Em Gaza, um povo enjaulado - Le Monde Diplomatique

O DIA A DIA DO BLOQUEIO

Em Gaza, um povo enjaulado

Edição 146 | Palestina
por Olivier Pironet
2 de setembro de 2019
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Enquanto os israelenses vão às urnas para eleger um novo Parlamento em 17 de setembro, a Faixa de Gaza não para de afundar. Há treze anos, Tel Aviv submete o território palestino dirigido pelo Hamas a um bloqueio militar devastador. Quanto tempo a população conseguirá suportar?

Nesta manhã de junho, o tempo está radiante na praia, onde se alinham barcos de pesca coloridos. O brilho do sol, o azul do céu e as ondas do mar dão à paisagem um ar de cartão-postal. Mas a cena encantadora não engana por muito tempo: aqui, o Mediterrâneo está poluído; o horizonte, fechado pelas fragatas de guerra; os céus, cobertos por aviões de combate e drones. Estamos na Faixa de Gaza, um território superpovoado (2 milhões de habitantes em 365 quilômetros quadrados) e sitiado por Israel.

Os pescadores que nos recebem em sua cabana em Beit Lahiya, nos arredores da cidade de Gaza, parecem infelizes. Israel, que há treze anos impõe um bloqueio implacável – aéreo, marítimo e terrestre – à sua faixa de terra palestina, nos últimos dois dias proibiu que eles saíssem para o mar, ao final de um progressivo processo de redução de sua área de navegação. O motivo alegado: o envio de balões e pipas incendiários para assentamentos israelenses – principalmente kibutzim – situados à margem da faixa costeira. No dia 18 de junho, após duas noites de hostilidades,1 seguidas de um retorno à “tranquilidade”, Israel voltou a autorizar a pesca, mas apenas dentro de um raio de 10 milhas náuticas (18,5 quilômetros) – longe das águas ricas em peixes. Uma medida de exceção cuja suspensão o Hamas, partido islâmico no poder desde 2006 em Gaza, pede repetidamente em negociações indiretas com Israel.

“Os navios-patrulha israelenses estão a apenas 3 ou 4 quilômetros de distância, é possível vê-los a olho nu”, afirma Jihad al-Sultan, líder do comitê sindical de pescadores do norte da Faixa de Gaza, apontando com o dedo ao longe. “Quando nossos pescadores estão no mar, eles atiram, geralmente sem avisar. Há pouco tempo, tivemos muitos feridos e barcos seriamente danificados.” No primeiro semestre de 2019, as forças navais israelenses abriram fogo mais de duzentas vezes contra os pescadores, feriram cerca de trinta deles e apreenderam uma dúzia de barcos, segundo uma ONG palestina e outra israelense – o Centro de Direitos Humanos Al-Mezan e a entidade B’Tselem. Dois marinheiros de Gaza foram mortos em 2018.

Em 2000, havia cerca de 10 mil trabalhadores marítimos na Faixa de Gaza. Sem acesso às águas piscosas – Israel os excluiu de 85% das áreas marítimas às quais teriam acesso de acordo com o direito internacional –, dois terços desses trabalhadores foram obrigados a desistir da atividade: hoje existem apenas 3.500 pescadores, 95% deles vivendo abaixo da linha da pobreza (menos de 5 euros por dia), contra 50% em 2008.

Vamos para Khuzaa, vila próxima a Khan Yunis, uma das principais cidades do sul do enclave. Aqui também a moral está baixa. Apesar da evidente penúria, Khaled Qadeh, um agricultor de 34 anos com olhos penetrantes protegidos por um chapéu de palha, nos convida para um lanche na pequena tenda de descanso que fica à beira do campo em que ele trabalha. Suas terras, que ocupam 1,1 hectare, estão a poucas centenas de metros da cerca com a “fronteira” israelense, que não é reconhecida pelo direito internacional. Uma sequência de 65 quilômetros de muros, trincheiras, barreiras metálicas, cercas e arame farpado circunda a Faixa de Gaza, ao lado de uma zona-tampão que varia entre 300 metros e 1,5 quilômetro de profundidade. Essa área de exclusão militar come 25% do território e invade 35% das terras cultiváveis, bem longe da linha de armistício de 1949 (“linha verde”) que separa oficialmente Israel e Gaza. “Minha família também tem 2 hectares de terra do outro lado da linha verde, mas nós os perdemos em 1948 [ano da criação do Estado de Israel]”, esclarece Qadeh.

