Da violência da dominação – propostas anti-barbárie
Em tempos de Legendários, de redpills e da extrema direita, qual deve ser o nosso papel na sociedade?
O episódio que marcou negativamente o Rio de Janeiro nas últimas semanas – não preciso dizer qual foi, pois ele se descortina ao longo do artigo – nos leva, novamente, a uma reflexão necessária sobre o nosso papel na sociedade: para que servimos? Ou melhor: servimos para alguma coisa? Qual a finalidade de nossa existência, em termos coletivos? Estamos reféns de uma bomba relógio resultante do somatório dos seguintes fatores: ascensão da extrema direita – com todo um pacote de masculinidade a ela intrínseco –; figuras públicas que ganham as redes sociais, absorvendo os mais jovens, com o propósito de instituir um movimento (redpill) que “ensina a ser homem” e, indo além, “ensina como mulheres devem ser tratadas” (ou dominadas?); frustrações diversas, muitas vezes intensificadas a partir das redes, além de outros elementos relativos à renda e mercado de trabalho.
Aos homens, sobretudo aos criados entre os anos 1980 e 1990, que tiverem acesso a este texto, fica o convite: façam um exercício de memória. Vamos relembrar como nossas criações aconteceram. O que te ensinaram a fazer? O que falaram que você não deveria fazer? Como te ensinaram a tratar sua mãe? Quem te ensinou isso? Qual foi seu primeiro contato com a sexualidade? Você teve algum estímulo de pessoas adultas para ter contato com conteúdos pornográficos? Olhando com as lentes de hoje, como você se sente? Você reproduz isso? Você acha isso normal? Talvez, essa prática de relembrar seja um pontapé inicial para mudanças, ainda que pontuais. Eu sou homem e sei muito bem os desconfortos que tais perguntas provocam. A ideia é justamente essa. E, o principal: a ideia é fazer com que práticas brutais e atrozes não sejam reproduzidas, nunca mais.
O que aconteceu no Rio de Janeiro, que foi noticiado nos últimos dias, foi mais uma evidência, das muitas que tivemos ao longo dos últimos meses, do papel de objetificação em que mulheres foram situadas por homens. As mulheres se mobilizaram. Na verdade, elas vêm se mobilizando há muitas décadas. Eric Hobsbawn afirma que, se teve uma revolução bem-sucedida no século XX, foi a revolução feminista.
Há quem peça para as mulheres pegarem leve, há aqueles que vejam o feminismo como algo exagerado, há quem diga que o movimento feminista estigmatiza, há quem diga, também, que a crítica ao machismo não pode ser uma crítica aos homens, dentre outros discursos que nunca são de apoio. A grande questão é: diante de todos os últimos acontecimentos, não devemos ser estigmatizados? E aí entra a segunda questão: se o olhar estigmatizante incomoda, elas devem mudar o olhar ou nós devemos assumir outra postura?
Em tempos de Legendários, de redpills e da extrema direita, qual deve ser o nosso papel na sociedade? É uma pergunta muito simples, é uma pergunta sobre pacto societário, apenas isso. Uma pergunta sobre como não invadir um espaço que não é nosso, uma pergunta sobre como não violar. Uma pergunta que nem deveria ser feita, no fim das contas.
Ainda persiste a ideia de que diferenças biológicas levam, obrigatoriamente, a diferenças nas atividades realizadas e nos papéis desempenhados, como se as atividades e os papéis não fossem socialmente construídos, definidos e destinados. Usar diferenças biológicas para legitimar desigualdades, opressões e violências é exatamente o que foi feito ao longo de tantos processos de colonização, e é um recurso que ainda é utilizado. Não há tempo para canalhice, nem para cinismo. Por falar em cinismo, todos esses discursos aparecem protegidos pelo princípio da liberdade de expressão. É importante lembrar que a liberdade de expressão não significa a chave da porta da barbárie. Algumas figuras que, lamentavelmente, ganharam enorme visibilidade nos últimos anos, usam tal princípio para legitimar toda e qualquer atrocidade.
A figura do “macho provedor”, que sustentava a casa em nome de uma divisão do trabalho que colocava a mulher no papel de dona de casa e responsável por todas as tarefas domésticas está cada vez mais morta. Dados econômicos das últimas décadas, mais especificamente da década de 1940 até hoje, no caso brasileiro, mostram que o nosso dinheiro, cada vez mais, vale menos. A figura do macho provedor morreu. Precisamos das mulheres trabalhando fora de casa. Precisamos do dinheiro delas. E a casa? Eis a questão, é tempo de mudanças. Sumiram?
