Comunismo patológico - Le Monde Diplomatique

HISTÓRIA

Comunismo patológico

por Véronique Fau-Vincenti,
1 de setembro de 2010
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Em 1848, médicos franceses começaram a estudar como as agitações políticas e sociais causavam doenças mentais. Surgiram pesquisas classificando os revolucionários como demagogos, maníacos, monomaníacos, loucos ou idiotas. Estas avaliações ainda ecoam nos discursos contemporâneos sobre os movimentos sociaisVéronique Fau-Vincenti,

A política é “a causa mais ativa da alienação mental”, ou nos tornamos loucos “porque não somos suficientemente fortes para resistir à influência” da “excitação política”? Essa era a questão levantada pelos membros da Sociedade Médico-Psicológica, que organizava, em 6 de março de 1848, debate sobre “a influência das agitações políticas e sociais no desenvolvimento das doenças mentais”, alguns dias depois da abdicação do rei Louis-Philippe e da proclamação da Segunda República. 

  

Poucos meses depois, o psiquiatra francês, Alexandre Brierre de Boismont, fez um balanço clínico dos transtornos de 1848: “Quase todos os indivíduos que pertenciam ao Partido Conservador tinham monomanias tristes, enquanto aqueles que tinham abraçado as novas ideias foram afetados por manias ou monomanias eufóricas”. E revelou sua ansiedade: “Um número considerável de indivíduos que pulou de cabeça nas utopias desse período – uma reprodução fiel das loucuras da Antiguidade e da Idade Média – não são considerados insanos, simplesmente são considerados inovadores radicais. No entanto, é impossível, para mim, um médico, esquecer as faces, gestos e palavras de muitos desses personagens que tenho visto nos clubes. Não há qualquer diferença entre eles e os hóspedes das nossas casas mentais e, mesmo se houvesse alguma vantagem, teria que ser a favor de nossos pacientes, nos quais as crises de fúria são extremamente raras1”. 

  

A publicação, dois anos depois, em Berlim, da tese do dr. Carl Theodor Groddeck, Sobre a doença democrática, nova espécie de loucura (Germer-Baillière, Paris, 1850), continuou o debate. Comentando esse trabalho, Brierre Boismont, relatou a proposta de um de seus amigos médicos que classificava os revolucionários em cinco categorias: “os demagogos, os maníacos, os monomaníacos, os loucos e os idiotas2”. 

  

Em 1863, o doutor Louis Bergeret apresentou uma compilação agrupando dez casos de loucura decorrentes “da perturbação política e social de fevereiro de 1848”3. Ele acusou “a imprensa má e políticos faladores” e também “os absurdos gerados por todas as seitas do socialismo, comunismo e fourierismo (movimento político cooperativista liderado por Charles Fourier)” que são “heresias” acreditando “na oportunidade de realizar neste mundo o sonho de felicidade perfeita”. Em dez casos, oito eram mulheres. A proporção não é acidental, os médicos da época consideravam as mulheres menos resistentes que homens, por sua constituição física e nervosa. Além disso, elas pareciam ser as primeiras a sucumbir à loucura se um desequilíbrio, de causa passional, se tornava iminente. 

  

Assim, Victorine, que “cumpriu com a mais perfeita regularidade todos os seus deveres de esposa e mãe, antes das circunstâncias fatais que introduziram a confusão nesta alma simples e ingênua”, aparece como a “Mãe da República” e deseja ir a Paris para liberar os prisioneiros políticos Barbes, Blanqui, Louis Blanc, Raspail e Ledru-Rollin. Ela se declara disposta a “sacrificar seus filhos” para acabar com o “despotismo”. Louise, previamente “boa mãe e operária hábil”, se dedicou à leitura de “folhetins políticos dos mais passionais” a ponto de esquecer “completamente os deveres da sua profissão e os cuidados com sua família”. Seus gestos eram “frenéticos, ela gritava com raiva e seus gritos selvagens deixaram todo o bairro tumultuado”. Na sua verborragia se distinguiam as pragas “basta de miséria, basta de exploração do homem pelo homem, chega de ricos, chega de policiais. O homem precisa governar-se a si mesmo”.  

