Desinformação como estratégia de governo - Le Monde Diplomatique

Governo Bolsonaro

Desinformação como estratégia de governo

por Ana Carolina Westrup
1 de abril de 2020
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Um complexo sistema de produção e divulgação de informação, com o uso de robôs e perfis falsos, já utilizado para a eleição de Jair Bolsonaro, continuou a operar em 2019 para sustentar as ações do governo. Leia mais um artigo do especial Concentração da Mídia e liberdade de expressão.

O cenário de disseminação em massa de conteúdos falsos na época das eleições presidenciais de 2018 já profetizava a sequência do modus operandi que se consagrou como “vencedor” no pleito eleitoral: o uso da desinformação seguiu como estratégia política no governo Jair Bolsonaro. 

As denúncias da “CPMI das Fakes News” do suposto volume de ações concentradas em torno de uma “Fábrica de Conteúdos Falsos”, feitas pela ex-líder do governo na Câmara dos Deputados, a deputada Joice Hasseman (PSL-SP), apontam como se desenvolve a institucionalização da desinformação no governo. Composta por 15 senadores e 15 deputados, e o mesmo número de membros suplentes, a CPMI foi palco da declaração da deputada denunciando a instalação de um “Gabinete de Ódio”, no qual cerca de R$ 500 mil em recursos públicos foram usados para os ataques e “perseguições de desafetos” da família Bolsonaro. 

Joice Hasselmann diz em CPMI que fake news criadas pelos grupos bolsonaristas ultrapassam os ataques pessoais (Foto Lula Marques)
Joice Hasselmann diz em CPMI que fake news criadas pelos grupos bolsonaristas ultrapassam os ataques pessoais (Foto Lula Marques)

De acordo com Joice, o “Gabinete do ódio” funcionaria no 3º andar do Palácio do Planalto, sob o codinome oficial de Assessoria Especial. A publicação dos posts com memes ou ofensas seguiria um calendário estabelecido pelo grupo e uma suposta rede de parlamentares e assessores, além de robôs, seria responsável por compartilhar as mensagens de forma articulada a fim de viralizá-las nas redes o mais rápido possível.

Ela afirmou que o próprio presidente tem publicações impulsionadas por robôs no Twitter: “São quase 2 milhões de robôs seguindo dois perfis, sendo 1,4 milhão no perfil de Jair Bolsonaro e 468 mil no perfil de Eduardo Bolsonaro”. O número tem por base a análise feita pelo app Botometer, da Universidade de Indiana, Estados Unidos, que analisa se um perfil no Twitter é ou não falso. Ainda de acordo com Joice, o software identificou 21 perfis do aplicativo Instagram usados pelo grupo que seriam interligados para distribuir o conteúdo de memes e notícias falsas a algumas páginas do Facebook. 

A denúncia sobre o “Gabinete de ódio” desnuda uma estrutura recorrente no contexto de desinformação: uma ação estruturada de forma sistemática, com inteligência e automação, longe de ser algo que aconteça aleatoriamente, ou seja, um sistema que exige um funcionamento complexo, que contemple estratégias de difusão e dinâmicas de produção de informação. Da criação de perfis falsos à programação de conteúdos, tudo é calculado para atingir os objetivos propostos.

Análise realizada pela empresa AP/Exata no Twitter, com os chamados perfis de interferência – que são ativistas ou pessoas contratadas –, mostrou que a atuação de perfis falsos e robôs na rede social, mesmo depois do processo eleitoral, permaneceu significativa. De acordo com a amostragem, ainda há pelo menos 2.078 robôs, perfis falsos e militantes mencionando Jair Bolsonaro. Para o diretor de Big Data da AP/Exata, Sergio Denicoli, “o fato de ainda estarem em atividade mostra que provavelmente serão usados durante o governo na tentativa de moldar as narrativas e conseguir apoio para determinados temas”.

Em recente pesquisa, a Agência de Checagem “Aos Fatos” publicou um levantamento feito em parceria com o Facebook que demonstra que Jair Bolsonaro foi o nome mais citado em 348 checagens de desinformação em 2019. Foram 55 conteúdos desmentidos no ano passado que faziam referência ao presidente, sendo que, em cerca da metade deles (27), as informações falsas favoreciam sua imagem ou a de seu governo. A publicação mais compartilhada (81 mil vezes), ainda no primeiro trimestre do governo, afirmava que o presidente havia cortado verbas destinadas ao Carnaval e a paradas LGBTI. Uma informação extremamente simpática aos grupos mais conservadores ligados ao atual governo.

