Da necessidade de preservar a memória da radiodifusão
Registros da cobertura esportiva contêm detalhes decisivos das disputas políticas travadas na América latina desde o século XX
Na rotina repetitiva, deslocada e perigosa das cidades, os esportes simbolizam um raro momento de intensidade: tanto para os praticantes, amadores ou profissionais; quanto para quem assiste e acompanha o desenlace das competições. Se para os atletas o ímpeto resulta no esforço físico para alcançar os melhores resultados, para os torcedores esse impulso transparece na devoção a clubes, na vibração com vitórias ou na comoção com derrotas – em ambos os casos, a distância da monotonia urbana é perceptível.
Para seguir essa intensidade, as transmissões audiovisuais desenvolveram estratégias ao fazer a mediação do esporte a partir de meados do século XX. E com o agravante de ter que se comunicar, muitas vezes em tempo real, com multidões. Então, foram empregados recursos técnicos para que a mesma vivacidade experimentada por atletas e torcedores chegasse, de alguma maneira, a aparelhos distantes dos principais estádios por meio da radiodifusão. Um desafio e tanto, que se favoreceu do vertiginoso aprimoramento tecnológico.

Narradores gritaram na hora de gols para transparecer emoção; programas de debate que repercutiam os acontecimentos esportivos atiçaram rivalidades com discussões acaloradas que se assemelhavam a brigas em bar; imagens das partidas foram concatenadas por cortes abruptos de câmeras com o propósito de conferir mais dinâmica às transmissões; repórteres fizeram de tudo para demonstrar proximidade com o noticiário esportivo e dar a impressão de que o público presenciava também as principais novidades.
Do ponto de vista histórico, essas características impõem grandes obstáculos aos pesquisadores. Em contraponto à suposta estabilidade dos documentos impressos, os arquivos em som e vídeo são voláteis e fragmentados. A produção audiovisual, em geral, está preocupada com os efeitos a serem suscitados de imediato nas audiências – e é comum que se percam registros de momentos decisivos não somente para a história dos esportes, mas para toda a vida pública. Sobretudo em países com tanta dificuldade para preservar a memória quanto os latino-americanos.
As ambiguidades no trabalho com a história do audiovisual afloram ainda mais quando assinalados os seus benefícios: as impressões automáticas do público, a combinação da imagem com o áudio e a força dos sentidos estimulados por esses documentos históricos captam de modo único experiências de violência e privação. As recorrentes coberturas da agressividade em torno do futebol, em especial da brutalidade policial contra torcedores dentro ou fora de praças esportivas, são ilustrativas dessa capacidade ainda hoje.
Por isso, o estudo da radiodifusão esportiva é tão necessário na América Latina – a intensidade que esses documentos carregam pode ser um caminho para identificar as profundas consequências da violência durante por exemplo os autoritários governos militares chileno e brasileiro desde a segunda metade do século passado. Existe um potencial pouco explorado nos arquivos, que propicia encontrar camadas simbólicas de longa duração, sedimentadas por ofensivas antidemocráticas, tortura, execução e ocultação de cadáveres.
A objeção de que a radiodifusão não deve ser tomada como uma fonte histórica neutra é justa, porque nesses períodos é alto o teor de censura e autocensura que atravessa a produção audiovisual. O medo é um elemento que percorre todas as tarefas ao redor da comunicação em ditaduras. No entanto, o clima repressivo não se restringe aos veículos de grande alcance: a vida social passa a ser marcada por esses silêncios que, embora eloquentes, restringem as manifestações de opositores de diferentes matizes.
Além disso, a neutralidade de todos os documentos precisa ser questionada por pesquisadores. É a conduta que possibilita que diferentes níveis de violência sejam examinados em períodos distintos da história. Ainda que por meio das sutilezas que os arquivos audiovisuais permitem que sejam entrevistos: afinal, com o grau de competitividade do esporte de alto rendimento, é presumível que não sejam tão frequentes demonstrações de autonomia para tomada de partido, em público, sobre questões sociais.
A incidência de registros sobre espaços como o Estádio Nacional em Santiago ou personagens como o ex-jogador Carlos Caszely expõem, no contexto chileno, essas oportunidades. A presença pontual, fragmentária ou residual de modalidades esportivas na campanha contra a continuidade do regime iniciado em 1973, no plebiscito que pôs fim à ditadura, também. Com o atual recrudescimento global da brutalidade política, esses episódios abrem todo um horizonte para estudos sobre radiodifusão, memória e esportes.
Trecho da palestra “Radiodifusión, Deportes y Memoria”, apresentada ao Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (MMDH) em Santiago, no dia 2 de outubro de 2025.
Helcio Herbert Neto (@exarrobasom) é doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pós-doutor em Estudos Culturais e Mídia pela Universidade Federal Fluminense e desenvolve estudos no MMDH no âmbito do Programa de Apoio a Projetos Internacionais de Pesquisa Científica, Tecnológica e de Inovação do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

