026; registros de votações parlamentares. Levantamento e sistematização: OJU/UFG.
De acordo com a análise agregada dos dados patrimoniais por cargo, fica revelada uma disparidade expressiva entre candidatos eleitos e não eleitos. Para o cargo de Governador, a mediana patrimonial dos eleitos atinge R$ 16,1 milhões com picos expressivos que chegam a R$ 575,6 milhões em Mato Grosso, enquanto a dos não eleitos fica em R$ 1,2 milhão. No caso de senador titular, a mediana dos eleitos é de R$ 18,2 milhões, em contraste com R$ 850 mil entre os candidatos não eleitos.
A tendência de maior patrimônio concentrado nos vitoriosos se repete na esfera legislativa: os eleitos para deputado federal (231 titulares) apresentam uma mediana de R$ 2,1 milhões, contra R$ 420 mil observados entre suplentes e não eleitos. Por fim, entre os candidatos a deputado estadual ou distrital, a mediana do patrimônio dos eleitos (419 titulares) registra R$ 1,35 milhão, frente a R$ 310 mil verificados entre aqueles que não conquistaram o cargo.
Além disso, a medição do grau de concentração do capital fundiário no Poder Legislativo revela uma assimetria ainda mais acentuada quando se examina a distribuição interna da riqueza imobiliária rural. Para mensurar essa disparidade, o indicador de concentração isola o grupo formado pelos 10% dos parlamentares eleitos com o maior valor acumulado nas categorias estritas de “Terra nua” e “Benfeitorias”, comparando o montante contábil desse grupo com a soma rural de toda a bancada.
Do universo de 283 parlamentares eleitos e titulares que declaram propriedades rurais nos estados do recorte do Cerrado, o grupo composto pelos 28 maiores proprietários, correspondentes aos 10% do topo do ranking, detém impressionantes 81,4% de todo o valor contábil acumulado em terras e benfeitorias rurais de toda a bancada. Em termos práticos, mais de quatro quintos da riqueza em solo registrada oficialmente pelos representantes pertencem a apenas um em cada dez parlamentares declarantes de terra. O resultado demonstra que a representação da propriedade fundiária na política do Cerrado não é apenas difusa, mas afunilada em um núcleo extremamente reduzido e altamente capitalizado.
Atuação parlamentar a partir do capital
A análise individualizada das maiores fortunas eleitas para o Congresso Nacional também permite sair do plano abstrato dos agregados estatísticos e examinar como a acumulação de capital e a propriedade do solo se traduzem em posições concretas no Parlamento. Ao isolar os dez deputados federais e senadores eleitos com os maiores patrimônios declarados nas bancadas dos estados do Cerrado, emerge um retrato nítido de uma elite política altamente capitalizada, cujos ativos variam de grandes extensões de terras nuas e benfeitorias rurais a expressivas participações societárias e carteiras de investimento.
Os 10 maiores patrimônios entre deputados federais e senadores eleitos no Cerrado
Patrimônio declarado, imóveis rurais e posição em quatro propostas
Patrimônio total Imóveis rurais 1 SIM 1 N/A (sem mandato na casa ou na época)
Votos: quadrados, da esquerda para a direita: 1 Pacote do Veneno 2 Licenciamento Ambiental 3 Marco Temporal 4 Manejo do Fogo
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▸ 1º Jadyel AlencarDep. Federal (PI) REPUBLICANOSPatrimônio total: R$ 107,1 mi
Imóveis rurais: R$ 2,5 mi
VOTOS: 1 2 3 4
Partido: REPUBLICANOS
Cargo / UF: Dep. Federal (PI)
Patrimônio total (R$): R$ 107.108.276,43
Imóveis rurais (R$): R$ 2.549.000,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
▸ 2º Flávia do MaguitoDep. Federal (GO) PSDBPatrimônio total: R$ 103,7 mi
Imóveis rurais: R$ 0VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PSDB
Cargo / UF: Dep. Federal (GO)
Patrimônio total (R$): R$ 103.733.556,02
Imóveis rurais (R$): R$ 0,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
▸ 3º Felipe CecílioDep. Federal (GO) PSDBPatrimônio total: R$ 86,8 mi
Imóveis rurais: R$ 0VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PSDB
Cargo / UF: Dep. Federal (GO)
Patrimônio total (R$): R$ 86.829.450,00
Imóveis rurais (R$): R$ 0,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): N/A (Sem mandato na época)
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): N/A (Sem mandato na época)
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): N/A (Sem mandato na época)
Manejo do Fogo (PL 1818/22): N/A (Sem mandato na época)
▸ 4º Wilder MoraisSenador (GO) PLPatrimônio total: R$ 65,1 mi
Imóveis rurais: R$ 18,5 mi
VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PL
Cargo / UF: Senador (GO)
Patrimônio total (R$): R$ 65.160.903,35
Imóveis rurais (R$): R$ 18.500.000,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
▸ 5º Magda MofattoDep. Federal (GO) PLPatrimônio total: R$ 62,9 mi
Imóveis rurais: R$ 12,0 mi
VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PL
Cargo / UF: Dep. Federal (GO)
Patrimônio total (R$): R$ 62.944.315,40
Imóveis rurais (R$): R$ 12.000.000,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
▸ 6º Reinaldo AzambujaSenador (MS) PLPatrimônio total: R$ 55,9 mi
Imóveis rurais: R$ 38,5 mi
VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PL
Cargo / UF: Senador (MS)
Patrimônio total (R$): R$ 55.976.398,48
Imóveis rurais (R$): R$ 38.500.000,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): N/A (Sem mandato no Senado)
