De al-Aksa ao pogrom de Nazaré - Le Monde Diplomatique

ORIENTE MÉDIO D

De al-Aksa ao pogrom de Nazaré

por Joseph Algazy
1 de novembro de 2000
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O governo de Ehud Barak acobertou o comportamento das forças de segurança — dez mortos e centenas de feridos em três dias — sob o pretexto de que os manifestantes, em certos locais, bloquearam as estradas principaisJoseph Algazy

“O preço ultrajante que nós, os cidadãos árabes de Israel, pagamos por expressar nossa solidariedade com nossos irmãos dos territórios palestinos, demonstrou mais uma vez que, aos olhos do establishment israelense e de uma parte da sociedade judia deste país — que também é nosso —, não somos cidadãos com plenos direitos, mas estrangeiros e, o que é ainda pior, inimigos. A dura repressão destes últimos dias foi mais terrível ainda do que a do famoso dia da Terra, em 30 de março de 1976. Em resumo, cada um de nós, depois desta horrível experiência, pode dizer novamente: ’Meu país, meu Estado, mata meu povo, me mata’.” [1]

É dessa forma que o poeta palestino Mohammed Hamzeh Ghanayem, cidadão israelense e habitante da cidade árabe de Baka al-Garbiyeh, no triângulo Norte de Israel, descreve os sangrentos incidentes da primeira semana de outubro de 2000, que custaram a vida a doze árabes israelenses. Estes tombaram sob as balas (de plástico e de metal, segundo os relatórios médicos) disparadas pelas forças de segurança israelenses, ou até por matadores judeus, que organizaram um pogrom [2] em Nazaré, durante a noite do Kippur (dia do Perdão, para os judeus), em 8 de outubro.

A greve geral de 1º de outubro

Tudo começou a 28 de setembro, com a visita de Ariel Sharon, chefe do Likud, à Esplanada das Mesquitas (Haram El Charif, em Jerusalém). Os confrontos entre manifestantes palestinos e soldados israelenses fizeram feridos, mas não houve mortes. No dia seguinte, entretanto, sete palestinos foram assassinados. Em 30 de setembro, o Alto Comitê árabe em Israel convocou a população árabe do país para uma greve geral, no domingo, 1o de outubro, e para manifestar, nas ruas, solidariedade com seus irmãos, revolta diante da matança do dia 29 e a determinação em preservar o caráter árabe de Jerusalém Oriental e o caráter sagrado de Haram El Charif.

A convocação foi compreendida: a greve de 1o de outubro foi quase total, e as manifestações, combativas. Nos locais em que as forças de segurança não intervêm, não ocorreu incidente algum. Nos locais em que elas desencadeiam uma repressão feroz — e especialmente nas cidades e aldeias sob a responsabilidade do comandante de polícia do Norte de Israel, Alik Ron — provocaram distúrbios e fizeram vítimas. Imediatamente, o Alto Comitê árabe convocou a manutenção da greve geral e as manifestações — que ocorreram, entre outras, durante o funeral das primeiras vítimas. Nos dias 1o, 2 e 3 de outubro, contam-se dez mortos e centenas de feridos.

Uma declaração de guerra

O governo de Ehud Barak — em particular os ministros Shlomo Ben-Ami, responsável pela polícia, e Haïm Ramon, do Interior, apresentados como “moderados” — acobertou o comportamento das forças de segurança sob o pretexto de que os manifestantes, em certos locais, bloquearam as estradas principais. Os três participariam, nos meios de comunicação, de uma verdadeira campanha anti-árabe, perdendo assim toda credibilidade aos olhos da população árabe de Israel — e de alguns cidadãos judeus.

