Doulas comunitárias e multiplicadoras da amamentação exclusiva

Feminismos transnacionais

Doulas comunitárias e multiplicadoras da amamentação exclusiva

por Letícia Bezerra de Lima e Vivian Mitiko Queiroz Lima
6 de novembro de 2020
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Embasadas no poder transformador da educação, podemos trazer hoje duas experiências que aconteceram porque mulheres se uniram para melhorar a assistência à mulher no ciclo gravídico puerperal. Para tanto, utilizamos ferramentas como a educação, o fortalecimento de redes de apoio da comunidade, mesmo estando em um contexto de desmonte do SUS, evidenciado pelo desfinanciamento iniciado pela Emenda Constitucional 95/2016 e do novo financiamento da Atenção Básica.

Apesar das tentativas de enfraquecer o SUS e a Estratégia Saúde da Família e, embora pareça contraditório, a nossa resistência está em justamente continuar ofertando um atendimento de qualidade, mostrar que é possível promover saúde e prevenir doenças, mostrar o potencial dos profissionais de saúde da assistência,  pois o SUS dá certo e precisa de mais investimentos e correto gerenciamento.

E como para agregar a luta sempre aparecem parceiras, nós, Vivian  enfermeira obstetra, atuante na Estratégia Saúde da Família, servidora pública do SUS e Letícia como Professora de Sociologia, servidora do CEFET-RJ, doutoranda UFBA, nos conhecemos na Unidade de Saúde da Família (USF) Canabrava, em abril de 2019, em uma roda de conversa sobre o texto “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, de Maria do Carmo Leal et all. A partir desse encontro foi gerada uma parceria no trabalho e na vida.

MAE: multiplicadoras da amamentação exclusiva

Em 2009, a prevalência do Aleitamento Materno Exclusivo (AME) até os seis meses na capital baiana era de apenas 36,5%, a média da região Nordeste foi a que apresentou menor prevalência, com 37%. A duração média do AME na Região Nordeste se apresentou como a pior do país, 34,92 dias, sendo 31,16 dias em Salvador. A média brasileira foi de 54,11 dias no Brasil.

Os dados dessas pesquisas corroboravam com a minha realidade de enfermeira na qual percebi que, na prática, minhas usuárias também deixavam de praticar o AME, por diversos fatores, principalmente pela falta de rede de apoio familiar e comunitário. Pensando em como resolver esse problema, elaborei um projeto de intervenção como trabalho de conclusão do curso de especialização de Gestão da Atenção Básica (com ênfase em Redes) o “MAE” – Multiplicadoras da Amamentação Exclusiva”, um projeto inédito, factível e com potencial de transformação.

O projeto foi colocado em prática em agosto de 2019 no meu local de trabalho, a USF localizada no bairro de Canabrava, periferia de Salvador. A comunidade atendida tem na sua forma de organização a valorização das relações interpessoais entre os moradores. O contexto geográfico, a topografia das ruas e vielas, a estrutura física das residências onde em um mesmo terreno se instalam diversas famílias, permite uma maior aproximação entre os indivíduos. Muitos usuários com perfil de liderança no seu território tem a capacidade de estarem inseridos continuadamente no cotidiano dos seus pares.

Essas relações devem ser valorizadas pelos profissionais de saúde como um potencial da continuidade do cuidado para além dos muros e horários de funcionamento da Unidade de Saúde. Principalmente na seara da amamentação, onde a família necessita de incentivo constante para persistir com o AME, é imprescindível que dentro do convívio desta família ela possa encontrar o apoio apropriado.

Pensando nisso, no “MAE” as mulheres moradoras do bairro são capacitadas para serem multiplicadoras do aleitamento materno exclusivo dentro da própria comunidade, auxiliando com informações atualizadas sobre a amamentação, outras mulheres que precisem de apoio neste momento de suas vidas.

As profissionais enfermeiras, odontólogas, médicas e agentes comunitárias atuaram como facilitadoras, e todo o curso foi custeado pelas próprias profissionais. Os dois cursos foram divididos em 3 encontros e realizados em parte no salão de festas da Agente Comunitária de Saúde (ACS) Rosália, pois a estrutura da unidade inviabiliza atividades deste porte. Foram trabalhados primeiramente os mitos e verdades que as usuárias tinham sobre o aleitamento materno e a partir das suas falas foram apresentados os dados reais que ora ratificavam, ora retificavam suas crenças.

Trouxemos temas como a importância e os benefícios físicos e psicológicos do AME na saúde da mãe, criança, família e sociedade, anatomia das mamas e fisiologia da amamentação, pega e posição correta da mãe e do lactente, sinais e sintomas de problemas mamários, fases do leite materno, a ordenha mamária e o armazenamento do leite materno, como abordar a mulher lactante que necessita de apoio, desenvolvimento da estrutura orofacial através da amamentação e quando acionar a equipe de profissionais.

