Em Liverpool, o futebol como definidor da identidade

“O ÊXITO DO CLUBE SE BASEIA NO SOCIALISMO”

Em Liverpool, o futebol como definidor da identidade

Edição 160 | Reino Unido
por Quentin Guillon
30 de outubro de 2020
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Para seus torcedores, o Liverpool Football Club é o emblema de uma cidade orgulhosa de sua singularidade, ao mesmo tempo popular, aberta para o mundo e desafiadora em relação ao resto do país. No controle do clube há dez anos, os proprietários norte-americanos cultivam cuidadosamente essa imagem, que seduz para além das fronteiras da cidade

É um momento de comunhão famoso em todo o mundo. Antes de cada partida do Liverpool Football Club (Liverpool) em casa, os torcedores, entre eles os da kop, parte da arquibancada onde se reúnem os mais fervorosos, entoam o hino “You’ll Never Walk Alone” [Vocês nunca caminharão sozinhos], símbolo de uma devoção total a um time que figura entre os gigantes do Reino Unido e da Europa. Numa época do dinheiro todo-poderoso e da globalização do futebol, o Liverpool, comprado pelo conglomerado norte-americano Fenway Sports Group (FSG), tem a firme intenção de encarnar a singularidade de uma cidade em relação ao resto da Inglaterra. Ele reivindica também uma combinação entre os objetivos financeiros e a paixão dos fãs, graças à adesão a princípios “socialistas”.

Campeão da Europa em 2019 e, pela primeira vez nos últimos trinta anos, vencedor em junho de 2020 do Campeonato Inglês, o clube não para de se reportar a Bill Shankly, seu ilustre ex-treinador (entre 1959 e 1974), homenageado com uma estátua na entrada do estádio Anfield, o antro do Liverpool.1 Conhecido por sua famosa declaração – “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso”–, Shankly tinha exposto sua visão para os jogadores: “Que cada um trabalhe para alcançar o mesmo objetivo e que cada um compartilhe o sucesso se alcançá-lo: este é o socialismo em que acredito. Assim vejo o futebol e a vida”. Quase cinquenta anos depois, o CEO do clube, Peter Moore, declarou, nas páginas do diário espanhol El País, a mesma mensagem: “O êxito do Liverpool se baseia no socialismo”.2 Realidade ou oportunismo por parte do representante do FSG, terceira empresa de esportes do mundo segundo a Forbes, conglomerado que fatura por ano US$ 6,6 bilhões (dos quais US$ 2,2 bilhões relativos ao Liverpool)? A mesma pergunta é feita quando se trata do treinador, Jürgen Klopp, cujo salário anual chega a 11,3 milhões de euros e que declara sua adesão aos valores “de esquerda”, jurando que não votará “jamais na direita”.

Para compreender a particularidade do Liverpool, é preciso auscultar “o coração scouse que bate durante os jogos da Liga dos Campeões”, como nos explica Joe Blott, que dirige o Spirit of Shankly, o mais importante grupo de torcedores. Liverpool tem uma história tumultuada. A cidade se enriqueceu durante dois séculos graças à escravidão (“É triste, mas reconhecemos isso”, diz Blott); a soberania de seu porto propiciou sua prosperidade. O scouse, um prato energético (batatas, carne bovina e cenouras cozidas) derivado do lapskaus norueguês, foi introduzido pelos marinheiros escandinavos no final do século XVIII. Mais tarde, seus homólogos na região passam a se chamar scousers, usando a base da identidade local. Para Peter Millward, sociólogo que vive na cidade onde nasceram os Beatles, “Liverpool se situa no meio do caminho entre a cultura insular britânica e as múltiplas influências de seus movimentos populacionais. A cidade tornou-se cosmopolita”. Ele se refere à imigração irlandesa – que faz da cidade um bastião católico em um país consideravelmente protestante –, mas também galês, escandinavo etc. A pronúncia scouse, que vibra nos ouvidos do neófito, surgiu dessas múltiplas influências. 