 

Inabitável em 2020

No parco hectare plantado de que dispõe, o camponês só pode explorar plenamente um terço das parcelas. “O resto do meu campo, na borda da zona proibida, é difícil de acessar, pois na maior parte do tempo os israelenses me impedem de chegar lá, e eles estão sempre com o dedo no gatilho, isso sem falar dos estragos causados por seus tanques e tratores. Como todos os camponeses na área de fronteira, eu estou sempre exposto a tiros, inclusive aqui onde estamos. Os israelenses também não me deixam trabalhar à noite, para aproveitar a energia, quando há: se desconfiam de qualquer movimento, atiram ou bombardeiam”, conta Qadeh, agitado, enquanto um blindado israelense, patrulhando à distância, levanta uma nuvem de poeira. Desde o estabelecimento da zona-tampão após o desmantelamento dos assentamentos judaicos em Gaza, em 2005, e a instauração do embargo, no ano seguinte, seu rendimento caiu 80%. Como seu trabalho é a única fonte de renda da família, ele está cheio de dívidas. O pedaço de terra que pode cultivar permite apenas que ele alimente a família e ganhe cerca de 400 shekalim (R$ 465) por mês, vendendo seus produtos. O setor agrário, que emprega 44 mil pessoas (cerca de 10% dos empregos), recuou mais de 30% desde 2014.2

A situação dos pescadores e dos camponeses é a mesma em toda a faixa costeira: “catastrófica” e “insustentável”, nas palavras de Isabelle Durant, diretora adjunta da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).3 Em 2012, a ONU soou o alarme. A entidade estimava que esse território se tornaria “inabitável” até 2020 caso não fosse suspenso o bloqueio imposto por Israel, com a colaboração do Egito.4 Isolada do mundo há oito anos, Gaza já havia passado, na época, por duas guerras, lançadas por Israel em 2006 e em 2008-2009 (mais de 1,8 mil mortos no lado palestino, cerca de vinte no lado israelense). Em 2017, após duas outras guerras (em 2012 e em 2014, com um saldo acumulado de 2,5 mil habitantes de Gaza mortos, contra 72 israelenses), Robert Piper, então coordenador humanitário da ONU para os territórios palestinos ocupados, constatou: “A deterioração da situação foi mais acelerada do que se previa […]. Talvez Gaza já seja inabitável”.5

Setenta por cento da população tem status de refugiado desde 1948, e metade tem menos de 15 anos de idade. O desemprego atinge 53% da população ativa (70% entre os jovens e 85% entre as mulheres) – um recorde mundial –, a pobreza afeta mais de uma a cada duas pessoas e a economia local retrocedeu (queda de 6,9% em 2018).6 Além disso, as infraestruturas e as “capacidades produtivas foram destruídas”, destaca a Unctad.7 “Entre a destruição material e os custos de reconstrução, apenas a conta da última guerra [de 2014] chega a US$ 11 bilhões”, precisa Ali al-Hayek, presidente da Associação de Empresários Palestinos (PBA), que nos recebeu em sua sede, no centro da cidade. “Mais de mil fábricas, oficinas e comércios foram riscados do mapa. A guerra de Israel contra nós também é econômica.” Por causa do embargo, muitas empresas foram obrigadas a fechar as portas, baixar os salários ou demitir. “A Faixa de Gaza parece uma grande prisão onde um povo inteiro foi confinado sob ocupação militar, recebendo doses de calmante, como a ajuda humanitária, para evitar uma implosão”, resume Ghazi Hamad, vice-ministro do Desenvolvimento Social e figura proeminente do Hamas. “Desde a eleição do Hamas, em 2006, sofremos uma punição coletiva que não tem perspectiva de terminar”, declara, por sua vez, o analista de Gaza Fathi Sabah, colaborador do jornal pan-árabe Al-Hayat. “O embargo é, acima de tudo, um meio de pressão utilizado por Israel, com a cumplicidade da comunidade internacional, para nos colocar de joelhos.”

