Crise desperdiçada - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

Crise desperdiçada

por Eric Klinenberg e Jeff Manza
1 de dezembro de 2010
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Barack Obama assumiu o poder, em 2008, com o intuito de mudar as políticas econômicas e sociais, e sua eleição foi recebida com grandes manifestações públicas de alegria. Agora, depois que seu partido levou uma surra nas eleições para o Congresso, é possível concluir que Obama desperdiçou um momento históricoEric Klinenberg e Jeff Manza

Barack Obama, quando candidato, prometeu governar com audácia, promovendo uma mudança progressiva. Ao contrário de Al Gore e John Kerry, Obama conseguiu mobilizar uma ampla coalizão de ativistas em algo semelhante a um movimento de massas. Uma maioria substancial de progressistas, normalmente céticos, resolveu apoiar Obama contra sua adversária democrata nas primárias, Hillary Clinton, assim como milhões de jovens e minorias, inspirados por sua mensagem de esperança.

Logo após a eleição, o chefe de gabinete de Obama prometeu que a nova administração iria aproveitar a oportunidade política, afirmando corajosamente que “nunca se deve desperdiçar uma crise grave”. Reforma financeira, reforma da saúde, reforma da mídia, um grande pacote de estímulo econômico que criaria empregos e consertaria a infraestrutura de má qualidade da nação; o fechamento de Guantánamo; acabar com as guerras injustas que não poderiam ser vencidas e que a administração Bush começou mas não conseguiu concluir. Os eleitores americanos estavam preparados para todas estas mudanças, e Obama prometeu realizá-las.

Quando assumiu o cargo, a maioria dos especialistas políticos comparou a situação herdada por Obama com a de dois outros presidentes poderosos, Franklin Delano Roosevelt e Ronald Reagan. Ambos chegaram à presidência com uma mensagem muito clara de que as políticas de seus antecessores eram culpadas pelas crises econômicas vividas no momento e que uma nova agenda política e mudanças administrativas eram necessárias. Roosevelt lançou seu famoso pacote dos “primeiros 100 dias”, com uma enxurrada de medidas que iniciaram o processo de reorientação da política nacional, afastando-a da proteção da riqueza e do livre mercado, que levaram a um grave desequilíbrio no final de 1920.

Embora esses primeiros programas, na verdade, pouco tenham feito para acabar com a Grande Depressão, eles lançaram as bases para um “segundo New Deal”, que criou um sistema de amparo social em âmbito nacional, focado no crescimento econômico de longo prazo, com redistribuição de renda para os pobres e a classe média.

As realizações de Ronald Reagan, no início de 1980, face a uma recessão curta, mas intensa, que levaria a taxa de desemprego a mais de 10%, acompanhada de uma inflação de dois dígitos, também foram impressionantes. Com o controle de apenas uma das duas Câmaras do Congresso (o Senado), Reagan foi ousado. Insistindo em que o New Deal não era mais a resposta e que “o governo era o problema”, ele enquadrou o debate público com sucesso, fazendo uma redução considerável de impostos, desregulamentação e cortes orçamentários significativos.

 

Bipartidarismo

Assim como Roosevelt e Reagan, o presidente Barack Obama poderia ter dito que uma mudança política decisiva não era uma opção, mas uma necessidade. Ele podia ter insistido que os republicanos, cuja agenda política estava quase completamente desacreditada, fizessem política em seus termos. No entanto, ele não fez nada disso. Ao contrário, procurou ser um mediador, para governar de uma maneira educada bipartidária e negociar seu caminho para a mudança política.

Considere a maneira como a administração Obama lidou com o setor financeiro – a crise, no segundo semestre de 2008 e no inverno de 2009, parecia ser um divisor de águas na política econômica americana. Quando Obama assumiu, a indignação pública era palpável com os níveis obscenos de compensação recebida pelos titãs de Wall Street e o resgate dos bancos de investimento e dos seus clientes ricos. Muito mais que em qualquer outro país democrático rico, as políticas públicas nos Estados Unidos haviam premiado os muito ricos, que por sua vez investiram a maior parte do seu dinheiro em instrumentos financeiros.

