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Democratas e a inovação como religião

Maio 2, 2018
Imagem por Daniel Kondo
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O tipo de progressismo que reina em Massachusetts nestas últimas décadas não é o de Franklin Roosevelt nem o do sindicato dos operários da indústria automobilística. Os colarinhos-brancos superdiplomados, mesmo quando votam nos democratas, não estão realmente preocupados com as gigantescas remunerações dos vencedores da sociedade

Quando pedimos aos democratas um balanço sobre suas administrações – os acordos de livre-comércio, por exemplo, ou a legislação incompreensível para reformar Wall Street –, eles respondem que ninguém poderia ter feito melhor. Afinal de contas, eles tiveram de se arranjar com aqueles horríveis republicanos que obstruem sistematicamente o Senado e modificam as circunscrições eleitorais em benefício próprio. Não se deve pensar que todas as medidas que os presidentes Bill Clinton e Barack Obama fizeram passar em Washington representam realmente a fogosa alma democrata…

Para avaliar esse argumento, escolhemos um local onde o reino democrata não encontra praticamente nenhuma oposição, e a obstrução e a sabotagem republicana não podem macular o balanço. O mapa eleitoral dos Estados Unidos nos oferece diversas possibilidades, mas uma escolha se impõe: Boston, em Massachusetts, a verdadeira pátria espiritual da classe progressista. A capital norte-americana do ensino superior é também a de um dos estados mais democratas, onde é totalmente insólito encontrar um eleito republicano. Quando outras cidades e estados, desesperados pela desindustrialização, esforçam-se para criar uma vida cultural e intelectual e imploram para suas universidades gerarem ideias rentáveis, Boston é o lugar que eles buscam imitar. É a cidade que praticamente inventou o modelo econômico do “estado azul” (a cor dos democratas), onde a prosperidade nasce do ensino superior e das indústrias das ciências e da tecnologia que o rodeiam.

Destroços invisíveis

Em 2010, cerca de 152 mil estudantes viviam em Boston, representando 16,5% da população da cidade. A aglomeração abriga 85 universidades privadas, ou seja, a maior concentração de estabelecimentos de ensino superior do país – e sem dúvida do mundo. A região de Boston aproveita todas as vantagens adjacentes: uma população extremamente diplomada, um número de patentes depositadas excepcional e mais ganhadores de prêmios Nobel do que em qualquer outra cidade do país. O estado de Massachusetts ocupa regularmente o primeiro lugar do índice da nova economia dos estados, que mede as performances em termos de “indústria do conhecimento, da tecnologia e da inovação, do espírito empreendedor e da inscrição na globalização”.

Ela abriga também diversas empresas de medicamentos e biotecnologia, reunidas no que se chama de “superpolo das ciências vivas”, que faz parte de um “ecossistema” onde os autores de teses podem “se associar” com grupos de capital de risco e grandes farmacêuticas podem adquirir empresas menores. Enquanto as outras indústrias se atrofiam, o superpolo de Boston se desenvolve e os profissionais das ciências vivas do mundo inteiro correm para essa Atenas da América e para os novos “centros de inovação” que se acumulam na periferia universitária de Cambridge, no oeste da península de Boston.

Se olharmos de um ponto de vista um pouco mais crítico, Boston é a sede de duas indústrias que estão provocando a ruína da América média: o ensino superior e a indústria farmacêutica. Todas as duas impõem tarifas que quase todo mundo tem de pagar e que aumentam bem mais rápido que os salários ou a inflação.

Assim, sem dúvida, é lógico que Massachusetts ocupe um lugar de destaque em outra categoria: a das desigualdades. Assim que o visitante deixa Boston e seus engarrafamentos de cérebros, ele descobre um estado repleto de destroços – antigas cidades industriais e trabalhadores que veem seu modo de vida definhar, como os de Fall River. Essa localidade ao sul de Boston perdeu suas numerosas confecções de tecido há anos e, com elas, sua razão de ser. Muitos galpões vazios continuam de pé. Sólidas estruturas do século XIX, essas imensas caixas de granito ou de tijolos dominam a paisagem. A maioria dessas velhas fábricas têm as janelas recobertas de tábuas, emblemas reconhecíveis do desespero, do solo até o teto.

