RESENHA

‘Dura para sempre e depois acaba’, de Anne de Marcken

Com uma narrativa lenta, elegante e introspectiva, Marcken nos apresenta o absurdismo da existência

O mundo que conhecemos foi destruído. Zumbis vagam por ruínas, ruas destroçadas e prédios abandonados em busca dos vivos para comê-los. Esse enredo seria bem semelhante ao de outras narrativas do gênero, não fosse por um diferencial: a personagem principal é uma morta viva que reflete sobre sua condição anômala.

Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Para onde eu devo ir? Que fome é essa que nunca acaba? O que é o luto? São algumas das perguntas que a protagonista de Dura para sempre e depois acaba (Fósforo Editora, 2026) se faz enquanto vaga por um mundo em frangalhos na companhia de outros iguais a ela. Anne de Marcken inova na literatura de terror ao compor uma narrativa onde os zumbis não são apresentados como monstros incontroláveis, mas como ambivalentes: nem mortos e nem vivos, tão perdidos no meio da destruição quanto os sobreviventes daquele holocausto que colocou a ordem de cabeça para baixo. O livro me fez lembrar da série britânica In The Flash, onde os zumbis pensam, tem desejos, medos e até montam uma seita escatológica.

Foto: Divulgação

Com uma narrativa lenta, elegante e introspectiva, Marcken nos apresenta o absurdismo da existência. Viver para quê? Morrer por quê? O debate sobre a existência e a busca por uma pequena dose de paz conduzem a protagonista em direção ao mar. Com que objetivo? Ela não sabe. Apenas sente que deve encontrar esse grande espaço aberto e entregar-se a ele – uma metáfora do sentimento oceânico discutido por Freud em O Mal-estar na Cultura: o desejo de encontrar algo grandioso, superior, que a englobe e diante do qual possa dissolver-se no infinito.

Apesar do tom melancólico, também temos boas cenas de violência e de gore. Cito o momento em que a protagonista pega um casal de surpresa, mata e se alimenta da garota; quando seu braço cai de podre e ela passa a carregá-lo por aí; ao enfiar um corvo morto por entre as costelas vazias e tratá-lo como um interlocutor, feito o eu lírico do célebre poema de Edgar Allan Poe; e quando é capturada por um grupo de sobreviventes e decapitada.

Dura para sempre e depois acaba é a prova de que ainda é possível inovar dentro do gênero do horror e de que os zumbis constituem um subgênero fértil para debates filosóficos e existenciais, não apenas um veículo de crítica política e social à sociedade de consumo, como George Romero fez com tanta maestria.

 

Ricardo Kaate Lima é doutor em Ciências Sociais pela UNESP, vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus (2022) e autor de O Fim de Todas as Coisas (2021) e A Lança de Anhangá (2024).

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