Confusão diplomática no Egito - Le Monde Diplomatique

SEM AMIGOS ETERNOS, APENAS INTERESSES PERMANENTES

Confusão diplomática no Egito

por Alain Gresh
2 de setembro de 2013
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Mesmo condicional, a libertação de Mubarak é simbólica. O que começou com mobilizações populares contra Morsi parece um retorno à velha ordem. O poder não apenas quer eliminar a Irmandade Muçulmana, como também ameaça os avanços democráticos da revolta de 2011 − situação que gera alianças internacionais flutuantesAlain Gresh

(Ato na Praça Ramsés, no Cairo, em memória dos mortos no dia 14 de agosto durante massacre de apoiadores do presidente Morsi).

A “quarta-feira negra” do Cairo, 14 de agosto de 2013, certamente entrará para os anais da história como um dos maiores massacres cometidos num só dia por forças de repressão contra manifestantes, desde os acontecimentos na Praça da Paz Celestial, em Pequim, China, em junho de 1989.1 Claro que nunca saberemos os números exatos: segundo as autoridades egípcias, pouco mais de seiscentos mortos; na verdade, porém, muito mais – de acordo com testemunhos de jornalistas, muitos corpos só foram devolvidos às famílias depois que elas concordaram em “reconhecer” que a morte havia sido “natural” ou decorrente de suicídio.

O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, exigiu a abertura de uma investigação “independente, imparcial, efetiva e crível da ação das forças de segurança” – solicitação que tem poucas chances de ser atendida. Não apenas porque as autoridades do Cairo, apoiadas por quase todas as forças políticas “liberais” ou de esquerda – salvo uma pequena coalizão dos Socialistas Revolucionários, Movimento 6 de Abril, Corrente Popular e partidários do ex-candidato à presidência Abdel Moneim Aboul Fotouh2 –, negam-se a isso, mas também porque a “comunidade internacional” parece mais uma vez paralisada.

Reunido em sessão fechada no dia 15 de agosto, o Conselho de Segurança das Nações Unidas contentou-se com uma declaração lida por sua presidente, a embaixadora da Argentina: “Acima de tudo, os membros do conselho expressam sua simpatia pelas vítimas e lamentam a perda de vidas humanas. É importante acabar com a violência no Egito, que todas as partes demonstrem seu recuo. É preciso avançar no sentido da reconciliação nacional”. Depois de recitar esse texto insípido, a diplomata reiterou a posição de seu país, que ainda sofre com as marcas da repressão militar dos anos 1970: condenou o “golpe de Estado” contra um presidente eleito e pediu à junta que “interrompa total e imediatamente a espiral de violência dos últimos dias contra cidadãos desarmados”.

Da Indonésia ao Brasil, da África do Sul à Malásia, da Bolívia à Nigéria, do Paquistão ao Equador, sem falar da União Africana, que suspendeu a participação do Cairo em suas instâncias, a imensa maioria dos governos que não têm interesses geopolíticos ou econômicos importantes no Egito condenou de maneira inequívoca a derrubada do presidente Mohamed Morsi e a repressão. Já a Índia e a China – que têm interesses econômicos importantes – evitaram qualquer reprovação, com a imprensa oficial de Pequim fazendo ironias sobre os resultados de uma democratização “à moda ocidental”.3 Divergentes em relação a muitos assuntos, ambos os países denunciam o “terrorismo islâmico”, que afirmam também enfrentar respectivamente na Caxemira e em Xinjiang.

Entre as reações das outras potências diretamente implicadas, a dos Estados Unidos foi a mais escrupulosamente dissecada. Observando os comentaristas egípcios, podemos crer que Washington defende ao mesmo tempo dois pontos de vista radicalmente opostos. Segundo a imprensa oficial do Cairo, a Casa Branca teria apoiado e continuará encorajando a Irmandade Muçulmana; para esta, ao contrário, os norte-americanos teriam endossado a operação militar. Podemos ficar perdidos, com tantas frases e apreciações oficiais antinômicas misturadas, mas isso seria ignorar os fundamentos da política norte-americana no Egito.