Como tantas outras paisagens norte-americanas, essa é o resultado de décadas de uma desindustrialização dirigida pelos republicanos e racionalizada pelos democratas. A 80 quilômetros dali, Boston triunfa, mas a doutrina da prosperidade que se vê em cada esquina da capital serve também para justificar o fracasso que se vê em cada esquina de Fall River. É um lugar ao qual a abundância nunca retorna, pois os dirigentes do país simplesmente aceitaram uma ordem social que não para de fazer diminuir os salários de pessoas como os moradores de Fall River, ao mesmo tempo que aumenta as remunerações dos inovadores, dos criativos e dos executivos.

Se Fall River está cravejada de malharias vazias, as ruas de Boston transbordam de equipamentos destinados a tornar o empreendedorismo fácil e prático. Durante minha estadia por lá, passei meu tempo visitando centros de inovação, todos decorados com móveis de cores vivas, espaços de trabalho abertos, citações inspiradoras sobre a inventividade, mesas de pingue-pongue, consoles para jogar Guitar Hero e outros instrumentos (que eu nunca vi ninguém usando) para dar um pouco de leveza aos tempos de pausa, e paredes cobertas de tinta brilhante nas quais se pode escrever com pincel atômico.

 

Percurso de um governador exemplar

A pedra angular da “inoestrutura” [infraestrutura de inovação (N.T.)] municipal é a universidade; inclusive, alguns nessa cidade acabaram acreditando que o lançamento de empresas e de carreiras profissionais era o verdadeiro objetivo do ensino superior. Os dois andam juntos. É por isso que o Massachusetts Institute of Technology (MIT) tem dois reitores adjuntos encarregados da inovação, em vez de um só, e é por isso que seu presidente escreve colunas para ensinar à nação a boa maneira de “produzir inovação”. Por essa razão ainda, a Northeastern University dispõe de um “acelerador de empresas” batizado de Idea; Harvard tem seu famoso Centro para a Inovação; a Boston University possui seu Departamento de Estratégia e Inovação; e uma de suas escolas propõe uma qualificação profissional em Inovação e Empreendedorismo.

A identificação de Massachusetts com o Partido Democrata é profunda. Bastião da família Kennedy, ele produziu dois outros candidatos à presidência democratas nestas últimas décadas: o governador Michael Dukakis, em 1988, e o senador John Kerry, em 2004. Mesmo quando Massachusetts tem governadores republicanos (como Charles Baker, desde 2015), não apenas eles têm tendência a serem tão convencidos quanto seus rivais pelo modelo do estado azul, mas também o corpo legislativo de Massachusetts, sempre dominado pelos democratas, consegue passar seu veto.

A maioria dos grandes políticos do estado, se não todos, contribuiu para promover o culto ao conhecimento, as start-ups e a classe criativa. Nesse quadro de honra, o predecessor de Baker, Deval Patrick, reina em muito bom trono. É um dirigente típico da classe progressista, seu modelo mais brilhante, poderíamos dizer. Todos parecem amá-lo, até mesmo seus adversários.

A vida de Patrick seguiu a trajetória democrata clássica. Jovem homem negro extremamente inteligente, mas pobre, ele foi tirado do buraco por uma bolsa que lhe permitiu o acesso a uma boa escola particular. Alguns anos depois, ele entrou na Faculdade de Direito de Harvard e, exatamente como nas histórias de Bill Clinton e Barack Obama, as portas de um mundo até então desconhecido se abriram bruscamente para ele. Depois de ter trabalhado para uma organização de defesa das minorias, ele foi para Washington, onde dirigiu a divisão dos direitos cívicos do Departamento de Justiça. Em 1994, ele obteve R$ 54 milhões de compensação em um famoso processo por discriminação contra o restaurante Denny’s.

Durante os anos 2000, Patrick se tornou advogado de negócios e atravessou a etapa seguinte normal para os democratas de um certo tipo: passou a trabalhar para as grandes empresas que ele tinha perseguido, entrando em 2004 para o conselho de administração da matriz do organismo de créditos subprime (de alto risco) Ameriquest.

Em 2004, o Ameriquest era o maior credor hipotecário de alto risco do país e, sabemos agora, um pioneiro do tipo de práticas que quase destruíram o sistema financeiro mundial. Para os iniciados do Ameriquest, empacotar “empréstimos mentirosos” e enviá-los para os tubos de Wall Street sob a forma de obrigação era um negócio extremamente rentável – um negócio “inovador”, inclusive; para todo o resto do mundo, era como se empanturrar de arsênico. Os banqueiros aproveitaram até que o mundo pagasse o preço – e continua pagando até hoje.

