Educação popular e cultura - Le Monde Diplomatique

Formação para cidadania

Educação popular e cultura

Edição - 22 | França
por Franck Lepage
5 de maio de 2009
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Reunindo profissionais do teatro, rádio, cinema, fotografia ou livro, um grupo de professores franceses se propôs, em 1944, resgatar as experiências de educação crítica e política dos movimentos operários do século XIX, oferecendo um sistema de ensino democrático, que abordava a cultura em seu sentido mais amplo

A palavra “Cultura”, no singular e com letra maiúscula, suscita uma espécie de religiosidade baseada nesse novo sagrado, a arte. A redução da cultura à arte representa uma catástrofe intelectual para todo homem ou mulher progressista.

Se “cultura” quer dizer apenas “arte”, então a ação sindical, as lutas das minorias, o feminismo, a história, os ofícios, o campesinato, a explicação econômica etc. não fazem mais parte da cultura. Nesse caso, cultura e política passam a estabelecer entre si uma relação de exclusão. E, nesse ponto, a esquerda tem um problema, embora nem sempre tenha sido assim.

Houve um tempo – não tão distante – em que um pequeno grupo de militantes franceses tentava rimar cultura popular e política.

Christiane Faure foi uma educadora que atualmente repousa no cemitério de Lourmarin (Vaucluse), ao lado de sua irmã e de seu cunhado, Albert Camus.

Em 1944 o governo francês havia criado um serviço de educação de adultos – um “Gabinete de Educação Popular” – e ela se prontificou a trabalhar no projeto. Descontente com a educação nacional, Faure não queria mais ensinar crianças. A “laicidade”, no sentido de “neutralidade política”, imposta aos docentes não lhe convinha mais, porque impedia qualquer explicação franca, direta, ou seja, política, aos jovens.

Num ambiente de educação de adultos, seria possível dizer o que quisesse. Daí sua escolha pela educação popular: “modalidade nova, modalidade livre, onde poderia se desenvolver o espírito crítico”, declara ela.

Tratava-se de “elevar ao plano da educação aquilo que estava entregue à propaganda: a formação dos cidadãos”.

Os horrores da Segunda Guerra Mundial colocaram na ordem do dia a ideia simples de que a democracia não cai do céu, que deve ser aprendida e ensinada. Para ser duradoura, é preciso que seja uma escolha, então é necessário que as pessoas reflitam sobre ela.

A instrução escolar das crianças não bastava para isso. Os anos de 1930 na Alemanha e a colaboração da França durante a guerra demonstraram que era perfeitamente possível ser instruído e nazista ao mesmo tempo. O Ministério de Educação Nacional avaliou então que caberia à República agregar outro setor à educação pública: a formação política de jovens e adultos.

Mais de 150 anos antes, os convencionais de 1792 já alertavam: contentar-se com a instrução das crianças pode criar uma sociedade na qual as desigualdades se fundam sobre os saberes.

“Enquanto houver homens que não obedecem apenas à razão, que constroem suas opiniões a partir de ideias estrangeiras, as correntes terão sido arrebentadas em vão, e as opiniões de comando serão úteis verdades em vão”, afirmou Nicolas de Condorcet na Assembleia Nacional, em 20 de abril de 1792.

“O gênero humano continuará dividido em duas classes: a dos homens que usam a razão e a dos homens que creem, a dos senhores e a dos escravos”, dizia. Condorcet, o deputado da região francesa de Aisne a quem geralmente é atribuída a paternidade do termo “educação popular”, propunha a continuidade da instrução dos cidadãos “pela vida toda”.

Mas só isso não bastaria. Quando Condorcet, já naquele tempo, evocou essa “parcela da espécie humana” obrigada a realizar um “trabalho puramente mecânico nas manufaturas” e apontou a necessidade desses indivíduos de “elevarem-se”, de “conhecerem e exercerem seus direitos, de compreenderem e realizarem seus deveres”, tratava-se não mais apenas de instrução, mas de educação política.

Estas duas dimensões – a da escolaridade formal e a da educação política – nem sempre conciliáveis, fundam a ambiguidade do termo “educação popular”.

Para as classes médias que estavam na origem desses movimentos laicos, como a Liga do Ensino (1881), significava educar o povo como complemento da escola ou como paliativo de sua ausência.

Uma segunda acepção conduz a toda forma de educação autoemancipatória cuja forma seria popular, e reivindicaria a herança das experiências de educação crítica e política que atravessaram o movimento operário no final do século XIX.

