Elena Ferrante: desejo de intangibilidade - Le Monde Diplomatique Brasil

LITERATURA

Elena Ferrante: desejo de intangibilidade

por Fabiane Secches
13 de julho de 2020
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Perguntaram a Ferrante por que ela não gostaria de se tornar uma “pessoa pública”, ao que respondeu: “Por um desejo um pouco neurótico de intangibilidade”

O poeta italiano Attilio Betolucci tem um verso que diz: “Ausência, a mais aguda presença”. Como no paradoxo do verso de Bertolucci, a ausência de uma figura que acompanhe o nome Elena Ferrante tem sido percebida como uma das presenças mais afirmativas do cenário literário contemporâneo. Há quase três décadas, Ferrante tem assinado algumas das obras mais lidas e comentadas do nosso tempo. A mais importante delas é o romance A amiga genial, originalmente publicado em quatro volumes separados, que foram lançados na Itália entre 2011 e 2014. A obra, que ficou conhecida como “tetralogia napolitana”, acabou se tornando um fenômeno de recepção, que deu origem a um movimento cultural apelidado de “Febre Ferrante”.

Essa comoção, que ultrapassa os marcadores habituais do mercado editorial e não se limita ao número de exemplares vendidos, também tomou parte importante da crítica. Em 2013, James Wood, um dos crítico literários mais prestigiados da atualidade e professor de literatura na Universidade de Harvard, publicou um artigo elogioso na revista New Yorker que acabou selando o destino bem-sucedido de Ferrante no cenário internacional.

A escolha do pseudônimo e da abstinência da autora chamou a atenção da imprensa. Em 2016, o jornalista italiano Claudio Gatti promoveu uma investigação digna de enredo policial. Publicada na tradicional revista New York Review of Books e, simultaneamente, em jornais da Itália, França e Alemanha, a reportagem partiu de planilhas da Edizioni E/O, casa editorial responsável pela publicação dos livros de Ferrante, cedidas por uma fonte anônima, e de registros imobiliários públicos. Com esses documentos em mão, o jornalista traçou paralelos entre o sucesso comercial de Ferrante e os pagamentos efetuados pela editora à tradutora italiana Anita Raja. Assim, o nome de Raja passou a estampar os principais jornais do mundo, atribuindo a ela a “verdadeira identidade” de Elena Ferrante.

Filha de pai napolitano e de mãe alemã com ascendência polonesa — judia que imigrou para a Itália fugindo do Holocausto —, Raja nasceu em Nápoles, em 1953, mas mudou para Roma ainda na infância, cidade em que vive atualmente com o marido, o escritor Domenico Starnone, que também já foi apontado como o autor dos livros de Ferrante. Raja traduziu Kafka e Christa Wolf, entre outros autores. A obra de Wolf, particularmente, tem algumas relações significativas com a de Ferrante.

Embora a especulação a respeito da identidade misteriosa seja antiga (começou com a publicação do primeiro romance da autora, Um amor incômodo, em 1992, que foi adaptado para o cinema por Mario Martone em 1995), desde que a tetralogia foi traduzida para o inglês, ganhou proporções inéditas, especialmente quando se tornou parte da cultura popular.

Anita Raja não negou nem confirmou os rumores, e conseguiu o feito de se manter longe dos holofotes. Na ocasião, foi curioso observar um movimento de leitores, escritores e críticos que saíram publicamente em defesa de Ferrante e de seu argumento que alega a autossuficiência do leitor em relação ao texto literário, uma oposição ao excesso de presença midiática do autor, que pode ofuscar o protagonismo do livro.

Em carta datada de 1991, publicada em Frantumaglia, Ferrante teria escrito a seus editores, antes de publicar seu primeiro livro, que não gostaria de assiná-lo com seu nome verdadeiro, nem participar de nenhuma forma de promoção: “acredito que os livros, uma vez que tenham sido escritos, não têm qualquer necessidade de seus autores. Se eles têm algo a dizer, vão encontrar cedo ou tarde seus leitores”.

Para alguns, a escolha do pseudônimo foi mais uma estratégia editorial. Talvez, olhando retroativamente, essa hipótese soe provável. Mas é difícil imaginar que, àquela altura, a abstinência de uma autora estreante seria de fato algo que ajudaria na promoção do livro, o que, afinal, Ferrante acabou fazendo ao conceder entrevistas, ainda que apenas por escrito, intermediada por seus editores italianos.

