INFLUENCERS DE SEGURANÇA PÚBLICA

Da TV às redes sociais, candidatos exploram a violência em busca de voto

Levantamento do Intervozes aponta o capital político acumulado por apresentadores de programas policiais e “políticos influencers” que tematizam segurança pública 

Antes restritos aos canais de televisão, a estética e os conteúdos dos programas policialescos ganharam nova roupagem em perfis no YouTube, Instagram e Tik Tok. Agentes de segurança pública em exercício ou não, parlamentares da bancada da bala ou da bíblia, repórteres e apresentadores de programas policiais abusam do sensacionalismo para acumular capital político e lucrar. Embora as práticas de exposição indevida de crianças e adolescentes, desrespeito à presunção de inocência, letalidade policial, incitação ao crime (de linchamento e justiçamento, por exemplo) comuns nos conteúdos sejam amplamente denunciadas, nestes casos, o crime parece compensar.  

Da TV às redes sociais, o Intervozes apurou dezoito candidaturas de influencers policialescos ou de policialescos tradicionais (com programas transmitidos em canais de radiodifusão) na corrida eleitoral de 2026. A pesquisa levantou informações de candidatos dos 27 estados mais Distrito Federal ao Senado e aos governos estaduais, incluindo suplentes e vices, respectivamente. Após o segundo turno, o levantamento se concentrará nos deputados federais e estaduais eleitos. 

A primeira amostra identificou quinze candidaturas ao Senado, incluindo uma suplência, e três aos governos estaduais, distribuídos no Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Roraima, Sergipe e Distrito Federal. São perfis de políticos que construíram visibilidade por meio de programas policiais transmitidos pela televisão e pelo rádio ou que exploram de maneira sensacionalista o tema da segurança pública angariando milhares de seguidores e alto engajamento nas redes sociais. Quinze do total de dezoito alinham-se a Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência. 

Crédito: Colagem/Policialescos

Da TV para a urna 

Na disputa pelo Senado, destacam-se as candidaturas de Carlos Viana (PSD-MG), cuja trajetória inclui atuação no jornalismo e na apresentação do Alterosa Urgente, e de Wilson Lima (União Brasil-AM), que ganhou projeção como apresentador do Alô Amazonas, na TV A Crítica, antes de chegar ao governo estadual. Viana busca a reeleição, enquanto Lima disputa uma vaga após dois mandatos como governador. Ambos conquistaram visibilidade política a partir de suas trajetórias na televisão. 

O Alterosa Urgente é transmitido pela TV Alterosa, afiliada do SBT em Minas Gerais e parte do grupo Diários Associados. Segundo a emissora, quando do lançamento do programa, o sinal chegava a 841 dos 853 municípios mineiros. Carlos Viana apresentou a versão original do Alterosa Urgente, que estreou em 16 de junho de 2004, e retornou ao comando da atração em junho de 2025. Em junho de 2026, afastou-se para disputar a reeleição. O candidato defende que apresentadores e comentaristas permaneçam no rádio e na TV até o registro da candidatura, adiando o afastamento. A grade atualmente publicada pela TV Alterosa para Belo Horizonte não lista o Alterosa Urgente e apresenta o Alterosa Alerta na faixa do almoço. 

Carlos Viana (PSD) aparece entre os candidatos mais competitivos ao Senado por Minas Gerais. Na pesquisa Quaest divulgada em 29 de setembro, registrou 12% das intenções de voto, em empate técnico com Domingos Sávio (PL), que marcou 14%; Marília Campos (PT), com 13%; e Aécio Neves (PSDB), também com 12%. Apesar de ser do PSD, o candidato apoia Flávio Bolsonaro para presidente, afastando-se de Ronaldo Caiado, que disputa a Presidência pelo mesmo partido. 

Viana já havia sido identificado no levantamento eleitoral realizado pelo Intervozes em 2024, quando disputou a Prefeitura de Belo Horizonte pelo Podemos. A pesquisa destacou sua passagem pelo Balanço Geral, da Record Minas, marcando uma trajetória em programas policialescos antes de ser eleito senador, em 2018. 

