Condições para a unidade nacional - Le Monde Diplomatique

LÍBIA

Condições para a unidade nacional

por Patrick Haimzadeh
2 de setembro de 2011
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O fim do regime de Muamar Kadafi confirma a força das revoltas no mundo árabe, mas ainda há muito o que fazer na construção da paz. O Conselho Nacional de Transição, que promete eleições, precisará desmontar um a um os pilares do regime e aprender a trabalhar com as tribos que tiveram papel decisivo na vitóriaPatrick Haimzadeh

(Homens pisam em pôster de Kadafi no leste de Tripoli)

No embalo das revoltas tunisiana e egípcia, que provocaram em algumas semanas a queda de dois autocratas, muitos observadores acreditaram que a insurreição líbia de 17 de fevereiro de 2011 pertencia à mesma categoria de eventos. Diante das imagens, difundidas repetidamente por todos os canais de televisão por satélite, dos rebeldes de Cirenaica lançando-se em suas picapes pelas estradas desertas em direção ao oeste, no início de março, não havia outra reação senão ficar comovido, de fato, pelo entusiasmo e coragem desses jovens combatentes que afirmavam com orgulho poder “libertar” Trípoli em dois dias.

No entanto, depois de mais de seis meses de guerra civil e 8 mil missões de bombardeio daOrganização do Tratado do Atlântico Norte (Otan),as frentes de Brega e Misrata evoluíram pouco. As ações decisivas no plano militar, que conduziram à queda de Trípoli em poucos dias, não foram realizadas por essa população do Leste, mas principalmente pela população de algumas cidades do Oeste, liderada por uma grande tribo árabe das montanhas (djebel Nefoussa): os Zintan.

Para entender as especificidades dessa guerra civil e os imensos desafios da era pós-Kadafi, é necessário retornar às especificidades do antigo sistema. Fortemente influenciado pelo nasserismo, o ditador sempre se referiu à expedição franco-britânica de Suez, em 1956, e à Guerra da Argélia como os acontecimentos fundadores de sua consciência política. Mas a partir de 1976, o dirigente anti-imperialista do início cedeu lugar ao ditador que, liderando um sistema predador de rendas petroleiras, apoiava o seu poder em um sistema clientelista generalizado por toda a sociedade:1ele mesmo continua, como no passado, a se considerar um combatente da revolução.

É nessa perspectiva que devemos interpretar seu discurso de 21 de fevereiro de 2011,2 que marcou o início da retomada de controle da situação em Trípoli e nas cidades de Tripolitânia onde a população tinha se rebelado. Esse discurso, que anunciava sua determinação de combater até o fim, teve o efeito dar segurança aos seus fiéis e convencer os manifestantes a ir para casa. A intervenção militar ocidental, iniciada em 19 de março em apoio à insurreição, contribuiu para o fortalecimento de sua retórica de enfrentamento Norte-Sul (forças “cruzadas”, colonialistas…).

O sistema de poder da Jamahiriya, (“Estado das massas”) repousava sobre três fontes de legitimidade: revolucionária, militar e tribal. Esses três pilares permitiram assegurar sua longevidade desde 1975. E continuaram a funcionar de modo eficaz, ainda que de modo enfraquecido, ao longo dos seis meses posteriores ao início da insurreição.

 

Três fontes de legitimidade

Primeiro pilar: os comitês revolucionários, que poderiam ser comparados aos partidos Baath do Iraque de Saddam Hussein e da Síria dos Al Assad. Presentes no seio de todas as estruturas de Estado e das grandes empresas, eles deveriam ser a garantia da doutrina Jamahiriya e da mobilização das massas, no mesmo modelo dos Guardas Vermelhos chineses ou dos Guardas da Revolução iraniana. Em número de 30 mil, seus membros, cooptados, beneficiam-se de promoções e gratificações materiais. Eles foram responsáveis pela repressão em Benghazi, na primeira manifestação de 15 de fevereiro de 2011, que conduziu dois dias mais tarde ao início da insurreição. Os comitês revolucionários se apoiam em diferentes milícias do interior do país, reagrupados sob o vocábulo genérico de “guardas revolucionários”. Armados e operando em vestimentas civis, esses homens tiveram papel dissuasivo, até mesmo repressivo, desde o início da revolta.

