Ecos de Junho: Insurgências e crise política no Brasil (2013-2018) - Le Monde Diplomatique

Ecos de Junho: Insurgências e crise política no Brasil (2013-2018)

por Andrey Cordeiro Ferreira
junho 20, 2018
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Do ponto de vista da sua dinâmica, organização e efeitos, as jornadas de junho de 2013 produziram uma crise das funções gerais de governo, que levou à adoção, pelo Estado, de medidas antagônicas ao modelo de desenvolvimento dependente. Elas questionaram também o papel da polícia e o militarismo, a democracia representativa, e a política econômica neoliberal e neodesenvolvimentista. Sob todos os aspectos, representaram uma negação modo de política hegemônica.

As Jornadas de Junho de 2013 (ora denominadas JJ13) podem ser consideradas como um marco da história política do Brasil contemporâneo. Acontecimento complexo, renegado em grande medida pelos partidos e organizações de esquerda hegemônicos, reprimida e depois pirateada pela direita conservadora e neoliberal, as JJ13 abriram o ciclo histórico de crise política da sociedade brasileira. Logo, a mesma não pode ser plenamente compreendida se não entendermos, sociologicamente, o que foram as JJ13 e, especialmente, as diferentes performances dos grupos de interesse, coalizões e classes sociais durante e depois das JJ13.  Ainda mais porque, ante qualquer movimento de resistência mais generalizado, como ocorreu com a greve dos caminhoneiros de 2018, o fantasma das JJ13 ressurge nos corredores e bastidores do poder[1]. Desse modo, as JJ13 estão no centro da crise política brasileira. Certamente não devemos entender tal processo a partir de um modelo simplista de causa-efeito[2], mas sim de uma complexa dialética ação-reação: as JJ13 provocaram diversas reações, que tentam se apropriar ou neutralizar os efeitos provocados por elas. Desse modo, o núcleo dinamizador da presente crise pode ser considerado como um produto das Jornadas de Junho, mesmo que a crise política como um todo não o seja.

Nosso argumento é que as JJ13 foram uma insurgência/insurreição que, em termos históricos e sociológicos, consiste em um levante, mais ou menos simultâneo, de classes/grupos subalternos numa determinada sociedade, que usando de diferentes formas de ação e resistência coletiva, especialmente a ação direta e a violência civil não letal (que inclui a destruição de propriedade e a autodefesa de massas), exercem um contra-poder que neutraliza as funções governamentais temporariamente. Logo, a importância das JJ13 não está apenas no número de manifestações e de manifestantes, mas no tipo de relação de (contra) poder e nos efeitos (sobre o sistema político e socioculturais) que as ações coletivas desencadearam[3]. As insurgências e insurreições não são apenas conjuntos de manifestações como outras. Elas provocam mudanças redistributivas no poder e na renda, reformas e eventualmente, revoluções, e são sempre fundados num contra-poder, que se opõe aos poderes hegemônicos[4]. As JJ13 tem um significado histórico único, diferente de grandes manifestações que a antecederam e que a sucederam.

No presente texto faremos um exame das teses equivocadas acerca das JJ13, analisando, na sequência,  porque as JJ13, na sua dinâmica, ações e efeitos, podem ser consideradas como uma insurgência, e o significado histórico da mesma. Em seguida, examinamos as origens socioculturais das JJ13, ponderando como a crise política brasileira, marcada pela reação neoconservadora e revitalização do lulismo, pode ser entendida como uma tentativa de institucionalizar/negar as JJ13 e/ou regular/neutralizar seus efeitos. Por fim, discutiremos como as novas insurgências, com características similares às expressas nas JJ13, se apresentam como via histórica alternativa para a sociedade brasileira, apesar de seus paradoxos.

Valter Campanato/ABr

As teses equivocadas sobre as Jornadas de Junho: ovo da serpente, sociedade civil conservadora

