Dos programas policialescos às tecnologias de vigilância – o alvo é sempre o mesmo
O racismo segue estruturando a política de segurança pública, cujo discurso reverbera diariamente na tela da TV
Em outubro de 2025, o Brasil virou manchete internacional com a repercussão da chacina no Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. A operação policial causou 121 mortes, em um dos massacres mais letais da história do país, e trouxe protagonismo ao então governador Cláudio Castro (PL). Este, por sua vez, renunciou ao cargo meses depois para não ser cassado – em março de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou sua inelegibilidade por oito anos devido aos crimes de abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e captação ilícita de recursos nas eleições de 2022.
Com a vacância, o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar (União Brasil) deveria assumir o governo fluminense. No entanto, o deputado havia sido cassado e preso acusado de envolvimento com o Comando Vermelho. O ex-deputado TH Jóias (MDB) e o desembargador Macário Ramos Júdice Neto também foram acusados de vazar informações para o crime organizado.
A situação do Rio de Janeiro é um retrato da violência no Brasil e que revela o quanto o crime está organizado nos três poderes do Estado. Mas também expõe as diferenças no tratamento midiático e policial sobre os suspeitos. No artigo A injusta guerra de narrativa sobre a chacina no Rio, uma análise sobre a cobertura da imprensa confirmou o alinhamento dos principais veículos com o “discurso oficial” – o então governador Cláudio Castro comemorou a operação policial alegando que todas as 121 pessoas assassinadas tinham envolvimento com o Comando Vermelho e que foram mortas em confronto.
O artigo também destaca o silenciamento de moradores – em vídeos que circularam na internet e em mídias comunitárias, familiares e vizinhos denunciavam indícios de execução, inclusive com decapitação. Já nos programas policialescos, prevaleceu a promoção ao governador do Rio e ao discurso do “bem contra o mal” para validar a ação policial, que resultou em imagens de corpos estendidos na rua, ilustrando mais um massacre em área periférica do Rio de Janeiro.
Tudo pela audiência: crimes e violações a qualquer hora do dia
Os programas policialescos costumam seguir uma fórmula: abusam do tom sensacionalista, marcado por músicas de suspense, efeitos sonoros de sirene policial para criar um clima de tensão, gritos dos apresentadores, performance com cassetetes e “CPFs cancelados”, exibição de corpos ensanguentados e estímulo à violência policial.
A exploração da violência e o discurso que incentiva o cometimento de crimes por agentes policiais são corriqueiros em programas policialescos das emissoras de TVs comerciais no Brasil. Os alvos costumam ser os mesmos: pessoas negras, expostas na tela da TV, já com a sentença de condenação emitida pelos repórteres e apresentadores desses programas. O direito constitucional à presunção de inocência nunca é respeitado. Apesar da atuação do Ministério Público Federal e de entidades da sociedade civil contra estes programas por violação aos direitos humanos e aos direitos constitucionais, os policialescos seguem no ar e se proliferam nas emissoras brasileiras, sejam em programações nacionais ou regionais.
Raramente, os apresentadores que violam direitos, ao vivo, são punidos. É o caso de Sikêra Jr. que, em janeiro de 2026, foi condenado por discursos discriminatórios contra a população LGBTQIAP+. Quando apresentava o Alerta Nacional (Rede TV), Sikêra Jr. se referiu a essas pessoas como “raça desgraçada” que “precisa de tratamento” e ainda associou a comunidade à prática da pedofilia. A pena de prisão foi convertida em prestação de serviços e pagamento de indenização a instituições voltadas à comunidade LGBTQIAP+. A condenação, no entanto, é uma exceção, e o apresentador segue atuando na mídia televisiva.
Além do discurso violento, os programas policialescos também apelam para a estética da violência em tempo real. Como exemplo, o Operação de Risco, também exibido pela Rede TV!, é classificado como um “reality show pioneiro da TV brasileira”. A equipe de rua é formada apenas pelo câmera, que acompanha ao vivo ações da Polícia Militar da cidade de São Paulo, com o objetivo de “colocar o telespectador dentro da ocorrência, sem cortes e sem censura”, conforme sua descrição. É, portanto, uma espetacularização da violência e do trabalho policial. Em um de seus “episódios”, o título é Criança presa, flagrante da ROTA e mais, em evidente violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90).
