Em Ardèche: extinção da agricultura, declínio da indústria - Le Monde Diplomatique

FRANÇA

Em Ardèche: extinção da agricultura, declínio da indústria

por Pierre Souchon
20 de outubro de 2010
compartilhar
visualização

A história da transformação dessa região francesa que no pós-guerra se destacou na agricultura, viu nascer o produtivismo, passou pela mecanização, pelo surgimento das indústrias, a migração para as cidades, o crédito agrícola, o desemprego e hoje tem o turismo com principal atividadePierre Souchon

Quando Paul1 nasceu, em 1939, o seu avô materno, louco de alegria, deu a volta em sua aldeia, uma localidade da região montanhosa das Cévennes, no departamento de Ardéche, anunciando o feliz evento: ele teria um sucessor na fazenda. “O filho primogênito pertence à terra. Ele a recebe como herança”, escreveu Marx2.

O primeiro menino de uma família de três filhos, Paul estava culturalmente destinado a tomar as rédeas do negócio familiar, que funcionava com base no modelo misto da policultura com criação. “Eu conheci a tração humana”, recorda-se este agricultor hoje aposentado: usávamos saccols (sacos cheios de palha que amarravam sobre a cabeça), onde os camponeses de Ardèche transportavam pedras e esterco até os seus aterros em declive. A tração animal, o cavalo, aliviava os homens das tarefas mais difíceis. “Quando eu me recordo de tudo o que nós fazíamos, fico cansado só de pensar”.

Depois da Segunda Guerra, a fazenda de Paul, praticamente fora da economia monetária, autárquica como a maioria das explorações agrícolas vizinhas, forneceu sustento para três gerações. As atividades se dividiam entre a cultura dos vinhedos, das oliveiras e das castanheiras, a criação do bicho-da-seda e de cabras, vacas, aves, coelhos e porcos: “Nós nunca parávamos de trabalhar. Havia 80 famílias na aldeia, e todo mundo vivia dessa maneira. Nada havia mudado ao longo dos séculos. Estávamos mais próximos da Idade Média que da civilização!”

Em 1961, de volta da guerra da Argélia com um pouco de dinheiro no bolso, Paul pagou a licença de caça para o seu pai: “Ele não tinha condições para tanto…” As primeiras transformações dessa agricultura secular já estavam ocorrendo: o produtivismo tinha nascido3. Os pais de Paul logo abandonaram a sericicultura, que deixara de ser rentável “com o advento das sedas artificiais”. Nas plantações, as amoreiras foram arrancadas e substituídas por cerejeiras e pessegueiros: “Era o começo da arboricultura, com a implantação das cooperativas agrícolas. Isso nos proporcionou pela primeira vez uma bonança econômica”.

Ainda assim, para ter uma renda estável, Paul foi obrigado a diversificar suas atividades. Em 1968, ele começou a trabalhar numa seguradora local. E ocupou um posto de secretário de prefeitura, em meio-período, a partir de 1970. “Foi então que consegui comprar meu primeiro trator. A mecanização foi uma armadilha. Eu estava convencido de que ela me permitiria trabalhar mais rápido, ganhar tempo. Na verdade, eu tinha ingressado no ciclo infernal da industrialização. Era preciso produzir sempre mais, acelerar o movimento, comprar terras… Ao longo da minha vida de camponês, eu me dizia “evoluído”, acreditava ir adiante, enquanto de fato estava sendo ultrapassado pela evolução. Era preciso ser dotado de uma energia descomunal para ficar aqui”.

Emigrações

Uma predisposição que poucos dos seus conterrâneos em Ardèche compartilhavam: “Todos os meus amigos migravam para a cidade, tornavam-se policiais militares, mecânicos, pedreiros, ferroviários… Quando entendi que todo o pessoal da região estava caindo fora, foi muito difícil. Perguntei-me o que eu estava fazendo lá. Para não meter uma bala na cabeça, era preciso ser sólido”.

Os efeitos dessa emigração não raro eram difíceis de suportar: “Os jovens que retornavam nas férias chamavam a nossa atenção para o fato de que nós estávamos vivendo no desconforto, sem toaletes… Eles nos deixavam complexados e realmente impressionados. Pensávamos que a cidade era o paraíso do teatro e dos espetáculos. Quando todo mundo tinha as mesmas condições de vida, o nosso campo era agradável. Mas o turismo familiar nos fez compreender que levávamos existências de condenados”.