Além disso, as guardas pretorianas,dedicadas à proteção do coronel Kadafi e de sua família, eram avaliadas em um número de 15 mil homens antes da revolta, repartidas em três grandes batalhões ditos “de segurança” (sendo que um deles, o de Benghazi, debandou nos primeiros dias, mas um bom número de soldados e comandantes se retirou para a Tripolitânia) e três brigadas interarmas. Os membros dessas unidades são recrutados principalmente no interior de duas grandes tribos do centro e do sul da Líbia, que têm reputação de serem fiéis ao regime (Qadadfa e Magariha). Eles dispõem de numerosas vantagens financeiras, como abonos de salário, ou benefícios, como carros ou viagens ao exterior. São essas unidades que estão combatendo há cerca de seis meses nas três frentes (Marsa Brega, Misrata e Djebel Nefussa) e intervieram de modo pontual nas cidades da Tripolitânia (Zawiya, Sabrata, Zwara) para reprimir o início da insurreição em fevereiro e março. O último filho do coronel Kadafi, Khamis, comandou uma das três brigadas na frente de Misrata; seu irmão mais velho, Mu’tassim, teria estado no comando de outra.

O sentimento de pertencimento tribal e sua instrumentalização pelo poder são o último elemento importante, podendo explicar a longevidade do sistema Kadafi. Durante os primeiros anos da Líbia revolucionária, de 1969 a 1975, o poder não faz nenhuma referência às tribos. Mas, em 1975, o Livro verde recoloca-as na ordem do dia e consagra-lhes um capítulo inteiro.3 As tribos constituirão em seguida um elemento indissociável do clientelismo que é parte central do sistema. Trata-se de distribuir a renda petroleira tomando o cuidado de respeitar o equilíbrio entre as tribos e as regiões, sob pena de pôr em risco a paz social, ou ainda a unidade do país.

O coronel Kadafi soube lidar com as tribos por muito tempo alternando limitação, ameaça, retribuição e negociação. Longe de ser uma estrutura monolítica ou piramidal, a tribo líbia contemporânea se assemelha em tempos de paz, sobretudo, a uma rede de solidariedade flexível, que dá acesso a recursos ou empregos, autorizando tanto estratégias pessoais como coletivas.

Em função da proximidade ou do desacordo de um de seus membros com o príncipe, o pertencimento a uma tribo pode trazer benefícios ou, ao contrário, representar uma desvantagem. Dessa forma, os habitantes de Misrata4– as grandes famílias da cidade, mesmo não formando uma tribo no sentido estrito do termo5– tinham bom relacionamento com Kadafi até 1975. Depois, devido a divergências pessoais e ideológicas com o coronel Omar al Mheichi, um de seus companheiros de primeira hora que era originário dessa tribo, Kadafi rompe sua aliança com eles para se voltar aos seus adversários históricos, os Warfalla, originários de Bani Walid. Desde então, os habitantes de Misrata foram afastados das funções importantes (guarda pretoriana, serviços de segurança) e relegados a funções tecnocráticas.

Em tempos de guerra, as tribos podem constituir uma ferramenta de mobilização particularmente eficaz na zona rural e nas cidades, onde as populações originárias de uma mesma região se agruparam por bairro. Aí também a população é segmentada em muitas dezenas de subconjuntos, cada um dispondo de um xeque. Dessa forma pudemos ver, no início do conflito, os dois campos jurarem fidelidade a xeques de uma mesmo tribo: centenas de membros da tribo Qadadfa residentes em Benghazi, por exemplo, declararam obediência ao Conselho Nacional de Transição (CNT) rebelde, abstendo-se, no entanto, de se engajar militarmente ao seu lado. Assim sendo, as listas apresentadas na mídia, de tribos aliadas ao CNT ou a Kadafi, não fazem muito sentido.

Ao centro, a oeste e ao sul do país, as zonas rurais e as cidades povoadas majoritariamente por membros de grandes tribos implicadas no sistema Kadafi rebelaram-se muito pouco. Algumas forneceram combatentes e milicianos ao regime. É o caso, sobretudo, de regiões de Bani Walid, território dos Warfalla; de Tarhuna, território da importante confederação tribal dos Tarhuna, que representam mais da metade da população de Trípoli; da Surt, território dos Qadadfa; do Fezzan, território das populações qadadfa, magariha, hassawna e tuaregue (recompensadas e recrutadas há muito tempo pelo regime); de Tawurgha, na qual os habitantes manifestam uma rivalidade antiga em relação aos habitantes de Misrata, muito próxima; ou ainda de Gadamés, na fronteira com a Argélia, cuja importante população jaramnase manteve fiel ao poder.