O cerco israelense afeta todos os aspectos da vida cotidiana. Ele instaurou uma nova “normalidade”. A precariedade energética, por exemplo: desde a destruição, por Israel, da única central elétrica, em junho de 2006, o acesso à eletricidade é aleatório. Parcialmente reconstruída, a usina, sem combustível, opera com apenas 20% de sua capacidade. Assim, o território tem a maior parte de seu abastecimento energético feito por Israel, que fornece eletricidade – cuja conta é enviada à Autoridade Palestina na Cisjordânia – em quantidades limitadas. Os cortes de energia dão o ritmo da vida dos moradores de Gaza. “Temos apenas oito a doze horas de eletricidade por dia, e em horários variáveis”, explica Ghada al-Kord, jornalista e tradutora de 34 anos. “A maioria das casas não tem geradores, caros demais, para amenizar os cortes. Isso significa, por exemplo, que não podemos guardar quase nada na geladeira. Precisamos nos organizar no dia a dia. Dois anos atrás, era pior ainda.” Entre abril de 2017 e janeiro de 2018, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, recusou-se a pagar a conta de energia, como forma de pressionar seus rivais do Hamas. Resultado: a população tinha apenas três a quatro horas de energia por dia. Os moradores de Gaza também enfrentam a escassez de água. Por causa da poluição do aquífero costeiro, que tem 85% de seus recursos controlados por Israel, mais de 95% dos lençóis freáticos concedidos ao enclave são insalubres.

O acesso a cuidados médicos também é duramente atingido pelo embargo. O hospital Al-Shifa, o maior do território, outrora famoso, hoje é motivo de preocupação. Os habitantes de Gaza, que cultivam a prática de rir de si mesmos, fazem piada com o assunto: “Ali entramos vivos e saímos com os pés juntos”. E a piada não é sem razão. Sem remédios, equipamentos e leitos para tratar os muitos enfermos, os hospitais se transformaram em morredouros. A proibição de importar produtos de primeira necessidade, a falta de pessoal, os cortes de energia e os estragos causados – intencionalmente – pela artilharia israelense destruíram o setor da saúde. “Falta tudo”, lamenta o porta-voz das autoridades sanitárias de Gaza, Ashraf al-Qadra, antes de iniciar uma longa lista: “Mais de 50% dos medicamentos básicos são inacessíveis, 65% dos pacientes com câncer são privados de tratamento, grande parte das intervenções cirúrgicas não pode ser realizada…”

 

Balas explosivas

No hospital de Al-Shifa, a situação é bastante instrutiva: muitas pessoas mutiladas – a maioria jovens –, paredes gastas, salas de espera superlotadas, equipe sobrecarregada. Mohamed Chahin, cirurgião ortopédico, cuida principalmente de manifestantes feridos por soldados israelenses durante os protestos semanais realizados em frente à barreira israelense na “fronteira”, em nome da “grande marcha de retorno” (Massirat al-Awda). Toda sexta-feira, dia de manifestação, os médicos recebem um influxo de feridos. “São muitos pacientes, às vezes bem jovens”, conta Chahin. “Eles sofrem lesões profundas, que não víamos por aqui. Os israelenses usam balas explosivas que destroem o tecido muscular, as articulações e os nervos. Quando os atiradores não atiram para matar – no peito ou na cabeça –, atacam as pernas ou as partes mais sensíveis do corpo, para causar danos irreversíveis. Chega a parecer que fizeram curso de anatomia. Muitos dos manifestantes feridos acabam carregando uma deficiência pela vida toda, ou precisam de amputação, porque faltam recursos para tratá-los.” Dos 30 mil feridos desde o início da “marcha do retorno”, quase 140, entre eles cerca de trinta crianças, perderam um membro inferior ou superior, e 1.700, de acordo com a ONU, correm risco de amputação nos próximos dois anos, por causa da proibição de Israel para evacuá-los.