A oportunidade de conectar produtivamente as desigualdades sociais e as políticas que levaram ao colapso do setor financeiro estava bem ali.No entanto, em vez de colocar a culpa no regime neoliberal que havia criado essa bagunça econômica, Obama o abraçou. Suas primeiras nomeações-chave na economia foram de pessoas próximas a Wall Street, Larry Summers e Timothy Geithner. Ambos estavam associados com algumas das políticas que levaram à crise. Proeminentes economistas, ganhadores do Prêmio Nobel, que tinham pedido mudanças mais ousadas, principalmente Paul Krugman e Joseph Stiglitz, foram deixados de fora da equipe.

O resgate financeiro no segundo semestre de 2008 gerou uma revolta popular generalizada contra a injustiça: os “gatos gordos” estavam sendo atendidos, enquanto os americanos comuns estavam sofrendo de uma crise econômica cada vez mais aguda.

Várias das instituições financeiras que o governo dos EUA socorreu passaram, em pouco tempo, a colher lucros recordes. Em outubro de 2010, a Bloomberg informou que a Goldman Sachs tinha reservado dinheiro suficiente para pagar, em média, US$ 370.706 por funcionário, enquanto o Deutsche Bank tinha guardado o suficiente para pagar US$ 394.499 por empregado. Uma vez que a média dilui a diferença, e estes valores incluíam pessoal de apoio, que ganha muito menos que isso, o banqueiro típico dessas empresas estava ganhando muito mais.1

Os trabalhadores comuns não se saíram tão bem. A taxa oficial de desemprego tem se mantido em torno de 10% desde que Obama tomou posse, e chega a 17% para homens negros com idade acima de 20 anos. Mas, como estes números incluem apenas aqueles que ainda não desistiram de procurar emprego, as taxas reais são consideravelmente mais elevadas. Em Milwaukee, por exemplo, um estudo recente descobriu que 53% dos homens negros estavam desempregados em 2009. (A taxa para os homens brancos, 22%, também estava terrivelmente alta)2.

 

Economia

O que o governo tem feito para reforçar a segurança econômica dos americanos comuns? Sua grande conquista foram os US$ 787 bilhões do pacote de estímulo econômico, aprovado no inverno de 2009. A quantidade de dinheiro foi horrivelmente inadequada. Na campanha de 2010, Obama e os democratas argumentam, com razão, que os americanos estariam em pior situação ainda se não tivessem esse estímulo. Mas sua mensagem foi facilmente rebatida pelos republicanos, que insistiram que o governo tinha desperdiçado quase US$ 800 bilhões.

O fracasso em obter um pacote de estímulo maior simbolizou a recusa de Obama em empreender uma vigorosa campanha pública em favor do que ele alegou acreditar. Sua reforma financeira trouxe algumas melhorias modestas a um sistema falido e nada fez para resolver o problema que incentivou esse comportamento entre as instituições financeiras antes da última quebra. De fato, a nova legislação fará com que a economia fique ainda mais dependente dos grandes bancos do que antes de 2008.

O bipartidarismo de Obama levou a problemas semelhantes com a sua maior conquista política: a reforma do sistema de saúde nacional. A política que surgiu é baseada em mandatos individuais (que obriga cada pessoa a comprar um produto de seguro, independentemente da sua qualidade ou preço, de uma empresa com fins lucrativos) que os republicanos têm chamado de inconstitucionais.3 Vinte Estados já entraram com ações legais contra a nova lei, e os governadores conservadores estão prometendo não executá-la.

Os eleitores jovens, atraídos pelos altos princípios defendidos por Obama na campanha de 2008, têm ficado profundamente desapontados com o seu fracasso em cumpri-los.  A estagnação econômica tem sido devastadora para jovens com formação universitária, de 20 a 24 anos de idade, cujo nível de desemprego subiu de 3% em dezembro de 2007 para quase 10% hoje.

A reforma política da mídia, também importante para os jovens, não deu em nada. Como candidato, Obama defendeu a neutralidade da rede e prometeu investir em melhores sistemas de banda larga porque os americanos, hoje, pagam mais e têm um serviço mais lento que a maioria dos europeus. Mas, a Comissão Federal de Comunicações seguiu o exemplo do governo, favorecendo a indústria de telecomunicações em vez dos consumidores.

A campanha de Obama fez um grande esforço para mobilizar os progressistas e os cidadãos americanos descontentes. Mas, uma vez eleita, a administração Obama agiu como se ele não tivesse nada a ver com o grande movimento que ajudou a tornar possível a sua eleição. Agora, os membros desse movimento deixaram claro que eles já não estão mais dispostos a apoiá-lo.

Eric Klinenberg e Jeff Manza são professores de Sociologia na Universidade de Nova York.



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