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): N/A (Sem mandato no Senado)
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): N/A (Sem mandato no Senado)
Manejo do Fogo (PL 1818/22): N/A (Sem mandato no Senado)
▸ 7º Eleuses PaivaDep. Federal (SP) PSDPatrimônio total: R$ 55,2 mi
Imóveis rurais: R$ 0VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PSD
Cargo / UF: Dep. Federal (SP)
Patrimônio total (R$): R$ 55.283.892,51
Imóveis rurais (R$): R$ 0,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
▸ 8º Renato RibeiroDep. Federal (GO) PLPatrimônio total: R$ 53,9 mi
Imóveis rurais: R$ 28,0 mi
VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PL
Cargo / UF: Dep. Federal (GO)
Patrimônio total (R$): R$ 53.950.216,23
Imóveis rurais (R$): R$ 28.000.000,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
▸ 9º Maurício BuffonDep. Federal (TO) PLPatrimônio total: R$ 48,4 mi
Imóveis rurais: R$ 12,0 mi
VOTOS: 1 2 3 4
Partido: PL
Cargo / UF: Dep. Federal (TO)
Patrimônio total (R$): R$ 48.485.115,44
Imóveis rurais (R$): R$ 12.000.000,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
▸ 10º José NeltoDep. Federal (GO) UNIÃOPatrimônio total: R$ 46,3 mi
Imóveis rurais: R$ 31,5 mi
VOTOS: 1 2 3 4
Partido: UNIÃO
Cargo / UF: Dep. Federal (GO)
Patrimônio total (R$): R$ 46.363.907,43
Imóveis rurais (R$): R$ 31.500.000,00
Votos
Pacote do Veneno (PL 1459/22): SIM
Licenciamento Ambiental (PL 2159/21): SIM
Marco Temporal (PL 490/07 / PL 2903/23): SIM
Manejo do Fogo (PL 1818/22): SIM
Nota: os dez deputados federais e senadores eleitos com os maiores patrimônios declarados nos estados do Cerrado. Imóveis rurais somam as categorias “Terra nua” e “Benfeitorias” do TSE. N/A: parlamentar sem mandato na casa legislativa ou na época da votação.
Fonte: TSE, declarações de bens de 2026; registros de votações parlamentares. Levantamento e sistematização: OJU/UFG.
De acordo com Marcelo Elvira, secretário executivo do Observatório do Código Florestal (OCF), a atuação legislativa direcionada por interesses pessoais, além de gerar um impacto direto à proteção do meio ambiente, também coloca em risco povos e comunidades tradicionais, seus modos de vida, cultura e tradições. “Num momento em que o conhecimento tradicional pode ter um papel fundamental nas discussões sobre adaptação às mudanças climáticas, a atuação legislativa fundamentada em interesses econômicos também enfraquece a capacidade de novas alternativas e saídas serem identificadas, sobretudo em razão do enfraquecimento da proteção de territórios tradicionais”, afirma.
O acompanhamento pormenorizado de proposições legislativas específicas revela uma elevada convergência nas decisões sobre o território. Em matérias cruciais como o Pacote do Veneno (PL 1459/2022), a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 2159/2021), a tese do Marco Temporal para terras indígenas (PL 490/2007 e PL 2903/2023) e a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PL 1818/2022), a adesão às propostas de simplificação de regras ambientais e de blindagem dos títulos de propriedade privada no campo é amplamente majoritária entre esses parlamentares.
Para delimitar com precisão técnica o peso da propriedade rural, a metodologia utilizada pelo OJU/UFG separou estritamente os bens cadastrados nas categorias oficiais do TSE “Terra nua” e “Benfeitorias”. Essa triagem foi indispensável para evitar equívocos analíticos como imóveis urbanos, chácaras de lazer, quotas de empresas agropecuárias, plantéis bovinos, máquinas agrícolas e aplicações financeiras foram mantidas em colunas distintas. Embora participações em empresas rurais e rebanhos explicitem o vínculo econômico do parlamentar com o agronegócio, apenas as categorias de solo e benfeitorias diretas equivalem à posse imobiliária rural.
Como ficou constatado, a aplicação desta métrica revela uma aguda concentração interna. O levantamento sobre o patrimônio e a atuação legislativa dos parlamentares eleitos nas unidades da Federação do Cerrado expõe uma radiografia clara de como a riqueza privada e a propriedade do solo moldam a representação política no Brasil.
A constatação de que a mediana patrimonial dos titulares eleitos é de 4,5 a 5,1 vezes maior do que a dos candidatos não eleitos, somada à hiperconcentração em que apenas 10% da bancada proprietária detém 81,4% do valor imobiliário rural acumulado, revela que o acesso ao Poder Legislativo permanece fortemente demarcado pelo filtro do capital econômico. Nas decisões territoriais e socioambientais, essa arquitetura de poder traduz-se em uma marcante convergência em favor da flexibilização de salvaguardas ambientais, da automação do licenciamento e da consolidação dos títulos de propriedade.
Willian Oliveira é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás e colabora com os Laboratórios e Coletivo Magnífica Mundi
Realizada pela Articulação Agro é Fogo com apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), a série Olho de Aceiro examina quem ocupa e disputa o poder no Cerrado e como essas escolhas pesam sobre a terra-território e os povos que o defendem. Os textos são possíveis graças à parceria com OJU/UFG, pelo levantamento de dados públicos sobre as candidaturas e a atuação parlamentar entre 2023 e 2026, lado a lado com organizações parceiras que levam para a série a experiência e as lutas de quem vive no Cerrado.