Qualquer político que tivesse tocado nessa negociata sórdida deveria ter tido sua carreira interrompida imediatamente. Mas Patrick se esquivou dessa. Ele foi eleito governador de Massachusetts em novembro de 2006, tornando-se uma espécie de missionário do culto à inovação. “A economia de Massachusetts é uma economia de inovação”, gostava de declarar, e repetia esse comentário a todo momento, modificando ligeiramente a ordem das palavras-chave do otimismo: “A inovação é o pivô da economia de Massachusetts” etc.1 O governador abriu as “escolas de inovação”. Ele assinou o “contrato de inovação social”, que tinha algo a ver com a satisfação das “necessidades do setor privado em talentos qualificados iniciantes”.

 

Explosão de start-ups

Na maior parte do tempo, era puro palavrório – as banalidades regulamentares que tinham de ser ditas a cada vez que uma companhia farmacêutica inaugurava escritórios no estado. Em outras ocasiões, a palavra de ordem preferida de Patrick custava caro, muito caro – US$ 1 bilhão em subvenções e exonerações de impostos concedidos pelo governador em 2008 para encorajar as empresas farmacêuticas e de biotecnologia a se instalarem em Massachusetts, por exemplo.2

Em outras ocasiões, favorecer a inovação significava esmagar as pessoas em seu caminho – por exemplo, os motoristas de táxi, cujo ganha-pão foi usurpado por aplicativos como o Uber. Quando esses trabalhadores organizaram diversas ações de protesto na região de Boston, Patrick se colocou claramente do lado da empresa; aparentemente, o conforto das pessoas que usavam esse meio de transporte era mais importante do que a remuneração decente daqueles que o conduziam. O fato de o Uber ter contratado um antigo conselheiro de Patrick não foi mera coincidência. Mas o motivo, claro, era a inovação: o Uber representava o futuro; os motoristas de táxi, o passado.

Sem surpresa, o primeiro “prêmio Deval Patrick de inovação pública” foi atribuído a Deval Patrick. Ele foi entregue em 2014 por John Harthorne, diretor da incubadora de jovens empresas MassChallenge, junto com o fundador do Uber, Travis Kalanick. “Quis estar aqui para agradecer o governador por sua liderança, sua visão da inovação, da tecnologia, e por ter criado esse espírito inovador aqui em Massachusetts”, declarou Kalanick. Eric Schmidt, presidente do Google, também estava presente para celebrar Massachusetts e sua “explosão de start-ups”. “Precisamos de mais empreendedores porque eles criam empregos e resolvem todos os problemas que conhecemos”, alardeou. Três meses depois da premiação, o segundo mandato de Patrick acabou. Pouco depois, ele ganhou um prêmio ainda mais importante: o emprego de diretor-geral na Bain Capital, a empresa de gestão de ativos e serviços financeiros fundada por Mitt Romney, o candidato republicano à presidência de 2012.

O tipo de progressismo que reina em Massachusetts nestas últimas décadas não é o de Franklin Roosevelt nem o do sindicato dos operários da indústria automobilística. Os colarinhos-brancos superdiplomados, mesmo quando votam nos democratas, não estão realmente preocupados com as gigantescas remunerações dos vencedores da sociedade. Elas lhes parecem naturais, na verdade – já que se trata dos vencedores da sociedade. O progressismo das classes superiores não se estende às questões de desigualdade, área em que os corações moles se endurecem rapidamente.

O “liberalismo” da inovação é “um liberalismo dos ricos”, para retomar a fórmula exata do dirigente sindical local Harris Gruman. O que se deseja em Massachusetts é uma meritocracia mais perfeita, na qual aqueles que têm talento possam crescer. As reivindicações dos trabalhadores ordinários não os tocam, diz Gruman: “Os vigias, os garçons de fast-food, os auxiliares domésticos e os cuidadores de crianças – em sua maioria mulheres e negros – não têm diploma universitário”.

E se você não tem diploma universitário em Boston, meu irmão, tem de se virar sozinho.

 

*Thomas Frank é jornalista e escritor. Autor de Pourquoi les riches votent à gauche [Por que os ricos votam na esquerda], publicado em 20 de abril pela editora Agone (Marselha) e do qual este texto foi tirado.



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