Outro programa emblemático é o Alô Juca, apresentado por Marcelo Castro e exibido pela TV Aratu, afiliada ao SBT na Bahia. O programa diário é marcado pelo acompanhamento de operações policiais em comunidades periféricas de Salvador. Novamente, os “alvos” detidos pelos policiais e exibidos pelo programa costumam ser os mesmos: jovens negros. Antes mesmo de qualquer investigação ou julgamento, é comum o apresentador sentenciar que as pessoas exibidas na tela são membros de facções criminosas.
Chama a atenção a contradição do programa Alô Juca: o mesmo apresentador que vocifera contra “criminosos” e defende ações letais da polícia é investigado como principal suspeito do “Golpe do Pix”. Em 2023, Marcelo Castro foi demitido do Balanço Geral (Record Bahia), acusado de desviar mais de R$ 400 mil reais doados pelos telespectadores a pessoas em situação de vulnerabilidade exibidas em seu programa. O apresentador explorava a situação de pessoas que buscavam ajuda em seu programa, pedindo doações. No entanto, de acordo com as investigações, a maior parte das doações era desviada – a “chave pix” exibida na tela era vinculada a contas pessoais, em um esquema envolvendo o apresentador e o então diretor do programa, Jamerson Oliveira. O caso foi descoberto pela própria emissora. Desde 2024, Marcelo Castro é réu no processo, com julgamento previsto para 2026.
Apesar do escândalo, Marcelo Castro contou com a benevolência da mídia e teve o direito à presunção de inocência respeitado, conseguindo rapidamente um novo emprego na TV Aratu, o que não acontece com os jovens negros que são expostos e condenados previamente no Alô Juca. “A emissora, de alcance em toda a Bahia, veicula uma programação que fere princípios constitucionais da radiodifusão, viola diversos direitos humanos e impacta negativamente o público periférico, sobretudo os jovens”, destaca Jonaire Mendonça, associada ao Intervozes.
Não assistimos nesses programas a operações policiais em bairros de luxo das grandes capitais brasileiras e raramente assistimos a pessoas brancas e ricas sendo detidas e suas imagens exibidas na TV, atribuída a elas a alcunha de “bandidas”. E não estamos defendendo isso. Mas, mostrando que há dois pesos e duas medidas no cumprimento da lei no Brasil, em relação às pessoas negras e brancas. Certamente, o tratamento desses programas a figuras como o ex-deputado e o desembargador do Rio (denunciados por envolvimento com o crime organizado) e até mesmo com o apresentador réu, acusado de desviar doações, não é o mesmo dado a moradores das favelas, sejam eles suspeitos ou não. Afinal, quem são os “bandidos” exibidos pelos policialescos na TV?

Para além das telas
A veiculação dos programas policialescos pelas emissoras comerciais não é novidade. Os altos índices de audiência e o retorno financeiro são priorizados, em detrimento da ética jornalística e do respeito às leis. Assim, há décadas, os policialescos vêm se consolidando nas grades de quase todas as emissoras, em todos os estados brasileiros.
Com a internet essa audiência se multiplica, já que os programas também são disponibilizados nas plataformas digitais, como o YouTube e Instagram. Para além da conivência do Estado, esses programas encontram abrigo nas plataformas digitais que aceitam a veiculação desses conteúdos em flagrante desrespeito à legislação e aos seus próprios termos de conduta.
A fiscalização por parte do Ministério das Comunicações é falha e a resposta da Justiça é realizada, diante das provocações das organizações sociais ou do Ministério Público. No entanto, a resposta do Judiciário é lenta e pouco efetiva, pois os policialescos permanecem sendo exibidos na TV. Assim, os programas policialescos se sentem encorajados a reproduzir violações de direitos humanos e reforçar o machismo e o racismo estrutural da sociedade brasileira por meio dos conteúdos exibidos nas reportagens e nos comentários dos apresentadores. A exibição de operações policiais em bairros periféricos e da prisão ou abordagens violentas a pessoas negras não são por acaso: é a indicação de um projeto para mostrar quais são os corpos e territórios que devem ser temidos.