Outras regiões, apesar de simpatizarem com o regime, mantiveram-se neutras à espera de ver para qual lado a balança vai pender: as cidades de Mizda, território dos Machachiya e dos Awlad Bu Sayf; de Al ‘Ujeylat, Waddan, Hun, Sukna e Zliten, nas quais os habitantes awlad shaykh desconfiam dos de Misrata. Isso explica em parte o fato de que, apesar dos numerosos assaltos e bombardeios da Otan, os rebeldes de Misrata não tenham conseguido ocupá-las.

Portanto, de um povoado a outro, podemos ver estratégias diferentes, que se explicam por antagonismos relacionados, às vezes, com a colonização italiana. Aquele, por exemplo, que opõe os Zintan a seus grandes rivais históricos, os Machachiya. Os membros dessas duas tribos coexistiam pacificamente antes da revolta na cidade de Mizda, apesar de os casamentos entre membros das duas tribos serem proibidos. Quando a cidade de Zintan entrou em rebelião, os Zintan de Mizda se uniram aos seus camaradas na revolta, tomando o cuidado de nunca atacar Mizda, onde os Machachiya permaneceram neutros, contrariamente àqueles de outros povoados, que se uniram às fileiras dos kadafistas. Os exemplos são muitos. O que temos de ter em mente é o fato de os mecanismos tradicionais de negociação limitarem a violência, evitando situações irreversíveis que dificultariam a reconstrução de uma comunidade nacional ao final do conflito.

Em relação à capital, Trípoli, a ausência de uma rebelião geral até a chegada dos contingentes provenientes das cidades “libertadas” da Tripolitânia se explica por dois fatores. Por um lado, a densidade do aparelho repressivo e de segurança: guardas revolucionários, batalhões de segurança e “guardas populares” constituídas de prisioneiros do direito comum, liberados e organizados em milícias sob o controle dos comitês revolucionários; por outro lado, a própria sociologia da cidade. Ao contrário de Benghazi, onde a coesão das grandes tribos de Cirenaica, unidas pela mesma rejeição ao poder, permitiu a unidade na ação, Trípoli é constituída de uma metade de populações de grandes tribos originárias das regiões de Bani Walid e Tarhuna, cujo destino está ligado intimamente ao regime Kadafi, e a outra metade é composta de membros de pequenas tribos ou de citadinos, que não constituem grupos importantes suscetíveis de se transformar em estruturas de mobilização e de combate. Assim, as tentativas de levante em certos bairros foram rapidamente reprimidas.

 

Um conselho pouco representativo

A “ruptura tática” anunciada durante cinco meses como iminente nas frentes de Brega e Misrata pelos porta-vozes do CNT e da Otanfoi, na verdade, operada pela poderosa tribo árabe dos Zintan, originária do djebelNefussa – que não contava com mais de 3 mil combatentes no início de maio. Uma das chaves do seu sucesso reside na capacidade de integrar a tradição líbia de primazia do local sobre o regional e do regional, isto é, que os habitantes originários de cada região ou cidade têm o papel de “libertá-las”.Líderes e unificadores da rebelião a Oeste, os Zintan foram responsáveis, de fato, por recrutar, formar e equipar, em Zintan, os batalhões originários das cidades a serem libertadas (Zawiya, Sorman e Gharian), que, em seguida, conduziram simultaneamente o assalto nessas três cidades.

Os comunicadores da Otan e os responsáveis políticos franceses e britânicos podem até se atribuir o papel decisivo de seus bombardeios na evolução de uma situação favorável dos rebeldes, mas não é nem a ruptura tática inúmeras vezes anunciada sobre as frentes de Brega e de Misrata, nem a desagregação anunciada do regime graças ao bombardeio de pontos estratégicos de Trípoli ou das residências do coronel Kadafi e dos seus próximos, que tem incidência decisiva sobre o curso da guerra.