Faure e seus colegas recrutaram profissionais da cultura popular oriundos do teatro (Hubert Gignoux, Henri Cordreaux, Charles Antonetti, Jean Rouvet), do rádio (Pierre Schaeffer), do cinema, da fotografia, do livro (Jean Nazet), das artes plásticas ou da dança, da etnologia etc. Sua missão: inventar as condições de uma educação crítica de jovens e adultos por meio da cultura popular, ou, ainda, “suscitar pela reflexão e pela prática uma atitude propícia à educação de adultos1”.

Em 1944, nascia no seio da educação nacional francesa uma Direção de Cultura Popular e Movimentos de Juventude, logo rebatizada de Direção de Educação Popular e Movimentos de Juventude. “Juventude” não significava ainda “adolescência” – esse sentido apareceria apenas na década de 1960; um “jovem” de 1945 era um adulto de 21 anos2.

A pequena administração de educação popular duraria menos de quatro anos. Após o início da Guerra Fria, a luta entre gaullistas e comunistas se agravou. A educação de adultos constituía uma estratégia importante, a ponto de nenhum dos dois protagonistas querer arriscar vê-la sob o controle do outro.

Em 1948, “por medidas de economia política”, esse núcleo foi fundido com a Direção de Educação Física e Atividades Esportivas, matriz de um ministério que seria confiado frequentemente a nomes do esporte, que geralmente ignoravam questões relativas à educação popular3. Em outros termos: em vez de um serviço público de educação democrática
, crítica ou política, os jovens adultos franceses fariam canoagem. Alguns colegas pediram demissão, Faure voltou para a Argélia para dirigir um serviço de educação popular não ligado aos esportes.

No entanto, o primeiro impulso havia sido dado. Desde os anos de 1950, os educadores populares recrutados por Faure sonhavam em deixar o esporte e criar um Ministério de Educação Popular. E quem nomear para a pasta? Da parte dos educadores, pensava-se em Albert Camus, diretor de uma casa de cultura em Argel, fundador do teatro do trabalho e adepto da criação coletiva em lugar da criação individual.

A história decidiu de outra forma. Depois de subir ao poder, o general De Gaulle quis recompensar a fidelidade de André Malraux, ministro da Informação na IV República e diretor de propaganda do partido.

Malraux pleiteou um grande Ministério da Juventude, e teve seu pedido recusado. Reivindicou então a Pesquisa, sem sucesso. Em seguida, solicitou a Televisão e ganhou um terceiro não. Finalmente ele aceitou um Ministério de Assuntos Culturais4.

Foram reunidos nesse mesmo órgão cinema, artes e letras, educação popular e seus instrutores nacionais. O chefe de gabinete de Malraux, Pierre Moinot, amigo de Faure, comunicou a ela a boa notícia e a convidou para participar da nova pasta.

Ao contrário do que se pensa, o autor de A condição humana não criou esse ministério, nem mesmo o solicitou. Sua administração foi constituída por funcionários repatriados do além-mar que, após a descolonização, foram incorporados aos assuntos culturais do governo5.

Projeção do artista

Eficazes, embora marcados ideologicamente pela experiência anterior, influenciaram a doutrina do ministério, que teria como vocação difundir dentro e fora das fronteiras a grandeza nacional: a potência da França para o âmbito internacional, o poder simbólico do Estado para as regiões, a apologia da elite e do espírito francês. Em outras palavras, uma pasta profundamente antipopular.

Os educadores populares, que pensavam ter conseguido seu ministério, perderam a partida. Inicialmente incorporada a Malraux, assim como à Direção de Belas Artes, a Subdireção de Educação Popular voltou definitivamente à pasta de Juventude e Esportes6.

Essa história é conhecida. Longe de romper com a visão elitista e reformular a questão cultural sobre bases progressistas (todos são produtores de cultura e esta nada mais é que uma relação social), a esquerda dos anos de 1980 projetou a figura do artista a alturas até então desconhecidas.

Após a virada liberal de 1983, a Cultura – com letra maiúscula, reduzida às belas artes – tornou-se o estandarte do Partido Socialista. A partir do momento em que o PS se resignou a continuar o “trabalho sujo da direita”, a ação cultural substituiu a ação política, como ilustra a comemoração do Bicentenário da Revolução em 14 de julho de 1989.