No Alterosa Urgente, a cobertura de crimes e operações policiais divide espaço com a agenda política, incluindo a atuação do próprio apresentador. Na edição de 13 de março de 2026, ao abordar a CPMI do INSS, Carlos Viana afirmou que o presidente da comissão – ele próprio – “anda bravo” com o andamento dos trabalhos. Anunciada no estúdio, a reportagem o identifica explicitamente como “presidente da comissão, senador Carlos Viana” e reproduz sua declaração sobre a apresentação de um mandado de segurança para prorrogar a CPMI. O episódio evidencia a sobreposição dos papéis de apresentador e parlamentar: Viana anuncia uma reportagem que destaca sua própria atuação no Senado. Ainda que fora do período de defeso eleitoral, o episódio evidencia o uso do espaço do programa para autopromoção e conquista de capital político. 

Wilson Lima (União Brasil-AM), candidato ao Senado em 2026, também construiu sua carreira pública no rádio e na televisão, o que o ajudou a galgar espaço na carreira política. Trabalhou como repórter na TV Tapajós, afiliada da Globo. Em 2006, atuou como repórter da TV A Crítica e apresentador de rádio. Em 2010, assumiu o Alô Amazonas, que comandou até junho de 2018, quando se afastou para disputar o governo estadual. A atração, transmitida pela TV A Crítica – então afiliada da Record –, reunia notícias policiais, comentários sobre impunidade, entretenimento e publicidade. Foi eleito governador pelo PSC em 2018 e reeleito pelo União Brasil em 2022. 

A TV A Crítica já foi alvo de denúncias e de uma ação judicial sobre violações de direitos. Em 2021, o Intervozes, o Instituto Alana e a ANDI analisaram conteúdos do Alerta Nacional, transmitido pela emissora, e identificaram, em um mês, pelo menos sete episódios de violação de direitos de crianças e adolescentes, envolvendo exposição indevida, desrespeito à presunção de inocência e incitação à violência. O levantamento foi encaminhado à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. 

Noutra ocasião, o Intervozes participou como amicus curiae em ação civil sobre discursos contra a população LGBTQIA+, oferecendo subsídios à Justiça. A ação civil resultou em condenação por homofobia. Além disso, documentos do MPF registram uma investigação sobre violações nos programas Alerta Amazonas e Alerta Nacional, com informações fornecidas por ANDI, Artigo 19 e Intervozes. Em julho de 2024, o MPF promoveu o arquivamento de parte dos fatos e encaminhou ao Ministério Público do Amazonas dois episódios envolvendo exposição de violência sexual contra criança e identificação de adolescente vítima de execução. 

Wilson Lima chega à campanha de 2026 com ampla divulgação de propostas como a redução da maioridade penal e a castração química para condenados por crimes sexuais, pautas já difundidas pelo programa do qual era apresentador. Defende também uma atuação mais forte do governo federal na segurança das fronteiras, incluindo a criação de uma polícia específica para essa função. Assim como Carlos Viana, declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), mantendo o alinhamento com sua família, iniciado em 2018, quando apoiou Jair Bolsonaro. 

No caso da corrida pelos governos estaduais, o levantamento identificou dois candidatos que usaram a radiodifusão como trampolim político: André Marinho (Novo) e Ricardo Marques (PL) entraram na disputa pelo cargo no Rio de Janeiro e em Sergipe, respectivamente. Marinho tem trajetória ligada ao humor e ao comentário político no Pânico, da Jovem Pan, explorando o tema da segurança pública na campanha, embora não seja um apresentador policialesco tradicional. 

Marinho também utiliza as redes sociais como palco político. Em agosto último, uma representação apresentada pelo PSD ao TRE-RJ resultou na aplicação de multa de R$ 20 mil por propaganda eleitoral antecipada negativa contra Eduardo Paes (PSD), envolvendo imagens manipuladas por inteligência artificial sem a identificação exigida. A defesa sustentou que se tratava de sátira política protegida pela liberdade de expressão. A relatora considerou que o conteúdo ultrapassava a crítica política e promovia sua candidatura pela desqualificação do adversário. 

A exemplo de André Marinho, Ricardo Marques também construiu sua visibilidade como repórter e apresentador. Com carreira na TV Sergipe, associou a atuação nas comunidades a uma imagem de representante de demandas populares. Foi vereador e vice-prefeito de Aracaju. Entrou na TV Sergipe, afiliada da Globo, em 1999, inicialmente como editor de texto do Bom Dia Sergipe. Posteriormente, trabalhou na TV Atalaia, afiliada da Record, onde apresentou o Balanço Geral. Afastou-se da comunicação em 2020 para disputar sua primeira eleição. Foi eleito vereador de Aracaju em 2020, pelo Cidadania, exercendo o mandato de 2021 a 2024. Em 2024, foi eleito vice-prefeito na chapa de Emília Corrêa (PL). Na gestão municipal, também exerceu a função de secretário da Comunicação Social. Em 2026, passou ao PL para disputar o governo estadual. 