Preservar o tratado de paz com Israel

Primeiro-ministro nos anos 1850-1860, Henry John Temple forjou uma máxima cínica e impactante: “A Inglaterra não tem amigos ou inimigos permanentes, tem apenas interesses permanentes”. Isso se aplica admiravelmente à política dos Estados Unidos, sucessores do Reino Unido no papel de potência mundial. O presidente Barack Obama apoiou Hosni Mubarak durante a revolta de janeiro-fevereiro de 2011, em seguida aliou-se ao Conselho Supremo das Forças Armadas (Scaf), para enfim jogar a carta do presidente Morsi e da Irmandade Muçulmana, esperando que eles tivessem um papel estabilizador. Por trás da aparente procrastinação, os Estados Unidos perseguem um único objetivo: preservar o tratado de paz entre o Cairo e Tel-Aviv. E conseguiram. Embora a política de Morsi tenha iniciado algumas mudanças a respeito da questão palestina – flexibilização do bloqueio de Gaza, tomadas de posição mais determinadas perante a agressão israelense de novembro de 2012 –, no essencial ela continuou calcada na de seus antecessores.

Para Obama, não é o caso, por algumas centenas de mortos, de romper os laços com os novos senhores do Egito. Se ele não pode deixar de suspender manobras militares conjuntas e adiar a entrega de quatro aviões F-16, também não fará mais que isso. O especialista em Oriente Médio Juan Cole vê pelo menos dez razões pelas quais Washington não suspenderá a ajuda militar ao país – US$ 1,3 bilhão, contra US$ 250 milhões de ajuda civil. A primeira delas é que esse dinheiro é usado, em primeiro lugar, para a aquisição de equipamento militar dos Estados Unidos, subvencionando assim seu “complexo industrial-militar”, especialmente a Lockheed Martin, a Boeing e a Raytheom. Razão ainda mais importante: essa ajuda “foi concedida à elite egípcia”, explica Cole, “para comprar suas boas graças em relação a Israel. Dado o caos que reina no Sinai e a instabilidade no Egito, o Congresso está mais preocupado agora do que nos últimos quarenta anos”.4

Embora os dirigentes de Tel-Aviv evitem expressar publicamente seu ponto de vista, ele transparece nas confidências de autoridades aposentadas. O ex-primeiro-ministro Ehud Barak insistiu na CNN: o general Abdel Fatah Sissi, homem forte do novo regime, “os liberais e outros merecem o apoio do mundo livre. A quem mais ele poderia se voltar?”.5 Danny Yatom, ex-chefe do Mossad, confirma que “Israel prefere o Exército à Irmandade Muçulmana, e um regime laico a um religioso”.6 Essa tendência é ainda mais irresistível quando o general, celebrado na mídia egípcia como um “novo Nasser”, há muito tempo mantém relações estreitas com seus colegas israelenses.7

No momento em que são retomadas, por instigação sua, as conversações entre Israel e uma Autoridade Palestina vacilante – embora fortalecida pelo enfraquecimento do Hamas após a queda de Morsi –, os Estados Unidos não podem dar-se ao luxo de isolar o poder egípcio. Especialmente porque há vários anos eles experimentam um recuo sensível de sua influência na região, sobretudo após a derrota no Iraque. Prova disso foi sua incapacidade de conseguir um acordo entre os militares e a Irmandade Muçulmana para garantir a saída de Morsi e o não uso da violência.8

A União Europeia participou ativamente dessa tentativa de mediação e pôde constatar que foi o Exército quem a rejeitou. Mas, se certos países, como a Dinamarca, propõem a suspensão da ajuda ao Egito, os 28 membros da comunidade se limitaram, no momento, a interromper a entrega de materiais que possam servir à repressão.

O relativo recuo (e constrangimento) norte-americano vem com uma ascensão dos países do Golfo. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait – aos quais é preciso acrescentar o reino do Bahrein, que continua, longe das câmeras, a violenta repressão contra os protestos democráticos – não pouparam declarações nem financiamento em apoio aos dirigentes do Cairo. O rei Abdullah da Arábia Saudita prometeu aos militares, antes mesmo das manifestações de 30 de junho de 2013, generosos subsídios se eles derrubassem Morsi;9 e cumpriu a palavra.

Dois fatores determinam esse apoio: a abominação que representam, para a família real saudita, os processos abertos pelas revoluções na Tunísia e no Egito; e a hostilidade à Irmandade Muçulmana, que remonta à guerra do Kuwait (1990-1991), em razão tanto de seu papel nos protestos dos anos 1990 no Golfo como do seu apoio à Primavera Árabe. As tímidas tentativas de Morsi para abordar o Irã obviamente reforçaram essa animosidade, compartilhada pelos dirigentes sírios, que comemoraram abertamente a queda do presidente egípcio.

