Do sertão ao horror distópico
O novo romance do escritor cearense João Matias expõe Brasil entre descaso ambiental, violência e retirantes
A violência de gênero, a militarização, as mudanças climáticas e a crise social vivida pelos retirantes estão no centro de Os Interiores (Editora Patuá, 164 págs.), romance de estreia do escritor, roteirista e professor universitário João Matias. O autor que, com este romance, figura entre um dos selecionados do Prêmio Alta Literatura, apresenta elementos distópicos para construir uma trama regional ambientada nos interiores do Nordeste brasileiro, em diálogo com acontecimentos políticos recentes e com a história do país.
Os Interiores se estrutura, em grande parte, numa espécie de road book, em que cenas brutais e diálogos afiados se cruzam num fluxo de tensão que flerta com o novo horror, ao mesmo tempo que traz em suas elipses referências aos anseios reacionários de um Brasil recente”, destaca o escritor e crítico literário Sérgio Tavares, em texto da quarta capa.

No centro da narrativa está Tieta, protagonista marcada pelas privações da infância, pelas violências sofridas e testemunhadas e pela necessidade de enfrentar homens para conquistar seus direitos. No ímpeto de reaver as terras que eram de seus antepassados, Tieta assassina seu marido, o general Mauro Müller, para obter suas terras, dando início a uma viagem pelos sertões em busca de tudo aquilo que é seu. “O livro também aborda a questão de gênero através da trajetória da personagem, das violências que enfrentou e da forma como se reconstruiu”, afirma o autor.
Nascido em Juazeiro do Norte (CE) e residente no Crato (CE), João Matias também viveu em outras cidades, entre elas João Pessoa (PB), onde morou por 15 anos. Jornalista e cientista social, é professor da Universidade Regional do Cariri, atuando na disciplina de Teoria e Pesquisa em Sociologia e no Programa de Pós-Graduação em Letras.
Antes do romance, construiu trajetória sólida como contista, com os livros O lugar dos dissidentes (Editora Escaleras, 2019), Os santos do chão bravo (Caos e Letras, 2022) e As madrinhas da rua do sol (Caos e Letras, 2023). Também é roteirista de cinema e quadrinhos, coautor do argumento do longa de horror brasileiro O Nó do Diabo (2017), apresentador do podcast sobre literatura Lavadeiras do São Francisco e integrante do projeto O Livro Quebrado, dedicado a entrevistas com autores nacionais.
Confira a entrevista:
Seu livro Os Interiores parece reunir camadas políticas, sociais, ambientais e pessoais muito densas – e tudo isso atravessado por uma protagonista marcante. Como essa trama começou a se formar na sua cabeça?
Quando idealizei Os Interiores fui instigado pelos anos de descaso, violência, ódio, injustiça social e climática pelo qual o Brasil passou entre 2018 e 2022. De início, quis render homenagem a um livro de adolescência, Cândido Ou O Otimismo, de Voltaire. Em seguida, o romance cresceu para uma distopia climática, política e social em que Tieta, uma viúva de general, mata seu marido para recuperar a posse das terras que eram de sua família. Para isso, se utiliza de um relacionamento fracassado e da oportunidade em consolidar um golpe de estado no Brasil. Tudo isso sob o pano de fundo da missão brasileira no Haiti (componente histórico e geopolítico), de um golpe bem sucedido (componente distópico e político), da proliferação de voçorocas (componente ambiental), de relacionamentos fracassados (componente pessoal/familiar), do aparecimento de retirantes (componente distópico de crise social, ódio e desumanização), da construção de campos de concentração (horror social ou new horror, campo político e social movido por ódio).
Ao final, Tieta se depara com seus próprios horrores, o resultado de sua ambição e uma nova missão para recuperar suas terras. Assim, o tema do relacionamento fracassado está em sua relação com o marido e com todas as pessoas em sua vida, o que leva à violência que ela própria sofreu ao longo da vida e, consequentemente, sua ambição; ao vivenciar o caos político, geopolítico e as mudanças climáticas e ambientais, Tieta as ignora em nome de sua ambição, mas este pano de fundo do enredo também serve para um processo de espelhamento da consciência e do inconsciente de Tieta (materializado em seus sonhos); o Ódio, a desumanização, o horror social e a distopia num romance regional são a atmosfera em que Tieta mergulha, avessa a grandes sinais de caridade, embora se surpreenda com aquilo de que o ser humano é capaz. Enquanto o Brasil cai no fundo de um abismo, Tieta segue em sua jornada pessoal para o encontro com as terras de sua infância. Não há nada que a demova desta ideia. Não tem homem que ela não enfrente para obter suas terras. E como o final do livro mostra, não há utopias que substituam sua própria conquista.
O livro também aborda a questão de gênero através do modo como Tieta se construiu em sua infância, das privações que teve, das violências que enfrentou e que viu em sua mãe. Dos homens que teve de enfrentar para ser quem é e de quem soube se utilizar para conquistar aquilo a que tem direito (no caso, o general com quem se casou, Mauro Muller). O livro apresenta a ambição em sua forma pura, relacionada a um contexto de privações e violências, relacionamentos fracassados e cinismo, golpes de estado e falência da política, abismos geográficos e abismos pessoais, crise individual e crise social, consciência e loucura (da própria Tieta) e, enfim, um Brasil imaginado e o Brasil real (dos golpes, militarismos, crises sociais e ambientais). Um Brasil refém do abismo crônico, social e geográfico.
