“Dueto dos Ausentes”: um mergulho no luto, nos desejos e na inibição
“Dueto dos Ausentes”: um mergulho no luto, nos desejos e na inibição
Romance de estreia de Fernando Rinaldi foi publicado recentemente pela Reformatório
Romances de estreia como “Dueto dos Ausentes”, de Fernando Rinaldi, são acontecimentos raros. E essa afirmação não leva em conta apenas o fato de o autor já ter uma voz literária bem definida, mas se baseia, principalmente, em seu interesse em explorar a fundo o terreno da linguagem – sem jamais se esquecer da técnica.
O livro, recentemente publicado pela Reformatório, apresenta uma trama repleta de reviravoltas, personagens autênticos, metalinguagem e abordagens provocativas sobre questões existenciais.

Imagem: Editora Reformatório
Em um momento inicial, parece contar uma história sobre o luto. Afinal, o primeiro capítulo apresenta a leitores e leitoras, Hélio, um psicanalista que acaba de perder o filho em um acidente de carro. Pouco depois, sua esposa passa a se comunicar com ele apenas por mensagens de texto, em geral, com poucos caracteres e muito espaço para o silêncio.
Disposto a fugir desse ambiente hostil e lidar com o próprio luto, aceita o convite para passar um tempo em Portugal e, quem sabe, escrever um novo livro, dessa vez não algo teórico, mas uma ficção.
No capítulo seguinte, o protagonista é Heitor, um jovem que vive em um “casulo morno e asfixiante” em meio a descobertas sobre a própria sexualidade. O personagem fala muito sobre o avô falecido e, assim, dá continuidade à ideia de uma narrativa sobre morte, saudade e ruptura.
Contudo, do terceiro capítulo em diante, Fernando Rinaldi subverte o que seria lógico e sacode – no melhor dos sentidos – as expectativas de leitores e leitoras. Afinal, esse é o ponto em que o livro se divide em novos enredos, todos guiados por duplos dos personagens apresentados nos capítulos iniciais.
Aqui, verdade e fantasia se confundem, desejo e proibição se misturam, silêncio e melodia se tornam uma coisa só. Surgem Élios e Hectors, Franças e Brasis, Freuds e Ferenczis.
À medida que novas tramas são abertas, outras permanecem suspensas, entre o conforto de um abraço e a violência de um soco abrupto. Cada frase apresenta uma nova possibilidade, um novo recomeço, mas também um novo abandono.
Fernando Rinaldi demonstra inteligência e sensibilidade ao construir personagens com angústias e feridas emocionais próprias, longe de clichês ou da superficialidade. Cada duplo se sustenta enquanto protagonista da própria história e toma decisões assertivas e descabidas na mesma proporção, como cada um de nós.
“Dueto dos Ausentes” não é nem tanta ser um romance comum. É um projeto ousado e muito bem executado por um escritor atento às ricas possibilidades oferecidas por narradores e pela própria ficção.
O livro não é simplesmente uma história dentro de uma história, mas sim o encontro de vozes que gritam e choram e se desesperam enquanto buscam por um sentido que, no fim das contas, pode nem existir.
Na quarta capa do livro, o renomado escritor Julián Fuks define bem: uma obra singular e intensa, carregada de momentos vívidos, atravessada de afetos, sexo, luto.
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá) e “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros). É colaborador do Jornal Rascunho e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique, Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