Os jovens estão na primeira linha das manifestações da “grande marcha de retorno”. Esse movimento de protesto popular e desarmado, que reúne milhares de famílias a cada semana, começou em 30 de março de 2018, antes da comemoração anual do que os palestinos chamam de Nakba,8 em 15 de maio. Traduzido como “catástrofe”, o termo refere-se ao êxodo de 1948, quando 800 mil palestinos foram expulsos de suas casas pelos israelenses e se refugiaram em Gaza, na Cisjordânia ou nos países árabes vizinhos.

Numa tarde de sexta-feira, fomos a Malaka, no leste de Gaza, um dos cinco lugares onde ocorre a mobilização semanal. O clima é pacífico, familiar. Uma enorme tenda foi montada para acomodar, entre outros, os mais velhos e os deficientes. No alto-falante, uma voz lembra o significado da mobilização: o direito ao retorno, a denúncia da conferência do Bahrein sobre o aspecto econômico do novo “plano de paz” norte-americano, a unidade palestina. As bandeiras palestinas, muitas, estalam ao vento. Não nos aproximamos da área, muito perigosa, onde se posicionam jovens prontos a enfrentar os atiradores de elite israelenses.

A ideia de uma manifestação maciça em frente à barreira israelense nasceu no espírito de um grupo de jovens de Gaza. “Nós nos inspiramos em ações semelhantes realizadas por vários anos na Palestina e nos confins de Israel”, conta Ahmad Abu Artema, um dos fundadores. O militante pacifista de 35 anos e voz calma e monótona vem de uma família expulsa de Ramla em 1948. “A mobilização civil busca reafirmar o direito dos refugiados de regressar a suas terras, tal como estabelecem as resoluções da ONU, e proclamar alto e bom som nossa sede de dignidade.” Muito rapidamente, uniram-se ao movimento facções políticas com uma preocupação unitária, como que para evitar a discórdia entre os irmãos rivais do Hamas e Fatah, que agrava a situação na Palestina. Para a ocasião, todos guardam suas respectivas bandeiras e pedem que seja levantada apenas a bandeira palestina. “A questão dos refugiados é um consenso nacional. Por isso, é normal que todas as facções apoiem”, esclarece Artema. O Hamas, embora defensor da luta armada contra Israel, ligou-se fortemente ao movimento pacífico. O partido faz parte do comitê organizador da manifestação, ao lado de vários outros grupos, como a Jihad Islâmica (nacionalismo islâmico) e a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP, marxista). “A ‘grande marcha’ é uma das opções para além das armas de que dispomos para defender nossos direitos diante da ocupação”, afirma Hamad. “Ela dá visibilidade à nossa causa.”