Liverpool foi violentamente atingida pela crise econômica dos anos 1970 e 1980. “Um relatório de 1981, publicado 28 anos depois, garante que o objetivo do governo de [primeira-ministra] Margaret Thatcher era deixar a cidade morrer”, lembra o sociólogo.3 A desindustrialização maciça provocou um enorme crescimento do desemprego e da pobreza. Mas os “Reds” (o Liverpool), um dos dois clubes da cidade, e os “Blues”, do Everton Football Club (EFC), permaneceram. “Éramos os melhores da Europa. O futebol era a única área em que o governo Thatcher não podia nos causar sofrimento”, lembra o icônico zagueiro Jamie Carragher. O clube viveu, então, o período mais glorioso de sua história, ganhando onze títulos de campeão inglês e quatro Copas dos Campeões, sob o rigor de John Smith, seu presidente de 1973 a 1990.

“O Liverpool nos salvou da depressão”, afirma o historiador Frank Carlyle em uma obra do pesquisador e especialista em futebol Daniel Fieldsend, consagrada ao clube e à cidade.4 O livro cita também o produtor e escritor Dave Kirby, que declarou em 1977: “O clube representa quem somos, nossas esperanças, nossos sonhos. Ele permite que a maioria de nós tenha um bom fim de semana, esquecendo o desemprego, a fábrica, a merda cotidiana. Existimos para ele e ele existe para nós”. Vinte anos depois, a grande proeza de um jogador também permanece em suas memórias. Em 1997, quando os portuários entraram em greve e lutavam pela sobrevivência, Robbie Fowler comemorou seu 113º gol, com apenas 21 anos, mostrando sob sua camisa uma camiseta com esta inscrição: “Apoio aos quinhentos portuários de Liverpool demitidos em setembro de 1995”. Sua atitude possibilitou a divulgação do conflito pela mídia; Fowler continua admirado por esse gesto.

 

(Vitor Flynn)
Em 1989, o drama de Hillsborough

Além da crise econômica, uma tragédia ainda une os habitantes da cidade. No dia 15 de abril de 1989, por ocasião da semifinal da Copa da Inglaterra, o Liverpool enfrentou o Nottingham Forest no estádio de Hillsborough, em Sheffield. Quando a partida já havia começado, milhares de espectadores que chegaram atrasados se amontoaram para entrar no estádio. Noventa e seis deles, inclusive crianças, morreram esmagados nas grades dos portões ou pisoteados. Quatro anos antes, o Liverpool já havia sido questionado pelo comportamento violento de seus torcedores quando houve o tumulto assassino no estádio de Heysel, na Bélgica, em 29 de maio de 1985, na final da Copa dos Campeões, que ele disputou com a Juventus de Turim: 39 mortos e 450 feridos. Também dessa vez ele ficou no banco dos réus. Poucos dias depois, a manchete do diário The Sun foi: “The Truth” [A verdade] e, retomando a versão da polícia, acusou os torcedores como os únicos responsáveis pelo que ocorreu. O jornal sustentou também três acusações que se revelaram mentirosas: “Fãs [do Liverpool] urinaram nos bravos policiais [que tentavam reanimar feridos]”; “Fãs bateram a carteira de vítimas”; “Fãs impediram que as vítimas fossem socorridas pela respiração boca a boca”.

Em 2009, durante a homenagem no Anfield aos atingidos pela tragédia de Hillsborough, o deputado Andrew Burnham, ministro da Cultura, das Comunicações e dos Esportes, fez um discurso em nome do governo trabalhista do primeiro-ministro Gordon Brown. Espontaneamente, os cerca de 28 mil espectadores se levantaram e bradaram: “Justice for the ninety-six!” [Justiça para os noventa e seis!]. Em seguida, foi aberto um inquérito independente que, em 2012, eximiu de culpa o Liverpool e comprovou a esmagadora responsabilidade da polícia, culpada fundamentalmente por ter trancado os portões, assim como pelas mentiras transmitidas pelo The Sun, por outras mídias e pelos políticos.