As JJ13 foram desde o primeiro momento um acontecimento “maldito”. A primeira reação dos partidos políticos (PT, PSDB, PMDB) que controlavam os três principais estados onde se deram as Jornadas de Junho (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) e o Governo Federal foi de criminalização. A grande imprensa (Rede Globo, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo) lançaram um movimento de criminalização e desqualificação das manifestações[5]. Posteriormente, alguns intelectuais do PSDB tentaram ressignificar as JJ13 como um movimento cívico contra a “corrupção”, sem nenhuma relação com os movimentos sociais anteriores (como grandes sindicatos e movimento estudantil), nem posteriores (como os Black Bloc e as greves de massa), tentando construir a imagem de que o movimento “Fora Dilma” teria suas raízes nas JJ13[6]. Durante junho de 2013, grande parte dos intelectuais marxistas considerou as manifestações (em razão do seu caráter horizontal, crítico da democracia representativa; da crítica da burocratização de partidos e sindicatos; pela prática “ludita” de destruição da propriedade e autodefesa) como um movimento de desconstrução da consciência de classe e potencialmente de “direita”[7]. Essa narrativa seria depois consolidada na leitura de que as Jornadas de Junho foram o “Ovo da Serpente” do que denominaram de Golpe de 2016[8] (o impeachment que depôs Dilma Roussef). Desse modo, o liberalismo e o lulismo-petismo convergem, por razões aparentemente antagônicas, na criação de um mito: de que as JJ13 foram o momento de “surgimento” de uma sociedade civil conservadora. Apesar da tentativa de apropriação de alguns símbolos e discursos, na realidade a tendência neoconservadora e lulista-petista trabalharam para enterrar, historicamente, cognitivamente e politicamente, as experiências e os significados das JJ13. Nessa tentativa, essas teses apagam acontecimentos, invisibilizam processos e manipulam informações e fatos históricos.

Por isso é preciso questionar essas teses, para alcançar uma compreensão mais fiel e adequada do que aconteceu em Junho de 2013.  Para compreender as Jornadas de Junho, devemos compreender – como exige qualquer sociologia dos movimentos sociais e das revoluções – 1º suas ações e performances; 2º suas formas de organização-mobilização; 3º seus objetivos-efeitos sobre o conjunto da sociedade; e 4º as condições socioeconômica e culturais estruturais que contribuíram para sua ocorrência.

Do “Pare o Aumento!” ao “Não Vai Ter Copa!”: política autônoma, anti-capitalista e não-hierárquica

As Jornadas de Junho são um dos muitos termos que surgiram para designar um ciclo de manifestações iniciado no dia 06 de Junho de 2013. Essas manifestações (especialmente megapasseatas) se estenderam em três subciclos, o dos dias 06-13 de Junho, depois dos dias 13-20 de Junho e dos dias 21-30 de Junho. No primeiro ciclo, dominaram o tema da redução do preço das tarifas de transportes urbanos e as ações de resistência pacífica. Foram pequenas passeatas que cresceram conforme a repressão policial. No segundo ciclo, os protestos se combinam com vários temas, predominando a insatisfação contra os gastos públicos com os megaeventos (como a Copa do Mundo da Fifa) e contra a violência policial. No terceiro ciclo, já depois do anúncio da redução das tarifas, dominou definitivamente o tema da crítica dos megaeventos e a crítica da violência policial, que se generalizou sob a palavra de ordem “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”, que seria acirrada pelo caso do Amarildo, no Rio de Janeiro[9].

As manifestações de Junho de 2013 começaram como um ato nacional, convocado para o dia 06 de Junho, especialmente por organizações estudantis de diferentes tipos. A princípio, quatro cidades participaram das manifestações: São Paulo, Rio de Janeiro, Natal e Porto Alegre. Enquanto em São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL) foi o organizador dos protestos, no Rio de Janeiro foi o Fórum de Luta contra o aumento das Passagens (conhecido como Fórum de Lutas do IFCS, por se reunir no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e, em Porto Alegre, o Bloco de Lutas pelo Transporte. Ao longo das JJ13 grupos como Anonymous, Mídia Ninja, Coletivos de Mídia-ativistas e grupos anarquistas ganharam destaque e importância.

Desse modo, o primeiro e o segundo subciclos das manifestações integraram o que foi chamado nas redes sociais de operação “Pare o Aumento”. O principal protagonista iniciador foi o movimento estudantil; os espaços organizativos foram fóruns e assembleias semi-temporárias e abertas que possibilitaram uma rápida massificação. Entre o segundo e o terceiro subciclos das JJ13 consolidou-se e massificou-se a palavra de ordem “Não Vai Ter Copa”, que sintetizava várias reivindicações: revisão dos gastos públicos com megaeventos e a reivindicação de expansão dos gastos públicos com saúde, educação e necessidades básicas da população. Outra palavra de ordem, que perpassou toda as JJ13, e que sintetiza a crise da democracia representativa, foi a palavra de ordem “sem partido”.