 

Resistência pacífica

Criado para durar até 15 de maio de 2018, o movimento continuou ativo. Outras reivindicações surgiram, como a suspensão do bloqueio e a defesa de Jerusalém. Apesar do caráter não armado das manifestações, Israel optou por responder à bala. Desde o início da mobilização civil, mais de duzentos moradores de Gaza perderam a vida, inclusive meia centena de crianças, além de membros das equipes de resgate e jornalistas. A essa lista se soma a centena de palestinos mortos em um ano e meio no território durante bombardeios ou ataques israelenses. Em fevereiro de 2019, uma comissão de investigação das Nações Unidas concluiu que os atos de violência cometidos por Israel durante manifestações nas fronteiras de Gaza poderiam “constituir crimes de guerra ou crimes contra a humanidade”.9 Essas acusações foram desprezadas pelo primeiro-ministro israelense. Destacando o envio, pelos manifestantes, de pipas e balões incendiários sobre as terras israelenses adjacentes, Benjamin Netanyahu respondeu que Israel deve “proteger sua soberania e a de seus cidadãos, bem como exercer seu direito de autodefesa”.10 Ele conta com o apoio de sua opinião pública: em maio de 2018, quando se aproximavam de cem os mortos no lado palestino, uma pesquisa indicou que 71% dos israelenses consideravam justificados os tiros contra os manifestantes da marcha.11

Diante da escala das vítimas entre os manifestantes e dos danos materiais cometidos em Israel por objetos incendiários, também choveram críticas sobre os líderes palestinos. A “comunidade internacional” e a imprensa ocidental acusam as facções – principalmente o Hamas – de instrumentalizar os jovens e enviá-los em sacrifício aos atiradores de elite atrás da barreia. Khaled al-Batsh, chefe da Jihad Islâmica em Gaza e membro do Comitê Nacional da “Marcha do Retorno”, refuta as acusações. “Fomos exortados a usar o caminho da resistência pacífica, e fizemos isso por meio dessas mobilizações”, explica. “Agora, querem colocar em nossas costas o alto número de vítimas palestinas! Não se condenam os verdadeiros culpados. Quem está nos matando, quem está matando nossos filhos? Atiradores de elite experientes que sabem exatamente o que estão fazendo. Até agora, nenhuma morte israelense precisou ser lamentada durante as manifestações. Por que ninguém pune Israel?” Maher Misher, líder da FPLP e membro do comitê de organização da marcha, com quem conversamos na manifestação de 14 de junho de 2019,12 também desaprova os sermões ocidentais. Para ele, o movimento tem dois méritos: “Em primeiro lugar, é uma forma de pressionar Israel, pois os danos causados nas terras das localidades israelenses por simples pipas incendiárias fizeram alguns habitantes ir embora; em segundo lugar, ela deu destaque à questão do direito ao retorno no cenário internacional. É por isso que a marcha deve continuar”. “Apesar dos feridos – meu pai e meu irmão foram atingidos por tiros –, a mobilização deve prosseguir até recuperarmos nossos direitos e nossas terras”, diz Mohammed Shallah, um funcionário público de 33 anos que cruzou conosco a caminho da zona mais perigosa, adjacente à barreira.

No entanto, há vozes dissonantes, especialmente entre os jovens. Muitos não vão mais à marcha, que consideram excessivamente próxima do Hamas desde que a formação islâmica decidiu fazer parte de sua organização. “O Hamas assumiu o movimento para recuperar sua reputação e legitimidade, num momento em que está perdendo força”, afirma Loai A., militante de direitos humanos de 26 anos de idade. Nos últimos anos, a estrela do “partido da resistência islâmica” desbotou. Parte dos moradores de Gaza culpa a organização chefiada por Yahya Sinouar de não se preocupar com as necessidades sociais da população e mergulhar no autoritarismo e no rigorismo moral.

Prova disso é a repressão do movimento de contestação popular lançado em março. Com o lema “Bidna Na’ich” [Queremos viver], milhares de pessoas marcharam para protestar contra o aumento dos preços e a deterioração das condições de vida. Acusando o movimento de ser manipulado pelo Fatah, o Hamas respondeu na base do cassetete: centenas de manifestantes foram agredidos e presos.13 “Como querem nosso apoio à grande marcha se o Hamas não faz nada por nós e ainda nos reprime?”, pergunta Loai A. com amargura. “Eu digo ao Hamas: ‘Tudo bem eu perder minha perna, mas que pelo menos seja por alguma coisa, que pelo menos você cuide de nós, em troca’. Muitos jovens só pensam em viver no exterior. O problema”, acrescenta com um suspiro, “é que não conseguem sair…”