Maria Santos, MAE (Arquivo Pessoal)

Ao final dos cursos, aquelas mulheres que compareceram aos 3 encontros receberam um certificado de conclusão e uma placa escrito “ AQUI TEM UMA MAE- MULTIPLICADORA DA AMAMENTAÇÃO EXCLUSIVA – PARCEIRA DA USF CANABRAVA”  para serem colocadas nos portões de suas residências, e, assim, serem facilmente identificadas por qualquer vizinha que tenha algum problema com a amamentação. Ao todo 6 mulheres se tornaram MAE.  As concluintes do segundo curso receberam via doação almofadas de amamentação e Rosália cedeu o seu salão de festas para que elas realizassem seus futuros eventos.

Para isso, o curso se estruturou de forma dinâmica e com uma linguagem simples e de fácil entendimento, utilizando o modelo de roda de conversa, imagens, bonecos e próteses educativas de mamas, a ponto de que a primeira mulher formada como MAE, foi dona Maria, uma mulher de 65 anos, atuante na igreja e na comunidade, matriarca de uma família de 7 filhos, 19 netos e 5 bisnetos, negra e que não sabia ler. Preservando a potência da oralidade e resgatando um conhecimento adormecido que só precisava ser despertado para retornar para quem é de direito. Dona Maria mostrou que para apoiar outra mulher é necessário algo que não se aprende nos livros: vontade, garra, compaixão e empatia. E isso ela tem de sobra!

MAES e equipe (Arquivo Pessoal)

A estratégia de qualificar as mulheres como MAE é uma forma de reconhecer o conhecimento que elas já possuem, o empenho em se atualizarem para desenvolverem um papel essencial nesta comunidade. Isso também contribui para que tenham autoestima, ao mesmo tempo em que fortalece a rede de apoio ao aleitamento materno para a nutriz.

O conhecimento sobre nosso corpo, nossa capacidade de parir e nutrir foi encoberto por mitos limitantes. As mulheres que desejam amamentar precisam lidar com influências negativas para conseguir manter o aleitamento materno exclusivo. Fizeram-nos acreditar que somos incapazes e que nosso leite é fraco, mais fraco que uma fórmula-em-pó-industrializada-cheia-de-conservantes-que-precisa-ser- diluída-em-água para formar o que a natureza já nos deu pronto.

O aleitamento materno salva vidas. Um estudo de 2016 mostrou que 823 mil mortes de crianças e de 20 mil mães poderiam ser evitadas somente através da ampliação da amamentação. Incentivar à amamentação exclusiva e evitar o desmame precoce mediante ações que promovam o conhecimento da importância do aleitamento e o envolvimento da comunidade na promoção, proteção e apoio ao AME é uma responsabilidade de todas as esferas de governo.

Doulas Comunitárias

Historicamente, durante a maternagem as mulheres sempre tiveram apoio de outras mulheres, em geral, da família ou outras mulheres com experiência no cuidado com outras. Com o passar do tempo e com as mudanças econômicas, culturais e sociais, o parto se transformou em evento hospitalar e o papel de “cuidador” foi centralizado na figura do acompanhante. A doulagem se transformou em uma atividade realizada por mulheres que estudam sobre o tema e são contratadas pela gestante, ou que exercem voluntariamente essa função em pouquíssimas instituições de saúde pública durante o trabalho de parto.

A doula fortalece o cenário do parto humanizado, aquele que preserva a autonomia da mulher, não medicaliza e não patologiza algo que é fisiológico, em detrimento do interesse de terceiros, promove um ambiente respeitoso e acolhedor independentemente do local que aconteça. (5) Sua função é oferecer suporte emocional e físico às gestantes no pré-parto, parto e pós-parto imediato. Ela não realiza nenhum procedimento técnico como aferir pressão, fazer exame de toque e muito menos realizar o parto. Sua presença já traz resultados positivos e comprovados cientificamente – pela Medicina Baseada em Evidências – quando contribuem para a redução do tempo de trabalho de parto; redução do uso de medicamento para alívio da dor; redução do índice de cesárea; aumento da taxa de aleitamento materno; maior satisfação da mulher e de seus familiares durante o trabalho de parto e o puerpério.

Esse cuidado é ancestral, por isso está conosco e pode ser transmitido por aquela mulher que sinta e queira passar adiante o ato de tranquilizar, apoiar, amparar outra mulher no período gravídico puerperal. Cuidado que as mulheres de Canabrava de certa forma já prestam umas às outras.

Diante desses fatos, pensamos que poderíamos atuar para além da assistência direta, na redução das desigualdades de acesso e atendimento das pacientes da comunidade de Canabrava. Nasceu a ideia de qualificarmos o cuidado com conhecimentos sobre gestação, parto e puerpério as mulheres da comunidade para apoiarem outras mulheres durante o ciclo gravídico puerperal, nascendo assim o curso “Doulas comunitárias”.

Uma maneira de poder inserir a doulagem em todos os níveis sociais, diminuir o abismo entre as assistências prestadas, compartilhar o conhecimento sobre o parto humanizado, para que as mulheres se fortaleçam e mantenham sua autonomia neste momento de suas vidas.