A construção de um inimigo comum, ainda que imaginário

Estudos recentes têm identificado que as pessoas de modo geral tendem a acreditar e reproduzir notícias que confirmem suas próprias convicções e visões de mundo – Matthew D’Ancona aborda essa questão na obra Pós-verdade: a Nova Guerra Contra os Fatos em Tempos de Fake News (Faro Editorial, 2018). Os fatos objetivos, portanto, seriam menos influentes na formação da opinião pública do que emoções e crenças pessoais.

Para o Intervozes, há uma crescente agitação política que se utiliza dessa desinformação, tanto no Brasil quanto em várias outras partes do mundo, e não há como afirmar que este expediente seja adotado somente por grupos vinculados a ideais conservadores. No entanto, o coletivo enfatiza: “vários estudos apontam a relação entre uma ‘nova direita’ e a desinformação como fundamental na conquista de apoio suficiente para eleger e manter chefes de governos em países como os Estados Unidos, a Hungria e o Brasil. Por meio das chamadas notícias falsas, essa ‘nova direita’ promove ondas de irracionalismo”.

O irracionalismo é uma característica presente nas narrativas de Bolsonaro e de Trump, nos EUA, na Itália de Salvini e na França de La Penn. Em síntese, trata-se de um discurso distorcido, que aposta na polarização e divisão política, com respostas simplórias para cenários complexos. O discurso de Bolsonaro, em exemplo, se sustenta em uma “teoria da conspiração”, baseada na construção imperativa de um inimigo comum: um complô comunista contra os homens de bem, a família e as tradições. A noção de “comunismo” se dilatou e não se traduz mais somente como o nome que se dá a um regime alternativo ao capitalismo, mas sim como um determinado conjunto de valores, atitudes, estilos de vida e preferências políticas. 

Para Wilson Gomes, professor titular de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT-DD), a premissa é ridícula e não resiste aos fatos. Mas, em comunicação política, o bom senso e os dados frequentemente não são bem-vindos. A adoção da história de um complô comunista reflete um severo estágio de alucinação ou de fantasia mal-intencionada, mas funciona. Tanto é verdade que a narrativa prosperou rapidamente, foi incorporada pela massa de bolsonaristas e passou a funcionar como matriz básica das decisões, prioridades e declarações de Bolsonaro”.

É a partir dessa premissa que o Governo Bolsonaro busca convencer a população brasileira das suas intenções e ações, tendo na desinformação uma importante aliada. 

Para o professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS), presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) entre 2007 e 2011, Carlos Eduardo Franciscato, “a suposição de ser possível, em uma sociedade, ter um Estado agindo estrategicamente na desestruturação de princípios fundamentais da democracia ao disseminar ou subsidiar a circulação de informações falsas, distorcidas ou desconexas com a realidade social não é concebível e afronta o princípio da transparência, cuja garantia encontra-se na ampla circulação de informações verídicas sobre atos do governo e da administração pública. Sem o conhecimento público sobre as ações do Estado, este deixa de estar sob controle da sociedade, abrindo margem para diferentes formas de autoritarismo”.

A perseguição ao Programa Mais Médicos

Um dos primeiros exemplos em relação a adoção de conteúdos falsos e distorcidos para angariar o apoio da opinião pública no governo Bolsonaro foi a polêmica em torno do término da Cooperação Brasil-Cuba no desenvolvimento do Programa Mais Médicos. Ainda prestes a governar, ao conceder entrevista coletiva na segunda semana de novembro de 2018, depois de Cuba ter se manifestado publicamente pelo retorno dos médicos cubanos por conta das diversas ilações a respeito do trabalho desenvolvido por esses profissionais, Bolsonaro afirmou: “não existe comprovação de que eles são médicos mesmo e que estão preparados para atuar”.

Embora a afirmação não seja verdadeira, visto que todos os médicos estrangeiros que participavam do programa são formados em Medicina em seus países de origem e precisam comprovar a formação – conforme determinado pela Medida Provisória n° 621, publicada em 8 de julho de 2013, dias após a coletiva, viralizou um vídeo de uma médica em Roraima reforçando os argumentos de Bolsonaro. Segundo dados do Aos Fatos, a peça de desinformação foi publicada no Facebook pelo perfil pessoal da médica no dia 16 de novembro e, depois de três dias, já contabilizava quase 65.600 compartilhamentos.  

Depois de oito meses de problemas de assistência médica, principalmente em regiões do interior do país e nas periferias dos grandes centros urbanos, período em que houve tentativas inócuas de retomada do programa anterior, o governo Bolsonaro decidiu lançar o Programa Médicos pelo Brasil. Na cerimônia oficial do lançamento, Bolsonaro reforçou a tese conspiratória de que o Mais Médicos tinha o objetivo de formar “núcleos de guerrilha” e de que o PT usou o programa para espoliar o povo “na base do terror, por um projeto de poder”.