  

Essas mulheres eram, de acordo com Bergeret, animadas por “uma” paixão política, responsável por seu estado exaltado e sua alienação. As colocações do médico traduzem, assim, o espectro da ascensão do segundo sexo no cenário político. Embora idealizadas nos traços de Marianne ou glorificadas por figuras alegóricas da Nação ou da República, as mulheres eram consideradas eternamente inferiores. E se alguns homens, raros, como Condorcet, atribuíam sua suposta “inferioridade” à falta de educação, muitos são aqueles que reduziam a mulher a um simples destino anatômico realizado na maternidade. Aos homens, a esfera pública, e para as mulheres, a esfera privada, convidadas a permanecer no seio da família. Qualquer mulher que saísse do papel que lhe era atribuído não estaria somente perdida, mas seria também perigosa, ameaçando o equilíbrio sexual da sociedade. Bergeret, portanto, se inquietava ao ver que Victorine “se compenetrou tanto das ideias de Fourier, que perdeu a cabeça”, a ponto de “sair com roupas masculinas”. 

  

Um artigo publicado na La Chronique médicale, de 15 de outubro de 1897, traz as primeiras alusões à loucura de Théroigne Méricourt, cuja surra humilhante, em público, foi desclassificada como o castigo de uma criança desobediente, “desde os primeiros atos de sua vida pública” ela era “meio louca, antes de ficar completamente demente. Louca de corpo, como diziam nossos pais, e louca de espírito”. Nada surpreendente para aqueles que arquitetavam, com relação às “petroleiras” (mulheres que foram acusadas de incendiárias durante a Comuna de Paris), a teoria de que as mulheres descontroladas eram transtornadas por uma sexualidade desenfreada, implicando que a entrega de seus corpos na militância seria, também, a perda do seu “eu” no campo mental. Fossem elas “megeras revolucionárias ou harpias realistas, todas as mulheres se equivalem quando se metem em política”4, declararam, em 1906, os médicos Augustin Cabanès e Lucien Nass. 

  

Em 1871, a Comuna foi a oportunidade para a retomada das discussões, na Sociedade Médico-Psicológica, iniciadas em 1848, sobre a influência das revoluções. O doutor Jean-Baptiste Laborde, sugere uma “predisposição hereditária” à qual as circunstâncias dariam “um relevo particular”5. Brierre de Boismont preconiza, em 1871, o uso de meios coercitivos para controlar o corpo, dando preferência a “métodos de imobilização mecânicos” dos “loucos demagogos que são excessivamente perigosos”, entre os quais ele coloca os revoltosos, “esses sectários que querem destruir a sociedade” e que “têm ideias tão contrárias sobre a natureza da família, a propriedade, a individualidade, a liberdade, a inteligência e a constituição de nossa sociedade, que unicamente a loucura pode explicar”6. 

Nos textos de muitos escritores e médicos, bem como nos relatórios oficiais, especialmente os do general Felix Appert, em 1875, se descrevem os integrantes da Comuna com corpos estigmatizados com imperfeições deletérias, rostos retorcidos como se estivessem possuídos, e mulheres com gargantas espichadas, remetendo a uma bestialidade errante e desenfreada. 

  

A isso convém acrescentar que os médicos franceses estavam profundamente irritados com as publicações dos colegas ingleses e alemães: estes últimos temiam um contágio popular, que poderia atravessar as fronteiras, e se perguntavam se haveria uma especificidade do povo francês em abraçar revoluções. Na Inglaterra, as caricaturas de James Gillray e George Cruiksand já tinham divulgado amplamente a imagem de um sans-culottes faminto, fanático e sanguinário. Depois do fim da Comuna aparecem, na imprensa londrina, desenhos que comparam os personagens “irascíveis” dos integrantes da Comuna aos nacionalistas irlandeses. Ao mesmo tempo, Carl Starck, um médico alemão, publicou um estudo sobre “a degeneração do povo francês, seu caráter patológico, seus sintomas e suas causas”, que ele atribuiu “ao orgulho e à presunção, inatos da nação francesa” e ao “cérebro, de peso inferior e organizado de uma maneira especial nos franceses”7. 

  

Este conjunto de representações que traçam a silhueta do “insurgente febril”, antes que surja a figura do “cidadão paciente”, ecoa nos discursos contemporâneos, castigando uma “França doente”, “febril”, “esquizofrênica” ou “autista” a cada novo movimento social. 

Véronique Fau-Vincenti, historiadora, responsável pelas atividades científicas do Museu da História Viva (Montreuil).



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