RESENHA

Democracia e esgotamento

O livro Tempos de Exceção – ensaios sobre o contemporâneo (Editora Cosmos, 2025) foi escrito por Brunno Almeida Maia

O estado de exceção moderno, teorizado entre o final da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, se inscreve na crise da democracia liberal e de suas instituições, em particular do Parlamento, da justiça e do papel filosófico e existencial da cultura. Neste livro, Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo (Editora Cosmos, 2025), Brunno Almeida Maia o compreende no sentido da indiferenciação entre fato e direito, entre a aplicabilidade da lei e sua suspensão, o que produz insegurança jurídica, além de fazer vacilar o princípio de realidade social e individual.

Democracia e esgotamento. Capa do livro "Tempos de Exceção - ensaio sobre o contemporâneo" - o fundo é laranja
Crédito: Divulgação/Editora Cosmos

É, assim, que o conceito de alienação, em suas diferentes figurações, é enfatizado. Com efeito, se alienação provém de alienus, alheio, estranho, quando referido por Marx ao mundo do trabalho – no qual o trabalhador não se reconhece a si mesmo quando está no trabalho, mas se sente fora de si e só está junto a si quando fora do trabalho –, Brunno Almeida Maia amplia sua abrangência, no sentido em que a alienação contemporânea como estado de exceção é a própria maneira de habitar o mundo, na dispersão do Eu na exterioridade, no enfraquecimento da capacidade de julgar, de avaliar acontecimentos na condição de maioridade intelectual, “sem a direção de outrem”.

Concorre para tanto a introdução do marketing político, da indústria cultural, da obsolescência permanente de valores e comportamentos. O que significa, na vida em comum, a deslegitimação permanente das instituições, constituídas em uma tradição – tradição que entrecruzava a arché e o futuro. Com a ruptura temporal, em que as experiências do passado não são mais de valia como comunicação entre as gerações, advêm diversas formas de insegurança e de medo. Se a democracia promete o máximo de sobrevivência, segurança, justiça e liberdade, ela o faz sempre no horizonte de sua incompletude, mas ao mesmo tempo de esperança. Quando o presente é de incerteza e desordem psíquica e política, o futuro não representa uma possibilidade, e a democracia não se revela como garantidora da coesão social, revelando elementos de exceção, uma vez que pretende instaurar uma ordem que perdeu sua dimensão simbólica e estruturante. Como anotou Giorgio Agamben: “A segurança como paradigma de governo não nasce para instaurar a ordem, mas para governar a desordem. É neste sentido que a segurança, juntamente com o estado de exceção, é o paradigma fundamental da política mundial”.

No esgotamento democrático aumentam mecanismos de controle em sociedades que se tornaram incontroláveis, como o atestam as mídias modernas, as redes sociais e a Inteligência Artificial. No que diz respeito a seu impacto na democracia, não se trata mais da formação de cidadãos na educação humanista, tampouco de eleitores em associações, sindicatos, partidos políticos, mas de votantes “formados” pela lógica do “Facebook” e da economia digital, que se instalam na aceleração do tempo e no culto à facilidade. Se a democracia é sobrepujada pela tecnologia e pela economia, pelo ideário da utilidade e do máximo de resultados em um mínimo de tempo, impõe-se a obsolescência programada de valores e instituições. Trata-se aqui da ruptura com o passado, condição para a expansão do capitalismo global. Nas palavras de Jean-Claude Michéa: “O dispositivo teórico da Economia Política (…) é o de abolir tudo o que, nos costumes, nos hábitos e nas leis existentes, sejam obstáculos ao ‘jogo natural’ do mercado, isto é, a seu funcionamento sem entraves nem tempos mortos, (…) cuja validade teórica e prática depende da propensão real dos indivíduos para funcionarem como a teoria exige (…), a saber, sem filiação, sem pertencimentos ou enraizamento”.