 

Em resumo, podemos dizer que as principais ações realizadas durante as JJ13 foram as manifestações/passeatas como forma de desobediência civil (porque essas não seriam autorizadas pelo Estado durante os megaeventos, por isso a intensa repressão). No primeiro subciclo, tais manifestações assumiram um caráter de resistência pacífica. No segundo e terceiro subciclos, a resistência pacífica se transformou em resistência ativa e ofensiva, com a autodefesa de massas e o uso da contra-violência, da destruição de propriedade (bancária, pública e empresarial-automotiva), e as ocupações (ocupas) dos centros de poder. Todos essas ações alcançaram o ápice na semana insurgente, de 17 a 20 de junho,  com a passagem dessa resistência defensiva a uma resistência ofensiva, com ações contra os centros de poder estatal e os principais símbolos e instituições capitalistas (com as Ocupações da Alerj, no Rio de Janeiro, e do Palácio do Planalto, no DF). Aqui, além da paralisação momentânea das funções gerais de governo, também caíram os mitos da passividade do brasileiro e vários “heróis e autoridades nacionais”, que até antes das JJ13 eram, foram transformados em nada[10].

Figura 1 – Mapa das Manifestações JJ13. Autor: Andrey Cordeiro Ferreira

O que confere às JJ13 o caráter de uma insurgência/levante é a combinação de um conjunto de componentes. Como podemos ver pelo mapa, as manifestações se distribuíram por mais de 500 cidades do Brasil. Essas manifestações se articularam e sucederam numa rede mais ou menos contínua de ações, construindo uma temporalidade dinâmica, que impedia que o Estado fosse capaz de tomar decisões rápidas, de modo que sua intensidade foi um componente fundamental para a neutralização das funções governamentais. Por fim, essas ações criaram um contra-poder que coagiu o Estado a mudar decisões estratégicas e tomar decisões que não tomaria. Nesse sentido, ela é completa e qualitativamente distinta das manifestações Anti-Dilma e Pró-Dilma que se sucederam, que pretendiam manter ou transformar o número nas ruas numa maioria eleitoral, mantendo-se o poder exercido pelo Estado através do sistema representativo tradicional.

As JJ13, em termos organizativos, não tiveram um centro dirigente ou homogêneo, mas os polos iniciadores foram organizações do movimento estudantil e os fóruns temporários indicados previamente. Nestas organizações, participavam partidos de esquerda (PT, PCdoB, PSOL, PSTU, grupos anarquistas e marxistas menores), sendo estas ampliadas pela adesão situacional de milhares de participantes com diferentes perfis. E aqui surge outro aspecto da crise da democracia representativa: as massas que adeririam a estes fóruns questionavam a forma centralizada de liderança dos sindicatos/movimentos sociais e sua política interna. Logo, a principal característica das JJ13, do ponto de vista dos movimentos sociais, foi uma crise direção/base, sendo que as bases questionaram o monopólio da representação e o poder decisório das organizações existentes e sua relação com o Estado. Assim, as JJ13 não foram um movimento puro, isento da presença da esquerda. Ao contrário, a esquerda estava presente, assim como quase todas as expressões partidárias e ideológicas.

Logo, os partidos, sindicatos e movimentos sociais tentaram a desmobilização e retomada do monopólio da representação da classe trabalhadora. Isso aconteceu a partir do próprio MPL, que vendo uma onda conservadora, convocou a suspensão das mobilizações[11]. Esse movimento ficou explícito na desqualificação da proposta de greve geral, que surgiu durante as JJ13, e na convocação da Manifestação do Dia 11 de Julho[12]. Essas organizações também passaram a dividir as grandes manifestações, convocando atos paralelos aos convocados pelos organismos temporários.

Assim, durante a JJ13 consolidou-se um dualismo organizacional, entre os partidos, sindicatos e movimentos hegemônicos, e formas de contra-organização, ou seja, organizações fluídas que tinham por função negar o monopólio da representação ou dar respostas práticas ao conflito nas ruas (grupos de advogados, médicos, grupos de autodefesa que depois se tornariam os Black Bloc, blocos de oposição dentro de assembleias e plenárias). Essa contra-organização, por enfatizar a negação das organizações existentes, teve sempre uma grande fluidez organizacional que foi sua força.

Os principais efeitos das JJ13 foram a produção de um contra-poder, que modificou componentes estratégicos do modelo de desenvolvimento dependente e aspectos centrais da política econômica, bem como incidiu sobre temas sensíveis do sistema político (para além da crise do poder de polícia-repressão e de representação). Do ponto de vista da política econômica, a primeira mudança foi uma redução coordenada do preço da tarifa dos transportes coletivos. Além disso, as JJ13 incidiram sobre uma questão estratégica, que ainda não foi devidamente considerada: o projeto de lei que garantia o uso dos royalties do petróleo para o financiamento público da educação e saúde. Essa medida atingiria diretamente a renda extrativista, produzindo um efeito redistributivo dos recursos públicos. Essa regulação da renda extrativista tocou diretamente nos interesses centrais da economia, ou seja, sobre o controle da renda oriunda da exploração das novas reservas de petróleo. Outros projetos de Lei, como o da Cura Gay, foram arquivados[13].