Diante dessa “contrarrevolução”, desenha-se uma frente heterogênea no Oriente Médio, que inclui a Turquia, o Irã e o Catar e, de maneira mais distante, a Tunísia, cujos dirigentes acompanham com preocupação os acontecimentos no Cairo. Ancara tem adotado as posições mais claras, com o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan denunciando o “terrorismo de Estado”10 no Egito e tirando seu embaixador do Cairo. Poderíamos ver nesse ato apenas uma solidariedade “islâmica”, mas isso seria esquecer que todo o conjunto das forças políticas turcas, incluindo o Partido para a Democracia e o Progresso (BDP) curdo, condenou o golpe de Estado.

Poderíamos também avaliar que Erdogan está tentando limpar sua reputação depois da repressão aos manifestantes no Parque Gezi. De maneira mais significativa, ele certamente tenta recuperar a iniciativa, já que sua política regional está há meses atolada no conflito sírio e ele próprio perdeu parte de sua força da atração. Ele age brandindo ao mesmo tempo a bandeira da democracia e a da Palestina, mergulhando assim em constrangimento os países do Golfo, pouco mobilizados – é o mínimo que se pode dizer – em relação a ambas as questões.

Hostilidade saudita contra a Irmandade

A condenação da Turquia ao golpe de Estado egípcio, ao lado do Irã – de quem ela está em total desacordo sobre a Síria –, indicaria uma mudança nas alianças regionais? O novo presidente iraniano, Hassan Rouhani, acaba de chegar e deve preocupar-se acima de tudo com a questão nuclear; assim como seu antecessor, ele não esquece que a Arábia Saudita é, com Israel, a principal força regional que empurra os Estados Unidos à intransigência. Mas também sabe que a Turquia, aliada do governo autônomo curdo do Iraque, opõe-se a seu aliado de Bagdá numa série de questões, incluindo a da Síria. Por fim, o terceiro pilar do tripé, o Catar, principal apoio da Irmandade Muçulmana na região, teve de ceder o controle da oposição síria à Arábia Saudita. O novo emir, recentemente instalado, ainda procura seu caminho, embora tema, como seu pai, o poderoso vizinho saudita.

Nesse terreno regional pouco firme, a Rússia busca reconquistar posições. Isolada do mundo árabe pelo apoio ao regime do presidente Bashar al-Assad, hostil desde o princípio às revoluções árabes, receosa diante da ascensão do islamismo que a “ameaça” por dentro (seja no Tartaristão ou no Cáucaso), ela tenta tirar proveito da nova conjuntura. A reunião no Kremlin, no dia 31 de julho, entre o príncipe Bandar bin Sultan, chefe do serviço de inteligência saudita, e o presidente Vladimir Putin gerou muita especulação.11 Os dois países, embora sustentem posições antagônicas a respeito da Síria, compartilham a mesma análise sobre o Egito. Eles podem encontrar um terreno de aliança em sua hostilidade comum à Irmandade Muçulmana, com a garantia de Riad de que nenhuma mudança em Damasco levaria a uma ação sua, ou de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda, que tanto Moscou como Riad combatem. O príncipe Bandar também teria oferecido ao Kremlin polpudos contratos de armamento. Estariam em vista metamorfoses tão espetaculares nas alianças? É pouco provável, mas o jogo fica mais aberto com o recuo – relativo – dos Estados Unidos.

No dia 4 de junho de 2009, em seu famoso discurso no Cairo, o presidente Obama pretendia abrir uma nova página nas relações entre seu país e o mundo muçulmano. Quatro anos depois, são parcos os resultados obtidos tanto a respeito da Palestina como da democratização. Ayman al-Zawahiri, chefe da Al-Qaeda, entendeu bem isso. O que houve no Egito, declarou, “é a melhor prova do fracasso dos meios democráticos para alcançar um Estado islâmico”. Ele, que repetidamente criticou a Irmandade Muçulmana – e o Hamas –, apelou para que esta renuncie à democracia a fim de “se juntar ao jihad e estabelecer um autêntico Estado islâmico”.12 Podemos temer que a exortação seja ouvida tão bem pelos parentes das vítimas da repressão no Egito como por uma parte da juventude do mundo árabe que colocou suas esperanças nas revoluções.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



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