Considerações sobre a prostituição de brasileiras na França

Feminismos transnacionais

Considerações sobre a prostituição de brasileiras na França

por Charlotte Valadier
15 de outubro de 2020
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Por que as mulheres migram e se prostituem na Europa? Por quais motivos as mulheres empreendem uma viagem e da entrada do universo do trabalho sexual? As trajetórias de migração e de prostituição das migrantes trabalhadoras sexuais na França são os resultados de escolhas pessoais livres e conscientes ou são distorcidas por necessidades estruturais? Essas perguntas são algumas das quais vamos tentar responder ao longo desse artigo

Trata-se aqui de estudar como o deslocamento do Brasil para França, bem como o exercício da prostituição no país de destino, é vivenciado pelas brasileiras trabalhadoras do sexo cis gêneros e transgêneros.

Com base na análise dos dados coletados no campo nas cidades francesas de Lyon, Paris e Toulouse, de setembro de 2018 a junho de 2019, por meio de observações e de entrevistas qualitativas semiestruturadas realizadas junto com  31 trabalhadoras do sexo brasileiras, o intuito é mostrar como o fenómeno de migração de mulheres trabalhadoras do sexo é moldado pela interação complexa e plural entre forças estruturais, no nível macro, e processos subjetivos, no nível micro.

Vamos prestar atenção para os espaços intersticiais entre a escala sistêmica e a escala intersubjetiva que pesam na vida das migrantes trabalhadoras do sexo, ao estudar as conexões que existem entre as estruturas hegemónicas de dominação de gênero, raça e classe, por um lado, e os atos de subjetividade individuais por outro. Dessa forma, analisamos como essas preocupações e projetos provenientes de fatores econômico e material se intercalam com aspirações pessoais, desejos, emoções e valores morais na vida das brasileiras trabalhadoras do sexo na França.

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“Não tinha outra opção”: opressão estrutural e necessidade de sobrevivência

A prostituição transnacional é fortemente relacionada a reestruturação do sistema econômico em escala global. As mudanças no processo produtivo levaram ao aumento das desigualdades sociais e do desemprego estrutural nos países mais pobres do mundo. Nesse cenário, a precariedade econômica e social incentivou as classes mais pobres e menos qualificadas das sociedades capitalistas do Sul a buscar melhores condições de vida em países mais desenvolvidos.

De acordo com a leitura feminista marxista, as trabalhadoras do sexo dos países do Sul podem ser vistas como mulheres inseridas em uma estrutura abrangente que as oprime, as impele a migrar e se prostituir no exterior. O racismo, o patriarcado, a transfobia ou a pobreza constituem vários determinismos que orientam seus comportamentos. O mercado de trabalho sexual internacional, o contexto geopolítico pós-colonial e a divisão econômica Norte/Sul constituem um conjunto de estruturas opressoras que agem sobre as decisões e ações individuais das trabalhadoras do sexo.

Durante as entrevistas que realizei junto com 31 brasileiras trabalhadoras do sexo nas cidades de Paris, Lyon e Toulouse, tive a oportunidade de escutar as histórias individuais de cada uma delas e os motivos que as conduziram a migrar e se prostituir na França. Me dei contas que os elementos materiais e econômicos pesavam muito nas suas experiências de vida. Assim, quase todas as interlocutoras brasileiras mencionaram as dificuldades financeiras pelas quais passaram no Brasil e invocaram o argumento econômico como a principal razão que motivou a viagem para a Europa. Foi o caso de Julia, que me contou:

“A minha história é mais ou menos a mesma história que todo mundo. Eu passava por muitas dificuldades econômicas. A minha família é muito humilde, muito mesmo. Em total somos 3 irmãs. Eu morava num lugar muito perigoso, no moro do Alemão, em um subúrbio do Rio. Na época foi uma coisa assim: eu ia muito para a praia no final de semana e lá tinha uma pessoa que agenciava as meninas para levar para a Espanha. Entendeu.” (Julia, cisgênero).

A reestruturação do mundo do trabalho e a diminuição do papel social do Estado nos países capitalistas afetaram as mulheres das regiões pobres do mundo, tornando as condições de trabalho feminino cada vez mais precárias. Por conta dessa precariedade econômica, cada vez mais mulheres escolhem migrar para outros países a procura de oportunidades de trabalho[1]. Nesse contexto, a prostituição tem uma ligação direta com as limitações estruturais enfrentadas pelas mulheres no mercado do trabalho. A desvalorização e a exploração do trabalho feminino subqualificado impacta fortemente a escolha das mulheres em entrar na atividade prostitucional.