 

Monetizando a violência 

Além dos políticos que conquistaram audiência e votos por meio de programas de rádio e TV, a pesquisa identificou catorze candidaturas na categoria “político influencer policialesco” em oito unidades da federação. Há forte concentração na disputa pelo Senado: são treze registros para esse cargo, incluindo uma suplência, e uma candidatura ao governo. A segurança pública é o principal eixo que aproxima as trajetórias, embora os candidatos tenham diferentes origens profissionais e formas de atuação nas redes. 

Delegado Huggo (Missão-CE) disputa o governo do Ceará. Para o Senado, aparecem Marcos do Val (Avante-ES), Rodney Miranda (PRTB-ES), Capitão Wagner (União Brasil-CE), Alcides Fernandes (PL-CE), Guilherme Theophilo (Novo-CE), Delegado Éder Mauro (PL-PA), Styvenson Valentim (Podemos-RN), Nicoletti (PL-RR), Alessandro Vieira (MDB-SE), Delegado André David (Republicanos-SE), Gustavo Gayer (PL-GO) e Bia Kicis (PL-DF). Já Cabo Cassotto (PL-ES) concorre como primeiro suplente de senador na chapa de Maguinha Malta. 

A fórmula de explorar o sensacionalismo e a agenda de segurança pública nas redes sociais tem gerado retorno nas urnas. Na disputa pelo Senado, Styvenson Valentim (Podemos-RN) lidera a Quaest de 25 de setembro com 19%, enquanto Gustavo Gayer (PL-GO) aparece em segundo lugar na pesquisa de 24 de setembro, com 13%, em empate técnico com Zacharias Calil (MDB-GO). Capitão Wagner (União Brasil-CE) também aparece em posição competitiva: marcou 21% na Quaest de 23 de setembro, em empate técnico com Cid Gomes (PSB-CE) e Luizianne Lins (Rede-CE), mas aparece em terceiro na AtlasIntel/Focus de 30 de setembro, com 21,7%. 

A pesquisa do Intervozes identifica candidatos com bases digitais que chegam a milhões de seguidores. Bia Kicis (PL-DF) reúne mais de 2,5 milhões no Instagram; Gustavo Gayer (PL-GO), mais de 2 milhões somando suas redes; e Marcos do Val (Avante-ES), cerca de 1,7 milhão, segundo os registros da pesquisa. Delegado Éder Mauro (PL-PA) mantém presença em diferentes plataformas, com 478 mil seguidores no Instagram, 405 mil no Facebook e 235 mil no TikTok. Esses números indicam a dimensão potencial de suas audiências, mas os dados disponíveis não permitem estabelecer o alcance efetivo das publicações. Embora não se tenha acesso a dados sobre receitas de publicidade ou monetização dos candidatos pesquisados, o mercado de influência digital oferece exemplos de como grandes audiências podem gerar receitas expressivas. 

Segundo monitoramento da Agência Pública, em parceria com a plataforma Zeeng, um candidato com muitos seguidores pode ganhar até R$ 8 mil por mês no YouTube com vídeos sobre operações e abordagens das polícias. O levantamento considerou os quinze candidatos influencers com maior monetização sobre ocorrências policiais em 2026: eles podem ter ganhado até R$ 64,6 mil na soma dos vídeos – entre shorts e vídeos longos – publicados no YouTube de 1º de janeiro a 25 de agosto deste ano. A reportagem, publicada em 17 de setembro último, ressalta que a maior estimativa de arrecadação é do deputado federal e candidato à reeleição Delegado Palumbo (Podemos-SP), que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o início do ano, acumulando mais de 26 milhões de visualizações no período analisado. 

 

Da farda ao estrelato 

No levantamento do Intervozes, entre os candidatos aos governos estaduais e ao Senado, também se destacam profissionais de segurança que transformam a identidade policial ou militar em marca para angariar votos. É o caso de Agente Dias (Republicanos-ES), Nicoletti (PL-RR), Capitão Wagner (União Brasil-CE), Delegado Huggo (Missão-CE) e Delegado André David (Republicanos-SE). Seus conteúdos combinam divulgação e transmissão de operações, exaltação das corporações, comentários sobre crimes e defesa de medidas mais duras de segurança. Em alguns perfis, armas, abordagens e confrontos aparecem como elementos de construção de autoridade e proximidade com o público. 