O arquivamento de conhecimentos e experiências em nome do “atual” requer indicar, como o faz Jean-Claude Michéa, a diferença entre uma cultura e uma moda: “Uma cultura certamente sempre está em evolução, pelo menos enquanto ela está viva. Mas esta evolução se opera em um ritmo que confere a esta cultura (…) uma estrutura necessariamente transgeracional, porque significa que ela define sempre um espaço comum a diversas gerações e autoriza, assim, entre outras consequências, o encontro e a comunicação dos jovens e dos velhos (…). A moda é, ao contrário, um dispositivo intrageracional cuja renovação incessante obedece antes de tudo a considerações econômicas. Organizar a confusão sistemática entre, por um lado, as culturas duráveis que os povos criam, com seu ritmo próprio, por outro, as modas passageiras impostas pelas estratégias industriais, constitui uma das operações de base do entretenimento”.

Eis por que, no livro de Brunno Almeida Maia, a alienação pode ser entendida como estado de exceção tanto político como ainda estado de exceção dentro da alma, o que se manifesta na tendência à  “sociedade totalmente administrada”, com a colonização do mundo interno que se revela “unidimensional”, pois nas mídias digitais e seu empobrecimento intelectual – a capacidade de pensar, de duvidar, de discriminar – prospera o “valor de exibição”, estabelecendo-se o desejo fusional das massas, em um universo de identificações imediatas, de amor ou ódio aos governantes ou dissidentes, e de sociabilidade empática, de que se ausenta o  discernimento, comprometendo-se a política e a democracia como philia social. Esta é uma forma específica de economia libidinal que produz autodomínio, autarquia e a consideração de limites morais e institucionais, por meio da Paideia, da educação formadora do caráter, que – por meio das leis e das instituições garantidoras do bem viver, da fraternidade e da compaixão -, buscava propiciar a harmonia consigo mesmo e a concórdia na cidade. Como escreve Marcuse: “Se o medo e a destrutividade são as paixões próprias aos autoritarismos, Eros pertence à democracia”.

Neste horizonte, a política tende ao estado de exceção, na medida em que é esvaziada de seu sentido, pois a lei por vezes é aplicada, outras não, ou apenas em parte, o que desperta o sentimento de desconfiança na política, no parlamento, na Igreja, na escola, na família. Razão pela qual Francisco de Oliveira observa: “O mutirão é a autoconstrução como exceção nas cidades, o trabalho informal é exceção da mercadoria, o patrimonialismo é exceção na concorrência entre os capitais, a coerção estatal é exceção da acumulação privada”.

Nesta perda de espera e esperança, se estabelece uma espera sem horizonte de espera, que é a reificação do futuro. Neste sentido, Paulo Eduardo Arantes escreve: “Trata-se de uma espera muito específica no momento atual da mundialização. Enquanto o capital se propaga, a força de trabalho das populações em perpétua peregrinação é compartimentada e comprimida por uma gama variada de coerções, a mais sutil e onipresente de todas sendo a espera, quer dizer, a disciplinarização pela espera (…), a imobilização no interior de uma máquina de compressão e aceleração (…), em uma degradação filosófica da espera. No imediato pós-guerra, o olho clínico de Samuel Beckett (em Esperando Godot ou em Fim de Partida) lhe permitiu fazer um diagnóstico, quando ele viu que este seria a marca do novo curso do mundo”.

Tempo patológico, ele é o do retorno da insegurança e do medo, pois o futuro não é mais uma promessa, mas uma ameaça. Por isso, ao analisar as relações entre os indivíduos em uma comunidade em crise, Freud referia-se ao Nebenmensch, o próximo, o semelhante que seria familiar e protetor, subitamente irrompendo como estranho e hostil, conformando uma alteridade radical e um corpo estranho, inassimiláveis no interior do sujeito. Como perigo angustiante, ele é “informe”. Como observa Muriel Salmona: “Este Outro inassimilável não pode ser (objeto de resiliência), pois arrisca sempre surpreender de novo e de nos precipitar do alto de sua aparição, deixando-me sem defesa. O que causa o trauma é a alteridade absoluta, para além de qualquer intersubjetividade (…). Ela marca a ausência de proteção e abrigo, pois a aparição do Outro precede o ato de visá-lo, já que ele não se deixa preceder por nenhum sinal precursor, surpreendendo sem que se tenha tempo de se proteger”. Medo e angústia enfraquecem a democracia. Eis por que Max Pagès considera que tais circunstâncias trazem de volta o “reino das emoções primárias, do culto dos ídolos, uma situação propícia a manipulações e à demagogia, induzindo à ansiedade que provoca uma regressão psicológica para posições paranoides, arcaicas, sobretudo ideologias e doutrinas maniqueístas de vingança e até mesmo de extermínio. Este fenômeno propriamente falando é anormal, assinala a entrada no que é legítimo denominar uma patologia social”.

