SOCIEDADE

Crises da imaginação progressista

O surgimento de lideranças autoritárias é consequência de um cenário de manipulação estética e esvaziamento do debate programático. A superação dessa crise exige que as artes recuperem a capacidade de imaginar futuros coletivos, em vez de se limitarem a comercializar traumas pessoais 

Política é encenação. Nos últimos anos, virou um picadeiro em que lideranças disputam a opinião pública a partir do riso, do escárnio. Constatar o elemento teatral da política, porém, costuma ser tarefa dos cínicos, aqueles que demonizam a atividade humana por excelência acusando-a de teatro de marionetes. 

É fora dessa lógica, no entanto, que afirmo que política é encenação. Na verdade, tudo que corresponde à vida social é encenado, ainda que inconscientemente. Os estudos de gênero, por exemplo, estão avançados na hipótese de que a performance orienta as maneiras de ser no mundo, como mostra Judith Butler. 

Na política institucional, o esquema é parecido. Basta ver as inúmeras imagens de bolsonaristas ajoelhados rezando ao Deus neopentecostal dentro dos parlamentos brasileiros. A performatividade, no entanto, é comum a todos os espectros ideológicos. Afinal, o populismo, tão demonizado, é gênero discurso e não programa partidário, segundo Maria Esperanza Casullo. 

Quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no debate presidencial de 2022 da TV Bandeirantes usando broche de campanha de combate à violência sexual contra menores, ele performou ser contra a pedofilia, contrapondo-se ao então presidente Jair Bolsonaro, que disse que “pintou um clima” com meninas venezuelas de 14 e 15 anos. Sintetizando, é provável, visto o histórico, que o petista realmente rechace a pedofilia – nem toda performance é falsa. Agora, a ação política foi encenada. Era uma mensagem clara aos eleitores de que ele demoniza a violência sexual e, de forma subliminar ma non troppo, acusar o adversário de ter postura oposta. Tudo isso é válido. Faz parte do jogo. 

Crédito: Ilustração Helô D’Angelo

No passado, este tipo de estratégia na política era quase exclusividade dos períodos eleitorais. Com a comunicação digital, as campanhas se tornaram permanentes. E para fazer campanhas, grupos com mais orçamento contratam consultores, que se valem de diversas metodologias quantitativas e qualitativas das ciências sociais para traçarem diagnósticos da opinião pública. O rápido desenvolvimento tecnológico torna os resultados mais precisos ano a ano. 

Com as informações, os profissionais desenvolvem estratégias para conquistar objetivos, mitigando possíveis impactos negativos e ressaltando aspectos positivos. Criam-se linhas narrativas. Em outras palavras, planejamentos estratégicos que guiarão a encenação do candidato ao longo do período pré-estabelecido – ou até os grupos focais mostrarem que tais discursos perderam a validade. As narrativas valem-se da poética, de recursos literários para obterem seus resultados. É performance, mas é como se Shakespeare tivesse à mão ferramentas de análise de dados avançadíssimas. 

O que os profissionais da comunicação política chamam de “campanha permanente” é, na realidade, o auge do que Walter Benjamin chamou de “estetização da política”. O filósofo alemão argumenta que a reprodutibilidade técnica atrofia a aura da obra de arte, isto é, a distância contemplativa entre o emissor e o receptador da obra de arte. 

Com isso, o objeto artístico perderia sua autenticidade, transformando a função social da arte, o culto, fundando-se à política. Essa transposição teria criado a cultura de massas. Sem aura, a arte torna-se mero entretenimento servindo a fins mercadológicos. O público passaria, portanto, a cultuar o produto exposto. 

O fascismo, então, se aproveitaria de tal dinâmica para corromper a massa, apagando a formação de consciência de classe. Assim, “o fascismo caminha diretamente em direção a uma estetização da vida política. Com D’Annunzio a decadência penetrou a política; com Marinetti, o futurismo; e com Hitler, a tradição de Schwabling”. Tudo isso culminou, para Benjamin, em guerra. O manifesto de Marinetti, inclusive, referencia a guerra como objetivo estético. 

A reprodutibilidade técnica a que Walter Benjamin se refere é a fotografia e, principalmente, o cinema. No século 21, os serviços de inteligência artificial e o predomínio da comunicação digital – mediada pelas Big Techs do Vale do Silício – elevou a reprodução ao máximo de sua eficiência. 

Em 2007, Steve Jobs apresenta a primeira versão do iPhone, ainda rudimentar. No ano seguinte, Barack Obama é eleito presidente dos Estados Unidos, sendo pioneiro no uso das redes sociais digitais em campanhas. Em 2016, menos de dez anos depois, os smartphones já estavam nas mãos de quase toda a totalidade dos eleitores estadunidenses. E é nesse ano que este país elege o populista de extrema direita Donald Trump, abrindo margem para líderes autoritários. Em 2022, a Open AI lança o ChatGPT, mudando para sempre a (re)produção intelectual humana. Em 2026, enquanto escrevo essa dissertação, o mundo vive em hegemonia fascista. Gaza e Ucrânia ardem no seio de uma batalha que é, antes de tudo, estética. 

* 

Escutei um rapaz conversando com um amigo nos corredores da universidade. “A arte nunca foi tão acessível. Nunca houve tantas pessoas consumindo arte”, disse ele, e a frase permaneceu reverberando em mim, que ouvi a conversa de escanteio. Todos estão conectados, assistindo a filmes e séries, ouvindo músicas nas plataformas de streaming. Com o Instagram e TikTok, a imagem se tornou permanente na vida das massas. Com isso, argumenta-se que há hegemonia progressista no campo das artes (olá, olavistas), afinal temas ditos identitários parecem ganhar algum tipo de tração nos espaços intelectualizados. 

