De quando a literatura se despede de suas histórias - Le Monde Diplomatique

LITERATURA

De quando a literatura se despede de suas histórias

por Renata Miloni
14 de novembro de 2008
compartilhar
visualização

Como o escritor brasileiro escolhe escrever seus livros? Geralmente se apegando a somente uma forma de sofrerRenata Miloni

Verdade seja dita: os escritores que realmente fazem sucesso são os roteiristas de seriados, especialmente americanos. Afinal, o que eles escrevem são livros em série (alguns maiores, dependendo do tempo que o programa resiste no ar) adaptados para a televisão, assim como tantos livros são para o cinema. Mas por que uma ficção funciona melhor com o público do que a outra? Penso que a literatura perde seu lugar de ficção na vida das pessoas para a televisão pelo simples fato de ser mais fácil ver do que ler. Só não sei se tem alguma relação com preguiça, costume ou algo assim.

Há outros fatores que ultimamente têm feito tanta diferença quanto este, que considero o principal, e com isso a ficção audiovisual ganha um certo poder de tirar algo que também pertence ao literário. Nisso, os escritores (nem todos, claro) trabalham em perfeita harmonia com os roteiristas. Enquanto estes escrevem as séries com o objetivo de fazer o telespectador ter sua atenção completamente voltada para a televisão, aqueles fazem o mesmo por outro caminho: não conquistam o suficiente para que as pessoas tirem seus olhos do aparelho, desliguem-no e vão ler um livro. Verdade ou mentira? Um pouco de cada.

Os tempos mudaram, mas as pessoas continuam a querer histórias. E, creio eu, a literatura tem um poder incrivelmente maior do que a televisão, o problema é não ser usado. Um escritor tem recursos não só para atingir a imaginação do leitor profundamente como, principalmente, aproveitá-la em maior escala. Claro que, às vezes, os autores pecam por preferirem vomitar palavras em vez de contar uma história. E claro, também, que é dar todos os passos para trás insistir em considerar que literatura não é para qualquer um. Ou todos sabem que o qualquer um que pode aparecer numa livraria por engano é incapaz de entender as complexidades de uma obra literária? Este tipo de pensamento não vale o drama que causa.

“Samba de uma nota só”

Em matéria para o jornal espanhol El País, Alex Martínez Roig escreveu exatamente sobre o fascínio que a ficção das séries provoca nas pessoas, muito acima do que os livros têm feito. Não digo que há culpa e que ela é unicamente da literatura. Mas até os próprios escritores têm visto na televisão oportunidades melhores, e não só por conseguirem viver melhor dela do que somente de livros. Com os seriados, eles mantêm a vontade do espectador de continuar a acompanhar sempre no mesmo nível, aguardando ansiosamente o próximo episódio. Com os livros, analisando ambos como objetos, é tudo de uma vez. Talvez seja por isso também que Harry Potter conseguiu ter tamanho sucesso. Além de provavelmente entender que qualquer gênero da ficção não se limita a determinado número de campos, J. K. Rowling, assim como tantos outros autores, pode ter percebido que, hoje em dia, o melhor caminho para publicar o que escrevia era fazê-lo em série.
Será este o segredo: perceber como todas essas mudanças podem beneficiar um livro?

E como o escritor brasileiro escolhe escrever seus livros? Geralmente se apegando a somente uma forma de sofrer. Sim, a maioria dos romances, por exemplo, precisa ter um repertório vasto de sofrimento para que seja considerado literatura pura. O que o escritor faz muitas vezes é insistir num “samba de uma nota só”. Ou são só desastres, ou são só desgraças, ou é só tristeza, ou é só verborragia confessional, etc. Dificilmente se encontra um escritor que, considerando estes e outros aspectos bons para seus livros, consiga distribuí-los em harmonia. E isso porque não contei com o que provavelmente mais falta aos autores, especialmente os mais jovens: humor. Não qualquer humor que faça rir automaticamente, mas aquele que faz sorrir ao mesmo tempo em que a história faz o leitor se preocupar com a vida de algum personagem. Exatamente como se sente aquele que acompanha um seriado como Lost ou até os fãs do Seinfeld.

Mas e o leitor? Talvez ele procure essa harmonia, que resulta num equilíbrio para a história, não deixando que apenas um ponto reine sobre a consideração de outro. Pensando assim, se a busca de um possível leitor for por textos que consigam misturar as tais variadas emoções e os tais inúmeros sentimentos que todos somos capazes de ter (com a exceção de alguns escritores, pois eles só conhecem a dor do sofrimento underground), o melhor que ele tem a fazer é ver uma novela ou um seriado. Lá, poderá encontrar toda a ficção que o ser humano pode produzir e, em m



Artigos Relacionados

ECONOMIA E SAÚDE

O SUS e o relatório do TCU

Online | Brasil
por Vários autores
QUE A CLOROQUINA NÃO SE REPITA

Como conter a pulsão de morte bolsonarista

Online | Brasil
por João Lorandi Demarchi
RESPEITEM OS LOUCOS

A patologização do fascismo

Online | Brasil
por Roger Flores Ceccon
NOVO MINISTÉRIO, A CONCRETIZAÇÃO DE UM VERDADEIRO MARCO

Os povos indígenas e seu protagonismo na transição de governo

Online | Brasil
por Aline Ngrenhtabare Kaxiriana Lopes Kayapó, Edson Kayapó e Flávio de Leão Bastos Pereira
IDEIAS PARA UM BRASIL DEMOCRÁTICO

Por que incluir práticas pedagógicas de mídia e educação nas escolas?

Online | Brasil
por Elaine Dal Gobbo e Franciani Bernardes
O CASO DE LUANA BARBOSA DOS REIS SANTOS

Anatomia de um crime

Online | Brasil
por Dina Alves
PODER PASTORAL E NEOLIBERALISMO GOLPISTA

A bíblia e o palácio

por João Roberto Barros II
A QUESTÃO DA PLURINACIONALIDADE NO CHILE

O processo constituinte e os povos originários

por Fernando Pairican