Desse modo, podemos dizer que com a paralisação das funções gerais de governo (crise de representação e crise de poder polícia-repressão) a Presidência e o Congresso Nacional mudaram suas performances, tentando cada um desses poderes trazer para si a missão de traduzir e representar/atender o que eles entendiam ser as reivindicações ou vozes das ruas. Foi exatamente esse contra-poder que obrigou o Estado a agir de uma forma que ele não agiria.

As JJ13, quando consideradas do ponto vista da sua dinâmica, organização e efeitos, produziram uma crise das funções gerais de governo, que levou à adoção, pelo Estado, de medidas antagônicas ao modelo de desenvolvimento dependente. Elas questionaram também o papel da polícia e o militarismo, a democracia representativa, e a política econômica neoliberal e neodesenvolvimentista. Sob todos os aspectos, as JJ13 representaram uma negação modo de política hegemônica. Como veremos a seguir, as ações e efeitos apontados tocaram no centro das contradições do capitalismo e do sistema político brasileiro.

 

As origens sociais das Jornadas de Junho: ascensão e queda do sonho do subimperialismo petista

As JJ13 se deram num contexto complexo. Em termos políticos, no ciclo chamado de “progressismo” latino-americano[14], quando partidos de “esquerda” estavam à frente dos governos nos principais países da América Latina, como no caso do Brasil, o governo do Partido dos Trabalhadores. A “narrativa progressista” tentava apresentar que os países da América Latina tinham finalmente encontrado uma rota de desenvolvimento autônomo, progressista, justamente porque promoveria o progresso econômico-social. Entretanto, tal narrativa escondia o fato de que tal modelo se deu com o aprofundamento da integração ao imperialismo internacional, por meio de um  modelo neoextrativista, e no caso do Brasil, pela retomada de um sonho nacionalista e subimperialista[15], no qual o país seria uma Grande Potência que projetaria suas próprias multinacionais (como as grandes construtoras e as empresas de energia e do agronegócio). Os principais componentes de tal estratégia eram o fortalecimento do Estado, por meio das empresas estatais, e o incremento da participação social, por meio da expansão dos próprios partidos políticos e órgãos de consulta governamental e diálogo com a sociedade civil.

Do ponto de vista econômico, esse ciclo do “progressismo” induziu uma nova forma de desenvolvimento dependente, ancorado na tríplice aliança entre Estado, capital nacional e capital estrangeiro, que impôs um processo de expropriação e intensificação da superexploração, no qual as remoções (para as obras dos megaeventos e as obras do Plano de Aceleração do Crescimento/PAC) e o aumento do preço dos transportes urbanos constituíram uma forma de garantir o ganho associado das grandes multinacionais e do capital nacional. Na política chamada de neodesenvolvimentista, o PT promoveu um grande apoio à indústria automobilística, que expandiu como nunca seu mercado (em 2006 eram 20 milhões de automóveis no Brasil, em 2014, 35 milhões, dos quais 23 milhões eram carros flex fuel) e intensificou o consumo de combustíveis no país (daí também o apoio ao agronegócio e à agroenergia, especialmente ao etanol, que saiu do patamar da produção de 13 milhões de litros em 2000 para 23 milhões de litros em 2010). Entre 1998 e 2008, nas principais capitais do Brasil, as tarifas de transporte apresentaram um aumento de cerca de 60% acima da inflação. Isso levou a uma redução do número de passageiros[16].

A política de reajuste permanente das tarifas de transporte público foi o meio escolhido para manter a aliança entre capital multinacional e capital nacional, que exploravam a sociedade de forma associada, transferindo para os trabalhadores assalariados mais pobres o custo econômico do modelo de desenvolvimento dependente. Logo, a reivindicação da redução dos preços das passagens afetou o cerne da política econômica do modelo de desenvolvimento: reduzir as passagens significou reduzir o ganho do capital nacional, como dos empresários Jacob Barata e cia., comprometendo uma das bases do modelo. Por outro lado, com o PAC e os megaeventos, as grandes construtoras tiveram seu tempo de bonança, com obras de infraestrutura e expansão imobiliária. O PAC e as obras para os megaeventos produziram um movimento de valorização das terras urbanas e rurais, intensificando as remoções e despejos na cidade e no campo, contra indígenas e a população das favelas. Assim, o direcionamento dos investimentos para serviços básicos comprometeria também a margem de lucro dessas empresas, que eram peças-chave do modelo neodesenvolvimentista.