A tragédia de Hillsborough contribuiu para reforçar a particularidade de uma cidade que, desde 1972, não é mais governada pelos membros do Partido Conservador. Assim, nos últimos anos, as arquibancadas têm ressoado ruídos de vozes de apoio ao ex-dirigente do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn. “Nenhum grupo de torcedores os suscitou. Eles foram espontâneos”, garante Blott. Por sua vez, relembra Ian Byrne: “A injustiça nos transformou. Alguns dos que nasceram em Liverpool querem até que sua cidade seja um enclave independente do Reino Unido. É preciso lembrar que a grande greve dos portuários em 1911 já tinha nos unido”. Byrne é fã inveterado do clube e deputado da circunscrição vizinha West-Derby desde 2019. “Não somos ingleses; somos scousers”, clamam em intervalos regulares faixas e tifos5 nas arquibancadas do estádio. “Liverpool para nós é nossa pequena República”, escreve também Fieldsend.

Portanto, o Liverpool é o campeão de um país cujos governantes os torcedores abominam, acusando-os de ter provocado o declínio da cidade. Em agosto de 2019, as arquibancadas dos “Reds” até vaiaram o hino “God Save the Queen”. “Um grande número de fãs queria ver o time nacional perder”, confirma o universitário (e torcedor) Joel Rookwood.

Em 2007, dois investidores norte-americanos cheios de dívidas, George Gillett e Tom Hicks, compraram o clube do executivo e filantropo Peter Moore, que o detinha desde 1991. Em reação, torcedores criaram o clube Spirit of Shankly. A mobilização levou à saída dos proprietários duvidosos e à venda do clube ao FSG. Do mesmo modo que outros times, como o adversário de sempre, Manchester United, ou o trio londrino Chelsea, Arsenal e Tottenham, o Liverpool começou a atrair para o estádio mais turistas estrangeiros seduzidos por sua aura. Os preços dos ingressos aumentaram; as arquibancadas do estádio se aburguesaram.6 No dia 6 de fevereiro de 2016, o Liverpool fez dois a zero contra o Sunderland. Aos 77 minutos da partida, cerca de 10 mil fãs saíram juntos do estádio. O motivo? O clube tinha cobrado 77 libras esterlinas7 por ingresso. O aumento foi menos pronunciado do que o de seus adversários, mas os torcedores se revoltaram. Um grande número deles tem contrato de trabalho por tempo parcial ou se encontra em uma situação de precariedade total: um aumento como esse é, para eles, inaceitável. Sob o estímulo do Spirit of Shankly, a mobilização se prolonga e se estende a outros clubes britânicos. Ela consegue que o preço dos ingressos para os jogos em outras cidades seja fixado em 30 libras esterlinas, enquanto em Liverpool centenas de ingressos para os jogos no Anfield são vendidos por 10 libras esterlinas para os fãs da região. 

No entanto, os torcedores admitem que o dinheiro é indispensável à vitória. “Os fãs querem os melhores jogadores. Infelizmente, a economia do futebol é tal que é preciso pagá-los bem. Em 2010, estávamos perto de ser rebaixados. Após a chegada do FSG, ganhamos tudo”, admite Byrne. Por sua vez, os dirigentes do Liverpool fazem algumas concessões, pois compreenderam o interesse dos jogadores e da torcida em preservar o coração scouse, os torcedores locais que estão na origem do ambiente excepcional das tardes de grandes jogos. É uma excelente publicidade para vender ingressos para os que vêm de fora, mas também para diversos serviços: hospedagem em um grande hotel, visita guiada da cidade etc. Em parceria com o clube, empresas como a Virgin propõem um conjunto de serviços que compreendem uma visita completa no Anfield, refeição em um quiosque do estádio, seção de perguntas e respostas e fotos junto a antigas glórias do clube etc. por 95 libras esterlinas (R$ 700).

Outro confronto: em 2019, os proprietários do clube pensaram em comercializar a marca “Liverpool” e se apropriarem dos direitos de algumas canções populares. A Agência da Propriedade Intelectual (IPO), sem dúvida influenciada pela mobilização hostil a essa iniciativa, vetou. Para Blott, o casamento inevitável entre o capitalismo e o “espírito socialista” do clube e de seu público está fadado a durar: “Os proprietários do FSG serão sempre capitalistas que vão obter lucros, e os torcedores sempre vão tentar impedi-los disso, ou se assegurar que eles os obtêm da melhor forma possível. Os torcedores são os guardiões do templo”.

