Da teologia capitalista aos “dummies” - Le Monde Diplomatique Brasil

ANULAÇÃO DO SUJEITO

Da teologia capitalista aos “dummies”

por José Isaías Venera
24 de março de 2021
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Já não podemos mais falar de uma imagem que distorce a verdade, mas de uma ficcionalidade ocupando o seu lugar. A verdade carrega as condições materiais de existência, já a forma-aparência (ou mercadoria) embala as fantasias

A vida sucumbe ao capital. Uma religião. O sagrado desce do altar. Torna-se um kitsch, estrutura de mau gosto que apela para satisfações fugazes, como a gigante Estátua da Liberdade decorando o templo de um empresário, que se fantasia de verde e amarelo enquanto organiza carreatas contra o lockdown. A religião com seus fiéis em transe. Catarse coletiva. Na contramão, profanar é colocar a vida sobre o capital. Comunista. Esquerdista. Socialista. Bolivarianista. Anarquista. Conceituações rebaixadas a adjetivos de ofensa. Quase um remake da Guerra Fria.

Não é de hoje que a mídia de massa se converteu no grande megafone dessa religião, mas é mais recente o fenômeno das redes digitais como espaço da catarse coletiva, destilando ódio. Ouvintes de rádios em Santa Catarina, a partir do dia 12 de março, foram surpreendidos com uma campanha: “Não é hora de parar, precisamos seguir”. Produzida pela Associação Catarinense de Emissoras de Rádio (Acaert), a campanha circula no período mais crítico da pandemia, até então, batendo recordes diários de mortes por Covid-19. Como um coro orquestrado, dois dias depois de seu lançamento, carreatas por vários municípios contra o lockdown mostravam o trabalho de “conscientização” dos empresários, de que o lucro é mais importante do que a vida. Na página da Acaert, a manchete fantasia é: “Acaert produz spot de conscientização contra o Covid-19”. Ao contrário, o que a campanha faz é uma negativa ao lockdown.

O trabalhador envelopado de dummy

Os dummies, que em inglês se referem aos bonecos que imitam a forma humana, adquirem no Big Brother Brasil (BBB) uma estranha aparência que encobre o trabalhador. Eles, os trabalhadores, entram em cena, mas não são percebidos. Em certos momentos, o apresentador do reality show Tiago Leifert até fala de forma carinhosa dos dummies, reforçando a ficcionalidade de sua forma enquanto reforça sua invisibilidade. Eles não são personagens, entram em cena para executar um trabalho, como modificar o cenário para uma atividade dos “brotheres”.

Tomemos os dummies como personagens da nossa cena. Eles figuram no enquadramento, mas sua forma-aparência não passa de uma barreira para ocultar seu avesso, constituído de carne e osso, consciência e corpo, linguagem e afetos. Barrados na forma, vemos a coisificação completa do trabalhador. Nem eles se veem no trabalho realizado, nem o consumidor vê os trabalhadores na mercadoria (o BBB). Nesse jogo de invisibilidade, o apresentador, os jogadores do BBB e o fluxo de conteúdos produzidos nas redes digitais referem-se, em sua maioria, aos dummies como personagens ou como o nome em inglês aponta: bonecos que imitam o ser humano (o que é, na verdade, seu exato oposto).

Já não podemos mais falar de uma imagem que distorce a verdade, mas de uma ficcionalidade ocupando o seu lugar. A verdade carrega as condições materiais de existência, já a forma-aparência (ou mercadoria) embala as fantasias. Por isso, não deveria ser a nós estranho, para trazer um outro tema, o negacionismo da pandemia. Aceitar a pandemia enquanto acontecimento traumático seria o mesmo que deparar com essa trama de invisibilidade em que os sujeitos são constituídos. Mesmo aqueles que estão em foco, como os jogadores do BBB, adquirem a forma-mercadoria nos cortes, na edição e na narrativa audiovisual oferecida aos espectadores.

Os espectadores, estes sim, são a principal mercadoria a partir da qual grandes marcas investem alto no programa. Espectadores, internautas, comentadores podem ser resumidos a consumidores do BBB, mas, na relação comercial do programa com as grandes marcas, é a audiência a mercadoria oferecida. Na religião capitalista, somos o envelope que carrega o dinheiro do dízimo.

Sujeitos envelopados

Os dummies são trabalhadores envelopados. São a expressão máxima de sujeitos reduzidos a coisa pelos aparelhos de captura. De um lado, os jogadores que têm seus nomes, suas histórias, suas vidas capturadas pelo programa e convertidas em mercadoria; no meio, esses trabalhadores envelopados e convertidos em bonecos fofinhos; do outro lado, os consumidores capturados, objetivados, mobilizados que se perdem nas transmissões e se estendem nas suas vidas digitalizadas. Somos todos envelopados.

Quanto mais programas como o BBB “bombam” no espaço atópico, a internet, mais seu espaço sucumbe, afunilado em uma outra versão da chamada sociedade massificada, no que talvez poderíamos chamar de massificação da vida digitalizada. Não é difícil pensar na imensidão de internautas comentando, fazendo memes, votando em cada paredão, enquanto o aparelho de captura controla pela mobilização das paixões, levando as declarações de amor por determinado jogador ou as manifestações de ódio por outro. Eles vão da glória (ou do endeusamento) ao cancelamento (a demonização) em poucos cliques.

À morte envelopada

Quando as mortes são percebidas apenas como números, na exposição diária nos programas jornalísticos, é porque elas já foram envelopadas. É a forma-mercadoria do jornalismo em crise, que já não consegue sustentar o pacto social de construir a verdade dos fatos. Torna-se, na percepção de muitos, um discurso sem lastro, anulando a diferença entre jornalismo e as chamadas fake news.

É verdade que os veículos jornalísticos de grande circulação no país têm feito uma boa cobertura na pandemia, mas sua relação com a sociedade não pode ser medida por um evento. Aquilo que ficava mais explícito na crítica jornalística sobre a relativa autonomia do profissional, que vê sua liberdade reduzida frente aos interesses político e econômico dos donos dos veículos de comunicação, agora é o sentido predominante na sociedade — cujo imaginário pende entre dois polos: a defesa plena quando o enquadramento das matérias integra a religião do consumidor ou a redução à fake news, quando não é favorável. Tornou-se um ato de fé, de convicção.

(Reprodução Globoplay)
Dummy é um signo

Tomemos os dummies como um signo e suas determinações simbólicas. Para isso, o envelope (a roupa que encobre o trabalhador) precisa ocupar a posição de um significante, cujo significado dependerá das interações estabelecidas. Assim, um signo é um significante em movimento, como no episódio de 11 de março em que Carlinha (Carla Diaz) retorna ao convívio da casa “mais vigiada do Brasil” vestida de dummy, após voltar de um paredão falso. Naquela relação, a determinação simbólica fez com que o significante dummy participasse como protagonista do jogo. Carla sai do envelope (da roupagem), mas a dúvida se é a atriz ou Carla Diaz permanece. Dúvida falsa, já que ela se constitui sobretudo na posição de atriz.

Enquanto signo, os dummies referem-se a uma posição de anulação do sujeito. O que acontece quando um trabalhador participa de uma carreata que defende os interesses dos patrões? Ou quando defende uma reforma trabalhista que retira seus próprios direitos? O que o leva a se considerar um empresário de si mesmo enquanto continua vendendo sua força de trabalho? São todas posições de anulação do sujeito envelopado pelo discurso do mercado.

O endereçamento neoliberal envelopa o ser humano, reduzindo-o à ficcionalidade de um dummy.

 

José Isaías Venera é jornalista e professor da Univille e Univali.



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