Em termos culturais, as JJ13 se deram num momento único  de uma festa da cultura populare: a Copa do Mundo de Futebol. As Copas do Mundo de futebol fazem parte do que poderíamos chamar de cultura popular e mesmo da identidade nacional no contexto brasileiro. A isso alguns autores denominaram de ‘ideologia do futebol brasileiro’, visando expressar o uso político do futebol para garantir a coesão da sociedade em torno do Estado e das elites[17]. Isso se daria pelo fato do futebol ser o espaço democrático, de integração, onde todas as “raças” e grupos de renda poderiam conviver harmonicamente. Nos modelos dos estádios tradicionais, como o do antigo Maracanã, a organização espacial refletia tal ideologia: o setor da “geral” (ingressos para renda baixa), das arquibancadas e das cadeiras especiais (para alta renda) garantiam que todas as camadas sociais, pobres e ricos, tivessem seu lugar nos estádios e na festa do futebol. Com o neoliberalismo, aplicado ao longo dos anos 1990, a política do Estado mínimo se refletiu no futebol como uma política do estádio mínimo, com reformas que levaram a um progressivo processo de redução do número de lugares no estádio, com a exclusão da população de baixa renda e grupos populares.

A política adotada pelo neodesenvolvimentismo para os megaeventos agravou a tendência de exclusão e repressão das culturas populares do universo do futebol e excluiu a maioria da sociedade brasileira da festa da Copa do Mundo. Assim, a expropriação territorial, causada pelos megaeventos, também atingiu o terreno simbólico, isto é, o lugar do brasileiro no futebol e nos estádios. Esse processo de expropriação pode ser também identificado pelo inflacionamento dos preços dos ingressos, que progressivamente transformou o perfil dos grupos de renda com acesso aos estádios de futebol. O preço do ingresso mais barato saiu do patamar de 2% do salário mínimo em 1950 para 6% em 2010. Esse aumento percentual é indicador de que para manter o hábito de ir aos estádios, um trabalhador médio precisava sacrificar grande parte do seu salário; um indivíduo que fosse acompanhar o calendário de jogos semanais teria de desembolsar ¼ do seu salário com pagamento de ingressos, o mesmo valendo para unidades familiares de 4 pessoas querendo assistir a um único jogo de futebol. Os ingressos mais baratos da Copa do Mundo da FIFA, de 2014, custavam cerca de 7% do salário mínimo e os mais caros poderiam custar até dois salários mínimos[18]. Desse modo, o processo de expropriação desencadeado pelos megaeventos não atingiu apenas a dimensão material, mas o domínio do simbólico, especialmente o núcleo central da ideologia do futebol brasileiro como sistema cultural.  Assim, o modelo neodesenvolvimentista contribuiu para eliminar direitos consuetudinários.

Portanto, as reivindicações de redução do preço dos transportes, redirecionamento dos gastos públicos para saúde e educação e o “Não Vai Ter Copa”, negavam os principais componentes do modelo de desenvolvimento dependente neodesenvolvimentista e neoliberal: a) a política econômica de remuneração do capital nacional e multinacional, à custa dos mais pobres; b) a política subimperialista de capitalismo de Estado, que estava financiando grandes multinacionais brasileiras estatais e privadas (como a Petrobras e as grandes construtoras), e seu gasto público direcionado à acumulação de capital; c) a ideologia nacionalista conservadora  do futebol brasileiro, que achava que o futebol seria uma arma de coesão social em torno do Estado e das classes dominantes e sua respectiva política econômica. Falar “Não vai ter Copa” não era uma negação do futebol em si, mas uma negação do uso político da ideologia do futebol brasileiro, no momento em que as camadas populares estavam sendo expulsas de suas casas e dos estádios.

As origens econômicas e socioculturais das JJ13 estão nas relações de exploração e desigualdade produzidas por um modelo de desenvolvimento dependente, neodesenvolvimentista, adotado pelo lulismo-petismo. O significado dos seus efeitos só pode ser dimensionado quando levamos tais relações em consideração. Desse modo, as ações, organização e objetivos-efeitos manifestos nas JJ13 fazem dela uma negação, em germe, do modelo neodesenvolvimentista, do lulismo-petismo e do ultraliberalismo. As JJ13 marcaram o início da queda do sonho do subimperialismo petista, uma vez que foi um dos fatores a desestabilizar a coalização partidária e social que a sustentava.

 

Crise política, revitalização do lulismo-petismo e reação neoliberal/neoconservadora (2015-2016): as tentativas de institucionalização-negação das

A crise política brasileira, entendida como o processo de cisão da coalização partidária que sustentou o modelo neodesenvolvimentista (coalizão entre PT/PCdoB e PMDB, especialmente) e que resultaria no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, não foi provocada diretamente pelas JJ13, mas sim pelas diferentes reações e estratégias adotadas pelos diferentes blocos partidários em face das Jornadas de Junho. Desse modo, compreender as JJ13 é um elemento decisivo da análise da crise política brasileira.