Seria o Fatah uma alternativa? Nada é mais improvável, já que a Autoridade Palestina de Mahmoud Abbas, chefe do Fatah, está desacreditada para muitos habitantes de Gaza, bem como para a grande maioria dos palestinos da Cisjordânia. A política de conciliação com Israel durante o “processo de paz” revelou-se um fracasso, a colonização ampliou-se e a colaboração de segurança entre a polícia da Autoridade Palestina e o Exército israelense na Cisjordânia é maciçamente rejeitada pela opinião pública.14 Isso sem falar da corrupção que assolou as instituições quando o Fatah estava no poder em Gaza, alimentando os ressentimentos em favor de um Hamas considerado mais íntegro. “A situação, com o Fatah, não era muito melhor”, diz Fathi Sabah. “E hoje, na Cisjordânia, as coisas vão mal: Mahmoud Abbas não faz nada contra os assentamentos, não luta contra a ocupação, não defende Jerusalém… Ele não faz nada além de discursos nas Nações Unidas.” Rejeitando em bloco o Fatah e o Hamas, um número cada vez maior de habitantes de Gaza pede mudanças políticas radicais, como seus compatriotas na Cisjordânia, e reclama uma renovação geracional.

 

Reconciliação entre Hamas e Fatah

Nesse contexto de crise generalizada, em que o bloqueio e o cerco restringem as perspectivas de futuro, muitos perderam a esperança. “Eu odeio Gaza, minha infância foi destruída por três guerras e eu quero sair daqui”, confessa Amira al-Achcar, uma estudante de 18 anos que mora no campo de Nusseirat com seus oito irmãos e irmãs e sua mãe, sozinha e sem emprego. “Todos os dias conheço pessoas extraordinárias, educadas, que desejam a paz com os israelenses, mas estão exaustas”, testemunha Matthias Schmale, diretor da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) em Gaza, que oferece escola a quase 280 mil crianças e presta assistência alimentar a mais de 1 milhão de pessoas no enclave. “É fácil entender que alguns caiam na violência quando se vê o tratamento que Israel inflige a um povo inteiro.”

Como não há avanços pelo lado de Israel nem apoio internacional, inclusive da maioria dos países árabes, a prioridade, para muitos, é a resolução do conflito entre o Fatah e o Hamas. Em 12 de outubro de 2017, os dois movimentos assinaram um acordo de reconciliação para permitir o retorno da Autoridade Palestina à Faixa de Gaza. Mas o processo patina, principalmente por causa das exigências de Abbas. O presidente da Autoridade Palestina pede, destacadamente, o desarmamento do Hamas, exigência categoricamente rejeitada pela formação islamista. Enquanto espera, “a população afunda cada vez mais na miséria, e Gaza é uma panela de pressão prestes a explodir”, avalia Ahmad Youssef, figura influente no Hamas, que defende uma solução acordada entre ambas as partes. Segundo ele, “é necessário reconstruir a casa palestina para lidar melhor com Israel. E isso só pode ser feito por meio de um sistema de cogestão do poder. Todos precisam fazer concessões”. Imad al-Agha, importante líder do Fatah em Khan Yunis, sustenta um discurso semelhante: “Precisamos acabar com essa discórdia, que favorece Israel, e unir nossas forças”. Para alguns, um sonho distante; para outros, uma urgência absoluta.