O relato de Luiza ilustra o pensamento feminista materialista, segundo o qual a prostituição seria o resultado de uma situação de desespero econômico-social, devida às faltas de oportunidades de emprego em geral e as restrições sofridas pelas mulheres no mercado do trabalho em particular:

“Eu já me prostituía no Brasil. Eu me casei muito jovem, com 16 anos, mas logo depois me separei do meu marido porque era violento. E aí fui para São Paulo com 17 anos justamente para poder sobreviver, para ter uma vida melhor. E eu já estava com uma filha para criar. No Brasil nessa época o salário mínimo era de fazer piedade, por causa da situação econômica que era lastimada. A gente trabalhava por miséria e com o que a gente ganhava, não dava para nada. A gente trabalhava 7 dias por semana, 9 ou 10 horas por dia e no final do mês o salário não dava nem para pagar o que você come. Na época eu morava em um quarto que nem era um quarto, era uma vaga em um quarto com mais 5 pessoas. E não alcançava nem pagar o quarto e a comida ao mesmo tempo. Era uma coisa ou a outra. Então no Brasil eu estava naquela situação crítica. Por ser mulher e ter todas as portas fechadas, mas também porque os salários eram miseráveis. Então as mulheres que não viviam com a família eram obrigadas a se prostituir para sobreviver.” (Luiza, cisgênero).

O trabalho sexual é visto neste contexto como o produto da restrição das suas escolhas, ou seja, como o último recurso para as pessoas que dispõem de menos opções. Porém, essas dinâmicas sistêmicas não são suficientes para explicar os fenômenos de migração e de prostituição. Aspectos de ordem mais pessoal entram em jogo nas trajetórias individuais das trabalhadoras do sexo, enfrentando e compensando essas forças holísticas.

 

“Eu escolhi mesmo”: subjetividade e projetos individuais

 

Além das condições externas que conduzem os migrantes a atravessar as fronteiras (perseguição, pobreza, desastre, conflito), os movimentos resultam também de processos decisionais subjetivos, que integram as estratégias individuais, familiares e comunitárias para a sobrevivência. Num contexto caracterizado pela pobreza e pela necessidade de sobrevivência, “fazer dinheiro” permite às jovens migrantes não apenas de sair da precariedade econômica, mas também de realizar seu desejo de independência e ascensão social.

Sobre as 31 brasileiras que entrevistei, apenas uma não era ciente de que ia ter que se prostituir na França. As outras 30 já sabiam que iam migrar para exercer o trabalho do sexo na Europa e planejaram a viagem com essa intenção. A maioria explicou que não foram enganadas sobre o tipo de trabalho que as esperavam na Europa, já que as modalidades e as condições tinham sido definidas antes da viagem com as cafetinas. Escutamos os trechos de duas entrevistas sobre este assunto:

“Agora vou te dizer uma coisa: ali tudo mundo sabia o que ia fazer na Europa. Tudo mundo. Ninguém veio pensando que ia para lá para esfregar os pratos. Não. Na Espanha tem muita gente presa por causa disso e é sacanagem, inclusive o dono do lugar na Espanha foi preso e muitas meninas foram denunciar ele falando mentiras. Eu não denunciei ninguém. Eu falei: ‘Não vou falar uma coisa que não é. Se estou aqui é porque eu sabia! Eu não vou me meter nesses problemas.’” (Julia, cisgênero).

“Quando eu vim para Espanha, eu sabia de tudo. Nunca fui enganada. A maioria das meninas mentem, porque a gente sabe o que vai fazer. Tudo mundo sabe. É claro que sabem porque elas [as cafetinas] explicam tudo para a gente. Ninguém vai sair do seu país sem saber o que vai fazer, não é?” (Rosângela, cisgênero).

Muitas brasileiras que interroguei insistiram no fato de que o projeto de migração para Europa foi uma escolha pessoal deliberada:

“Para mim particularmente, foi uma opção, e não me arrependo. Eu faria de novo. Eu  acho que tudo é uma opção. Cada um tem a sua história, mas cada um tem sua razão. E  eu não posso dizer que foi uma experiência que eu não faria de novo. Mas eu não me arrependo. Acho que tinha que ser assim.” (Julia, cisgênero).

A prostituição poderia ser vista como parte integrante do projeto de migração, como etapa indispensável através da qual as pessoas pretendem criar novas oportunidades na vida[2]. Assim, além do critério econômico, realizar uma viagem para a Europa e um sonho que inclui uma ideia de evolução cultural e o desejo de liberdade e a busca pela ampliação do próprio horizonte. Muitos autores criticos chamam a atenção para os motivos de migração que integram questões e desejos pessoais, ao ressaltar que muitas mulheres querem migrar para explorar lugares famosos, descobrir outras culturas, conhecer novas pessoas, ou até mesmo para se casar[3].