Esse reequilíbrio da realidade militar de uma insurreição que tinha vencido primeiro no Leste traz, daqui em diante, a questão da representatividade real do Conselho Nacional de Transição, que não integra atualmente nas suas estruturas os responsáveis da rebelião vitoriosa do Oeste. Em outros termos, se o CNT deseja continuar a exibir o título de “representante legítimo do povo líbio”, que lhe foi reconhecido desde março pela França e a Grã-Bretanha, ele deverá conceder rapidamente uma representação política aos rebeldes do Oeste, à altura do seu papel militar essencial na vitória final, sob pena de logo surgirem estruturas autônomas.

Outro desafio consistirá em integrar nas instâncias futuras os representantes das regiões e tribos que apoiaram durante muito tempo o regime Kadafi (regiões de Sirte, Tarhuna, Bani Walid, Sebha, Ghat e Ghadames).

A saída da lógica atual da guerra civil passará pela decisão do CNT de dar garantias de futuro a essa população, assim como aos responsáveis militares e membros dos comitês revolucionários menos comprometidos. Se os insurgidos, impulsionados por sua vitória militar, buscarem impor sua vontade pelas armas às tribos pró-Kadafi que dispõem de territórios administrativos, será a lógica da guerra que poderá perdurar.

Em uma lógica de saída de guerra, os mecanismos tradicionais de mediação e negociação beduína deverão ter papel essencial. Pois, se certas tribos apoiaram Kadafi por muito tempo, nada é estático na tradição beduína, cujo pragmatismo e interesse de grupo superam frequentemente a lógica da honra posta em evidência nas descrições, às vezes caricaturais, dessas sociedades no Ocidente. O interesse geral em exportar petróleo rapidamente e repartir a renda sob um modelo transparente e equilibrado entre as regiões poderia também ter papel estabilizador com a condição que o novo poder tenha o cuidado de dar autonomia às regiões e cidades na gestão de suas questões cotidianas.

A saída dessa guerra civil vai, então, constituir um verdadeiro desafio em um país onde as armas estão em circulação, que não dispõe de uma cultura política, e onde o local predomina ainda sobre o interesse nacional. Em qual momento a Otan julgará que a população civil não precisa mais de sua “proteção” e poderá então pôr um fim aos bombardeios?

No embalo das revoltas tunisiana e egípcia, que provocaram em algumas semanas a queda de dois autocratas, muitos observadores acreditaram que a insurreição líbia de 17 de fevereiro de 2011 pertencia à mesma categoria de eventos. Diante das imagens, difundidas repetidamente por todos os canais de televisão por satélite, dos rebeldes de Cirenaica lançando-se em suas picapes pelas estradas desertas em direção ao oeste, no início de março, não havia outra reação senão ficar comovido, de fato, pelo entusiasmo e coragem desses jovens combatentes que afirmavam com orgulho poder “libertar” Trípoli em dois dias.

No entanto, depois de mais de seis meses de guerra civil e 8 mil missões de bombardeio daOrganização do Tratado do Atlântico Norte (Otan),as frentes de Brega e Misrata evoluíram pouco. As ações decisivas no plano militar, que conduziram à queda de Trípoli em poucos dias, não foram realizadas por essa população do Leste, mas principalmente pela população de algumas cidades do Oeste, liderada por uma grande tribo árabe das montanhas (djebel Nefoussa): os Zintan.

Para entender as especificidades dessa guerra civil e os imensos desafios da era pós-Kadafi, é necessário retornar às especificidades do antigo sistema. Fortemente influenciado pelo nasserismo, o ditador sempre se referiu à expedição franco-britânica de Suez, em 1956, e à Guerra da Argélia como os acontecimentos fundadores de sua consciência política. Mas a partir de 1976, o dirigente anti-imperialista do início cedeu lugar ao ditador que, liderando um sistema predador de rendas petroleiras, apoiava o seu poder em um sistema clientelista generalizado por toda a sociedade:1ele mesmo continua, como no passado, a se considerar um combatente da revolução.