A professora e coordenadora do Observatório de Mídia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ana Veloso, aponta também outras problemáticas sobre os policialescos, como a ausência de manual de redação e de conduta ética nos meios de comunicação que produzem este tipo de programa, além do descumprimento dos códigos de ética do jornalismo e das regras da radiodifusão.
De acordo com Ana Veloso, “há também uma superexploração dos profissionais e das profissionais que ali trabalham, e existe uma linha editorial nestas emissoras que valoriza o sensacionalismo, o escárnio, valoriza a exploração da miséria humana e expõe isso de forma absolutamente desrespeitosa. Esses fatores impedem que a cobertura seja qualificada e, quando isso acontece, as violações de direitos se reproduzem”. A pesquisadora acrescenta ainda que “a forma que os corpos de pessoas negras são expostos pelos policialescos faz parte do processo de espetacularização da tragédia, com fins de captura da audiência pelo sensacionalismo.”
Reconhecimento facial e a vigilância dos corpos negros
O espetáculo da violência pelos programas policialescos endossa um discurso de que a violência policial e o encarceramento em massa no contexto da guerra às drogas é eficiente no combate à criminalidade. Não é o que a realidade mostra. O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 900 mil pessoas, sendo 726 mil ocupando os presídios, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça. O país também possui altos índices de letalidade policial e não são raros os “casos isolados” de abuso policial e chacinas. Em ambos os casos, a ampla maioria das pessoas presas ou assassinadas são negras.
No entanto, a prática comprova a ineficácia dessa política. De acordo com o comissário das Nações Unidas, Volker Türk, em todo o mundo “a chamada ‘guerra às drogas’ destruiu inúmeras vidas e prejudicou comunidades inteiras. Essas políticas simplesmente não estão funcionando e estamos falhando com alguns dos grupos mais vulneráveis de nossas sociedades”. Segundo a organização internacional ACLED, o Brasil foi considerado em 2025 o sétimo país mais perigoso do mundo, ficando atrás apenas de Palestina, Mianmar, Síria, México, Nigéria e Equador.
Para um morador das cidades brasileiras, sobretudo das capitais, é fácil reconhecer que boa parte dos bairros são controlados por facções e milícias, vigorando a sensação de insegurança. Dados divulgados pelo Ministério da Justiça apontam que, em 2025, o Brasil teve 34.086 mortes violentas registradas. Nesse contexto, cresce a adoção da política de vigilância em massa como promessa de enfrentamento à violência.
De acordo com o projeto O Panóptico, desenvolvido pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, atualmente o Brasil possui 535 projetos que utilizam técnicas de reconhecimento facial, espalhados por estados e municípios, resultando em quase 100 milhões de pessoas potencialmente vigiadas.
Um desses projetos é o “Smart Sampa”, um amplo sistema de monitoramento que custa aos cofres públicos de São Paulo R$ 9,8 milhões ao mês. Entidades como o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, o Idec, Defensoria Pública do estado de São Paulo, Defensoria Pública da União e a Artigo 19 questionam a falta de transparência no uso dos dados dos cidadãos capturados pelas câmeras, o elevado investimento diante de uma baixa eficácia no cumprimento de prisões e repressão ao crime, além de constantes erros durante o reconhecimento facial. Um dos casos mais recentes aconteceu contra o trabalhador Ailton Alves de Sousa, detido quatro vezes – ao sair de casa, no trabalho, ao levar a mãe ao hospital e numa corrida de rua – após ser “confundido” pela vigilância do Smart Sampa.
A série Quem paga a conta? produzida pelo Intercept Brasil, revela o quanto a adoção das tecnologias de vigilância e reconhecimento facial tem se tornado um mercado lucrativo para empresários. Até mesmo cidades do interior, com baixos índices de violência e baixa arrecadação, estão investindo nesse sistema. Nas capitais brasileiras, essa realidade é constante. Em João Pessoa, por exemplo, o “Smart City”, com a implementação de 3 mil câmeras na cidade, teve o contrato no valor de aproximadamente R$ 400 milhões questionado pelo Tribunal de Contas do Estado da Paraíba, que recomendou – sem sucesso – a sua suspensão.