Esta “comparação generalizada dos modos de vida” acelerou o definhamento da agricultura de Ardèche: para que se dê continuidade a uma exploração agrícola, não basta produzir apenas um herdeiro biológico. É preciso que este herdeiro tenha uma real vontade de herdar – ou seja, que ele tenha vontade de seguir vivendo como os seus pais4. “Isso me conduziu a trabalhar ainda mais”, diz Paul, “para financiar a modernização da casa, as saídas… Nunca conseguimos escapar dessa espiral”.

Nos anos 1970, o agricultor trintão entrou em desacordo com o seu sindicato: as instâncias locais dos Jovens Agricultores tentavam dissuadir a crescente diversificação das atividades. “Disseram-me que eu tinha de lutar para ser um camponês, para viver do trabalho da terra. Mas eu tinha compreendido que para conseguir dar a volta por cima, era preciso me reorientar e apostar no turismo.” Foi então que Paul reformou granjas e construiu abrigos rurais. “Aquelas foram as primeiras tentativas de camping na fazenda. Depois, a prática conheceu um boom sem precedente”.

Em 1955, Ardèche contava com cerca de 30 mil explorações agrícolas. Hoje, sobraram menos de cinco mil, segundo dados do ministério da agricultura. Na comuna de Paul, das 80 fazendas que existiam na época da Liberação, apenas três ainda subsistem… Um definhamento do qual Paul identificou o responsável: “Foi o Tratado de Roma que nos matou”. Assinado em 1957, o texto que instituiu a Comunidade Econômica Europeia (CEE) estipulava que as barreiras alfandegárias teriam de ser derrubadas progressivamente nos seis Estados membros5. Em 1962, o Mercado Comum Agrícola concluiu a tarefa: a livre circulação dos produtos agrícolas no interior da CEE foi associada à supressão dos direitos alfandegários, das taxas e de outros subsídios nacionais6. Este foi apenas o começo da instauração da concorrência entre os agricultores europeus.

Crédito agrícola

No plano nacional, em 1962, uma lei de orientação definiu como objetivo a redução do número de explorações agrícolas de cerca de 2,3 milhões para 1 milhão, dentro de um prazo tão curto quanto possível. Em quinze anos, mais de 600 mil agricultores retiraram-se, incentivados por dispositivos tais como a indenização vitalícia de partida ou o prêmio de estímulo às separações. Os que permaneceram foram triturados pela espiral das compras de material a prazo, que permitiam melhorar os rendimentos: o endividamento rural quadruplicou entre 1960 e 1973 e o Crédit Agricole tornou-se o maior banco francês. Por meio de uma forma indireta de apoio regular ao “banco verde”, o Estado transformou este último no braço armado da sua política: em 1968, ele fixou em 23 hectares o tamanho mínimo da superfície de uma exploração agrícola. Ao condenar todas as propriedades menores, ele forçou os pequenos camponeses a desaparecerem: os empréstimos a juros reduzidos do Crédit Agricole lhes foram simplesmente proibidos7.

Inexoravelmente, os mais fracos foram eliminados.“À noite, na aldeia, quando eu tinha 20 anos, três gerações se encontravam na soleira das portas. Os anciões contavam a Guerra de 1914, as mulheres falavam no seu trabalho, a molecada aprontava todas… Em cada estrebaria, quatro ou cinco bois mugiam. De vez em quando, a micheline8 passava. Hoje, não sobrou mais nada disso”.

Em 1982 nasceu o primeiro de seus dois filhos. Um menino. “Eu havia plantado cerejeiras, e o levava para vê-las. Eu ainda alimentava uma pequena esperança. Pensava numa eventual continuidade.” Vinte cinco anos mais tarde, ele derrubou com uma serra elétrica sua centena de cerejeiras, “em plena produção”: a cotação das frutas era tão baixa que “perdia-se dinheiro só de colhê-las”. Paul explica ter cortado suas árvores porque “um pomar abandonado é algo nojento, que não demora a tornar-se um refúgio para os javalis”.

A grande caça. Praticamente inexistente na região havia cerca de 50 anos, ela começou a proliferar a partir dos anos 1970 – uma evolução vinculada e proporcional à derrocada agrícola. “Quando o matagal começou a ganhar terreno na região, eu conversei a respeito com o meu pai. Sem acreditar muito nisso, nós comentamos que um dia caçaríamos o javali nos arredores da aldeia. Hoje, já é uma realidade: caça-se o javali em todo lugar.”

