Diga adeus ao filme de gênero
Em anos bons, um a cada dez ingressos vendidos é para se ver um filme brasileiro. Em anos ruins, o brasileiro médio compra um ingresso para filme nacional depois de comprar 32 ingressos para filmes estrangeiros
Lá nos anos 1940, o destino da escola de medicina da USP foi disputado entre cidades do interior de São Paulo. A quente Ribeirão Preto saiu a vencedora, deixando a pacata cidade do clima, São Carlos, com a escola de engenharia.
Quem é de São Carlos sabe a pressão de ter faculdades de exatas tão boas na cidade. No jovem são-carlense é depositada a expectativa de fazer do colégio um parênteses entre a infância e a engenharia. De certa forma, a engenharia molda a personalidade da cidade, e os lemas locais são mais ditados pela lógica que por paixões.
De maneira contraditória, em 2008, a cidade remou contra uma tendência mundial e abriu um cinema. Não um cinema de shopping, um cinema de rua! E o Cine São Carlos exibia de tudo, de filmes de vampiros assanhados, com filas que abraçavam quarteirões, a documentários sobre música nacional (desses eu era o único espectador). Os assentos rangiam, o ar condicionado gemia e o filme se fazia difícil ouvir. Oito reais o ingresso. Era a melhor coisa do mundo. O Cine São Carlos me transportava para outros mundos.

O que era flagrante naquele microcosmo era que os filmes estadunidenses dominavam as quadras do bairro nas noites de estreia, e que, dentre filmes nacionais, apenas os de comédia tinham alguma chance de criar filas. E isso mais ou menos se mantém até hoje: filmes brasileiros que não são comédias, aqueles que chamamos de “filmes de gênero”, não chamam tanto a atenção dos são-carlenses. Foram apenas 25 destes que pagaram ingresso para ver o suspense Barba ensopada de sangue em 2026. Por um lado, era triste e frustrante que o que nutria nossa imaginação fosse o estrangeiro, por outro, simplesmente não fazia sentido termos tantos bons filmes brasileiros exibidos que não tivessem público.
No meio tempo, eu criei algo que de absurdo tem um pouco, mas que faz total sentido. Me arrisquei a contrariar a expectativa de tornar-me engenheiro, saí da cidade, virei roteirista e pesquisador, e em 2020 criei a Tomun, uma empresa de inteligência de dados totalmente voltada para o audiovisual. A inquietação que vinha da emoção e da lógica ganhou forma, e foi justamente na combinação da análise dos dados com o conhecimento do mundo audiovisual que encontrei vocabulário para aquilo que me inquietava.
Este ano lançamos “O que o Brasil assiste: análise Tomun do mercado audiovisual 2023-2024” (disponível em Mercado Audiovisual no Brasil – Tomun), e com essa pesquisa, o que descobrimos é que filmes brasileiros e estrangeiros jogam jogos diferentes. Para ilustrar o problema: cerca de um terço dos filmes exibidos no Brasil são brasileiros, mas quando olhamos para os ingressos vendidos… Em anos bons, um a cada dez ingressos vendidos é para se ver um filme brasileiro. Em anos ruins, o brasileiro médio compra um ingresso para filme nacional depois de comprar 32 ingressos para filmes estrangeiros.
Contudo, a grande descoberta ocorreu quando subdividimos a bilheteria em gêneros cinematográficos. Os gêneros mais vistos no Brasil são ação, animação, terror e aventura, mas os gêneros mais ofertados pela indústria brasileira são: documentário, comédia, drama, crime e suspense. Fora a comédia, estes gêneros estão entre os com menor participação na bilheteria.

Dentre os filmes de ação, apenas 5,9% dos exibidos são brasileiros. De que adianta 46% dos filmes de suspense exibidos serem brasileiros se esse gênero como um todo vendeu apenas 630 mil ingressos em dois anos? Enquanto isso, filmes de terror venderam 28 milhões de ingressos, e filmes brasileiros representaram apenas 8,6% do total dos exibidos. Não que toda a produção deva ser orientada pelo público, mas a ideia de analisar o conjunto de obras produzidas é justamente a de não personalizar o problema em uma obra ou outra, mas dar um contexto abrangente – e o contexto que a análise dos dados de gênero desvela é o de que há desalinhamento entre o que vende ingresso e o que tem sido ofertado pelo cinema brasileiro.
Há problemas óbvios para se aumentar a produção de filmes de ação e animação, como orçamento e técnica. Por outro lado, pergunto por que fazemos tão poucos filmes de terror, que permitem blockbusters de baixos orçamentos? Todos os anos, o terror está entre os gêneros mais vistos no Brasil. Também tem menor dependência de propriedades intelectuais pré-vendidas, tem público para filmes de línguas não inglesas e é o gênero com a maior proporção de filmes que superam 10 mil ingressos vendidos, com 62,1% em 2024. No mesmo ano, apenas 15,9% dos dramas superaram 10 mil ingressos. Apesar disso, exibimos apenas doze filmes brasileiros de terror nos dois anos analisados, contra 94 dramas produzidos aqui.
O que o Brasil assiste é uma pesquisa que objetiva descortinar o audiovisual brasileiro, confrontando-o com aquilo que o público prefere ver. Na pesquisa, você verá informações de cinema, de streaming, de representatividade dos protagonistas de obras brasileiras e também os problemas relatados no uso de recursos de acessibilidade. Eu e a Tomun encontramos na análise de dados uma forma de jogar luz nesse mercado, com o objetivo de apoiar um crescimento mais saudável do setor, um que esteja alinhado à ponta final da difícil equação de fazer filmes – que é a experiência de jovens espectadores que anseiam ser transportados para outros mundos.
Fernando Cabral, fundador e analista da Tomun, é formado em Audiovisual e atua na interseção entre criatividade, pesquisa e análise de audiência.