Reaver o ideário de origem da democracia é acolher o futuro e as incertezas da vida.  Pois, se a democracia e a cultura não são capazes de estabelecer uma sociedade ideal, ao menos elas permitem criar uma sociedade capaz de idealização.

Olgária Matos é professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Membro da Cátedra Edward Said da Unifesp, é autora de Paris, 1968: As barricadas do desejo (Brasiliense, 1981), Os arcanos do inteiramente outro: a Escola de Frankfurt, a melancolia e a revolução (Brasiliense, 1989) e Benjaminianas: Cultura capitalista e fetichismo contemporâneo (Editora Unesp, 2010), entre outros.

Referências bibliográficas:

AGAMBEN, Giorgio. A política da profanação. Folha de S.Paulo, São Paulo, Caderno Mais!, 18 set. 2005.

ALMEIDA MAIA, Brunno. Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo. São Paulo: Editora Cosmos, 2025.

ARANTES, Paulo Eduardo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.

CRITCHLEY, Simon. Das Ding: Lacan and Levinas. Research in Phenomenology, Leiden, v. 28, p. 72–90, 1998.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917–1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas, v. 14).

MICHÉA, Jean-Claude. L’enseignement de l’ignorance et ses conditions modernes. Paris: Climats, 2006.

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica da razão dualista. São Paulo: Boitempo, 2018.

PAGÈS, Max. Massification, régression, violence dans la société contemporaine. In: AUBERT, Nicole (org.). L’individu hyper-moderne. Paris: Érès, 2004. p. 233–236.

SALMONA, Muriel. Dissociation d’origine traumatique. In: BOON, Susette; STEELE, Kathy; VAN DER HART, Onno (org.). Gérer la dissociation d’origine traumatique. Tradução de Manoëlle Hopchet et al. Louvain: De Boeck Supérieur, 2017. p. 12.

SCHMITT, Carl. Teologia política. Tradução de Elisete Antoniuk. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.

 

A Fundação Stickel e a Editora Cosmos realizam no dia 21 de janeiro de 2026, das 19h às 21h, o lançamento online do livro Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo, do pesquisador e ensaísta Brunno Almeida Maia, acompanhado da palestra inédita “Da exceção à delicadeza: arte, moda e cultura como projetos de liberdade”. Doutorando pela FAU-USP e mestre em Filosofia pela Unifesp, o autor investiga as relações entre arte, moda, cultura e política como formas críticas de habitar o presente. O evento é gratuito e acontece via Zoom, mediante inscrição:

 

https://www.sympla.com.br/evento-online/palestra-e-lancamento-do-livro-tempos-de-excecao-ensaios-sobre-o-contemporaneo/3255839

 

Reunindo 23 ensaios, a obra propõe uma leitura densa e sensível das tensões contemporâneas – entre alienação e memória, tempo e subjetividade, a partir de diálogos com autores como Adorno, Benjamin, Foucault, Hannah Arendt e Proust. No prefácio, a filósofa Olgária Matos define o livro como uma travessia “da exceção à delicadeza”, em que a crítica não conduz à paralisia, mas à reabertura de horizontes éticos e poéticos. A palestra que acompanha o lançamento aprofunda essa perspectiva ao discutir a criação artística e a delicadeza como gestos de resistência e liberdade em tempos de crise.

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