No auge da sua evolução, a fazenda de Paul produzia anualmente sete toneladas de castanhas, nove toneladas de pêssegos, quatro toneladas de cerejas, uma centena de hectolitros de vinho, além de cerca de 600 quilos de azeitonas. Hoje, aos turistas que ele hospeda em seus abrigos rurais e que lhe perguntam onde suas terras se situam, Paul responde que não sobrou quase nada, exceto “mata de corte, pinheiros, carvalhos e giestas”. Os seus dois filhos deixaram Ardèche: “Eles me viram trabalhando. Como um animal de carga. E para nada. Foram construir sua vida em outro lugar”.

Isso porque o acesso ao mercado do trabalho foi se tornandomais e mais difícil. A agricultura, que fora um setor preponderante no pós-guerra, estava agonizando. O número de trabalhadores da indústria, essencialmente concentrada no Norte do departamento, foi diminuindo de modo continuado: – 13,60% entre 2001 e 2007. Essa regressão pode ser explicada, sobretudo, pela “falência”9 do setor têxtil: ao longo desses seis anos, este último perdeu cerca da metade dos seus empregos, ficando reduzido a não mais de dois mil assalariados em 2007. Além disso, apesar desses resultados pífios, o setor têxtil hoje continua sendo o terceiro maior setor industrial de Ardèche, atrás do automobilístico e do agroalimentar.

Jean Laurent, que foi admitido na usinaaos 15 anos, em 1962, recorda-se perfeitamente da época em que a atividade estava florescente: naquele tempo, Ardèche contava com 240 usinas de beneficiamento de fios e tecidos de seda, ou seja, mais da metade das empresas desse tipo existentes na França10. Filho de operário, ele mesmo um operário durante 41 anos, Laurent é um dos raros habitantes do vale de Burzet que efetuou toda a sua carreira na usina. “Quando eu comecei, o país vivia da agricultura e do têxtil. A tradição mandava que as mulheres trabalhassem na fábrica e que os seus maridos fossem camponeses: isso funcionava muito bem. Imagine: em 1970, eu era um operário que ganhava três francos por hora. E eu vendia o quilo de cerejas por três francos! Não demora uma hora para colher um quilo de cerejas.”

Com o primeiro choque petroleiro (1973), uma centena de pessoas trabalhava na sua usina: “A partir daquele momento, o número de assalariados começou a cair. E o complemento proporcionado pela agricultura periclitou: num espaço de tempo muito curto, as frutas deixaram de ser vendidas”. Progressivamente, o equilíbrio do vale como um todo ficou comprometido: “Osfilhos não podiam mais permanecer na terra, e as filhas que não tinham mais emprego partiam. Felizmente, na cidade, a administração pública recrutava em níveis muito baixos: as estatais de equipamento e sinalização do território, de eletricidade e de ferroviárias passaram a admitir muita gente oriunda de Ardèche. Todos os filhos dos meus colegas partiram em busca de trabalho”. Em 2003, ele deixou sua usina, que ainda seguiu mantendo cerca de 30 assalariados até o seu fechamento, em 2007. Uma vez aposentado, ele dedicou grande parte do seu tempo à presidência benévola da Ajuda em Domicílio em Meio Rural (ADMR) local: com 11 assalariados e 35 pessoas ajudadas, “não há como não reconhecer que quem faz viver o país são os idosos”. Com os seus 20 assalariados, a casa de retiro de Burzet tornou-se o maior empregador da aldeia.

Em Saint-Pierre-de-Colombier, a poucos quilômetros de lá, Albert Soboul, 72 anos, recorda-se da época não tão remota em que “oito usinas estavam ativas na aldeia”: nelas, ele passou a maior parte da sua vidade operário. Filho de camponês, ele seguiu estudos agrícolas, planejando dar continuidade à fazenda dos pais: “Fiz o serviço militar durante 18 meses na França, e mais dez meses de guerra na Argélia. Durante a minha mobilização, minha tia-avó me cedera sua fazenda. Mas, quando eu retornei, logo me dei conta de que aquilo não era mais viável: eu tive de abandonar a terra. Isso pode parecer inacreditável, quando se sabe que certas explorações agrícolas conseguiam produzir 40 toneladas de maçãs.”