Produzido pelo publicitário Jean-Paul Goude, o desfile intitulado “as tribos planetárias” apresentava cada povo não por um símbolo de suas conquistas políticas, de sua emancipação ou da dominação a que foi submetido, mas sim por sua marca “cultural”, mais anedótica e estereotipada: africanos nus com tambores, ingleses sob a chuva etc. Fim da Revolução. Fim da Política. Fim da História. Viva a cultura.

Esse tipo de “cultura” substitui a política porque a função do “cultural” é precisamente a de assassinar a política7.

A política é a afirmação de um ponto de vista. O cultural é sua dissolução e generalização sob o império da marca.

A condenação da violência contra as mulheres é um gesto “político”: afirma que uma sociedade que decreta a igualdade entre homens e mulheres é uma sociedade melhor do que as que não o fazem. A tolerância com a violencia é, ao contrário, “cultural”: reivindica o reconhecimento de uma cultura que outra não pode julgar de fora.

Desde então existe na França uma cultura oficial, uma estética com firma reconhecida, a dos palcos nacionais de teatro, por exemplo, com encenações intercambiáveis.

Paradoxalmente, essa cultura visa manifestar em todos os lugares a liberdade de expressão, com a condição de que esta não tenha nenhuma relação social real e seja literalmente sem objeto.

Provocações adolescentes, estética lúdico-decadente, citações irônicas8… Tudo isso aborrece, mas é aplaudido. Ao mesmo tempo que despolitiza, a mistificação da “cultura” contribui para a domesticação das classes médias cultas ao reafirmar a fronteira que as separa das classes populares.

O visitante que, em meados dos anos de 1990, entrasse na tal Casa de Cultura do Norte, encontraria uma interminável fileira de garrafas cheias de água alinhadas na frente de uma parede e, sobre cada uma delas, uma fotografia que indicava a proveniência do líquido.

Diante da “obra”, três atitudes eram frequentes. Um entendedor de arte contemporânea com ferramentas culturais adequadas admirava o “dispositivo”. Um profano despossuído desses recursos dizia que poderia fazer o mesmo, se revoltava contra a “mistificação”, maldizia todos os artistas e experimentaria um sentimento de inferioridade social. E, entre os dois, estava o visitante impregnado de “boa vontade cultural”, que se convencia de que ali havia uma “intenção”, uma “tentativa”, qualquer coisa superior que convém apreciar – comportamento submisso que assinalava seu pertencimento às classes médias cultas.

Tal imposição não está isenta de consequências, sobretudo nestes momentos de crise econômica e, quando as classes médias se inclinam mais para o lado das classes populares do que para o das camadas dominantes, representa uma estratégica política importante. O adestramento “cultural” está a serviço da elite e é por esta razão que um programa real
mente de esquerda deveria se distanciar do conceito de Cultura para promover o de educação popular.

As federações rotuladas de “educação popular” estão longe disso9. Arregimentadas desde o início dos anos de 1980, constituem-se em inúmeras instituições de tratamento social de populações ditas “em dificuldade”. Quantas dentre elas administram, em troca de subsídios, programas de “mobilidade de jovens”, de “educação continuada” e outros aprendizados da flexibilidade e do espírito empresarial. Outras, engajadas numa “política de cidade”, trabalham pela “inclusão” das classes populares por meio do “desenvolvimento local”, “desenvolvimento cultural”, “animação sociocultural”.

Em 2002, a Attac (Associação pela Taxação de Transações Financeiras para Auxílio ao Cidadão), fundada quatro anos antes, foi condecorada como Associação Nacional de Juventude e Educação Popular. E, de repente, surge um contraste: se a Attac faz educação popular ao informar sobre economia, explicar sobre as desigualdades e propor meios de remediá-las, então o que fazem as outras?

Pode-se distinguir duas concepções de ações pela cultura: a “ação cultural”, que busca agrupar em torno de valores “universais”, consensuais (a arte, a cidadania, a diversidade, o respeito etc.); e a educação popular, que busca tornar visível ao maior número de pessoas as relações de dominação, os antagonismos sociais, os mecanismos de exploração10.

A crise econômica poderia dissipar as miragens da primeira e trazer a segunda à ordem do dia.

 

*Franck Lepage é ex-diretor de desenvolvimento cultural na Federação Francesa de Centros de Jovens e de Cultura; autor e intérprete da obra teatral L’education populaire, Monsieur, ils n’en ont pas voulu [Educação popular, senhor, eles não quiseram], Éditions Le Cerisier, Cusrnes, Bélgica. É também membro da cooperativa de educação popular Le Pavé (www.soplepave.org).



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