Desmentir a mentira?
Uma visão panorâmica de Desmentir, de Antonio Carlos Secchin
Penso, em alguns aspectos, como Sócrates e Platão: a Verdade só pode ser expressa pelo plano das ideias, invisíveis em sua essência; a palavra oral a degenera; a palavra escrita, seu simulacro, a destroça. Ao deixar os muros da Academia e adentrar nos do Liceu, contudo, concordo também com Aristóteles: a Verdade pode ser alcançada com a expressão verbal, sim; mas sempre revestida de um manto que não congrega a sua completude, chamado de Verossimilhança. A palavra escrita tampouco fica de fora da solução aristotélica, e, a partir do ardil e do estratagema da mimese, que a salvou do cadafalso do simulacro socrático-platônico, desdobra-se numa miríade de significantes e significados que criam as condições da poesia, plantando-lhe as sementes.
Antonio Carlos Secchin acaba de lançar Desmentir, pela Editora Patuá (São Paulo, 2026). Um escritor do vulto e amplitude de Secchin sabe que a Verdade está aquém das limitações lucífugas do artista, que admite que “Fala de poeta não merece crédito” (Soneto mentiroso), e que, portanto, “Resta-lhe apenas com sinceridade / mentir, sobre o vazio da verdade” (idem). O sujeito não ontológico da obra também não confia em fantasmas (que são simulacros dos vivos?), e lamuria-se: “Poetas e fantasmas têm algo em comum. / Ainda que falem até a exaustão, / ninguém ouve o que eles dizem” (Visita noturna).

Numa espécie de busca teimosa, como Odisseu, o poeta escapa do heroísmo de Homero e despe-se no homem comum de Hesíodo, perseguindo uma Verdade que atinge ser, no máximo, uma mentira que se possa Desmentir, o que o título já anuncia logo aos afoitos. Se a Verdade não é alcançável, será que ao menos o seu avesso, a mentira, através do seu avesso, a desmentira, pode-nos consolar – e salvar-nos a vida, como no espelho com que Perseu degolou Medusa sem tornar-se pedra?
Numa ascese ctônia, descendo da Canção do exílio sideral até as ranhuras esperançosas dos Últimos desejos – vai-se ao subterrâneo da alma, pois minha mestra Élisabeth Roudinesco me ensinou e eu aprendi que o psiquismo é um pássaro noturno –, Secchin, em sua verve, não busca as alturas olímpicas ou insulares para prelibar o alucinógeno chá de lótus. Em vez desse ascenso, sua persona investe e aposta na fundura da Mineração, em que o sujeito poético ensina um novo labor, carpina, coveiro, agricultor, garimpeiro: “Escavo o papel / atrás de uma frase oculta”. Será que a encontrará? Será que na mentira, ao ser desmentida, algo surgirá da ganga desse ofício de mineiro-poeta?
As desmentiras – formas dissolutas da Verdade? – se soltam em três partes na obra de Secchin: a primeira parte, intitulada Desmentir, metonímia do próprio livro em si, desveste-se desde as desventuras brevíssimas e libertinas de um pintor bêbado até o caminho anacoreta de um impressionante e pungente retrato que nos faz contemplar não apenas a Verdade, como, também, o Fato, a Pessoa, a Mulher, o Cachimbo, a Névoa, as ruas e rugas que tracejam a geografia semiárida de seu rosto de Anjo, sem alegorias, ademanes ou adornos, que germinam reflexões a nos conduzir e guiar da pá à lemniscata em um único poema. Na segunda parte, os Dez sonetos malcriados, Secchin apura ainda mais o seu cálamo de sonetista e nos obsequia com sonetos italianos e ingleses que rondam desde o erotismo ácido até a alcova mal afamada e oblíqua de Bentinho, Capitu e Escobar. Na terceira parte, um Abecebicho que se desloca, à moda de um dicionário freestyle, pelas almas e os olhares desses nossos companheiros de jornada terrestre, criaturas como nós, os bichos.
Desmentir é mais do que uma busca por Verdade. E também é menos, no sentido de que sabe das vulnerabilidades que impedem o acesso a Ela, em glebas brutas que A protegem, como às suas musas e musgos. Desmentir é um festejo à vida e às suas formas de existência e expressão. No poema de abertura, Brinde, Secchin já nos entrega a chave de ouro com que cerra as portas de sua primeira empreitada no livro, ao nos confidenciar: “Vida, te agradeço. Setenta anos / e ainda em recomeço”.
Pensando bem, poesia talvez não tenha nada a ver com Verdade ou Mentira. Talvez a poesia seja mesmo questão de Recomeço.
De Recomeço da infância, do frescor, do olhar inédito e virginal sobre abelhas, tamanduás, sardinhas, macacos, lobos, galos e jacarés. Não se trataria apenas de estranhar essas figuras míticas e comezinhas, épicas e ordinárias, mas, com apetite e volúpia, de recomeçá-las.
Talvez a poesia em geral, e a de Desmentir em particular, seja perene assunto de Recomeço, após o poeta nos dizer intransitivamente, com o tom cristalino, conquanto convoluto, semelhante àquilo que diz, sem palavras – o ápice da intransitividade –, o Poeta que conclui as Cenas infantis de Robert Schumann. Afinal, abrindo a porta semicerrada, um dos porta-vozes de Desmentir permite que o ouçamos sussurrar e lecionar: “Meu abraço se desfaz em plena brisa” (Lírica).
No eterno Recomeço, talvez a poesia seja a busca não desse abraço que se desfaz, senão o rastreio daquela brisa que o eternizou em seu sopro invisível.
Tão invisível quanto a Verdade de Sócrates e de Platão.
Marcelo Moraes Caetano é professor associado de língua portuguesa e filologia românica da UERJ, PhD em estudos de linguagem (PUC-Rio, UERJ e Universidade de Copenhague, Dinamarca), pesquisador em direito e em psicanálise teórica e clínica, pianista clássico vencedor de concursos internacionais, membro da Academia Brasileira de Filologia, da Academia Fluminense de Letras e do PEN Club do Rio e de Londres. Autor de mais de 50 livros no Brasil e no Exterior.