Poderia essa reconciliação ser feita com o apoio da juventude, a fim de desenvolver uma nova estratégia nacional? Hassan Ostaz, um militante do Fatah de 29 anos, está convencido disso: “Hoje, temos de reconhecer, apenas o Hamas resiste aos israelenses. Precisamos superar as divisões para pensar em formas de lutar juntos contra a ocupação. É o que estamos tentando fazer, por exemplo, organizando reuniões conjuntas com a juventude do Hamas”. Mohammed Haniyeh, de 28 anos, é representante da juventude do Hamas no comitê de organização da “grande marcha”. Ele nos recebe em um escritório compartilhado com… a juventude do Fatah. Também para ele, o momento é de ação coletiva: “Devemos, sem demora, formar um governo de unidade, organizar novas eleições e trabalhar para construir nosso Estado, da Cisjordânia a Gaza” – um Estado que nem sequer é mencionado no “acordo do século”, preparado pela diplomacia norte-americana e apoiado pelos países do Golfo. Esse enésimo projeto de paz abandona a ideia de uma Palestina independente e considera a Faixa de Gaza como uma entidade separada da Cisjordânia. “Uma piada funesta”, lança Youssef.

 

Olivier Pironet é jornalista do Le Monde Diplomatique.

 

1 Tzvi Joffre, “IAF attacks targets in Gaza Strip after rocket fire” [Força Aérea israelense ataca alvos na Faixa de Gaza após lançamento de foguetes], The Jerusalem Post, e “Israeli air force fires many missiles into Gaza” [Força Aérea israelense dispara muitos mísseis contra Gaza], International Middle East Media Center (IMEMC), 14 jun. 2019.

2 Cf. relatório anual do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), Nova York, maio 2018, e Ali Adam, “Israel is intensifying its war on Gaza’s farmers” [Israel intensifica guerra aos agricultores de Gaza], The New Arab, Londres, 19 mar. 2018.

3 Tom Miles, “UN bemoans unsustainable Palestinian economy” [Nações Unidas lamentam a insustentável economia palestina], Reuters, 12 set. 2018.

4 Ver relatório “Gaza in 2020: A liveable place?” [Gaza em 2020: um local habitável?], Nações Unidas, Nova York, ago. 2012.

5 “Gaza ten years later” [Gaza, dez anos depois], Nações Unidas, jul. 2017.

6 Todos os dados estão disponíveis nos sites do Banco Mundial, da Unctad e do Escritório Central de Estatísticas da Palestina (PCBS).

7 “Rapport sur l’assistance de la Cnuced au peuple palestinien” [Relatório sobre a assistência da Unctad ao povo palestino], Unctad, Genebra, 12 set. 2018.

8 Ler Akram Belkaïd, “Nakba”. In: “Palestine. Un peuple, une colonisation” [Palestina. Um povo, uma colonização], Manière de Voir, n.157, fev.-mar. 2018.

9 “Gaza: des enquêteurs de l’ONU suspectent Israël de crimes contre l’humanité lors des manifestations” [Gaza: investigadores da ONU suspeitam que Israel tenha cometido crimes contra a humanidade durante protestos], ONU Info, 28 fev. 2019. Disponível em: <https://news.un.org>.

10 Tovah Lazaroff, “Netanyahu: UN set new hypocrisy record with Israeli war crimes allegation” [Netanyahu: ONU estabelece novo recorde de hipocrisia com alegações de crimes de guerra israelenses], The Jerusalem Post, 28 fev. 2019.

11 Cf. “The Peace Index” [O Indicador da Paz], 2 maio 2018. Disponível em: <http://peaceindex.org/defaulteng.aspx>.

12 Nesse dia, mais de noventa palestinos, entre eles 28 crianças e quatro paramédicos, foram feridos na Faixa de Gaza.

13 Entsar Abu Jahal, “Human rights group documents Hamas abuses” [Grupo de direitos humanos documenta abusos do Hamas], Al-Monitor, 26 abr. 2019. Disponível em: <www.al-monitor.com>.

14 Sobre cooperação de segurança, ler “En Cisjordanie, le spectre de l’Intifada” [Na Cisjordânia, o fantasma da Intifada], Le Monde Diplomatique, out. 2014.



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