É nessa perspectiva que devemos interpretar seu discurso de 21 de fevereiro de 2011,2 que marcou o início da retomada de controle da situação em Trípoli e nas cidades de Tripolitânia onde a população tinha se rebelado. Esse discurso, que anunciava sua determinação de combater até o fim, teve o efeito dar segurança aos seus fiéis e convencer os manifestantes a ir para casa. A intervenção militar ocidental, iniciada em 19 de março em apoio à insurreição, contribuiu para o fortalecimento de sua retórica de enfrentamento Norte-Sul (forças “cruzadas”, colonialistas…).

O sistema de poder da Jamahiriya, (“Estado das massas”) repousava sobre três fontes de legitimidade: revolucionária, militar e tribal. Esses três pilares permitiram assegurar sua longevidade desde 1975. E continuaram a funcionar de modo eficaz, ainda que de modo enfraquecido, ao longo dos seis meses posteriores ao início da insurreição.

 

Três fontes de legitimidade

Primeiro pilar: os comitês revolucionários, que poderiam ser comparados aos partidos Baath do Iraque de Saddam Hussein e da Síria dos Al Assad. Presentes no seio de todas as estruturas de Estado e das grandes empresas, eles deveriam ser a garantia da doutrina Jamahiriya e da mobilização das massas, no mesmo modelo dos Guardas Vermelhos chineses ou dos Guardas da Revolução iraniana. Em número de 30 mil, seus membros, cooptados, beneficiam-se de promoções e gratificações materiais. Eles foram responsáveis pela repressão em Benghazi, na primeira manifestação de 15 de fevereiro de 2011, que conduziu dois dias mais tarde ao início da insurreição. Os comitês revolucionários se apoiam em diferentes milícias do interior do país, reagrupados sob o vocábulo genérico de “guardas revolucionários”. Armados e operando em vestimentas civis, esses homens tiveram papel dissuasivo, até mesmo repressivo, desde o início da revolta.

Além disso, as guardas pretorianas,dedicadas à proteção do coronel Kadafi e de sua família, eram avaliadas em um número de 15 mil homens antes da revolta, repartidas em três grandes batalhões ditos “de segurança” (sendo que um deles, o de Benghazi, debandou nos primeiros dias, mas um bom número de soldados e comandantes se retirou para a Tripolitânia) e três brigadas interarmas. Os membros dessas unidades são recrutados principalmente no interior de duas grandes tribos do centro e do sul da Líbia, que têm reputação de serem fiéis ao regime (Qadadfa e Magariha). Eles dispõem de numerosas vantagens financeiras, como abonos de salário, ou benefícios, como carros ou viagens ao exterior. São essas unidades que estão combatendo há cerca de seis meses nas três frentes (Marsa Brega, Misrata e Djebel Nefussa) e intervieram de modo pontual nas cidades da Tripolitânia (Zawiya, Sabrata, Zwara) para reprimir o início da insurreição em fevereiro e março. O último filho do coronel Kadafi, Khamis, comandou uma das três brigadas na frente de Misrata; seu irmão mais velho, Mu’tassim, teria estado no comando de outra.

O sentimento de pertencimento tribal e sua instrumentalização pelo poder são o último elemento importante, podendo explicar a longevidade do sistema Kadafi. Durante os primeiros anos da Líbia revolucionária, de 1969 a 1975, o poder não faz nenhuma referência às tribos. Mas, em 1975, o Livro verde recoloca-as na ordem do dia e consagra-lhes um capítulo inteiro.3 As tribos constituirão em seguida um elemento indissociável do clientelismo que é parte central do sistema. Trata-se de distribuir a renda petroleira tomando o cuidado de respeitar o equilíbrio entre as tribos e as regiões, sob pena de pôr em risco a paz social, ou ainda a unidade do país.

O coronel Kadafi soube lidar com as tribos por muito tempo alternando limitação, ameaça, retribuição e negociação. Longe de ser uma estrutura monolítica ou piramidal, a tribo líbia contemporânea se assemelha em tempos de paz, sobretudo, a uma rede de solidariedade flexível, que dá acesso a recursos ou empregos, autorizando tanto estratégias pessoais como coletivas.