No caso de Fernanda, foi o desejo de dar um futuro melhor para ele que constituiu o elemento “gatilho” gerador da viagem para a Europa:

“O que mais me incentivou a vir para a Europa não foi a vida que posso ter ganhando com esse dinheiro. O que mais me incentivou a vir mesmo, com toda a garra, foi meu filho. Porque decidi criar o meu filho e dar um futuro para ele. Quando meu filho tava com 11, meu sobrinho que tava com 14 foi preso no Brasil por tráfico. Os dois eram melhores amigos. Aí eu falei ‘Meu filho não vai ser um traficante.’ E eu meti a cara e a coragem e fui para Portugal. Foi isso que me incentivou. Tudo o que eu fiz, tudo o que eu passo, o frio, as humilhações, tudo, é para o meu filho. Porque eu sei que eu vou poder pagar uma faculdade para ele, dar par ele tudo o que eu não tive na vida. Eu vim para Europa me sujeitar a essa vida para dar uma educação melhor para meu filho. Porque eu vi que ele não ia para um caminho bom se continuasse lá no Brasil.” (Fernanda, cisgênero).

 

Para Lorena, foram as repercussões de uma desilusão amorosa na sua saúde mental e emocional que a motivaram a sair do Brasil:

“Eu me iludi com um carra que idealizei demais e que não era quem imaginava. Era uma pessoa muito problemática. Eu idealizei um príncipe que depois virou sapo. Ao passar dos meses, me dei conta que ele mentia demais. E eu fiquei muito abalada. Comecei a entrar em depressão. Eu estava chorando o tempo todo, não conseguia ir para academia. Eu estava muito magra e o meu cabelo começou a cair. Entrei naquele sofrimento silencioso. Por isso que reagi e decidi ir para Europa. Eu fiz um flashback de tudo que estava passando e pensei que não estava bem no Brasil. Eu estava decepcionadíssima, o relacionamento estava andando mal, a minha mãe não me dava aquela assistência de antes. Falei: ‘Quer saber, eu vou embora.’ Desci pro centro comprar aquela passagem. Em uma semana tive que tirar as fotos, comprei roupas, joias, brincos para fazer as fotos. Corri contra o tempo. Comprei malas, bolsas, tudo o que precisava para vir.” (Lorena, transgênero).

 

Portanto, elementos arbitrários, como uma ruptura amorosa, a perda de um emprego fixo ou a violência de um companheiro, bem como aspirações pessoais como o desejo de viajar e descobrir outras culturas também pesam nas decisões de migrar para outro país. Vimos que as emoções, os afetos e os valores afetam os processos decisionais das trabalhadoras do sexo, contrabalancem assim os determinismos estruturais.

Nesse artigo mostramos como as trajetórias de migração e de prostituição das brasileiras convocam tanto motivos materiais e econômicos (necessidade de sobrevivência, de enriquecimento rápido ou acumulação de bens e capitais) como decisões subjetivas individuais (projetos pessoais, desejo de viajar ou curiosidade de descobrir outras culturas).

Analisamos as forças sistêmicas em nível macro e os processos subjetivos em nível micro, o mercado econômico e as ideologias morais, não como dinâmicas opostas que se excluem mutualmente, mas como articuladas e interconectadas. Isso permitiu romper com as falsas dicotomias que separam de forma reducionista as estruturas globalizantes das práticas individuais, o material do simbólico, autorizando, assim, o estudo das suas interações.

No contexto atual de pandemia mundial, seria interessante levar uma reflexão sobre como a propagação do coronavírus está impactando a vida das mulheres no mundo e seus projetos de migração e de trabalho sexual na Europa.

 

Charlotte Valadier é doutora em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI-PUC Rio). Obteve graduação em Ciências Politicas e mestrado em Relações Internacionais pelo Institut de Sciences Politique de Toulouse, na França. É especialista em questões relacionadas à prostituição, tráfico sexual transnacional e migração de trabalhadoras do sexo para Europa.

 

[1]     Truong, T. Gender, exploitative migration, and the sex industry: A European perspective. Gender, Technology and Development, v. 7, n. 1, 2003, p. 31-52.

 

[2]     Andrijasevic, R. Trafficking in women and the politics of mobility in Europe. Utrecht, 2004. 252p. Tese (Doutorado em Ciências Políticas) – University of Utrecht, 2004.

[3] Mayorga, C. Cruzando fronteiras: prostituição e imigração. Cadernos Pagu, n. 37,  2011, p. 323-355.

Piscitelli, A. Corporalidade em confronto: brasileiras na indústria do sexo na Espanha. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 22, n. 64, 2007,  p. 17-32.

 



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