Entre os influencers, têm trajetória nas forças de segurança pública Agente Dias (Republicanos-ES), da Guarda Municipal; Cabo Cassotto (PL-ES), Capitão Wagner (União Brasil-CE) e Styvenson Valentim (Podemos-RN), da Polícia Militar; Rodney Miranda (PRTB-ES), delegado da Polícia Federal; e Nicoletti (PL-RR), da Polícia Rodoviária Federal. Também integram esse grupo os delegados da Polícia Civil Huggo (Missão-CE), Éder Mauro (PL-PA), Alessandro Vieira (MDB-SE) e André David (Republicanos-SE). Já Marcos do Val (Avante-ES) tem trajetória como instrutor de treinamento policial e passagem pelo Exército, enquanto Guilherme Theophilo (Novo-CE) é general da reserva do Exército. 

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, as 27 unidades federativas tinham dispositivos disciplinares aplicáveis, direta ou indiretamente, às manifestações de policiais militares nas redes sociais, incluindo restrições à divulgação de informações oficiais ou sigilosas. Algumas corporações também restringem o uso de fardas, viaturas e outros elementos institucionais em perfis pessoais. O relatório Letalidade policial e impacto nas infâncias negras na Bahia e no Rio de Janeiro, da Plataforma Dhesca, recomenda que as plataformas digitais proíbam o impulsionamento, o patrocínio e a monetização de conteúdos violadores de direitos humanos, especialmente os produzidos por agentes de segurança pública. Às instituições de segurança, recomenda editar normas que impeçam a monetização de conteúdos que utilizem a função ou recursos públicos em benefício próprio, além de proibir o uso de armamentos, fardas, veículos, câmeras e outros equipamentos públicos em postagens nas redes sociais. 

Além dos agentes de segurança pública, também chamam a atenção figuras cuja projeção se apoia no ativismo político digital, como Gustavo Gayer (PL-GO) e Bia Kicis (PL-DF). Nesses casos, a pauta da segurança se articula ao bolsonarismo, à defesa do acesso a armas, às críticas ao Judiciário, com foco no STF, e à regulação das plataformas. 

Bia Kicis (PL-DF) construiu projeção política combinando carreira jurídica, ativismo de direita e presença nas redes sociais. Antes de ocupar um mandato, participou das mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff e, em 2015, tornou-se representante do Revoltados Online em Brasília e fundou o Instituto Resgata Brasil. Foi eleita deputada federal pelo PRP em 2018 e reeleita em 2022, pelo PL, com 214.733 votos, a maior votação para a Câmara no Distrito Federal. Em 2026, disputa o Senado, compartilhando o palanque com Michelle Bolsonaro. 

Sua atuação parlamentar inclui pautas como voto impresso e Escola sem Partido. Em 2022, o YouTube suspendeu por uma semana a possibilidade de Bia Kicis fazer novas publicações por desinformação sobre vacinas contra a Covid-19, após uma transmissão sobre vacinação infantil. O Instagram também havia restringido suas lives pelo mesmo motivo. Em outro episódio, publicou uma montagem de Sergio Moro e Luiz Henrique Mandetta com os rostos escurecidos para ironizar um programa de trainees destinado a pessoas negras. A postagem motivou investigação por suposto racismo, arquivada pelo STF em maio de 2022. 

Na mesma linha de Bia Kicis, Gustavo Gayer (PL-GO) ganhou projeção como influenciador bolsonarista antes de conquistar seu primeiro mandato. Professor de inglês e empresário do setor de idiomas, é filho da ex-deputada estadual Conceição Gayer. Disputou a Prefeitura de Goiânia em 2020, pelo Democracia Cristã, ficando em quarto lugar. Em 2022, foi eleito deputado federal pelo PL com 200.586 votos, a segunda maior votação de Goiás. Em 2026, disputa o Senado. 

Suas principais bandeiras incluem pautas conservadoras, redução de impostos, segurança pública e oposição ao governo Lula. Também defende o impeachment de ministros do STF. A atuação nas redes antecede o mandato: seus vídeos de comentários políticos e defesa de Jair Bolsonaro foram parte importante da construção de sua imagem pública. O candidato se autodenomina defensor da liberdade de expressão, direito que apresenta como justificativa para produzir e difundir conteúdos que críticos classificam como desinformação e discurso de ódio. 