O curso foi realizado pelas autoras, enfermeiras, médica, ACS da USF, residentes de enfermagem obstétrica e pela psicóloga voluntária Ana Carla.  Acreditamos que foi o primeiro curso do Brasil realizado por uma Unidade de Saúde da Família e certamente o primeiro de Salvador. Realizamos as atividades novamente no salão de Rosália e teve a duração de três dias seguidos com uma carga horária total de 21 horas, encerrando com a participação das doulas na roda de gestantes da USF. A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador apoiou com carro de som para divulgação do evento na comunidade, material de papelaria e emissão dos certificados. Foram abordados temas como a fisiologia da gestação, do trabalho de parto e amamentação, práticas integrativas e complementares como aromaterapia, métodos não farmacológicos de alívio da dor, uso da bola suíça, massagem, direitos da gestante e violência obstétrica. Concluíram dez mulheres participantes e um homem, sendo a maioria moradoras de Canabrava, sem emprego fixo e com filhos. Uma de nossas alunas, Maria Aparecida Oliveira, já atuou neste ano doulando sua sobrinha em um parto normal no Centro de Parto Normal para o nosso orgulho e felicidade.

Doulas comunitárias e equipe (Arquivo Pessoal)

Percebemos o quanto é importante reafirmar uma famosa frase que diz “para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”. E para mudar a forma de nascer é preciso antes de tudo mudarmos a nós mesmas, aprimorarmos o nosso conhecimento, aquecermos nossos corações para desejarmos profundamente a mudança e mais do que tudo, ter a coragem para realizá-la. É preciso olhar para dentro de si e ainda assim não se esquecer de olhar pra fora. Enxergar a mulher, os determinantes sociais de saúde, a saúde do trabalhador/a, a necessidade de educação permanente, protocolos institucionais, investir no planejamento reprodutivo, na estratégia saúde da família, redes de atenção, casas de parto, maternidades, na educação.

É muito trabalho! E o mais lindo foi ver que pessoas já olhando para isso, fazendo ventania com suas asas de borboleta! Ter sentido todo o amor e dedicação que as mulheres exalavam em suas falas e tocavam na nossa alma, mostrando que SIM é possível acreditar na mudança, embora todo um sistema nos faça acreditar que não.  Lutemos por uma assistência digna às mulheres, POR TODAS, principalmente pelas negras e empobrecidas que são as que mais morrem e sofrem toda a violência obstétrica.

Esse tipo atividade valoriza o poder da educação, da junção da comunidade com o serviço de saúde. Acreditamos que como profissionais de saúde podemos sempre valorizar o potencial de cada ser humano que atendemos, olhar para eles/as como iguais e como parceiros/as. A nossa rede não deve se limitar às instituições, mas que deve se ampliar, reverberando em redes de apoio dentro das comunidades, pois cada pessoa tem um poder de transformação imenso, “só precisa descobrir, que se eles lá não fazem nada” podemos fazer tudo daqui!

 

Agradecemos a todos os profissionais da USF, esse projeto só foi viabilizado pois trabalhamos em equipe. Foi imprescindível a parceria das facilitadoras enfermeiras Bianca, Luzane, dentistas Carolina e Lizzia, médicas Alynne e Ana Carolina, residentes Bárbara, Fábia, Gislaine, ACS Rejane e Rosalia, psicóloga Ana Carla. O apoio do gerente Nelson, Secretaria Municipal de Saúde de Salvador e Distrito Sanitário Pau da Lima. Um agradecimento especial às mulheres de Canabrava e nossas alunas que estiveram com a gente nos cursos oferecidos. Mulheres cuidando, apoiando, lutando por outras mulheres, em defesa de uma assistência à saúde digna, livre de violência. Em defesa do SUS!

Letícia Bezerra de Lima, professora de sociologia no CEFET-RJ, campus Valença e doutoranda em estudos de gênero e feminismo na UFBA. Pesquisa parto humanizado e saúde da mulher. É doula e educadora perinatal.

Vivian Mitiko Queiroz Lima, enfermeira há 11 anos, pós-graduada em Enfermagem Obstétrica, Gestão da Atenção Básica e Docência do Ensino superior, atua como Enfermeira da Estratégia Saúde da Família em Canabrava- Salvador, BA e precepetora da especialização em Enfermagem Obstétrica na forma de residência na unidade.

 Referências Bibliográficas

WEILLER, José Alexandre Buso. O desmonte do SUS em tempos de Bolsonaro. In: STEFANO, Daniela e MENDONÇA, Maria Luisa. Direitos Humanos no Brasil 2019 – Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. São Paulo: Outras Expressões, 2019. Pp. 231-238

LEAL, Maria do Carmo et all. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Caderno de Saúde Pública, v.33, supl.33, 2017.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. II Pesquisa de Prevalência de Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal. Caderno de atenção básica, Brasília, v.1, n.1, p.1-108, 2009.

VICTORA, Cesar Gomes et all. Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. Lancet. Volume 387, 2016.

CARNEIRO, Rosamaria Giatti. Cenas de Parto e políticas do corpo. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2015.

 

 



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