Déjà-vu nas Américas
O que há de realmente novo na conjuntura do continente americano, qual é a história daquilo que aparece como novidade e quais obstáculos impedem pensar o futuro como um horizonte de ruptura? Se a doutrina do norte se sustenta pela repetição, a tarefa do sul é inventar
Nos últimos tempos, multiplicaram-se manchetes que, como os ciganos em Cem anos de solidão, anunciam a chegada do “novo” – ora como assombro, ora como promessa, ora como ameaça. Entre esses “novos” estão a reorganização das direitas, as sociabilidades digitais, as mutações nas formas de exploração, as tecnologias cibernéticas e de inteligência artificial, e uma disputa geopolítica que desafia a hegemonia dos Estados Unidos e reativa, sob novas roupagens, a velha Doutrina Monroe. Na América Latina, porém, esse “novo” soa muitas vezes como repetição: um déjà-vu histórico que embaralha percepções e nos obriga a revisitar memórias individuais e coletivas para entender por que o presente ecoa o passado. Do ponto de vista neurológico, o déjà-vu é uma falha no processamento do novo que o torna familiar. Na psicanálise, algumas correntes o entendem como o retorno do reprimido: o reconhecimento de algo que “não sabemos que sabemos”. Talvez o presente latino-americano…