“O governo de Israel declarou guerra contra nós”, afirma o doutor Hanna Sweid, membro do secretariado do Alto Comitê árabe e prefeito da localidade de Eilabun (Galiléia). “Este sangrento resultado é prova disso: o governo Barak não faz mais distinção entre as populações palestinas dos dois lados da linha verde. A responsabilidade pela escalada de violência é unicamente sua. A reação dos cidadãos árabes de Israel é natural: nós quisemos manifestar nossa identidade nacional palestina; não podemos ficar indiferentes à sorte de nossos irmãos massacrados, nem ficar sem reagir às tentativas de ocupação dos lugares santos do Islã em Jerusalém. Mas a greve geral e as manifestações expressaram também o acúmulo de nossas frustrações e de nossa decepção para com o governo Barak, em favor do qual votamos e que nada fez nem no âmbito da paz, nem no da igualdade — basta olhar os índices de desemprego aqui!”

Rumo a um regime de apartheid

Se o doutor Hanna Sweid é cristão, o xeque Raed Salah chefia a ala radical do movimento islâmico. Prefeito de Um el-Fahem, também ele ataca as autoridades que, “enviando contra nós forças pesadas, quiseram introduzir em nossos corações o medo e o terror, ameaçar a vida de nossos filhos e de nossas filhas. A mensagem delas era clara: ’Enquanto vocês reivindicarem a construção de escolas e de estradas, não há problema; mas, se vocês exigirem o respeito pela mesquita al-Aksa ou pelos direitos dos árabes na cidade antiga de Jerusalém, nesse caso vocês se tornam extremistas e põem em perigo a segurança do Estado.’”

Porta-voz do Alto Comitê árabe, Abed Anabtawi faz questão de deixar claro: “Nós expressamos nosso repúdio total à política do governo israelense, mas nosso protesto não era dirigido contra os judeus em Israel.” Líder da União Nacional e Democrata, o deputado Azmi Bishara definiu os confrontos como uma intifada: trata-se de um “levante contra todas as tentativas de israelização das massas árabes palestinas que vivem em Israel e a favor da salvaguarda da identidade nacional delas. Mais do que nunca, querem se ver reconhecidas como uma minoria nacional no interior do Estado”. [3] Para Bishara, a política e a prática do governo Barak “conduzem diretamente a um regime de apartheid”.

Cidadãos de segunda classe

A partir de 4 de outubro, a situação nas cidades árabes de Israel se acalma gradualmente. A lição dos incidentes é, entre outras, de que nenhuma força política árabe conseguiu impor sua autoridade, em particular sobre os jovens. Certos elementos duvidosos — desocupados, por assim dizer — infiltraram-se nas manifestações, aproveitando-se da raiva provocada pela repressão para cometer atos de vandalismo. Em Nazaré, por exemplo, incendiaram um banco, destruíram um grande restaurante e pilharam uma farmácia: ações condenadas tanto pelos porta-vozes da prefeitura de Nazaré como pela ala radical do movimento islâmico. [4]

Pouco a pouco, a população voltou à vida normal, sem que todavia deixasse de chorar seus mortos e questionar o futuro. “Estes incidentes sangrentos nos fizeram voltar meio século atrás”, lamenta Salam Habibi, filho do grande escritor e político Emile Habibi. “A classe dirigente e uma parte da sociedade israelense nos fizeram compreender que não nos consideravam como cidadãos de pleno direito: cinqüenta e dois anos depois da criação do Estado de Israel, continuamos a ser inimigos que precisam ser destruídos.”

O pogrom de Nazaré

Cidade judia recente, Nazaré-Ilit situa-se acima da antiga cidade árabe de Nazaré. Foi dali que, no sábado, 7 de outubro, à noite, um grupo numeroso de matadores judeus atacou os habitantes do bairro oriental, o mais pobre da cidade. No dia seguinte à noite, apesar do jejum do Kippur — o dia mais sagrado da religião judaica, que proíbe qualquer atividade física —, centenas de desocupados, vindos novamente de Nazaré-Ilit, mas também de Tiberiade, atacam e saqueiam o bairro. Tentando defender-se por conta própria, os habitantes esperam a chegada das forças de polícia.