Em função da proximidade ou do desacordo de um de seus membros com o príncipe, o pertencimento a uma tribo pode trazer benefícios ou, ao contrário, representar uma desvantagem. Dessa forma, os habitantes de Misrata4– as grandes famílias da cidade, mesmo não formando uma tribo no sentido estrito do termo5– tinham bom relacionamento com Kadafi até 1975. Depois, devido a divergências pessoais e ideológicas com o coronel Omar al Mheichi, um de seus companheiros de primeira hora que era originário dessa tribo, Kadafi rompe sua aliança com eles para se voltar aos seus adversários históricos, os Warfalla, originários de Bani Walid. Desde então, os habitantes de Misrata foram afastados das funções importantes (guarda pretoriana, serviços de segurança) e relegados a funções tecnocráticas.

Em tempos de guerra, as tribos podem constituir uma ferramenta de mobilização particularmente eficaz na zona rural e nas cidades, onde as populações originárias de uma mesma região se agruparam por bairro. Aí também a população é segmentada em muitas dezenas de subconjuntos, cada um dispondo de um xeque. Dessa forma pudemos ver, no início do conflito, os dois campos jurarem fidelidade a xeques de uma mesmo tribo: centenas de membros da tribo Qadadfa residentes em Benghazi, por exemplo, declararam obediência ao Conselho Nacional de Transição (CNT) rebelde, abstendo-se, no entanto, de se engajar militarmente ao seu lado. Assim sendo, as listas apresentadas na mídia, de tribos aliadas ao CNT ou a Kadafi, não fazem muito sentido.

Ao centro, a oeste e ao sul do país, as zonas rurais e as cidades povoadas majoritariamente por membros de grandes tribos implicadas no sistema Kadafi rebelaram-se muito pouco. Algumas forneceram combatentes e milicianos ao regime. É o caso, sobretudo, de regiões de Bani Walid, território dos Warfalla; de Tarhuna, território da importante confederação tribal dos Tarhuna, que representam mais da metade da população de Trípoli; da Surt, território dos Qadadfa; do Fezzan, território das populações qadadfa, magariha, hassawna e tuaregue (recompensadas e recrutadas há muito tempo pelo regime); de Tawurgha, na qual os habitantes manifestam uma rivalidade antiga em relação aos habitantes de Misrata, muito próxima; ou ainda de Gadamés, na fronteira com a Argélia, cuja importante população jaramnase manteve fiel ao poder.

Outras regiões, apesar de simpatizarem com o regime, mantiveram-se neutras à espera de ver para qual lado a balança vai pender: as cidades de Mizda, território dos Machachiya e dos Awlad Bu Sayf; de Al ‘Ujeylat, Waddan, Hun, Sukna e Zliten, nas quais os habitantes awlad shaykh desconfiam dos de Misrata. Isso explica em parte o fato de que, apesar dos numerosos assaltos e bombardeios da Otan, os rebeldes de Misrata não tenham conseguido ocupá-las.

Portanto, de um povoado a outro, podemos ver estratégias diferentes, que se explicam por antagonismos relacionados, às vezes, com a colonização italiana. Aquele, por exemplo, que opõe os Zintan a seus grandes rivais históricos, os Machachiya. Os membros dessas duas tribos coexistiam pacificamente antes da revolta na cidade de Mizda, apesar de os casamentos entre membros das duas tribos serem proibidos. Quando a cidade de Zintan entrou em rebelião, os Zintan de Mizda se uniram aos seus camaradas na revolta, tomando o cuidado de nunca atacar Mizda, onde os Machachiya permaneceram neutros, contrariamente àqueles de outros povoados, que se uniram às fileiras dos kadafistas. Os exemplos são muitos. O que temos de ter em mente é o fato de os mecanismos tradicionais de negociação limitarem a violência, evitando situações irreversíveis que dificultariam a reconstrução de uma comunidade nacional ao final do conflito.

Em relação à capital, Trípoli, a ausência de uma rebelião geral até a chegada dos contingentes provenientes das cidades “libertadas” da Tripolitânia se explica por dois fatores. Por um lado, a densidade do aparelho repressivo e de segurança: guardas revolucionários, batalhões de segurança e “guardas populares” constituídas de prisioneiros do direito comum, liberados e organizados em milícias sob o controle dos comitês revolucionários; por outro lado, a própria sociologia da cidade. Ao contrário de Benghazi, onde a coesão das grandes tribos de Cirenaica, unidas pela mesma rejeição ao poder, permitiu a unidade na ação, Trípoli é constituída de uma metade de populações de grandes tribos originárias das regiões de Bani Walid e Tarhuna, cujo destino está ligado intimamente ao regime Kadafi, e a outra metade é composta de membros de pequenas tribos ou de citadinos, que não constituem grupos importantes suscetíveis de se transformar em estruturas de mobilização e de combate. Assim, as tentativas de levante em certos bairros foram rapidamente reprimidas.