Como resposta às JJ13 surgiram duas tendências: 1ª a de revitalização do lulismo-petismo, iniciado pelo Governo Dilma Rousseff durante Junho-Julho de 2013 e depois continuado pela campanha “Não Vai Ter Golpe”, “Fora Temer” e, mais recentemente, “Lula Livre”; 2ª uma ofensiva, neoliberal e neoconservadora, que tentou piratear as JJ13, assumindo alguns de seus símbolos, mas impondo uma pauta ultraliberal, a partir da apropriação da luta contra a corrupção. Esse movimento foi realizado por organizações como “Vem para Rua” e “Movimento Brasil Livre” (MBL), mas também pela oposição parlamentar do PSDB (que existiu durante todo o período do lulismo) e que juntos seriam a espinha dorsal do movimento “Fora Dilma”.

As reações do lulismo-petismo às JJ13 foram contraditórias. As centrais sindicais e a militância do PT trabalharam para desarticular e combater as JJ13, cabendo aos governos estaduais e prefeituras do PT atuar na repressão. Entretanto, o núcleo dirigente no Governo Federal, especialmente a partir da Presidência da República, tentou realizar um movimento de apropriação/institucionalização das JJ13 e dos movimentos sociais insurgentes.  A principal resposta do Estado, do Poder Presidencial, foi anunciar o projeto de reforma política, em julho de 2013, como forma de “traduzir as demandas e vozes das ruas” para dentro do Estado. Desse modo, se tentou um movimento de tradução e institucionalização. Entretanto, a proposta de reforma política por meio de plebiscito popular provocou uma primeira crise entre os poderes, já que ministros do STF (poder judiciário) e o próprio Congresso Nacional se colocaram veementemente contrários, acusando a proposta de “Bolivariana”. Em Julho de 2014, como desdobramento desse processo, a Presidência da República publicou o decreto 8.243, que instituiu a Política Nacional de Participação Social (PNPS). Esse decreto, defendido pelo PT, PCdoB e PSOL, foi motivo de mais uma crise entre os poderes, e o poder legislativo acusou a presidência de tentativa de “golpe e aparelhamento do Estado pelos movimentos sociais”, taxando o decreto também de Bolivariano[19]. Rapidamente articulou-se a derrubada do decreto no Congresso Nacional, o que aconteceu em outubro de 2014, poucos dias depois da vitória de Dilma nas eleições presidenciais. Essa estratégia de apropriação/institucionalização das JJ13, por meio da proposta de reforma política e da PNPS provocou, assim, a primeira cisão decisiva entre PT/PCdoB e PMDB, e um conflito entre o poder executivo federal versus o poder legislativo e judiciário.

Imediatamente após esse processo e a partir da tentativa de revitalização/expansão do lulismo-petismo (pela institucionalização das JJ13) surgiram duas reações: a reação neoconservadora e a neoliberal. O que chamamos de reação neoconservadora é um amálgama de organizações liberais, conservadoras, militarista-fascistas que foram expressas principalmente, mas não exclusivamente, no MBL e no “Vem pra Rua”.  O “Movimento Brasil Livre” (MBL) foi fundado em 1º de novembro de 2014 e o “Vem pra Rua” em outubro de 2014. As principais pautas eram o liberalismo econômico e a defesa da democracia representativa republicana[20]. Essas duas organizações, apoiadoras ou integradas por parlamentares, foram importantes na articulação da campanha “Fora Dilma” e das manifestações de massa em 2015-2016, em favor do impeachment. O que estamos chamando de reação neoconservadora tentou explorar, como propaganda, os símbolos das Jornadas de Junho (usando seus nomes, como o Movimento Brasil Livre em alusão ao Movimento Passe Livre, e a palavra de ordem “Vem para Rua” e “Sem Partido”). Mas como podemos observar, esses movimentos se articularam no contexto das eleições de 2014, buscando como símbolo principal a camisa da seleção brasileira[21] (ou seja, uma revitalização da ideologia do futebol brasileiro como instrumento de coesão em torno das propostas das elites ricas) e a apologia do militarismo (seja na versão moderada da defesa da polícia, seja na versão extrema de intervenção militar[22]). Esse movimento produziu uma agenda ultraliberal,  privatista e militarista, que foi na contramão dos efeitos e reivindicações que caracterizaram as JJ13.

