O engajamento pelo ódio: “Aqui é Bolsonaro!”

Engajamento

Da rede à crueldade: “Aqui é Bolsonaro!”

por José Isaías Venera
2 de agosto de 2022
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O ex-presidente Lula integra a realidade discursiva da bolha bolsonarista nessa função de ser o sintoma a partir do qual o grupo se une e devota toda a energia no ‘mito’ salvador. A devoção a Bolsonaro é libidinal.

Ao digitar Bolsonaro no Google, foram encontrados aproximadamente 153 milhões de resultados de links de páginas; com Lula, um pouco menos, 123 milhões. Números expressivos que mostram a produção de conteúdos sobre os temas. Cada um dos nomes poderia ser entendido como um hipersignificante de conexão — Bolsonaro se conecta a arma, a mito, a miliciano, a homofobia, numa sequência quase impossível de ser mensurada. São os outros signos acoplados — textos, imagens, audiovisual — aos dois significantes que estabelecem seu valor. Mas isso diz apenas do funcionamento de uma estrutura. Do lado de sua produção, há o emissor que se situa em uma posição discursiva. Os fluxos, que determinam a batida do coração do ciberespaço, podem indicar um operador afetivo e outro de defesa a partir dos quais se formam os laços sociais — o que na linguagem da rede se convencionou chamar de engajamento ou, ainda, de economia da atenção.

Para haver laços sociais, são necessários corpos acoplados nos signos e um caldo de energia que não se simboliza, mas que retorna como ódio e agressividade. As redes sociais intensificam essa amarração dos corpos aos signos, do interno ao externo, em um amálgama que reterritorializa nossa própria humanidade.

Esse caldo de energia que escapa à simbolização talvez seja um dos desafios maiores para a análise do nosso presente, ao se conectar a outros processos históricos envolvendo ‘engajamento’ e ‘economia da atenção’.

O presidente Jair Bolsonaro em Brasília, após passeio de moto em homenagem ao Dia dos Pais. ( Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)
Engajamento: do hipersigno ao crime

O crime de ódio político contra o tesoureiro do PT de Foz do Iguaçu, Marcelo Arruda, em 9 de julho, revelou uma conhecida reflexão sobre os laços sociais que unem o indivíduo da massa com o líder — o ódio (e a agressividade) como afeto primordial de defesa ao que pode colocar em risco a relação de amor. Quando o policial penal Jorge Guaranho gritou “Aqui é Bolsonaro!” em uma festa de aniversário cujo tema era o PT e o ex-presidente Lula e disparou os tiros, o crime verteu em ato o desejo de seu líder: extirpar o que coloca em xeque o poder de Bolsonaro.

O engajamento dos chamados ‘bolsonaristas’ segue a modulação dos afetos — amor e ódio. Para manter forte os laços que unem os seguidores e o líder (Bolsonaro), é preciso nomear e demarcar o que está ausente no amor; o ódio. Assim, o amor vem como sintoma do ódio. O ex-presidente Lula integra a realidade discursiva da bolha bolsonarista nessa função de ser o sintoma a partir do qual o grupo se une e devota toda a energia no ‘mito’ salvador. A devoção a Bolsonaro é libidinal.

Por isso, não há contradição do ponto de vista da teoria das paixões em Guaranho se definir como cristão e cometer crime. A mobilização para os tiros veio pelos afetos, sobretudo porque Guaranho e Arruda não se conheciam. Poderíamos recorrer ao filme Alien: o oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, no qual uma criatura alienígena altamente agressiva, mortífera, se aloja em um humano da tripulação de uma nave. O corpo se reduz a hospedeiro e depois é descartado. O que leva um indivíduo anular a si mesmo para colocar em ato o desejo de seu líder? Esse desejo do outro (líder) vem como um alienígena que mobiliza o corpo alheio e, depois, o descarta.

 

Engajamento das massas

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, de 1921, Sigmund Freud levantou a questão: o que demanda do sujeito esse movimento de anulação de si em favor das massas? A resposta direta seria: as relações libidinais. O pai da psicanálise cita dois exemplos: o exército e a igreja. Não é o amor sexual envolvido, mas uma forma primitiva de amor manifesta pela identificação. Na teoria freudiana, a identificação começa na vida infantil, pode ser observada quando o menino manifesta interesse pela figura paterna, tomando-o como ideal de seu modelo, e, a partir do qual, passa a apresentar atitudes similares às do pai.