Levantamento da Nexus o colocou em terceiro lugar em relevância digital entre os deputados, considerando seguidores, frequência de publicação e interações em cinco plataformas. Em abril de 2026, o STF recebeu denúncia da PGR por injúria e tornou Gayer réu por uma imagem manipulada publicada em 2024, que associava o presidente ao nazismo. Em 2023, a PGR apresentou denúncia por injúria e racismo relacionada à participação de Gayer no 3 Irmãos Podcast. A acusação apontou falas que inferiorizariam africanos e afrodescendentes por meio de comparações sobre inteligência. 

 

Deus, pátria e bala 

A combinação de referências a Deus, à pátria, às armas e à família é recorrente nos conteúdos e no posicionamento político dos candidatos identificados pela pesquisa. Nos registros analisados, a defesa de valores religiosos e conservadores aparece associada a propostas de endurecimento penal e a críticas às instituições. Entre as agendas defendidas por candidatos do levantamento estão a redução da maioridade penal, a ampliação do acesso a armas e a oposição à legalização do aborto. 

Alcides Fernandes (PL-CE) exemplifica essa articulação. Na campanha ao Senado, defende a redução da maioridade penal para 16 anos, a classificação de facções criminosas como organizações terroristas e a castração química para condenados por crimes sexuais. Também se posiciona contra o aborto, a legalização da maconha e a regulação das redes sociais e das grandes plataformas, além de defender o impeachment de ministros do STF. Pastor da Assembleia de Deus desde 1991 e compositor de músicas evangélicas, combina nas redes referências à fé cristã, defesa da família e divulgação de atividades políticas e religiosas. Atualmente deputado estadual, disputa pela primeira vez uma vaga no Senado pela coligação “Unir para Mudar”, ao lado de Capitão Wagner (União Brasil-CE), também candidato ao Senado, e de Ciro Gomes (PSDB-CE), candidato ao governo estadual. É pai de André Fernandes (PL-CE), que disputa a reeleição como deputado federal. 

Carlos Viana (PSD-MG) também expressa essa aproximação entre religião e política, com atuação na Frente Parlamentar Evangélica do Senado e oposição à legalização do aborto. Cabo Cassotto (PL-ES), policial militar e pastor que disputa uma suplência no Senado, articula religião e segurança pública em sua comunicação. Delegado Éder Mauro (PL-PA) utiliza o lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, enquanto Guilherme Theophilo (Novo-CE) enfatiza a oposição ao aborto, às drogas e aos jogos de azar. 

Os vínculos religiosos também aparecem na participação em frentes parlamentares e na construção de apoios eleitorais. Gustavo Gayer (PL-GO) integra a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional e recebeu apoio de lideranças da Assembleia de Deus em Goiás; Marcos do Val (Avante-ES) é membro da frente evangélica do Senado. Já Ricardo Marques (PL-SE) iniciou sua trajetória na comunicação em rádios da Rede Novo Tempo, ligada à Igreja Adventista do Sétimo Dia. 

 

Donos da mídia 

Neste segundo texto da série Donos da Mídia 2026, exploramos como o discurso policialesco ultrapassa os programas de rádio e televisão e circula em perfis nas redes sociais, por meio de vídeos de operações, comentários sobre violência e promessas de punição. Nas plataformas digitais, a imagem de autoridade profissional se combina à comunicação direta com o eleitor e à divulgação da candidatura, resultando em capital político, visibilidade e negócio lucrativo. 

A pesquisa Donos da Mídia 2026 integra a série histórica do Intervozes sobre a propriedade e o controle, por políticos, de canais de rádio e televisão que operam mediante concessões públicas. O levantamento também examina a conversão da visibilidade oriunda de programas policialescos em capital político e a atuação de candidatos das forças de segurança pública como influenciadores digitais, considerando as estratégias de projeção eleitoral nas redes sociais. Neste pleito, a pesquisa abrangeu os 26 estados e o Distrito Federal, cruzando dados da Receita Federal, do Sistema de Acompanhamento de Controle Societário da Anatel (Siacco) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Após o primeiro turno, será feito um raio-X dos eleitos para as casas legislativas dos estados e para a Câmara Federal, identificando as relações com a mídia tradicional e as redes sociais. Acompanhe a série aqui pelo Le Monde Diplomatique Brasil. Os dados completos serão disponibilizados no site do Intervozes. 

 

Iara Moura é jornalista, mestra em comunicação e coordena a pesquisa Donos da Mídia 2026. Mônica Mourão, Raquel Bastos, Franciani Bernardes, Paulo Victor Melo e Iago Vernek são ativistas do Intervozes e integram a equipe de pesquisadores responsável pelo levantamento. 

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