 

Um conselho pouco representativo

A “ruptura tática” anunciada durante cinco meses como iminente nas frentes de Brega e Misrata pelos porta-vozes do CNT e da Otanfoi, na verdade, operada pela poderosa tribo árabe dos Zintan, originária do djebelNefussa – que não contava com mais de 3 mil combatentes no início de maio. Uma das chaves do seu sucesso reside na capacidade de integrar a tradição líbia de primazia do local sobre o regional e do regional, isto é, que os habitantes originários de cada região ou cidade têm o papel de “libertá-las”.Líderes e unificadores da rebelião a Oeste, os Zintan foram responsáveis, de fato, por recrutar, formar e equipar, em Zintan, os batalhões originários das cidades a serem libertadas (Zawiya, Sorman e Gharian), que, em seguida, conduziram simultaneamente o assalto nessas três cidades.

Os comunicadores da Otan e os responsáveis políticos franceses e britânicos podem até se atribuir o papel decisivo de seus bombardeios na evolução de uma situação favorável dos rebeldes, mas não é nem a ruptura tática inúmeras vezes anunciada sobre as frentes de Brega e de Misrata, nem a desagregação anunciada do regime graças ao bombardeio de pontos estratégicos de Trípoli ou das residências do coronel Kadafi e dos seus próximos, que tem incidência decisiva sobre o curso da guerra.

Esse reequilíbrio da realidade militar de uma insurreição que tinha vencido primeiro no Leste traz, daqui em diante, a questão da representatividade real do Conselho Nacional de Transição, que não integra atualmente nas suas estruturas os responsáveis da rebelião vitoriosa do Oeste. Em outros termos, se o CNT deseja continuar a exibir o título de “representante legítimo do povo líbio”, que lhe foi reconhecido desde março pela França e a Grã-Bretanha, ele deverá conceder rapidamente uma representação política aos rebeldes do Oeste, à altura do seu papel militar essencial na vitória final, sob pena de logo surgirem estruturas autônomas.

Outro desafio consistirá em integrar nas instâncias futuras os representantes das regiões e tribos que apoiaram durante muito tempo o regime Kadafi (regiões de Sirte, Tarhuna, Bani Walid, Sebha, Ghat e Ghadames).

A saída da lógica atual da guerra civil passará pela decisão do CNT de dar garantias de futuro a essa população, assim como aos responsáveis militares e membros dos comitês revolucionários menos comprometidos. Se os insurgidos, impulsionados por sua vitória militar, buscarem impor sua vontade pelas armas às tribos pró-Kadafi que dispõem de territórios administrativos, será a lógica da guerra que poderá perdurar.

Em uma lógica de saída de guerra, os mecanismos tradicionais de mediação e negociação beduína deverão ter papel essencial. Pois, se certas tribos apoiaram Kadafi por muito tempo, nada é estático na tradição beduína, cujo pragmatismo e interesse de grupo superam frequentemente a lógica da honra posta em evidência nas descrições, às vezes caricaturais, dessas sociedades no Ocidente. O interesse geral em exportar petróleo rapidamente e repartir a renda sob um modelo transparente e equilibrado entre as regiões poderia também ter papel estabilizador com a condição que o novo poder tenha o cuidado de dar autonomia às regiões e cidades na gestão de suas questões cotidianas.

A saída dessa guerra civil vai, então, constituir um verdadeiro desafio em um país onde as armas estão em circulação, que não dispõe de uma cultura política, e onde o local predomina ainda sobre o interesse nacional. Em qual momento a Otan julgará que a população civil não precisa mais de sua “proteção” e poderá então pôr um fim aos bombardeios?

Patrick Haimzadeh é Ex-diplomata na embaixada da França em Tripoli (2001-2004), é autor de Au Coeur de la Lybie de Kadhafi. Paris: Jean- Claude Lattés, 2011.



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