 

Quando Salah diminuiu o racismo

Apesar de sua singularidade, Liverpool não escapa das tensões que convulsionam o Reino Unido. Em 2016, 58% dos moradores da cidade votaram para mantê-lo na União Europeia, mas 52% dos residentes do bairro onde fica o Anfield, que figura entre os dez mais pobres da Inglaterra, optaram pelo Brexit. 

Além disso, como no resto do país, os atos de racismo antimuçulmanos estão em alta há alguns anos em Liverpool, onde moram cerca de 25 mil muçulmanos (a cidade tem 500 mil habitantes). No entanto, desde a chegada em 2017 do prolixo jogador egípcio Mohamed Salah, esses delitos diminuíram 18,9% na cidade e na região do Merseyside, como demonstrou um estudo publicado em 2019.8 Os pesquisadores também passaram pelo crivo 15 milhões de tuítes e salientaram que os dos fãs do Liverpool hostis aos muçulmanos tinham diminuído pela metade em comparação com os de outros clubes ingleses. Uma canção da kop é até dedicada ao jogador: “If he scores another few, then I’ll be Muslim too” [Se ele marcar alguns outros gols, então também serei muçulmano]. Em 2015, Byrne já tinha concluído uma parceria entre os Fans Supporting Foodbanks – que organizam amplas coletas de alimentos para os necessitados antes dos jogos – e várias mesquitas da cidade. Em 2018, por ocasião da Copa do Mundo, o jogo entre a Rússia e o Egito de Mohamed Salah foi transmitido na mesquita Abdullah Quilliam. E lembra o político: “Muitos vieram a ela pela primeira vez. A recepção foi muito calorosa. O futebol é, para nós, um meio de integração. Essa foi nossa melhor ação e uma maneira de quebrar as falsas ideias difundidas pelas mídias de extrema direita”.

 

*Quentin Guillon é jornalista.

 

1 Para conhecer melhor a história do clube e sua atualidade, cf. o número especial “In red with Liverpool” [De vermelho com o Liverpool], France Football, Boulogne-Billancourt, 5 nov. 2019.

2 Diego Torres, “Peter Moore: ‘El éxito del Liverpool se basa en el socialismo’” [Peter Moore: “O êxito do Liverpool se baseia no socialismo”], El País, Madri, 9 out. 2019.

3 “Regional Policy. Inner city Policy: creation of urban development corporations to assist in regeneration of Liverpool and London Docklands” [Política regional. Política municipal: criação de órgãos de desenvolvimento urbano para auxiliar a regeneração de Liverpool e das áreas portuárias de Londres], 30 jul. 1979-7 ago. 1981. Disponível em: https://discovery.nationalarchives.gov.uk. Cf. também Simon Parker e Rowland Atkinson, “Disorderly cities and the policy-making field: the 1981 English riots and the management of urban decline” [Cidades tumultuadas e o campo da elaboração de políticas: os motins ingleses de 1981 e a gestão da deterioração urbana], British Politics, v.15, n.2, Londres, jun. 2020.

4 Daniel Fieldsend, Local: A Club and Its City: Liverpool’s Social History [Os nativos: um clube e sua cidade: história social de Liverpool], 2019.

5 Grandes imagens visuais controladas pelos torcedores de um time.

6 Ler Olivier Pironet, “Les pauvres chassés des stades” [Os pobres expulsos dos estádios]. In: “Royaume-Uni, de l’Empire au Brexit” [Reino Unido, o império no Brexit], Manière de Voir, n.153, jun.-jul. 2017.

7 Na época, a cotação da libra esterlina no Brasil girava em torno de R$ 5,55. A título de curiosidade, visto que uma comparação com os valores aqui cobrados deve considerar outros fatores, o preço de 77 libras esterlinas por ingresso  equivalia a cerca de R$ 427,00. Em 19 de outubro de 2020, sua cotação variou entre R$ 7,25 e R$ 7,34. (N.T.)

8 Cf. Ala’ Alrababa’h, William Marble, Salma Mousa e Alexandra Siegel, “Can exposure to celebrities reduce prejudice? The effect of Mohamed Salah on Islamophobic behaviors and attitudes” [A exposição de celebridades pode reduzir o preconceito? O efeito de Mohamed Salah nos comportamentos e atitudes islamofóbicos], Immigration Policy Lab, Stanford-Zurich, jul. 2020.

 



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