Paralelamente, a oposição neoliberal, liderada pelo PSDB no Congresso Nacional, conseguiu, no contexto da crise de poderes e da coalizão partidária de 2013-2014, atrair para sua órbita grande parte do PMDB, que sempre foi adepto de um neoliberalismo pragmático. Essa oposição parlamentar no Congresso Nacional dirigiu, em certa medida, o movimento neoconservador. A estratégia do impeachment, em razão de denúncias de corrupção, foi anunciada ainda em 2015, por Aécio Neves, que afirmou que Dilma não iria concluir seu mandato[23]. Tal estratégia não foi criada nas JJ13; na realidade, ela já havia sido ensaiada por ocasião do processo chamado de Mensalão, em 2006.

Assim, da articulação da oposição parlamentar neoliberal com o movimento neoconservador surgiu o movimento “Fora Dilma”, que transformaria a crise política (na coalizão partidária e entre os poderes executivo versus legislativo e judiciário) no impeachment e crise final do modelo neodesenvolvimentista.  Nesse contexto, outra reação do lulismo-petismo foi também a de se apropriar de alguns símbolos das JJ13, transformando o “Não Vai ter Copa” em “Não vai ter Golpe”, principal palavra de ordem do movimento Pró-Dilma. O lulismo-petismo, depois de reprimir e negar as JJ13, se apropriou da sua palavra de ordem e a ressignificou. Depois do impeachment, em 2016, a mesma tônica foi mantida nas campanhas “Fora Temer” e “Lula Livre”, tendo como principal apelo a defesa da democracia representativa liberal.

O lulismo-petismo reagiu às JJ13 com uma proposta de institucionalização dos movimentos sociais no Estado, ou seja, com mais Estado. A reação neoliberal e neoconservadora foi de aproveitar a ocasião para propor um radical programa de desinvestimento público[24], ou seja, menos Estado. O lulismo-petismo entendeu que a única resposta seria a institucionalização dos movimentos sociais, quando uma das principais características das JJ13 foi a recusa a tal institucionalização. A reação neoliberal e neoconservadora tentou reacender o nacionalismo e o militarismo, e traduzir as reivindicações críticas do papel do Estado em uma política neoliberal de desinvestimento público, quando as JJ13 fizeram o contrário. As JJ13 continuam escapando à compreensão dos dois campos.

Apesar da intensificação do conflito “direita versus esquerda”, ou entre o neoconservadorismo e o lulismo-petismo, esses dois setores convergiram em vários aspectos: a) promoveram uma revalorização da ideia de democracia representativa como fim em si; b) ajudaram a apagar a crítica mais complexa do modelo neodesenvolvimentista, e seus respetivos efeitos ambientais, sociais e culturais. Por outro lado,  por mais que tenham tentado negar ou se apropriar dos ecos de Junho, aprofundaram cada vez mais sua distância em relação aos mesmos, sendo incapazes de impedir o ressurgimento das críticas manifestas nas JJ13(à burocratização dos movimentos sociais e à democracia representativa),  ou de atender à política distributiva radical ali expressa. Longe de conseguir institucionalizar ou se apropriar dos legados e efeitos das JJ13, esses setores só aprofundaram sua distância, se colocando numa permanente rota de colisão com a tendência de insurgência desenvolvida desde então.

 

Greves de massas e insurgências: os paradoxos da fluidez organizacional

A outra tendência surgida a partir das JJ13 foi a das greves de massas radicalizadas e das insurgências. Aqui podemos destacar três processos importantes que expressaram tal tendência: a) o movimento “Não vai ter Copa”, combinado com as Greves de Massa, especialmente, a dos profissionais da educação e dos Garis do Rio de Janeiro (2013-2014). Nessa cidade, tal movimento se transformou no poderoso “Fora Cabral”, que levou o ex-governador a se afastar do cargo antes do fim do seu mandato; b) o grande movimento de ocupação das escolas secundaristas, em 2015-2016, iniciado em São Paulo e difundido para diversas regiões do Brasil; c) em 2017, os grandes atos nacionais contra a Reforma da Previdência (especialmente o 28-A e o 24-M)[25], que levaram o governo federal a convocar o exército para tentar conter os protestos violentos no DF; d) e, em 2018, a greve de massas dos caminhoneiros, que interrompeu a circulação de mercadorias, gerou uma crise de abastecimento e levou o governo, pelo menos momentaneamente, a rever aspectos da política econômica, como a política de preços dos combustíveis.