Isso é mentira em partes, visto que as redes operam em bolhas, evidenciando aquilo que o público quer ver – mesmo que seja para odiar. Porém, caso fosse verdadeiro, elas funcionam a partir da lógica do consumo. Os algoritmos entregam ao público aquilo que tem função mercadológica, tudo se torna pasteurizado. Um lançamento parece ser sempre o mesmo. O público de Taylor Swift celebra os relançamentos de álbuns da cantora como se fossem novidade. 

O fascismo contemporâneo aproveita, então, a corrosão da função social da arte, como apontava Walter Benjamin, culminando na ausência de consciência de classe, para estetizar sua prática política. Propagam-se, então, narrativas populistas que dividem a sociedade entre um povo oprimido e uma elite opressora, composta por vilões caricatos (o bilionário judeu, a lésbica feminista, o terrorista imigrante). Os salvadores seguem perfeitamente a jornada do herói. Deus opera pelas mãos de Donald Trump, Javier Milei é o leão que veio para devorar a casta, Jair Bolsonaro é o mito que, com mãos de ferro, salvará o Brasil da corrupção e do progressismo desmoralizante. Para nós, os antifascistas, chega a ser engraçado descrever essas estratégias. E o desconforto cômico que sentimos é pela inautenticidade. Afinal, tudo isso é ficção. A política é encenação. 

“Assim configura-se a estetização da política operada pelo fascismo. A ele o comunismo responde com a politização da arte”, analisa Benjamin. Ele infelizmente não sobreviveu ao nazismo, suicidando-se na fronteira da França para evitar ser enviado a um campo de concentração. O que derrotou o fascismo foram os exércitos, não a politização da arte. Esta serviu no processo de desnazificação. Mas interpreto a sentença de Benjamin ainda na etapa de disputa, quando o fascismo busca consolidar-se. Aí sim a politização da arte é capaz de fazer frente a estetização da política. 

Acontece que, neste tempo, no século 21, é ingenuidade falar em comunismo. Ao ser perguntada sobre a maior conquista de seu governo, Margareth Thatcher respondeu que é Tony Blair e o novo Trabalhismo inglês. Isto é, a esquerda tornou-se neoliberal, mas com verniz progressista, diria Nancy Fraser. E assim é possível afirmar que houve intensa politização da arte justamente no sentido neoliberal. O que é mais individual do que o eu? E quais são os romances em destaque no mercado, nas listas de recomendações? A grande tendência da literatura contemporânea são as “autoficções”, trabalhos autobiográficos com alto componente narcísico em que, quase sempre, as narrações são sobre as dores, as lutas – mas, note-se, sempre individuais. Edouard Louis fala da sua homofobia sofrida. Annie Ernaux fala do seu aborto. É lógico que são experiências com forte componente universal. Os leitores, então, se identificam com as narrativas do eu. A politização da arte é, então, uma politização conservadora. Não aponta para mudanças estruturais, não imagina o futuro, mas instiga o ressentimento de seu público. 

Com isso, o progressismo monetiza traumas, colocando-se sempre na posição de vítima. E a vítima, que passa a vida toda ressentida sem agir, não é mais do que um ser impotente. Já não há mais consciência de classe, apenas glorificação da dor, a aceitação do lugar de derrotado. Território fértil para o fascimo. 

“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, sentencia Mark Fisher. A questão é que com a reprodutibilidade técnica, imaginar tornou-se ato desnecessário. Tudo é literal, tudo é biográfico, ainda que fantasioso. É missão do nosso tempo, portanto, mostrar que é possível um futuro melhor, mais justo. Cabe à literatura e às artes imaginar o amanhã. 

Por outro lado, esta arte não deve ser panfletária. Jacques Rancière classifica a forma propagandista de se fazer arte como parte de um “regime ético”. A proposta, então, não é um movimento artístico que defina quem são os bons e os maus – isso a autoficção vitimista já faz. 

Leitores são capazes de, por seu próprio sentido ético, identificarem os conflitos sociais narrados. A missão ética da arte, esta sim, com alto caráter revolucionário, é tão somente imaginar e oferecer ferramentas poéticas e metáforas para tanto. Mostrar que é possível imaginar, esperançar. 

 

Kalil de Oliveira Rodrigues é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina com intercâmbio na Universidade de Buenos Aires, é mestrando pela Escola de Jornalismo da Universidade Autônoma de Madri e do jornal El País. Foi repórter da Folha de S.Paulo, onde começou como trainee, e colaborou com veículos como a revista piauí, o Estado de Minas, UOL, Portal Catarinas, canais de televisão e estações de rádio da Argentina etc. 

 

Referências  

 

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Tradução de Gabriel Valladão Silva. Porto Alegre: L&PM, 2018. 

BUTLER, Judith P. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. 16. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. 

CASULLO, María Esperanza. ¿Por qué funciona el populismo? El discurso que sabe construir explicaciones convincentes de un mundo en crisis. Buenos Aires: Siglo XXI Editores, 2019. 

ERNaux, Annie. O acontecimento. Tradução de Marília Garcia. São Paulo: Fósforo, 2022. 

FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Tradução de Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato e Maikel da Silveira. São Paulo: Autonomia Literária, 2020. 

LOUIS, Édouard. Mudar: método. Tradução de Marília Garcia. São Paulo: Todavia, 2023. 

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.

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