Em meio a diversas problemáticas sobre o uso dessa tecnologia, governadores e prefeituras costumam ignorar debates e críticas, vendendo essa política de vigilância como um “sucesso”, comemorando cada prisão como se isso, por si só, garantisse a eficiência da política de segurança pública. De acordo com a antropóloga Juliana Borges, em entrevista para o Instituto Geledés, o sentimento de impunidade muitas vezes faz com que as pessoas legitimem tal política. “Inclusive para atender os interesses do sistema, que se alimenta do medo, da insegurança, não se efetiva o enfrentamento de crimes contra a vida, e ao mesmo tempo, há a relação com o patrimônio. Existe muito uma preocupação com o patrimônio, isso vai dando uma sensação de insegurança e medo, e por isso as pessoas vão dizendo que precisa prender mais, punir mais. E daí a sociedade vai dando respaldo a práticas cada vez mais violentas, de suposta repressão ao crime”, afirma Juliana. E nesse caso, os programas policialescos operam bem essa sensação de medo na população, reforçando a política de vigilância do Estado de maneira massiva, que não respeita a privacidade e a dignidade humana, e legislações como a Lei Geral de Proteção de Dados nº13.709/2028 (LGPD).
Em 2025, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) publicou uma resolução sobre o uso da tecnologia de reconhecimento facial em espaços públicos, com o objetivo de evitar retrocessos nos direitos humanos e garantir os direitos constitucionais da população. Na recomendação, o CNDH cita diversos relatórios e pesquisas que comprovam o reforço das desigualdades e da discriminação racial por parte da tecnologia de reconhecimento facial. Uma delas é a do National Institute of Standards and Technology (NIST) que identificou falhas de 189 algoritmos de reconhecimento facial, produzidos por 99 desenvolvedores diferentes, na identificação de pessoas em termos de raça, nacionalidade, etnia e gênero.
Por uma política de segurança antirracista
Mesmo com diversos indicadores, apresentados por entidades que demonstram a ineficácia da política de segurança pública no Brasil, como o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, além da realidade cotidiana que revela o fracasso da famigerada “guerra às drogas”, essa ainda é a política de segurança que vigora nos estados e municípios. De acordo com o Anuário de 2025, 82% das mortes em decorrência da intervenção policial no país são de pessoas negras, reforçando o seu viés racista. E os políticos que adotam essa plataforma da violência, do punitivismo e do encarceramento em massa seguem capitalizando votos, justamente em cima do medo e da insegurança da população, com promessas de vigilância irrestrita para garantir a paz.
Apesar da violência crescente, predomina o discurso favorável a essa política de segurança, seja através dos programas policialescos na rádio e TV, seja na proliferação desse tipo de conteúdo em plataformas digitais. Soma-se a isso, a adoção de tecnologias de reconhecimento facial e operações policiais que não justificam as ações ou os investimentos realizados pelos governos e só reforçam a cortina de fumaça que paira sobre a política de segurança pública adotada no Brasil.
Por não resultarem em votos, as ações de inteligência e uso de tecnologias que viabilizem investigações aprofundadas e sem vieses discriminatórios, não costumam receber a mesma visibilidade e os mesmos investimentos. No final das contas, a violência no meio urbano segue vitimando predominantemente a juventude negra, mulheres e moradores de bairros periféricos. Na mira das câmeras de vigilância ou dos programas policialescos, os suspeitos têm o mesmo perfil e endereço. E o discurso que endossa essa política repressiva e pouco efetiva do Estado brasileiro segue sendo utilizado como trampolim para candidaturas de apresentadores policialescos e mesmo “policiais influencers” a cargos públicos. Ambos, ao arrepio da lei, costumam evocar para si o poder de fazer a sua própria justiça e as suas leis para acusar, condenar e sentenciar quem lhes convém.
Esse artigo faz parte da série “Relatório Direito à Comunicação 2025”, produzido pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. O relatório, divulgado anualmente, traz reflexões, análises e contribuições para o debate ligado ao direito à comunicação, a partir dos principais fatos que marcaram o Brasil.
Mabel Dias é jornalista, mestra em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba, doutoranda em Comunicação pela UFPE e associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