O livro trata de temas duros, como violência, ódio e desumanização, mas também traz uma forte dimensão histórica e ambiental. Quais mensagens você pretende passar com essa história?
Acredito que o livro nos leve a refletir sobre os anseios reacionários de um Brasil recente, como afirma o Sergio Tavares, na quarta capa do livro. Também é um livro que nos auxilia a pensar sobre violências cotidianas, domésticas, bem como a violência social e política. A questão do surgimento e proliferação de voçorocas também é um tema que pode despertar o interesse, sobretudo daqueles que são ambientalistas. As voçorocas se formam com a erosão das chuvas e a formação de bolsões de água no interior da terra. A mineração está por trás disso, tanto é que uma cidade no Maranhão (Buriticupu) está ameaçada de ser “engolida” por uma voçoroca; o escândalo da Braskem em Alagoas se refere a formação de voçorocas; tudo isso está relacionado ao descaso ambiental e político. De outro lado, Os Interiores também nos auxiliam a refletir sobre como lidar com refugiados climáticos, pois estes seriam os retirantes. A solução encontrada pelos militares no livro é a de construção de campos de concentração, ou seja, a forma mais desumana e cruel possível. Para isto, eu me inspirei em campos de concentração reais que ocorreram no Brasil do princípio do século XX: eram os chamados “currais do governo” e foram construídos para conter a fuga dos retirantes, devido às secas, em direção às capitais do nordeste. Em 1877, houve em Fortaleza uma invasão de refugiados da seca na cidade, provocando um medo orgânico de que tal evento viesse a se repetir. Pode-se dizer que estes retirantes são refugiados climáticos, expressão que só veio a ter sentido na contemporaneidade. Os currais do governo estão como fonte de inspiração do romance O Quinze, da Rachel de Queiroz (não por outro motivo, uma forte influência para mim).
Você considera Os Interiores um reencontro consigo mesmo e com o desejo de revisitar os sertões. Que tipo de transformação pessoal e literária essa experiência representou?
Até então só havia escrito livros de contos, com destaque para o As Madrinhas da Rua do Sol e Os Santos do Chão Bravo, ambos pela editora Caos e Letras. Então, escrever Os Interiores é um reencontro comigo mesmo, com o meu desejo de revisitar um universo das minhas viagens e andanças pelos sertões cearenses e paraibanos. Ao mesmo tempo, é a minha maneira de acertar as contas com o governo militarista outrora vivido nos idos de 2018. Muitos sofreram com o descaso, o desacerto e a brutalidade daqueles tempos. Por isso, a obra é, para mim, um romance histórico, ao mesmo tempo que regional e distópico. Se puder gerar alguma reflexão sobre nosso passado e futuro político, bem como sobre nossas opções e nosso esclarecimento acerca do meio ambiente, do militarismo, da militarização da sociedade, dos refugiados climáticos e das ambições cotidianas, tanto melhor. A transformação é a de pensar uma narrativa longa e dar a ela alguma coerência. Gosto de narrativas em que o espaço fala com o leitor. Que a paisagem tenha sua própria eloquência. Que os personagens dialoguem com o espaço e sejam em parte, sujeito e objeto dele. Gosto de pensar a geografia do insólito como uma possibilidade narrativa, não só um mero artifício. Essa geografia insólita ou geografia do insólito é o que une todos os livros que fiz até então. Desde Os Santos do Chão Bravo, passando pelo As Madrinhas da Rua do Sol e chegando até Os Interiores. As cidades, a vida urbana e rural, a geografia de dentro e de fora, são paisagens que passam por alterações, provocações, ameaças e colonialismos de toda espécie. Refletir estes lugares e sua relação consigo mesmos, sua própria geografia insólita, é parte deste projeto literário.
A “geografia do insólito” aparece como uma marca forte na sua obra. Como ela se manifesta em Os Interiores e de que modo dialoga com seus livros anteriores?
Os livros anteriores me ajudaram pensar a geografia do insólito de múltiplas maneiras. Seja pensando nos lugares como transitórios e capazes de sofrer provocações, alienações, mudanças e violências, seja pensando nos personagens e enredos atrelados a essa dinâmica. Desde Os Santos, do Chão Bravo, publicado em 2022, tenho o projeto de recriar um nordeste insólito, atento às geografias de fora e de dentro, em que os personagens dialoguem com a tecnologia do cotidiano e da violência, com a inquietude de uma cidade surgindo dos escombros de uma comunidade ou de um povoado; nos livros anteriores explorei os colonialismos de toda espécie, humanos, políticos, urbanos. A passagem de uma cidade a outra, de uma comunidade para uma cidade, de uma pertença a outra, e seus conflitos. Nesses conflitos me centro e crio a matéria prima de uma narrativa que quer esgarçar essas contendas até o limite do crível. Tento pôr na aridez da terra, bem como na umidade de uma cidade litorânea, um pouco de vivacidade e também das disputas que lhe cercam. Das contradições e irreverências de um lugar atravessado por sertões e sentidos; pelo rural e o urbano; pelo cotidiano e o extra cotidiano; pela seriedade e a ironia; pelo gozo e pela violência.
Por que o romance foi o formato escolhido para contar essa história – e o que essa forma narrativa ofereceu que outros gêneros não ofereceriam?
Escolhi o romance para Os Interiores porque era a maneira que encontrei de atravessar os interiores (no sentido geográfico e pessoal) dando origem, vida e ódio a meus personagens. O romance nasce de uma reverência ao Cândido ou O Otimismo, mas acaba por findar como uma viagem distópica pelo coração dos sertões. Este é meu primeiro romance, e para me acercar da certeza de estar fazendo uma narrativa longa e bem construída eu tive que passar pelo processo de escrita de um longa-metragem, algo que aconteceu completamente ao acaso. Nos idos de 2014 trabalhei na produtora Vermelho Profundo, de Campina Grande (PB), e lá tive a chance de pensar o filme O Nó do Diabo, em sua complexidade narrativa, concepção e enredo. Sinto que angariei instrumentos para escrever narrativas mais longas depois desta experiência. Ademais, os amigos escritores sempre nos dão um auxílio. O livro passou pelos olhos e pelo crivo de muitos, incluindo leitores, preparadores e editores. Sinto que sem eles o trabalho não estaria completo.
Em Os Interiores, há um jogo constante entre o real e o irreal, entre o íntimo e o político. Que tipo de estrutura e linguagem você buscou para sustentar essa tensão?
Creio que busco uma linguagem sempre próxima de uma realidade sucinta, objetiva e clara, mas sem renunciar à ironia. Procuro encontrar no leitor o respiro, a cadência e o ritmo de uma tensão urdida no limite do real e do irreal, do cerimonioso e do irônico, da crença e da dúvida, da calma e da violência. Por isso, procuro sempre um equilíbrio de ritmos, personagens e pertenças. Ao pensar Os Interiores, pensei numa estrutura que fizesse o leitor estar no banco de trás de um carro, observando a geografia da terra, os retirantes, os diálogos, as cenas do livro. Pensei na estrutura de um romance de personagem: Tieta nos conduz pelos olhos dela e através da consciência e da inconsciência dela, mas ao mesmo tempo as sutilezas podem ser vistas nos olhares dos retirantes, nos acontecimentos da estrada, nas vibrações do rádio, nos silêncios intermitentes. Ao mesmo tempo, como tenho uma experiência na estrada pela qual transitam Tieta e Bernardo, o livro pode ser considerado um “roman à clef” (romance com chave), pois descreve situações cotidianas que seriam assustadoramente reais em outros períodos históricos (é o caso dos campos de concentração que, de fato, existiam nos idos dos anos de 1915), bem como o é perigosamente real os indícios e as paixões de uma sociedade militarizada e desumana. Resta ainda que Tieta é uma mulher com uma ambição, o que a leva ao abismo de si e dos outros. A epígrafe do livro é bastante ilustrativa disso, ao utilizar o poema O Chamado, da Zila Mamede. Tieta se abandona aos abismos de si, de sua terra primitiva e de todos aqueles que estão ao seu redor. Um abismo que compreende o Brasil, o Nordeste, a terra, os desejos, os medos e as supostas conquistas.
Você começou no jornalismo e menciona o new journalism como uma influência importante. Que marcas esse início deixou na sua forma de escrever ficção hoje?
Escrevo desde os meus 18 anos, quando comecei a cursar jornalismo e adquiri uma paixão pelo new journalism, movimento de autores, em geral norte-americanos, que faziam algo entre o jornalismo e a literatura. Foi com Truman Capote, Norman Mailer e Hunter Thompson que aprendi sobre o realismo e o irrealismo, os limites da escrita e do humor, do compromisso e do descompromisso. Demorei um tempo para me soltar. No princípio, minha escrita conservava algum formalismo. Não que hoje não conserve ainda os resquícios deste formalismo. Vejo a linguagem como uma errância gozando de um lastro com a ordem e o caos. Pois nada nunca será suficiente. O texto sempre trairá o sonho, já dizia Dalton Trevisan. Publiquei o primeiro livro aos 20 anos, e continuei publicando desde então. Acontece que só com O Lugar dos Dissidentes e Os Santos, do Chão Bravo creio que fui adquirindo uma voz própria. Destes livros em diante, dou-me o direito de estruturar um texto narrativo com alguma certeza naquilo que procuro. De um projeto literário consolidado. Sempre torço o mesmo para qualquer escritor: que ele ou ela encontre tudo aquilo que não procura.
Amanda Magalhães é jornalista, pesquisadora, escritora, Mestre em Comunicação e Temporalidades pela Universidade Federal de Ouro Preto. Transita, pesquisa e atua no jornalismo cultural e nas produções audiovisuais. É autora de 5 obras literárias, com destaque para o romance “Do verbo corresponder e o que vem antes”, lançado pela Editora Urutau em 2020.