A reportagem de Gatti suscitou discussões éticas e literárias interessantes: até onde o jornalismo investigativo poderia ir em casos onde não há interesse público do ponto de vista político ou criminal, mas mera curiosidade? E teria a New York Review of Books deixado de ser uma revista de cultura para se tornar um tablóide de fofocas? Ferrante acabou alçada ao posto de celebridade. Em parte, por conta da força de seus livros; em parte, porque o mistério se tornou um desafio posto para muitos, uma espécie de caça ao tesouro ou de um enigma que ameaça: decifra-me ou te devoro.

Ferrante defende que não escolheu o anonimato, pois seus livros estão assinados, mas o que chama de ausência, um espaço repleto de possibilidades que afetam a escrita de um modo que ela gostaria de continuar a explorar.

 

Desejo de intangibilidade

Em uma entrevista publicada no jornal italiano L’Unità, na ocasião da publicação de seu segundo romance, Dias de abandono (2002), perguntaram a Ferrante por que ela não gostaria de se tornar uma “pessoa pública”, ao que respondeu: “Por um desejo um pouco neurótico de intangibilidade”. Pois essa intangibilidade tem produzido efeitos importantes na recepção de sua obra: uma parte expressiva acredita que as personagens e o enredo de seus romances soam tão verdadeiros que só poderiam partir de um relato autobiográfico.

É possível, no entanto, que esse efeito de “verdade” esteja mais relacionado à habilidade de Ferrante em apagar o artifício da escrita literária. O crítico Maurício Santana Dias acredita que esse desejo de “observar de fora, quase objetivamente, de recortar e isolar coisas que estão inextricavelmente enoveladas — e nas quais a voz autoral sempre se enovela —, é uma espécie de baixo contínuo” que percorre toda a sua obra. No texto “Livro-cidade” (2017), publicado na revista Quatro Cinco Um, ele recorre aos versos do poema “O sim contra o sim”, de João Cabral de Melo Neto, para ilustrar seu argumento de que Ferrante “emprega quando escreve/ instrumento cortante:/ bisturi, simples canivete”, e “com ele envolve tanto a coisa/ que quase a enovela/ e quase, a enovelando/ se perde, enovelado nela”. Em sua escrita, portanto, Ferrante envolveria “a coisa” de tal modo que terminaria se “enovelando nela”.

A associação de Dias é duplamente feliz, porque a metáfora do novelo também remete a outra que é emblemática para a própria Ferrante: a da tecelagem. Em uma entrevista concedida em 2018, a autora escreve: “A metáfora do nascimento aplicada ao trabalho de escrita nunca pareceu convincente para mim. A metáfora da tecelagem soa mais eficaz. Escrever é uma das próteses que inventamos para dar poder a nosso corpo. Escrever é uma habilidade, um forçar de nossos limites naturais que requer longo treinamento para assimilar técnicas que nós usamos com perícia crescente e, se for preciso, inventamos novas. A tecelagem representa bem essa ideia. Nós trabalhamos por meses, por anos, tecendo um texto, o melhor que somos capazes naquele momento. E quando está pronto, está lá, para sempre o mesmo, enquanto nós mudamos e continuaremos a mudar, prontos para tentar criar outras tessituras”.

 

Multidão

Ler Elena Ferrante é um pouco como ler uma multidão. Da Antiguidade Clássica à literatura contemporânea, a autora vai arrastando consigo inúmeras referências literárias, que são revisitadas e atualizadas a partir de questões próprias de nosso tempo. De Homero a Simone de Beauvoir, de Virgílio a Elsa Morante, vamos encontrando em seus livros uma espécie de homenagem a grandes obras de todos os tempos. Parte da comoção provocada pela obra de Ferrante provavelmente vem dessa legião que a acompanha e da complexidade e atualidade com que vai tecendo essa costura, um pouco se dissolvendo naqueles que a antecederam, um pouco se presentificando naquilo que reescreve e escreve, à sua própria maneira. Nesse duplo movimento, vai enredando quem lê numa trama singular e sofistificada, à moda dos grandes.

 

Fabiane Secches é psicanalista, crítica literária e pesquisadora de literatura. Doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, é autora de Elena Ferrante: uma longa experiência de ausência (2020), publicado pela editora Claraboia. Este texto foi inspirado no segundo capítulo deste livro.



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