RESENHA

Em livro de estreia, Magnus Ferreira De Melo utiliza a autoficção como ferramenta de novas realidades distópicas

Ferreira de Melo não se engasga no egotrip, cedendo à preocupação de ainda manter um fio de coesão e abranger para além de suas questões internas

A autoficção se tornou uma constante na literatura brasileira contemporânea, com seus altos e baixos. De um lado, a ênfase no eu, esse signo a princípio homogêneo, unificado, mas que percebemos maiores nuances na constituição da identidade do indivíduo, em que caso o recurso seja mal utilizado, perde-se a fabulação inerente à literatura. Por outro, o boom de obras, em especial no gênero romance, o que em tese seria uma contradição dentro dos estudos literários, tendo em vista que o comprometimento com a veracidade não é o que rege o texto desse caráter.

O trem em meio à névoa (Editora Mondru, 2025, 112 p), de Magnus Ferreira de Melo não somente evoca o que Christian Dunker referencia como “condição de privatização”, ou seja, uma forma de elaboração do luto compartimentada, isolada, própria da modernidade, mas temáticas como as relações familiares, amorosas (hétero ou não), a morte em vida e na vida, o enclausuramento de si, sua libertação e consequente reformulação do self. Poderia ser um completo balaio, mas o que chama atenção no jovem autor é o encadeamento das narrativas em microcontos de forma não isolada, juntas pelo fio da memória do nosso narrador-personagem, em meio, como diferenciação, em espaços que se assemelham a uma pintura do movimento Arte Sacra; O autor, entretanto, não é proselista, mas constrói através dessa iconografia o mágico, a fé, a esperança de um recomeço em símbolos religiosos ou metafísicos no geral.

‘Mata-se um escritor” é a primeira história, se passando inicialmente em um enterro e descrições sobre os efeitos dos enlutados.

Capa do livro de Magnus Ferreira de Melo
Crédito: Divulgação/Mondru

Thomas Ferreira de Melo é o personagem, não Magnus, mas Thomas, talvez assim referido para melhor ligação com a infância e o retorno à casa de seus familiares em um estado desolador. Ao avistar a casa, uma senhora, um pedinte e uma menina se entrelaçam no horror provocado pela destruição, como se a perspectiva dos três fossem fatores que levaram à nova realidade, agora não mais o real, mas que diria um realismo mágico. O lugarejo e as rajadas, a rosa com espinhos e perfurações em seu corpo, o tempo estático, mas contínuo e ao mesmo tempo abstrato.

Para o crítico Luis Leal, o realismo mágico representava uma forma específica de sobrenaturalizar o real, não tendo um ponto lógico, palpável para explicar. Nesse conto, pode ser várias coisas: Uma devastação psicológica, dissociando da realidade, um mundo de fato além do que conhecemos, ou outras interpretações possíveis de se analisar os quatro personagens sob o princípio do efêmero, vida e morte.

Em outra história, “O isolamento ou o eremita”, temos um personagem de cabelos grisalhos, ocupando um castelo, como se fosse uma redoma. O tempo e a memória são trabalhados conforme a manifestação do desejo de mudar o passado, o presente e um possível futuro. Em meio ao castelo, temos um anjo e sua androginia a contemplar o que seria a definição da vida e os rastros dos atos dos humanos.

Temos nessa obra a busca pela vida, como se fosse um rito de passagem do autor. Não é um movimento ensimesmado, sendo uma consequência infeliz da escrita de si a depender de seu autor e os recursos mobilizados, saturando a narrativa e o ímpeto criativo, que pesem a nova tendência e seus competentes escritores. Há uma identificação e reorganização ao conduzir as temáticas e os diversos “Eu’s’’ dos contos. Ferreira de Melo não se engasga no egotrip, cedendo à preocupação de ainda manter um fio de coesão e abranger para além de suas questões internas, com momentos do cotidiano que poderiam ser presenciados por todos nós: a volta à cidade de origem, o ato da escrita e o isolamento na linha tênue entre solidão e solitude, paixões e o sentimento de se sentir deslocado.

Magnus Ferreira de Melo (ou Thomas)  se destaca, assim, pelo cuidado com a prática desse gênero tão polêmico e querido atualmente em nossa literatura. Uma bela estreia para o estudante de Letras nascido na cidade de Joinville.

 

Lorraine Ramos Assis é socióloga e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). Colabora para São Paulo Review e Revista Caliban, além de integrar o corpo de poetas do portal Faziapoesia. Pesquisa sociologia da literatura e gênero, em particular violência contra a mulher.

Leia mais sobre o tema: