MASSACRE DE PARAISÓPOLIS

“É descabido sentar diante de um juiz e ouvir policiais repetirem mentiras já desmascaradas”

Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique, revela bastidores das últimas audiências, desmonta laudo da PM sobre rotas de fuga do baile da DZ7 e expõe processo de exclusão que produz massacres diários no Brasil; Relembre o caso que pode se tornar uma resposta histórica à impunidade

Familiares durante protesto na Catedral da Sé em 1 de dezembro 2021, aos dois anos do Massacre de Paraisópolis. Créditos: Cássia Aranha/CAAF-Unifesp

Em 6 de maio aconteceria a oitava audiência de instrução do caso conhecido como Massacre do Baile da DZ7 ou Massacre de Paraisópolis, ocorrido na madrugada de 1º de dezembro de 2019 na comunidade da capital paulista. No entanto, Vinícius Lima, uma das últimas testemunhas de defesa dos PMs tornados réus, está de licença médica e sua oitiva precisou ser adiada para o próximo mês de agosto no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Serão mais alguns longos meses de espera enquanto a fase de instrução é encaminhada para mais perto de um desfecho. A principal expectativa é de que o julgamento seja levado para o Tribunal do Júri. Mas enquanto isso, a agonia das famílias segue sendo um dado desse duro cotidiano. Em 29 de abril faleceu Evanira Aparecida da Silva, mãe de Eduardo da Silva (morto aos 21 anos). Já é a segunda mãe que parte deste mundo sem ver a Justiça ser feita.

O massacre envolve uma série de fatores: negação do direito à cidade, à cultura, ao lazer, e as mortes de jovens oriundos das periferias de São Paulo, alguns deles muito jovens. Também envolve uma investigação defensiva[1] feita em parceria pelo Ministério Público, Defensoria Pública e o CAAF/Unifesp (Centro de Antropologia e Arqueologia Forense). A investigação defensiva entrou para os autos do inquérito da Polícia Civil, desmentindo a versão oficial dos PMs e permitindo com que fossem denunciados.

Na época dos acontecimentos, a Polícia Militar já vinha realizando operações saturação (quando diversas viaturas e agentes de outras localidades são redirecionados para determinada região) em Paraisópolis fazia cerca de um mês, supostamente motivada pelo assassinato de um agente nas redondezas. Nesse contexto, na madrugada de 1º de dezembro de 2019 foi feita uma “operação pancadão” na comunidade para dispersar um dos maiores bailes funk da cidade, que deixou nove jovens mortos por asfixia após serem encurralados em vielas enquanto tentavam ir embora e fugir das bombas e da violência policial.

Agora a Justiça avalia a denúncia oferecida pelo Ministério Público contra doze policiais militares envolvidos na operação e tornados réus por homicídio e lesão corporal com dolo eventual. Um 13º policial é acusado de explodir artefatos numa das saídas da viela em que os jovens estavam confinados, a fim de bloquear a mesma. Ele fez um acordo e teve seu processo suspenso por dois anos mediante cumprimento de medidas impostas em juízo.

Nas cinco primeiras audiências de instrução – iniciadas em 2023 no Fórum Criminal da Barra Funda – foram ouvidas as testemunhas de acusação, parentes de vítimas, pesquisadores e técnicos arrolados pelo MP e pelos advogados das famílias atingidas.

Na sexta audiência, ocorrida em 31 de janeiro deste ano, começaram a ser ouvidas as testemunhas de defesa dos agentes, além dos próprios réus. Do lado de fora, uma manifestação dos familiares se formou e foi observada por três viaturas, “sem maiores interações” conforme reportado na Ponte.

Dias depois, em 3 de fevereiro, a reportagem conversou com Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique Quirino Silva, morto aos 16 anos. Com a saúde debilitada após se fazer presente na audiência dias antes, ela deu maiores detalhes do que está sendo discutido em juízo.

“Quero contar tudo. Tenho acompanhado as últimas audiências e reafirmo que o que estamos passando é um processo de tortura. É descabido, é um momento em que você tem que estar frente à frente com aqueles policiais, ouvi-los falando mentiras já desmascaradas diante de um juiz e ver seus advogados defendendo suas mentiras. É tudo muito torturante para nós. Sabemos que eles estão mentindo”, declarou.

Em nossa primeira conversa, publicada em julho de 2023, às vésperas da primeira audiência, ela já afirmava isso. “Vamos provar ao júri que a polícia mente”, dizia sua frase que foi posta no título da reportagem. Naquela ocasião, Cristina contou que logo depois do acontecimento foi chamada para trabalhar junto com a força tarefa montada por Defensoria, MP e CAAF/Unifesp que faria a investigação defensiva. Também adiantava a principal reivindicação das famílias: que o caso vá a júri popular.

Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique Quirino, fala durante a manifestação dos familiares das vítimas do Massacre de Paraisópolis em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda. Março/2025. Créditos: Raphael Sanz

Primeira instância

O processo ainda tramita em primeira instância, apesar de transcorridos mais de cinco anos dos acontecimentos. Está na fase de instrução, que é logo após o Ministério Público oferecer a denúncia contra os acusados à Justiça. Aí são mostradas as provas, ouvidos os réus, as vítimas, as testemunhas e assim por diante. Ao final desse processo, a Justiça tem três opções: pode considerar que não houve crime e arquivar o caso; considerar que houve um crime culposo (sem intenção de matar) – como por exemplo um descumprimento de protocolo –, e remeter o caso para a Justiça Militar; ou considerar correta a denúncia por homicídio doloso e enviar o caso para o júri.

A professora Desirée Azevedo, coordenadora dos trabalhos do CAAF acerca do processo, acredita que a terceira opção é a mais provável.

“Seria temerário diante de tantas provas que ele enviasse o caso para o Tribunal Militar, onde se sabe que logo seria arquivado. A Corregedoria já disse que teria sido uma ação de legítima defesa. Nem todo mundo se arrisca a dizer, mas tenho convicção de que vai a júri. O juiz me parece uma pessoa ponderada. E uma vez no júri, o desfecho é imprevisível. Não há como antecipar nada. O que sabemos é que as estatísticas não são favoráveis à condenação de PMs. Mas esse é um caso diferente, o que faz aumentarem as chances. São muitas as provas”, declarou à reportagem.

Cristina também avalia que as chances de ir ao júri são maiores. “Nós temos a verdade e eles têm a mentira, que está escancarada. Basta olhar as testemunhas deles. São todos da hierarquia da PM. É coronel, é tenente, é comandante… não conseguiram uma testemunha comum”, afirmou.

Sexta audiência: “Mentiram sobre as rotas de fuga”

Cristina explicou que o foco principal da sexta audiência, em janeiro, foi o depoimento de um oficial do Batalhão de Choque perito em controle de distúrbios civis e indicado à época dos acontecimentos para fazer o laudo sobre as possíveis rotas de fuga do Baile da DZ7. O documento foi produzido a pedido da Corregedoria e juntado ao Inquérito Policial Militar (IPM) ainda nos primeiros meses após o massacre.

“Praticamente legitima a ação da polícia. Depois desse laudo a Corregedoria simplesmente concluiu que a polícia agiu em legítima defesa”, desabafou Cristina. E prosseguiu: “O mais interessante foi quando disseram que fizeram esse laudo a pedido da Corregedoria e que nele constam simplesmente os depoimentos dos policiais envolvidos, com base no registro de operação assinado pela Tenente Aline Ferreira Inácio, uma das responsáveis pela operação. Ele não usou imagens do dia e só afirmou essa prática porque foi interrogado diversas vezes pela promotora e pela acusação. Ou seja, estamos vendo que ele fez um laudo beneficiando a ação com base única e exclusiva no que os policiais tinham relatado para ele. E está tudo normal, sabe?”.

A mãe relata que por diversas vezes perguntaram ao oficial se ele tinha assistido as imagens de câmeras de segurança da região, os vídeos produzidos por celulares de testemunhas ou se foi ao local dos fatos antes de produzir o laudo.

“E olha que absurdo: ele disse que ‘não’ pois ‘só foi questionado’ pela Corregedoria sobre as rotas de fuga do baile. E o que falou de importante ali é que as rotas de fuga da DZ7 não eram as vielas, por onde os jovens foram obrigados a correr, mas as ruas Rudolf Lotze e Ernest Renan”, explica. O problema, segundo ela, foi ele reafirmar que essas rotas de fuga estariam livres em pleno 2025, cinco anos depois, uma vez que já está comprovado não ser verdade.

A professora Desirèe Azevedo concorda: “De fato, o laudo feito pela corregedoria é vergonhoso e conclui que havia rotas de fuga liberadas porque foi feito com base nos depoimentos policiais e fotografias do local feitas a posteriori”.

Geografia da comunidade e rotas de fuga

Perpendiculares uma em relação à outra, as ruas em questão estão entre as principais vias de entrada e saída do bairro. A Rua Ernest Renan nasce na parte sul da comunidade, próxima da divisa com a Avenida Hebe Camargo e a região do Panamby para, ao norte, ligar Paraisópolis ao Morumbi, onde passa a ser uma paralela da Avenida Giovanni Gronchi e muda de nome para Dr. Cristiano de Sousa próximo do Colégio Porto Seguro, dedicado aos filhos da elite paulistana.

Ruas de Paraisópolis citadas; o baile da DZ7 ocorria entre as duas esquinas apontadas pelas setas amarelas. Créditos: Googlemaps

A Rudolf Lotze, por outro lado, liga Paraisópolis às avenidas Giovanni Gronchi à oeste e Hebe Camargo à leste, cruzando toda a comunidade. O Baile da DZ7 era organizado próximo ao cruzamento entre essas duas ruas. Mais precisamente na própria rua Ernest Renan, entre as esquinas com a Rudolf Lotze e a Rua Herbert Spencer.

É digo de nota que no começo da Rudolf Lotze está localizado o famoso Condomínio Penthouse, cuja fotografia das varandas com piscinas do lado da favela de Paraisópolis – feita pelo premiado fotógrafo Tuca Vieira – “viraliza” a décadas na internet como um retrato da desigualdade social brasileira.

Localização do condomínio no Googlemaps em comparação à famosa foto de Tuca Vieira. Créditos: Reprodução/Googlemaps e Reprodução/Tuca Vieira

 

Feita a geografia, Cristina segue com o relato da sexta audiência. “Foi quando um defensor público perguntou: ‘o senhor não achou estranho, não despertou a sua curiosidade, não tentou entender o local onde ocorreram os fatos?’ Ele simplesmente disse que ‘não’, pois só tinha de estudar a rota de fuga. Mais tarde Dmitri Salles, advogado de uma das famílias, o indagou: ‘o senhor citou no seu laudo que as rotas de fuga estavam livres – a Ernest Renan e a Rudolf Lotze. Não soou estranho para o senhor que essas pessoas tenham corrido para as vielas em vez dessas ruas?’ Ele ficou sem resposta”, relata a entrevistada.

Na realidade, conta Cristina, a ação policial bloqueou essas duas ruas. E, com os devidos bloqueios policiais espantando quem tentasse passar por ali em busca de um local seguro, as pessoas foram induzidas a fugir das bombas e balas de borrachas pelas vielas, únicos caminhos possíveis naquele momento.

“Eram duas esquinas e tinha polícia de esquina a esquina. Tinha polícia na Ernest Renan com a Herbert Spencer e com a Rudolf Lotze. A Força Tática estava de um lado e a Primeira Companhia estava do outro. As duas ruas apontadas no laudo como rotas de fuga livres estavam bloqueadas pela polícia e nós temos essas imagens, que estão juntadas no processo”, denuncia a mãe.

 

O cerco ao baile da DZ7. Créditos: Reprodução/CAAF-Unifesp

“Por isso eles são réus”

Ainda sobre a sexta audiência, Cristina contou que a doutora Luciana Jordão, promotora do caso, “jantou” o autor do laudo. Começou o enaltecendo, dizendo que era capacitado para fazer o laudo, elevando seu moral. Em dado momento perguntou se ele tinha avaliado os laudos do IML das vítimas. Resposta negativa, para ele não havia tal necessidade. Em seguida perguntou se na data da audiência ele sabia qual era a causa da morte dos nove jovens, ao que respondeu negativamente.

“Ou seja, mesmo diretamente envolvido, nunca teve nenhum interesse em saber o que aconteceu. Na minha opinião, essa fala desqualificou o laudo dele”, avaliou Cristina.

“Estávamos lá, diante de uma pessoa que é da hierarquia da polícia, que treina os policiais para fazer uso de armas não letais, mas que fez um laudo mentiroso simplesmente baseado nas mentiras que eles já contam desde o primeiro dia. Ele chegou ao ponto de questionar a promotora da seguinte maneira: ‘a senhora está insinuando que os policiais mataram as pessoas?’ A promotora simplesmente respondeu: ‘por isso eles são réus’”.

No entanto, os embates não pararam por aí. Cristina ainda lembrou do momento em que a tenente Aline, ré do caso e umas lideranças policiais da operação, perdeu a compostura em pleno tribunal.

“Teve o momento que a tenente Aline fez um escândalo, se exaltou, começou a gritar dentro do plenário. E isso precisa ser falado. Imagine o contrário. Nós, familiares, quando estamos lá ouvindo não podemos olhar para o lado. Não podemos conversar com um familiar que está ao lado. Não podemos derramar uma lágrima que chamam a nossa atenção. Os funcionários do Fórum e os policiais chamam nossa atenção se conversarmos, rirmos, chorarmos, se fizermos qualquer coisa. Só que na hora que uma ré – ela é ré no processo, acusada de homicídio doloso – se manifesta e começa a gritar no plenário, só o juiz chama sua atenção. Os demais funcionários do Fórum não fizeram nada. Esse é o normal, entende?”, relatou a mãe.

 

Projeção realizada em 1 de dezembro de 2021 pelo Coletivo Projetemos. Créditos: Coletivo Projetemos via CAAF/Unifesp

A sétima audiência

A sétima audiência aconteceu em 18 de março no mesmo Fórum Criminal da Barra Funda. Novamente houve uma breve manifestação dos familiares na porta do Fórum, sem grandes embates com as autoridades. Prevista para começar às 10h00, a audiência atrasou e começou por volta das 11h30. Foi um atraso que soou estranho…

Rodrigo Cardoso da Silva, PM que seria ouvido como testemunha naquela manhã, supostamente não tinha sido informado sobre a data e o horário. Supostamente de última hora, ele teria conversado com o juiz ou os advogados e se prontificado, supostamente de boa vontade, a dar o depoimento de forma remota. Seu filho pequeno atrapalhou a audiência por diversas vezes sem que o pai lhe chamasse a atenção mais incisivamente ou o pedisse para deixar o ambiente. Para quem tem empatia com as famílias das vítimas, como este repórter, tudo pareceu um grande teatro com o objetivo de humanizar os militares envolvidos na matança.

Cardoso não é réu, mas poderia ser. Ele é um dos seis homens da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) que começou a confusão em Paraisópolis naquele primeiro de dezembro de 2019. Era o agente responsável pela comunicação com o Copom (Centro de Operações da Polícia Militar). Foi dele que saíram as narrativas que a PM e o então governador João Dória se apressaram em soltar para o público horas após o ocorrido em vergonhosa coletiva de imprensa.

A reportagem entrou no Plenário 06 poucos minutos após as 10h00 e a audiência estava longe de começar. Às 11h00 ainda tentavam armar a estrutura (TV e internet) para tomar o improvisado e remoto depoimento do policial. Os réus estavam sentados nos seus bancos, à direita do plenário. Às 10h40 saíram dali para ir a um ambiente que fica ao fundo do plenário. Meia hora depois voltaram e se sentaram novamente diante do juiz. Apenas 10 minutos após seu retorno começava a audiência com os advogados da defesa interrogando Cardoso.

A partir das perguntas dos advogados de defesa, Cardoso recontou a mesma história usada pelos policiais desde a fatídica coletiva de imprensa horas após a matança. Disse que estava com mais cinco homens da Rocam quando recebeu o chamado de que havia um Celta preto com suspeitos armados próximos à comunidade. Eles então se deslocaram ao local e nada encontraram. E foi aí que apareceu o principal personagem das estórias de segurança pública: o famoso “dois homens numa moto”.

Seria uma XT 360 preta que apareceu ali, de repente, de forma completamente aleatória em relação ao primeiro chamado, e pasmem: Cardoso diz ter visto o garupa sacar a arma e começar a disparar “diversos tiros” contra as seis motos policiais, que não foram atingidas e também não revidaram.

Nesse momento eles teriam perseguido a moto à distância, quando os suspeitos supostamente entraram no meio da multidão que se aglomerava na comunidade para o famoso Baile da DZ7. Os suspeitos teriam entrado atirando para o alto a fim de fazer com que a multidão lhes abrisse caminho, estressando os presentes. Em seguida, os “Rocams” teriam sido hostilizados pela multidão, que teria atirado paus, pedras e garrafas contra as viaturas. Cardoso alega que pediu reforço e saiu do local.

No rádio, mandou um “sem novidades” para o comando ao ser indagado sobre o suposto suspeito. Mesmo assim, quando a tenente Aline e o tenente Novaes chegaram com suas equipes, Cardoso decidiu ir dar apoio. Já era madrugada e então foi feita a operação de dispersão do baile. Cardoso alega que enquanto a equipe do tenente Novaes jogava bombas na multidão, ele e seus homens ficaram na retaguarda, protegendo-se e protegendo as viaturas que teriam sido alvos de pedras e paus.

Ao final, alegou Cardoso, não havia ambulâncias disponíveis para atender aos nove “feridos” e a tenente Aline solicitou permissão para levá-los ao Hospital do Campo Limpo, onde teriam chegado com vida. Após o translado, os policiais teriam retornado ao 16º Batalhão para registrar a ocorrência.

Cristina discorda: “Afirmaram que socorreram nossos filhos com vida e isso é mentira. Uma morte por asfixia demora de 3 a 15 minutos, no máximo, para ser concluída. E só em silêncio com o Copom eles ficaram 20 minutos. Os GPSs não estavam funcionando corretamente. Fizeram um monte de absurdo. Isso precisa ser dito para que quando chegue ao júri, e nós temos a expectativa de que vai chegar, as pessoas tenham a certeza de que em nenhum momento usamos de mentiras para lutar por Justiça. Não queremos vingança”.

Quando a promotora o questionou sobre os suspeitos na moto, Cardoso não soube dizer quantos tiros foram disparados, apenas dizia que tinham sido “muitos”. A promotora então perguntou se os tiros atingiram pessoas, imóveis ou quaisquer outros elementos da paisagem. Sem resposta. “Mas e os cartuchos?” Apenas um teria sido encontrado e nenhum policial foi atingido pelos “diversos tiros”.

A promotora então perguntou quem encontrou o cartucho. Cardoso respondeu que foi a Polícia Civil, mas engoliu seco quando questionado se a PM também estava presente. Disse que sim, apenas para “isolar o local”.

Na comunicação feita com o Copom, Cardoso disse que os motoqueiros “jogaram pra cima da Rocam” por volta das 3h da madrugada, o que no jargão dos milicos significa que “atiraram contra a equipe”. Isso teria começado na Avenida Hebe Camargo e evoluído para as ruas Rudolf Lotze e Herbert Spencer, já dentro da comunidade. A promotora então perguntou se Cardoso tinha visto vídeos e fotos daquela noite, ao que ele respondeu positivamente. Na sequência, ela pergunta se o PM viu a suposta moto ou o suposto carro em algumas das imagens. Cardoso balbuciou uma resposta improvisada de que as imagens não teriam boa qualidade, portanto não teria visto tais veículos posteriormente nos registros.

E não, os supostos veículos não aparecem nas imagens daquela noite, seja as de câmeras de segurança de estabelecimentos locais, seja as dos celulares dos presentes/testemunhas. E após cerca de 40 minutos, a audiência foi encerrada.

Caso expõe projeto de exclusão do Estado brasileiro

Para além dos detalhes das últimas audiências e da demora da Justiça, Cristina também desabafou sobre o quanto lhe parece que casos como o que vitimaram seu filho estão apenas na ponta de um processo mais amplo de exclusão das populações periféricas brasileiras e que irá, em última instância, produzir massacres quase diários como o que seu filho foi vítima.

“Acompanhei outros casos, de outras mães. Tenho acompanhado esses processos, especialmente os que vão para júri popular, para ver como são. E tenho visto sempre a mesma coisa quando o caso envolve policiais: criminalizam as pessoas, os lugares onde ocorrem os crimes e usam isso de argumento para suas defesas. No caso de Paraisópolis não tem sido diferente. Os advogados deles fazem questão de falar que o baile era financiado pelo crime organizado, costumam falar que lá só tem criminoso, traficante, droga, essas coisas. Eles falam tanto que o crime organizado financia o baile da DZ7, só que agora estamos vendo na mídia até mesmo agentes da Rota envolvidos com o tal crime organizado. Então antes de falarem que o baile é financiado pelo crime organizado, precisam se lembrar dessas investigações da imprensa”, aponta.

Ela se questiona sobre a possível existência de um protocolo velado para o período posterior à ação policial, que permite aos agentes “saírem pela tangente” após o cometimento de um crime.

“A sociedade está vendo a violência, a arbitrariedade e os abusos que as polícias vêm cometendo, e que o sistema os protege. Da mesma forma que existe um protocolo da operação padrão, que determina como eles têm que agir, com certeza deve existir também um protocolo para o pós-operação, a fim de garantir a proteção deles depois que cometem os crimes. E a sociedade está vendo isso. A gente viu o caso do garoto jogado da ponte, o do sobrinho do Eduardo Tadeu e agora a garota de 15 anos que foi morta, o menino Ryan, entre muitos outros casos. A impunidade começa no próprio boletim de ocorrência, feito por eles já pensando em como vão tocar a situação lá na frente”, reflete.

Cristina se revoltou na audiência com alguns argumentos da defesa dos policiais que desviaram do massacre para trazer essa criminalização da comunidade. Ela diz que o oficial da Corregedoria (sexta audiência) afirmava e reafirmava que Paraisópolis não tinha condições de receber um grande evento ao passo que dava o Estádio do Morumbi como uma espécie de exemplo padrão a ser seguido para a realização de eventos com multidões. Na prática, estaria propondo uma genuína proibição das festas periféricas, salvo quando uma grande produção as levasse para um estádio de futebol ou estrutura semelhante.

“Isso é importante porque vejo como descaso do Estado sob todos os aspectos. Quando me falaram que meu filho tinha sido morto, vieram os movimentos sociais, de direitos humanos e todos me diziam que a morte do meu filho era uma questão política. E eu tive que entender essa ‘questão política’. Hoje eu vejo, ou melhor, vi na audiência mais um ponto que é essa questão da comunidade supostamente não estar preparada para receber eventos”, explica Cristina.

Ela aponta a própria falta de urbanização como uma imagem palpável de todo um histórico de exclusão. “Beco, viela, não tem corrimão, não tem calçada, a rua é desnivelada. Então, pensando nisso, toda tragédia começa com esse tipo de descaso e vai evoluir até um evento de resultado morte como o Massacre de Paraisópolis. Mas é importante colocar que isso começou lá atrás. Desde quando a favela começou a ser construída, o Governo do Estado, a Prefeitura, os poderes públicos nunca se preocuparam em promover um projeto para a região que evitasse essa etiqueta de ‘lugar hostil’ que hoje vemos ser repetida. O Estado nunca preparou esse terreno para que as pessoas pudessem morar com dignidade. Então não estamos só falando de violência policial, mas da própria violência do Estado. Para chegarmos onde estamos hoje muitas outras políticas foram deixadas de lado”, conclui.

Relembre o caso

Na madrugada de 1º de dezembro de 2019, policiais militares se dirigiram ao bairro de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, para uma operação de dispersão de um dos maiores bailes funks da capital paulista, o Baile da DZ7. Famosa em toda a periferia, a festa reunia jovens dos quatro cantos da capital e de diversas cidades da Região Metropolitana. A ação policial deixou nove jovens e adolescentes, de 14 a 29 anos, mortos por asfixia. Todos tinham se deslocado de outras quebradas para curtir a festa.

O baile ocorre entre as principais ruas da comunidade graças aos diversos carros de som, vendedores ambulantes e bares locais que ali se encontram. Não só no caso da DZ7, mas em bailes funk com essa característica, em geral, a relação com a Polícia Militar nunca foi das melhores, tendo escalado até o ponto de as “Operações Pancadão” se tornarem verdadeiras plataformas de política pública em São Paulo, tornando-se, inclusive, pauta em campanhas para eleições municipais. Ao longo dos anos acumularam-se mortos e feridos por munição letal e não letal nesse tipo de operação.

Naquela madrugada diversas unidades da PM circundavam a comunidade para realizar uma Operação Pancadão. Após as 2h00 foi registrada uma primeira animosidade.

Às 3h41, seis agentes em motocicleta da Rocam comunicaram a central sobre uma ocorrência envolvendo ‘dois homens em uma moto’. Segundo a versão da polícia, eles teriam sido identificados como supostos criminosos, trocado tiros, jogado a moto sobre a equipe e fugido na direção do baile.

Os policiais alegaram que por causa dessa perseguição tentaram adentrar o ‘baile clandestino” mas foram atacados pelos frequentadores e responderam com bombas de gás, balas de borracha e pancadas com cassetetes. Depois da dispersão teriam recebido via rádio a informação de que nove pessoas estavam desacordadas em decorrência de pisoteamento e acionaram o socorro, que demorava a chegar. Assim, pediram autorização para fazer eles mesmos o socorro nas viaturas e levaram os corpos aos hospitais da região. Nenhum dos nove chegou com vida.

 

Familiares das vítimas do Massacre da DZ7 em Paraisópolis colocam cartazes na fachada do Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Março/2025 Créditos: Raphael Sanz

O CAAF da Unifesp participou da investigação defensiva do Massacre de Paraisópolis e produziu não apenas um relatório completo dos acontecimentos daquela noite (“O Massacre no baile da DZ7 Paraisópolis. Relatório 1: Chacina policial, institucionalização do caos e dinâmica dos fatos segundo as evidências”), como o transformou em uma série de vídeos publicados nas redes sociais em formato de documentário para resumir as conclusões em linguagem acessível ao público. Clique aqui e tenha acesso a todos os vídeos.

Os pesquisadores do CAAF então passaram a analisar as imagens de câmeras de segurança da região e dos celulares das testemunhas para desmontar cada um dos três pontos da narrativa policial.

“Dois homens em uma moto”

Sobre os “dois homens numa moto”, os policiais não souberam dar a placa do veículo em seus depoimentos. Apenas a marca e o modelo, bastante populares. Assim, várias unidades semelhantes puderam ser observadas circulando naquela noite. E “nenhuma delas com condutores portando armas ou atirando”, frisou o relatório.

Além disso, também constatou-se uma divergência entre o local que os policiais comunicaram no rádio sobre a ocorrência do tiroteio e o local que foi de fato registrado posteriormente num boletim de ocorrência. Tratava-se de ruas diferentes.

Por fim, às 3h43, no momento da ocorrência, os próprios policiais informaram a central que a moto supostamente perseguida teria fugido no sentido oposto do baile. “Perdemos pela Melchior Giola”, diz o agente, referindo-se a outra rua da comunidade. Às 3h45 o comboio é filmado saindo do local onde ocorria o baile, sem quaisquer registros de pessoas ou policiais baleados.

Participantes atacaram a polícia? Imagens dizem o contrário

Também a partir das imagens, a investigação defensiva mostra que não houve resistência por parte da multidão. Apenas quatro minutos depois da saída da Rocam, a mesma câmera mostra às 3h49 a chegada de uma viatura da Força Tática em alta velocidade. “O que se vê em seguida é a fuga imediata dos frequentadores e seus veículos seguidos dos clarões das armas de dispersão disparadas pelos policiais. Em apenas 43 segundos a rua estava vazia”, diz trecho do relatório.

“Não houve pisoteamento e nem socorro”

Minutos depois chegam pela contramão mais viaturas da Força Tática, as seis Rocams iniciais e outras unidades da PM, que prosseguiram com a operação armada mesmo após a dispersão do baile. Essa segunda etapa da ação policial durou cerca de 20 minutos e é aí que a comunicação com o Copom foi cortada e os GPSs já estavam desligados, conforme apontou Cristina Quirino em seu depoimento à reportagem. A professora Desirée Azevedo explicou à reportagem que os GPSs das viaturas estavam desligados quando a ação começou, com exceção dos dois comandantes da operação, que estavam ligados mas apresentavam falhas de sincronização dos relógios entre si e com o horário oficial. “Nós os sincronizamos com as demais evidências e as utilizamos no nosso relatório.”

Num vídeo gravado por uma testemunha, e presente no relatório, é possível ouvir um dos policiais berrando que “vai morrer todo mundo”.

A ameaça é flagrada no momento em que os policiais estão numa das entradas da Viela do Louro, o estreito beco por onde um grupo grande de frequentadores do baile tentou fugir quando viram que as principais ruas (rotas de fuga) estavam bloqueadas pela PM. Imagens obtidas pelo CAAF mostram exatamente essa cena. A viela é cinco vezes mais estreita do que a rua comum.

Nos autos há o depoimento de uma testemunha que esteve com uma das vítimas naquela viela. Essa pessoa relatou ter ficado comprimida no beco sob forte incidência de gases que pareciam gás de pimenta. Bruno Gabriel dos Santos, a vítima, foi visto pela testemunha prensado pela multidão e já com a cabeça aparentemente ‘solta’, como que sem forças ou desacordado. Oito das nove vítimas morreram ali mesmo por “asfixia mecânica, modalidade sufocação indireta por agente físico ou químico”, conforme apontado pelo laudo necroscópico. Apenas Mateus dos Santos Costa teve a causa da morte declarada em decorrência de “múltiplos traumas externos”, o que descartaria a tese dos policiais de que tenham sido todos mortos por pisoteamento e socorridos com vida pelos mesmos.

 

Trecho do depoimento dado à Polícia Civil. Créditos: Reprodução/CAAF-Unifesp

Durante as trocas de mensagens com o Copom para informar o estado das vítimas e pedir resgate, os policiais disseram que precisavam de apoio pois estariam cercados por um grupo de mil jovens. Imagens gravadas por testemunhas naquele momento, às 4h43 da manhã, desmentem a informação.

Os agentes também mostraram pressa para serem autorizados a fazer os supostos socorros das vítimas, levando-as ao hospital. Insistiam na urgência das equipes de resgate pois as vítimas estariam “pedindo por socorro”. No entanto, segundo os laudos de necrópsia, as nove vítimas já teriam falecido quase meia hora antes. Para a acusação isso significa que a retirada dos corpos não serviu para prestar socorro, mas para alterar a cena do crime e atrapalhar o trabalho da perícia.

As 9 vítimas fatais

Marcos Paulo Oliveira dos Santos tinha 16 anos e era morador do Jaraguá, na zona norte de São Paulo. Criado por Dona Alvina, sua avó, sonhava em se tornar jogador de futebol. Treinava, estudava e trabalhava. Na época que faleceu fazia um curso profissionalizante e estava preocupado com a saúde da avó.

Dennys Guilherme dos Santos, tinha 16 anos, morava na Vila Matilde, zona leste, torcia para o Corinthians e era um dos quatro filhos de Adriana Regina dos Santos. Desde os 15 trabalhava de dia, estudava de noite e gostava de curtir um baile aos finais de semana.

Mateus dos Santos Costa tinha 23 anos, era flamenguista e morador de Carapicuíba, na Grande São Paulo. Nascido em Maracás, no interior da Bahia, era filho de Dona Maria José e Seo Antônio, ao lado de outros dez irmãos. Na Bahia ele vendia picolés para ajudar com as contas de casa, ajudava o pai na roça e cuidava da mãe cadeirante. Mudou-se para São Paulo cinco anos antes do massacre em busca de melhores condições de vida e trabalhava como vendedor de produtos de limpeza.

Denys Henrique Quirino da Silva, filho de Cristina, tinha 16 anos e era morador da Brasilândia, na zona norte de São Paulo. Terceiro de quatro filhos, era um jovem apegado à família, especialmente à irmã Sabrina. Sonhava em ter 18 anos para comprar uma moto. Trabalhava numa empresa de limpeza de tapetes e sofás e adorava dançar funk.

As nove vítimas do Massacre da DZ7, em Paraisópolis. Reprodução/Caaf

Gustavo Xavier tinha 14 anos, morador do Jardim Guarujá, na zona sul. Filho mais velho de Raquel Cruz da Costa, era conhecido como Risadinha por ser bem humorado e brincalhão. Movido por desejos de independência começou a vida muito cedo e já trabalhava como empacotador num supermercado. Nas folgas, gostava de se divertir nos bailes.

Luara Victoria de Oliveira tinha 18 anos e morava em Interlagos, na zona sul. Perdeu seus pais muito cedo e com apenas 9 anos foi morar com a avó Elza. Para qualquer lugar fosse, levava consigo as fotos 3×4 dos pais. Trabalhava como recepcionista em consultório dentário, gostava de se divertir em rodas de samba e bailes funk.

Gabriel Rogério de Moraes tinha 20 anos e morava em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Filho único de Elisabete e Reinaldo Cabral de Moraes, teve uma criação evangélica e já na adolescência passou a contribuir com a renda da família. Ele trabalhava na mesma empresa do pai e em breve seria promovido. Devido ao estreito laço de confiança, os pais evangélicos permitiam que ele fosse aos bailes e conhecesse o “mundão”.

Bruno Gabriel dos Santos tinha 22 anos e era morador de Mogi das Cruzes. Corintiano, gostava de jogar futebol, vivia rodeado por amigos e gostava de frequentar bailes funk. Ele estudava e sonhava em fazer faculdade.

Eduardo Silva tinha 21 anos e era morador de Carapicuíba, assim como Mateus. Filho de Dona Evanira Aparecida da Silva e pai de um menino que também se chamava Mateus. Gostava de jogar futebol e sonhava em comprar uma moto.

Clique aqui e conheça o memorial das vítimas.

Os policiais tornados réus

  • Tenente Aline Ferreira Inácio – acusada de homicídio com dolo eventual
  • Subtenente Leandro Nonato – homicídio com dolo eventual
  • Sargento João Carlos Messias Miron – homicídio com dolo eventual
  • Cabo Paulo Roberto do Nascimento Severo – homicídio com dolo eventual
  • Cabo Luís Henrique dos Santos Quero – homicídio com dolo eventual
  • Cabo Gabriel Luís de Oliveira – homicídio com dolo eventual
  • Soldado Anderson da Silva Guilherme – homicídio com dolo eventual
  • Soldado Marcelo Viana de Andrade – homicídio com dolo eventual
  • Soldado Mateus Augusto Teixeira – homicídio com dolo eventual
  • Soldado Rodrigo Almeida Silva Lima – homicídio com dolo eventual
  • Soldado José Joaquim Sampaio – homicídio com dolo eventual
  • Soldado Marcos Vinicius Silva Costa – homicídio com dolo eventual
  • Soldado José Roberto Pereira Pardim – acusado de explosão de artefato / processo está suspenso mediante acordo e medidas judiciais

As seis audiências

  • Primeira: 25/07/2023 – Ouvidas testemunhas de acusação
  • Segunda: 18/12/2023 – Ouvidas testemunhas de acusação
  • Terceira: 17/05/2024 – Ouvidas testemunhas de acusação
  • Quarta: 26/07/2024 – Ouvidas testemunhas de acusação
  • Quinta: 02/08/2024 – Ouvidas duas testemunhas de acusação
  • Sexta: 31/01/2025 – Ouvidas testemunhas de defesa
  • Sétima: 18/03/2025 – Ouvidas testemunhas de defesa
  • Oitava: 06/05/2025 – Será ouvida mais uma testemunha de defesa

 

*Raphael Sanz é jornalista independente e cobre pautas socioambientais há vinte anos. Newsletter: https://substack.com/@raphaelsanz / Redes: https://linktr.ee/raphaelsanz.

[1] Investigação feita por outras instituições ou órgãos, em paralelo à da Polícia Civil, com o objetivo de “defender” a dignidade das vítimas e levada em consideração nos autos do inquérito.

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