Figura 1: Greve dos Garis 2014. Foto: Andrey C Ferreira

O movimento “Não Vai Ter Copa” generalizou uma das principais formas de resistência surgidas nas JJ13: a autodefesa, sob a forma dos grupos Black Bloc, com sua respectiva tática de contra-violência e destruição de propriedade. É importante observar que a prática da autodefesa implica uma profunda transformação ideológica e moral: exige uma negação da ideia do monopólio do uso legítimo da violência pelo Estado. Desse modo, o que se chamou de tática Black Bloc, na realidade, sinalizou para uma ruptura profunda e complexa da ideologia do Estado como instituição absoluta. O movimento “Não Vai Ter Copa” também colocou em xeque as soluções neoliberal-neoconservadora e lulista exigindo, simultaneamente, o desinvestimento público em obras dos megaeventos e os investimentos públicos em saúde e educação. As greves dos profissionais da educação e dos garis, por exemplo, colocaram em pauta o aumento dos investimentos públicos e dos salários. Além disso, tal movimento questionou o caráter da ideologia do futebol brasileiro, da “pátria de chuteiras”, que pretendia induzir a coesão social em torno do futebol e seu uso pelo neodesenvolvimentismo.

A autodefesa e a violência de massas voltou a ser um componente fundamental nos atos contra a Reforma da Previdência no 28-A e 24-M de 2017. Logo, os objetivos das greves combinaram a reivindicação de desinvestimento (como crítica do neodesenvolvimentismo do PT, que favorecia o capital nacional e multinacional), com a reivindicação do investimento público (se opondo ao neoliberalismo selvagem do PMDB-PSDB sob o Governo Michel Temer), expressos por meio de táticas de rua que negavam o monopólio da violência legitima pelo Estado.

Outro aspecto decisivo desses processos compostos pelas greves de massa (dos profissionais de educação e dos garis do Rio de Janeiro, em 2013-2014), greve nacional dos caminhoneiros, em 2018, bem como pela onda de ocupações secundaristas de 2015-2016 foi o ressurgimento do dualismo organizacional que caracterizou as JJ13. Esses processos realizaram uma profunda crítica da burocratização dos movimentos sociais e sindicatos, e sua cooptação pelo Estado. Nas greves, foi questionada a relação dos sindicatos e dirigentes de movimentos sindicais com o Estado, e de como sua institucionalização era percebida como cooptação. Surgiram oposições sindicais, assembleias e comissões independentes, o Comando das Escolas Ocupadas (em São Paulo), expressando que a crise de representação manifesta em JJ13 não havia se resolvido, senão que, ao contrário, se aprofundado. Durante a greve nacional dos caminhoneiros, as bases em greve desautorizaram os representantes sindicais e se mantiveram paralisados, mesmo depois do acordo firmado pelos sindicatos com o Governo Federal.  Em comum, todas essas formas de resistência têm com as JJ13 o seguinte: elas conseguiram mudar decisões estratégicas do Estado, como as decisões de desinvestimento (a exemplo do fechamento das escolas), barrando ainda o avanço da reforma da previdência ou reduzindo o preço dos combustíveis. Assim sendo, as greves e insurgências, como tendência, recriaram, em escala menor, o contra-poder criado e exercido pelas JJ13, transformando nacionalmente a correlação de forças sociais.

Outro aspecto central desses processos, que também estava presente nas JJ13, foi a fluidez organizacional. Ou seja, os participantes dessas ações e processos não criaram organizações permanentes e estruturadas. Ao contrário, mantiveram o padrão de uma contra-organização, que se constituiu apenas para negar o papel de organizações existentes ou realizar ações determinadas. Essa fluidez organizacional impediu que essas organizações fossem, enquanto tais, absorvidas ou cooptadas pelo Estado. Mas não impediu que seus membros fossem diluídos pela exploração capitalista ou mesmo cooptados pelo Estado em outros espaços. Por isso, a fluidez organizacional, como característica, é um ponto forte dessa tendência, mas também provoca limitações às suas ações e a seus feitos (visto que seus ganhos podem ser rapidamente revertidos quando as elites e o Estado se sentem seguros, sem uma ameaça direta). O paradoxo da fluidez organizacional é que ela permite as críticas e negações da política hegemônica; mas a mesma fluidez impede que uma nova política surja. Da superação desse dilema depende o surgimento de novas alterativas.

As JJ13, ao provocarem uma crise das funções gerais de governo (crise de representação e crise do poder de polícia-repressão), criaram também um legado organizativo e ideológico que se manifestou nessas greves e insurgências. Nem de longe a crise política brasileira se resume a uma luta palaciana, nem se esgota na luta entre neoconservadorismo/neoliberalismo e lulismo-petismo. As insurgências anti-hierárquicas de base, graças e apesar de sua fluidez organizacional, constituem uma tendência central da dinâmica política atual e será somente a partir delas que poderemos ver, mais cedo ou mais tarde, a emergência de um contra-poder permanente, capaz de realizar uma mudança social global na sociedade brasileira.

 

*Andrey Cordeiro Ferreira é sociólogo e Antropólogo, professor adjunto do CPDA (Programa de Pós-graduação em Ciências sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade) – UFRRJ. Coordenador do Núcleo de Estudos do Poder (NEP)



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