Não é preciso muito esforço para estabelecer as identificações na massa. A estrutura libidinal conduz para que o objeto (líder/Bolsonaro) passe a ocupar o lugar do ideal do eu (de Guaranho). Essa figura amada, o ‘mito’, passa a ser uma instância que regula a organização subjetiva, ou seja, mobiliza os afetos e convoca seus seguidores para a ação. O engajamento significa anulação de parte de si que se acopla (faz de si um hospedeiro) nos desejos do outro.

 

A barbárie gera engajamento

Em 1949, poucos anos após o fim da segunda grande guerra, o filósofo Theodor Adorno analisa a propaganda fascista a partir de uma questão central: “por que os seres humanos modernos retomam a padrões de comportamento que contradizem flagrantemente seu próprio nível racional e o presente estágio da civilização tecnológica esclarecida?”.

Adorno volta-se à Psicologia das Massas e Análise do Eu para interpretar a energia que marca o vínculo do indivíduo com a massa. A análise de Adorno parece ainda mais atual: “uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a reordenação do arcaico, mas sua reprodução na e pela própria civilização”. O importante, nesse caso, foi perceber que a própria modernidade se desenvolveu na gestão de pulsões primitivas como raiva, cólera etc. Não é à toa que narrativas que ficam em torno de ódio, vingança, cólera, ciúme, covardia, medo… geram mais engajamento. É mais pela via dos afetos e menos pela razão que internautas se mantêm mais acoplados às mídias, vias de acesso mais rápido dos alienígenas.

Na perspectiva de Adorno, a rejeição do ‘eu’ — ao se integrar às massas — faz parte do projeto moderno, o que resulta na recusa imediata da dicotomia entre barbárie e civilização. Essa tese já fazia parte da obra anterior Dialética do esclarecimento, de 1947, escrita em parceria com Max Horkheimer.

 

Hipermassa

Em 2017, a rede social Facebook atingiu os 2 bilhões de usuários, alcance inimaginado no contexto dos meios de comunicação de massa — jornal, revista, rádio e TV. Evidentemente, a maior parte da produção de conteúdo nas redes sociais é feita por seus usuários, assim como as interações que a mídia possibilita.

Há poucas décadas, o debate girava em torno de como livrar o sujeito dos conteúdos codificados pelos meios de comunicação de massa. Hoje, a grande questão é como descolonizar o desejo submerso nos algoritmos; as séries de instruções — passo a passo — que integram as máquinas pré-definem as possibilidades de ações na rede. Nossos perfis de usuários são definidos pela mineração de dados gerados das produções e dos rastros que deixamos.

Isso, no entanto, não desimplica a relação mídia e massa — agora em proporções ainda maiores (hipermassa) — indiferenciada que se efetive nas plataformas digitais. São mídias privadas (Facebook, Instagram…) em que parte de seu capital vem da comercialização dos dados dos usuários. Nesse sentido, a economia da atenção ganha centralidade. Como ampliar e manter os usuários por mais tempo na mídia?

A grande rede (Internet) é aberta, mas uma diferenciação invisível se inicia a partir do momento em que os dados dos usuários passam a ser lidos pelos algoritmos. Daí em diante, uma seleção funciona com a finalidade de captar e colonizar o desejo para manter o usuário por mais tempo na rede.

Se o indivíduo tem sua atenção voltada à teoria da conspiração, acredita que o diabo veste vermelho, um órgão parasitário (alienígena) não cessará de passar sinais, como se fosse uma voz do além invocando o sujeito para uma missão.

No dia 23 de julho, o presidente Jair Bolsonaro participou da Marcha para Jesus organizada por setores da igreja evangélica. A manifestação religiosa contou com uma réplica gigantesca de uma arma, além de um motociclista que desfilou com um caixão pintado com as cores e bandeira do PT. A prática viralizou nas redes sociais, e não poderia ser diferente. Basta abrir o grupo da família no WhatsApp ou rolar a timeline das redes sociais que os sinais estão sempre visíveis, com ecos do líder: “Vamos metralhar a petralhada”.

José Isaías Venera, jornalista e professor das universidades Univille e Univali

 



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