Helcimara Telles, cientista política, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e organizadora do livro “Mais Médicos: As vozes dos atores e os impactos do programa na atenção básica à saúde”, afirma que “as ilações em relação ao Programa Mais Médicos foi algo que destruiu um processo de universalização da saúde, enquanto um direito universal, e atacou, diretamente, a população mais pobre, os povos originários, os indígenas, os rincões do Brasil”.

A guerra ideológica do Ministério da Educação

 

Meme com desinformação circulou pelo WhatsApp durante os protesto contra os cortes de verbas das universidades públicas.
Meme com desinformação circulou pelo WhatsApp durante os protesto contra os cortes de verbas das universidades públicas.

Outra “guerra ideológica” contra o “marxismo cultural” foi implementada pelo Ministério da Educação, sob salvaguarda de um dos grandes gurus do governo, Olavo de Carvalho. 

Com esse foco, no final de abril de 2019, o ministro Abraham Weintraub afirmou que o MEC cortaria recursos de universidades que não apresentassem desempenho acadêmico esperado e estivessem promovendo “balbúrdia” em seus campi. Logo após, o governo federal anunciou o corte de 30% nos recursos para as universidades federais e o Whatsapp foi inundado por mensagens que buscavam desmoralizar o ambiente acadêmico brasileiro – conforme demonstra levantamento do Monitor de Whatsapp, ferramenta do projeto Eleições sem Fake, do Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

A pesquisa identificou, em 350 grupos de WhatsApp, uma intensa circulação de fotos e vídeos retratando performances artísticas e protestos com nudez 24 horas após o anúncio de cortes no orçamento das universidades. Em geral, as imagens descontextualizadas foram acompanhadas por textos com críticas às instituições de ensino e que defendiam o bloqueio orçamentário apresentado pelo governo Bolsonaro.

Manifestações contra o contingenciamento de verbas pelo Ministério da Educação foram registradas nas capitais e em cidades do interior nos 26 estados da Federação e no Distrito Federal, no primeiro protesto nacional em reação a políticas do governo Bolsonaro. Nas redes sociais, no entanto, de acordo com levantamento realizado no Twitter pelo professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Fábio Malini, ainda que a mobilização tenha sido majoritariamente favorável aos atos, foi observado amplo uso de desinformação para agitar perfis contrários aos protestos.

Perfis críticos das manifestações apelaram a fotos tiradas de contexto e informações distorcidas para reafirmar o discurso de que os atos tinham outras motivações que não os aspectos relacionados à educação. Foram utilizadas, por exemplo, fotos de atos organizados contra o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, para mostrar que as manifestações eram orquestradas pelo PT.

Em dezembro de 2019, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados convocou o ministro para dar explicações sobre suas declarações de que há significativas plantações de maconha nas universidades federais e de que os laboratórios de química das instituições são usados para a síntese de drogas. Quando perguntado sobre fatos, provas, ele não forneceu detalhes sobre as acusações

A Associação Nacional Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes), em nota pública, denunciou a postura do ministro da Educação de não reconhecer os números e dados que pontuam a produção acadêmica no Brasil e classificou como mera “retórica” as informações contra as universidades brasileiras.

O impacto do fenômeno da desinformação

É certo que, se forem elencados todos os casos em que foi auferida a divulgação de conteúdos falsos ou distorcidos no primeiro ano do governo Bolsonaro, teríamos outras tantas laudas a rascunhar. Entretanto, os episódios aqui relatados já mostram como o fenômeno da desinformação tem impacto no sistema político e, também, no cotidiano da população brasileira, seja nos mais de 3 milhões de pessoas que ficaram sem médicos com o término do programa reconhecido internacionalmente, seja no ataque às universidades e à comunidade científica, agredida pelas ameaças de contingenciamento de verbas e de retirada da soberania e autonomia universitárias.

O problema não é de fácil resolução. É preciso que, por um lado, se avance em pesquisas, monitoramento e diagnósticos sobre o fenômeno da desordem informacional que está se desenvolvendo em escala industrial ao redor do mundo, e, de outro, que sejam adotadas ações sistêmicas para coibir tais práticas nocivas ao exercício democrático. 

 

Leia os outros artigos do especial  Concentração da Mídia e liberdade de expressão.

 

Ana Carolina Westrup é publicitária, Mestre em Economia Política da Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) doutoranda em Sociologia (UFS), Professora Substituta do Departamento de Comunicação (DCOS/UFS) e integrante do Coletivo Intervozes.



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