Pode ser que a reafirmação de uma masculinidade, ainda que mais incompetente e empobrecida do que antes, seja um mecanismo de compensação pela precarização das relações de trabalho e pela economia de plataformas. E pode ser, também, que toda essa frustração resulte em episódios violentos. Pois não se trata apenas de uma frustração gerada pela precarização da vida. Se assim fosse, as mulheres seriam igualmente violentas. Como dito no início do artigo, é um somatório de fatores. Mas não resta dúvida sobre o fato de a precarização e processos de empobrecimento, inclusive da classe média – talvez, principalmente da classe média – gerar uma mudança nos papéis. E tudo indica que essa mudança vem sendo recusada pela via da força.

Não se trata, aqui, de buscar explicações econômicas para um problema que não é econômico. Sabemos bem que não é apenas isso. As violências contra a mulher começaram muito antes da uberização da sociedade e muito antes de o homem ser incapaz de sustentar uma casa por conta própria, o mesmo valendo para assédios, abusos, estupros e por aí vai. A disfuncionalidade masculina, sobretudo no que diz respeito ao desconhecimento do funcionamento da própria casa, também é bem antiga. Mas talvez sinalizar questões contemporâneas ajude a refletir um pouco mais.
Quando, em 1993, uma música chamada Rape Me – busquem a tradução –, todo um alvoroço foi causado. Muitas pessoas não perceberam que a música era uma crítica, não uma apologia. O mundo atravessava a violentíssima Guerra da Bósnia (1992-1995), marcada por índices estarrecedores de violência sexual. A música criticando o estupro gerou mais protestos, boicotes e rejeições do que os atos de estupro consumados durante a guerra. Moralismo.
É digno de nota o fato de a localização dos quatro estupradores brancos de classe média ter demorado muito mais do que o extermínio de cerca de 120 jovens negros nos complexos do Alemão e da Penha, no ano passado. A competência seletiva é uma realidade que atrapalha muito nesses casos, pois caminha ao lado do capital social: jovens brancos da Zona Sul, um deles filho de um membro do governo do Estado do Rio de Janeiro, com advogados que se portam como verdadeiros escudos. A canalhice virou o cobertor da ética.
Enquanto professores e professoras, o que podemos fazer a respeito? Trago essa reflexão, pois talvez ela ilumine nossas atuações. Obviamente, a escola não resolve tudo. O messianismo pedagógico já caiu por terra (felizmente!) faz tempo. No entanto, a escola, enquanto espaço-tempo com diversas peculiaridades, pode ser útil. Os jovens passam considerável parte de seus dias dentro de uma instituição de ensino. Em tempos de avanço da extrema direita, é praticamente impossível alguma secretaria de educação municipal ou estadual sugerir a violência contra a mulher como tema de projeto anual. Em outras palavras: nós somos por nós, caso tenhamos o horizonte sociopolítico de melhorar as vidas de todas as pessoas. De que modo podemos usar o espaço-tempo da escola a nosso favor? Se a Lei, sobretudo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96) nos garante a “liberdade de ensinar e aprender”, ainda que tenhamos certos mecanismos de controle, temos que usar a autonomia prevista por lei. É nosso respaldo, talvez o único além da coletividade.
É fundamental lembrar que formamos pessoas, nos mais variados níveis. Se, nos programas de pós-graduação, as candidatas às vagas puderem ser poupadas de perguntas pessoais sobre maternidade e constituição de família, algo pessoal, repito, estaremos fazendo jus ao nosso papel. Antes dos diplomas, certificados, artigos e toda uma parafernália acadêmica, formamos pessoas, formamos gente. Se, na educação básica, com o apoio devido, for possível desenvolver projetos a partir da autonomia docente garantida por lei, um passo importante será dado. Refiro-me a projetos científicos de cunho emancipatório, não à distribuição de flores em todo dia 8 de março. O trabalho precisa ser realizado nos outros 199 dias letivos.
Se soubermos praticar o exercício da escuta – apesar de toda a sobrecarga que o trabalho docente produz –, se soubermos fazer da escola um espaço de acolhimento e se todo um trabalho – incluindo trabalhos de formação continuada, pois certamente foram muitos os professores que tentaram deslegitimar o que ocorreu com a jovem – for realizado, a coisa começará a mudar. A observação de diretrizes e a análise acurada de materiais didáticos também são importantes, na medida em que reproduzem práticas e estereótipos.
Aos não-professores, há a dimensão do cotidiano para atuar de maneira digna, decente e justa. Um certo cientista social mundialmente reconhecido, em um de seus livros, falou em “um conhecimento prudente para uma vida decente”. Uma pena que até ele esteja chafurdando em casos de assédio sexual. Se estamos construindo uma muralha contra tsunamis, ela ainda é de gesso. Sigamos.
Giam C. C. Miceli é professor da Geografia da Educação Básica.