Ilusão. Segundo o depoimento do prefeito da maior cidade árabe de Israel, Ramez Jerayssi, da Frente Democrática, os agressores irão contar, pelo menos durante algum tempo, com a proteção das forças de segurança. Estas atiram contra os habitantes árabes, primeiro granadas de gás lacrimogêneo, depois balas de plástico e de metal. Nessa noite, dois árabes são mortos e muitos outros são gravemente feridos. Por duas vezes o prefeito telefonou ao ministro responsável pela polícia, pedindo-lhe que ordenasse o cessar-fogo às forças de segurança. Mas Ben-Ami recusa-se a admitir que seus homens atiram com balas de metal. “O que fazer?”, lamenta-se Jerayssi. “Os relatórios médicos mostram que nossas vítimas foram mortas por balas de metal. Já com relação aos matadores judeus, a polícia agiu com luvas de pelica…”

Uma situação “explosiva”

Emudecidos devido ao Kippur, os meios de comunicação israelenses só iriam se referir ao pogrom de Nazaré na noite de 11 de outubro. Mas o primeiro-ministro e seu ministro da polícia se manteriam neutros quanto aos agressores judeus e suas vítimas árabes. Diferentemente, o presidente da Comissão dos Ministros encarregada da população árabe, o ex-general Matan Vilnaï, declarou, sem meias palavras: “Baderneiros judeus atacaram árabes em Nazaré como, anteriormente os anti-semitas atacavam os judeus na Europa.” Comentário do cronista jurídico do diário Yediot Aharonot, Moshe Negbi: “Os pogroms desta semana reforçaram o sentimento de que nossa polícia se tornou uma polícia racista, comprometida apenas com a defesa dos judeus: ela só atirou para matar contra os manifestantes árabes.” [5]

Pogroms: na realidade, Nazaré não é um caso isolado. Antes, durante ou após a festa do Kippur, manifestantes judeus — relata a imprensa regional [6] — agrediram árabes em diferentes cidades, incendiando carros e saqueando lojas. Após os distúrbios de Bat-Yam (periferia Sul de Tel Aviv), durante os quais dois pedestres árabes foram apunhalados e carros de polícia saqueados, o semanário local publicou o título “Pogrom”. [7] Também em Jafa, após violentos confrontos entre judeus e árabes, a imprensa local considera a situação “explosiva”. [8]

O saque ao túmulo de José

Ninguém acredita na espontaneidade desses distúrbios. Apresentando as cidades e aldeias árabes como uma “quinta frente de combate”, [9] os dirigentes dos partidos de direita jogaram lenha na fogueira. Condenando oficialmente os pogroms, seus porta-vozes ao mesmo tempo os justificaram, qualificando-os, na televisão, nos dias 10 e 11 de outubro, como “reação compreensível de judeus preocupados diante dos distúrbios dos árabes de Israel, que se solidarizaram com os palestinos da Cisjordânia e de Gaza”. Para Sharon e seus amigos, o objetivo era obrigar Barak a incluí-los em seu ministério e assassinar o processo de paz.

Diante do risco de transformação do conflito entre israelenses e palestinos em guerra religiosa, há uma certa mobilização. Isso já se viu por ocasião do saque do túmulo de José, em Nablus. Duas organizações islâmicas em Israel condenaram a ação como um ato de vandalismo, acrescentando que um xeque muçulmano, Yussef Dwiqat, está ali enterrado. O deputado Bishara exortou a Autoridade Palestina a reconstruir o túmulo e a autorizar os rabinos judeus a visitar o lugar. Também neste caso, o túmulo de José não é, infelizmente, uma exceção. Outros lugares sagrados foram saqueados e incendiados — muçulmanos em Israel (em Tiberiade e em Jafa, entre outros) e judeus na Cisjordânia (em Jericó).

O pogrom de Nazaré também despertou as consciências. A partir de então, um número crescente de abaixo-assinados, publicados na imprensa, condenam as forças de segurança assim como as tendências racistas e fascistas. Individualmente ou em grupos, judeus de diferentes aglomerações visitam as famílias das doze vítimas árabes israelenses, os feridos, os municípios atacados. Por ocasião da festa dos tabernáculos, durante a qual as famílias judias religiosas constróem cabanas chamadas sukkots, judeu



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