Mas este não foi um problema insuperável: “Naquela época, era fácil ser contratado para trabalhar na usina. Todas as empresas estavam recrutando operários.”. Ainda assim, ele manteve uma pequena atividade agrícola: “A remuneração da usina não era mirabolante”, recorda-se Raymonde Soboul.Até hoje, os Soboul cultivam seus legumes, produzem seu próprio vinho, matam porco e se aquecem com lenha colhida em suas terras: um costume que eles adotaram logo nos primeiros meses do seu casamento, quando, apesar dos seus salários de operários, eles viviam “no dia a dia”. Há três anos, a última usina de Saint-Pierre-de-Colombier fechou.

 

Desemprego

Desde 1982, a taxa de desemprego em Ardèche tem sido sistematicamente mais elevada do que a média nacional: 9,7% no primeiro trimestre de 2009, contra 8,7% no conjunto da França11. Com a criação de 5.200 empregos, a compra de 16 milhões de diárias por ano e 420 milhões de euros anuais faturados, o turismo tornou-se “a principal atividade do departamento”, explica Jacques Mangeant, o diretor da Agência Departamental do Turismo. Uma atividade concentrada num período de poucos meses que oferece possibilidades de contratações apenas sazonais – e, na maioria dos casos, precárias.

Nicolas optou por retornar à região. Após alguns anos passados na cidade, trabalhando no setor dos seguros, este homem jovem de cerca de 30 anos sentia saudades das “montanhas, do rochedo quente, do pêssego sumarento colhido na árvore”. Após tornar-se um educador esportivo, ele trabalha alguns meses por ano num centro de lazer no sul do departamento, cumulando a vigilância da piscina, a gestão de restaurante, as tarefas de manutenção, os afazeres domésticos. No restante do tempo, ele está desempregado, o que lhe vale uma indenização de cerca de 900 euros mensais. Ele e a sua companheira Amélie, que, por sua vez, também trabalha de maneira sazonal no setor turístico, afirmam estar “subsistindo”: “De qualquer forma, para todos aqueles que optaram por ficar aqui, não há saída, a não ser viver de bicos. Ao mesmo tempo, esta é a opção por uma qualidade de vida. Ganhamos o salário mínimo, mas somos felizes”, diz Amélie.

O casal se instalou numa antiga chácara que pertence à sua família, e, portanto, não paga aluguel. Além disso, segundo Nicolas há o jardim: todo verão, ele cultiva feijão, alface, batata. Nas outras épocas do ano, ele tenta comprar seus legumes diretamente com produtores. Além disso, há também os “fins de feira” nos quais os produtos da agricultura são quase de liquidação. E por fim, há as castanhas que ele colhe no inverno, e vende para a cooperativa local. Embora ele tenha deixado a cidade há muito tempo, Nicolas ainda se diz espantado com as diferenças de custo de vida – muito mais vantajoso em Ardèche. Ele também explica estar “muito menos incentivado ao consumo.” A depreciação do setor agrícola tem lá suas vantagens: Nicolas não precisa fazer esforço algum para encontrar lenha para calefação nas florestas dos arredores. Ele também comemora o fato de alguns caçadores lhe oferecerem de vez em quando “um pedaço de javali”: com essas benesses, o consumo de carne não sai caro, tanto mais que ele “sempre consegue negociar com os pequenos camponeses da região a doação de meio-cordeiro”… “É o jeitinho”, resume ele.

Pierre Souchon é colaborador do Le Monde Diplomatique (França).



Artigos Relacionados

INVERTENDO O ALVO E MIRANDO NO SISTEMA DE JUSTIÇA

O que faz o caso Luana Barbosa tão assustador?

Online | Brasil
por Vários autores
RESENHAS

Miscelânea

Edição 185 | Mundo
O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS BONS SENTIMENTOS

Os usos da compaixão

Edição 185 | Mundo
por Évelyne Pieiller
COMO OS ESTADOS PARTILHAM AS ÁGUAS MARÍTIMAS

Direito do Mar balança, mas não avança

Edição 185 | Mundo
por Didier Ortolland
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

A reforma devora seus filhos

Edição 185 | França
por Simon Arambourou e Grégory Rzepski
CUSTO EXORBITANTE DA LIBERALIZAÇÃO

O choque elétrico europeu

Edição 185 | Europa
por David Garcia
NÚPCIAS DO NEOLIBERALISMO COM A EXTREMA DIREITA

Na Itália, a linguagem dupla de Giorgia Meloni

Edição 185 | Itália
por Hugues Le Paige
GUERRA NA UCRÂNIA EMBARALHA AS CARTAS DO ANTIGO BLOCO SOVIÉTICO

A ladainha húngara

Edição 185 | Hungria
por Corentin Léotard